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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

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Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

31.Jul.17

Dr. Jekyll and Mr. Hyde

naomedeemouvidos

Fascina-me a forma como alguns dos nossos deputados-barra-secretários de estado vivem assim numa espécie de Dr. Jekyll and Mr. Hyde real e da vida política. Às segundas, quartas e sextas são deputados-barra-secretários de estado sérios, responsáveis, profundamente conscientes dos seus deveres e obrigações, cheios de brio profissional, sem nada, mesmo nada, que se lhes possa apontar. Às terças, quintas e sábados (com algum sacrifício pessoal, às vezes, lá incluem o domingo) são meros cidadãos, sem deveres deontológicos alguns e, por isso, capazes de aceitar viagens, estadias, almoços, jantares e bilhetes para qualquer coisa que sirva para aliviar o stress. Sem qualquer incompatibilidade ética, moral ou outra que tal, sentem-se, assim, perfeitamente aptos para deliberar num sentido enquanto políticos e noutro diametralmente oposto, se necessário, no plano pessoal. Aliás, nesta questão, estão até muito mais tranquilos e bem resolvidos do que o pobre Dr. Jekyll pois este, segundo reza a obra, vivia atormentado pelo hediondo, maquiavélico e vil Dr. Hyde, coisa que, por cá, parece já não assustar ninguém…

27.Jul.17

Desacordos Ortográficos, the never ending story

naomedeemouvidos

Sou assumidamente, e apesar da minha profissão (felizmente, não sou professora de português…) contra este “acordo ortográfico”, que de acordo tem muito pouco, como é gritantemente evidente. Já vi e revi todos os argumentos a favor da “evolução” da língua, porque, antigamente, “farmácia” também se escrevia com “ph”, blá, blá, blá. Até já vi (ou melhor, li) alguém defender que agora temos, finalmente e como consequência do dito acordo, dois vocabulários actualizados que “não nos envergonham” na “comparação com o Brasil”! Confesso que fiquei pasmada com este, mas deve ser ignorância minha, com certeza, já que a minha falta de vergonha, pelos vistos, nunca me fez sentir complexada em relação ao Brasil, muito menos no que se refere à língua portuguesa. Sou mesmo parva!

Nem de propósito, acabo de ler, no jornal Público, um artigo interessantíssimo de Nuno Pacheco. O jornalista reuniu algumas palavras (daqueles conjuntos mais problemáticos, das chamadas consoantes mudas mas, pelos vistos, nem tanto…) e fez o seguinte (e imagino até que penoso) exercício: comparou a escrita daquelas palavras no Brasil e em Portugal, após a aplicação do AO. Resultado? Os brasileiros continuam a ter um serviço de recepção, mas nós passámos a rececionar. Os brasileiros ainda se deleitam a conceptualizar, mas nós optámos por uma insípida conceção, apesar de permanecermos unidos pela conceptibilidade. No Brasil, ainda se fazem estrondosas rupturas, mas em Portugal a mesma ruptilidade, empurrou-nos para uma mais suave e menos(?) conflituosa rutura. Em Portugal e no Brasil, a facticidade do acordo não deixou que os brasileiros dispensassem o fato, mas deixou aos portugueses, ainda assim, a possibilidade de escolher o facto…  

Como se vê, agora que escrevemos todos da mesma maneira, já não precisamos de nos sentir envergonhados...

No seu artigo, Nuno Pacheco incita-nos ainda a procurar mais exemplos, que diz poderem multiplicar-se à exaustão. Ainda não o fiz, com receio de que este tema me deprima ainda mais.

Vergonha, vergonha, tenho eu actualmente pelo que fizemos à nossa língua. Ninguém parece entender-se bem quanto às novas grafias e basta prestar atenção aos rodapés das notícias ou às legendas dos filmes que passam na televisão para sermos acometidos de um ataque de nervos…

PS: link do artigo do Nuno Pacheco

https://www.publico.pt/2017/07/27/culturaipsilon/noticia/danca-com-letras-nas-modas-de-ca-e-la-1780259

25.Jul.17

(Ir)Responsabilidades...

naomedeemouvidos

Há dias em que se torna particularmente penoso (ainda que só) passar os olhos pelas notícias. Parece que, momentaneamente (para alguns, o momento prolonga-se indefinidamente…), a razão, o sentido crítico (ou outro qualquer), a lucidez, a inteligência ou, tão somente, a competência, deixam de pairar sobre aqueles que têm a obrigação de, uns, governar, outros, informar.

O país continua suspenso das explicações (ir)responsáveis e mais ou menos manhosas acerca de dois acontecimentos recentes e difíceis de tolerar em democracia ou nos ditos países civilizados (parece a mesma coisa, mas não é bem): Pedrógão Grande e os seus mortos, que a todos deve envergonhar, e o assalto a Tancos.

