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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

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Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

08.Ago.17

Barrigas de Aluguer

naomedeemouvidos

Há quem não goste da designação. Acham que pode ter conotação negativa. Eu não acho que seja possível designar-se de outra maneira. Como também não acho que o “contrato” não venha a contemplar regalias financeiras para a mulher que escolha transportar, como se de mercadoria se tratasse, um filho para depois o entregar a uma família que o irá criar.

Os defensores da chamada “gestação de substituição” (é impressionante a ginástica linguística, vulgo eufemismos, que fazemos para não ferir susceptibilidades, sempre a bem do odioso politicamente correcto) afirmam que os casais que não podem ter filhos “naturalmente”, têm o direito a fazê-lo por esta via. E os “outros”, que não concordam, que não acham “natural” que uma mulher gere e carrega no seu ventre um ser que, por contrato e por decreto, não há-de criar como filho, são egoístas porque não se compadecem com o sofrimento daqueles casais. E o sofrimento das crianças? Quem garante que as crianças geradas por contrato, nascidas por contrato, trocadas por contrato estarão a salvo de sofrimento?

Laurinda Alves escreve, hoje, no Observador, uma crónica bastante interessante e assertiva sobre o tema, onde cabem muitas mais interrogações do que aquelas que a autora levanta e, só essas, já dão bastante que pensar.

Vamos imaginar uma mulher que, a troco de nada a não ser de amor pelo próximo, aceita gerar uma criança para depois a entregar àqueles a quem a tal se propôs. Essa mulher, tão generosa, tão dotada de amor pelo próximo, tão compadecida do sofrimento daqueles pais que não podem completar a sua felicidade de outra forma, essa mulher, dizia, não terá um enorme amor pela criança que gerou? Vai conseguir “entregá-la” e esquecer os 9 meses em que cuidou dela, da sua saúde, do seu bem-estar? E se essa mulher for parente próxima da outra mulher impedida de gerar e parir, uma irmã, uma prima, uma tia? Como vai essa mulher conviver com aquela criança? Como vai vê-la crescer, dar os primeiros passos, dizer a primeira palavra, viver o primeiro dia da escola, sofrer pelo primeiro amor?

E a criança? Vai saber que aquela “irmã”, “prima”, “tia” é a sua mãe biológica?

E se, por outro lado, tudo vier a correr mal e a criança chegar a ter problemas graves, de saúde, de exclusão social, etc, etc, etc, os pais amorosos não vão esquecer-se da grande e generosa dádiva e descarregar a sua enorme frustração naquela que gerou aquele filho? Já sei, já sei, a gestação de substituição só pode ter lugar “com recurso aos gâmetas de, pelo menos, um dos respectivos beneficiários, não podendo a gestante de substituição, em caso algum, ser dadora de qualquer ovócito usado no concreto procedimento em que é participante.” Como se usássemos sempre e exclusivamente da razão para compreender e suportar todas as rasteiras que a vida nos vai proporcionando!

E, se tudo é tão “normal”, “natural” e “ético”, legislado e legislável, por que não se estende a lei também aos casais homossexuais? Também há-de chegar, claro. A esses casais e a todos quantos, entretanto, acharem que estão a ser discriminados por serem brancos, pretos, amarelos às pintinhas, côr-de-burro-quando-foge, semi-homem, semi-mulher, assim-assim e tudo, mas mesmo tudo o que se vier a inventar depois. E digo-o apenas como a constatação de um facto, nada mais. Há-de caber naquele “só é possível (…) nos casos de ausência de útero, de lesão ou de doença deste órgão que impeça de forma absoluta e definitiva a gravidez da mulher ou em situações clínicas que o justifiquem”, exímios que somos em encontrar, na lei, a palavra ou a expressão que mais se adequa à nossa situação, assim haja o dinheiro necessário para pagar ao advogado mais "competente".

Todos os casais têm o direito a ter filhos, a bem da sua felicidade plena. E, exactamente, que direitos têm as crianças?