Uma tragédia como a de Pedrogão Grande nunca deveria acontecer em país nenhum; mas nunca poderia ter acontecido num país como Portugal. Ainda sinto uma náusea profunda quando penso que alguém, no nosso país, pôde (pode?) perder a vida estupidamente encurralado numa estrada nacional, sob um calor infernal, pois de inferno se tratou em mais do que um sentido. A somar-se à tragédia, à morte gratuita - e, por isso, insuportável - e à dor daquelas famílias, junta-se a despudorada inabilidade do governo para encontrar respostas e soluções que sosseguem, que nos sosseguem, e que honrem a memória dos que perderam a vida de forma tão insana.

António Costa começou por achar por bem não adiar o seu mais que merecido descanso. Afinal, as férias já estavam marcadas e o primeiro-ministro esteve sempre contactado e contactável e, portanto, sempre a par dos acontecimentos. O problema é aquela velha máxima: em política, o que parece é e o que pareceu é que o primeiro-ministro não considerou que a dimensão e a gravidade da tragédia de Pedrogão fossem suficientes para não ir de férias.

Passados os banhos, agora não nos entendemos quanto ao número de mortos. Como se o facto de um só morto que fosse como resultado do completo desnorte que se viveu naquele fatídico fim de semana não fosse suficiente para inibir António Costa de afirmar que o governo não contabiliza os mortos. “A dimensão desta tragédia não se mede pela dimensão dos números.” Pois não. Mas a dimensão dos políticos, a dimensão dos Homens, mede-se pela capacidade de lidar com as tragédias, principalmente, com as de colossal e dolorosa dimensão. Bem sei que a ligeireza ou a (muito útil) descontextualização das palavras e afirmações encobrem, muitas vezes, a profundidade dos sentimentos e dos pesares, mas, lá está, em política…

Os dramáticos e irremediáveis fogos de verão têm destas coisas. Deixam-nos um pouco alienados. Hoje, na sic notícias, vejo um jornalista mostrar a gula impiedosa das chamas descontroladas junto a uma casa, em Mação; está tão próximo que diz sentir o fogo queimar-lhe as costas, fala de uma “segurança relativa nos próximos segundos” e reclama com o bombeiro que tenta afastar a equipa da sic do local: “estou em directo, não pode fazer isso, desculpe lá”. Antes, ainda tinha pedido ao operador de câmara para “entrar” e mostrar os bombeiros… Ensandecemos? Bem sei que, em circunstâncias extremas e por dever de profissão, há jornalistas que fintam a sorte e pisam o risco chegando mesmo a colocar em jogo as suas próprias vidas, mas será esta uma dessas situações?

Entretanto, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, o general Pina Monteiro foi ao Parlamento esclarecer qual do material roubado em Tancos é que, efectivamente, estaria seleccionado para ser abatido. Não era “todo” o material. Eram só os “lança-granadas foguetes” que “provavelmente não terão probabilidade de funcionar com eficácia.” Estamos todos muito mais descansados. Se não fosse tão grave, podíamos brincar às guerras, como o saudoso Raúl Solnado: "eles bombardeavam às segundas, quartas e sextas, e a gente bombardeava às terças, quintas e sábados". E lá vamos vivendo…

22.Jul.17

Sean Spicer, a wonderful guy!

naomedeemouvidos

Sean Spicer bateu com a porta! Alegadamente, por discordar com a escolha de Anthony Scaramucci (um milionário amigo de Trump, quem diria?!!) para novo director de Comunicação para a Casa Branca.

Depois de meses a defender “factos alternativos”, Spicer vai passar a ter uma vida mais tranquila, imagino. Isto porque deve ser uma canseira estar constantemente a ensinar aos jornalistas e à comunicação social que a verdade dos factos é assim uma espécie de realidade paralela, na qual ninguém está verdadeiramente interessado. O que realmente importa é o que diz e pensa Donald Trump, o salvador da América e do mundo. A questão é que, o facto de Donald Trump pensar uma coisa num instante e twittar outra no instante imediatamente a seguir, tornou particularmente estafante e penosa a tarefa a que Sean Spicer se vinha propondo com todo o empenho e competência de que era capaz.

No seu estilo loquaz e requintado, lá veio Trump twittar que Sean Spicer é um “wonderful guy”, claro, como não? O leque de adjectivos que o presidente americano domina não permite muito mais, pelo que, vão todos corridos a nice, lovely, great, enfim, nada que exija grande capacidade de raciocínio, para não criar dissonâncias.

Como não há bela sem senão, Melissa McCarthy vai deixar de ter matéria prima para as hilariantes paródias que protagonizou no Saturday Night Live. Ou talvez não. Afinal, parece que a tarefa de Scaramucci é tentar mudar a imagem de Donald Trump na comunicação social e, ou muito me engano, ou ainda vamos continuar a rir muito. Para não chorar.

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