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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

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Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

19.Jul.17

Cidade Viva

naomedeemouvidos

A cidade, maravilhosa, repleta de vida e de História fascinara-os desde o primeiro instante, contrastando violentamente com a rudeza das gentes. O simples acto de validar um bilhete de eléctrico revelara-se uma tarefa algo complicada e, afinal, caricata, de tão rudimentar. E, a verdade, é que em Portugal, mesmo sem falar inglês ou outro qualquer idioma estranho ao seu, qualquer habitante local trataria de ajudar um turista em apuros. Mas não ali. Ali, pelo menos para eles e naquele verão em particular, os habitantes não primavam pela cordialidade; pelo contrário, eram rudes até na forma de vestir.

Estavam um pouco desencantados. Nunca antes haviam experimentado aquela hostilidade que os fazia sentir verdadeiramente “estrangeiros” e, sobretudo, “mal-vindos”.

Desceram apressadamente do eléctrico, entre risos um pouco nervosos, tentando afugentar um princípio de mau humor que os assaltara momentaneamente.

Passear pelas ruas antigas era esmagador! A Praça da Cidade Velha, com o seu relógio medieval e o seu irreal desfile dos doze apóstolos. Subir à Torre do Relógio e abraçar a História enegrecida como a icónica torre gótica onde a pólvora fora, em tempos, armazenada, valendo-lhe o nome de Torre da Pólvora. O encanto da cidade contrastando violentamente com a rudeza das gentes.

Apesar do calor, uma neblina espessa, ainda alta, e cinzenta começava a cobrir a cidade. Como um manto, descia sobre as magníficas estátuas da ponte Carlos, que ganhavam vida voltando-se lentamente para eles enquanto caminhavam, deslumbrados, pelo empedrado duro e alinhado. À luz fantasmagórica do fim de tarde, o próprio Cristo cruxificado parecia expiar uma vez mais os pecados dos Homens, no auge da paixão que lhe tingia a face de vermelho vivo. As outras estátuas, miravam-nos com a complacência empedernida dos séculos de adoração. Trinta esculturas vivas que a força do rio ameaçava roubar para si, chicoteando, louco de ciúmes, os arcos de arenito enterrados no Vltava. E elas, resignadas, ora adoradas, ora adorando, confundiam-se com os transeuntes, curvavam-se à sua passagem numa coreografia encantada e lenta que os inebriava.

Apressaram o passo a caminho do cemitério judeu. Apesar de a noite ainda tardar um pouco, a névoa ameaçava engoli-los vorazmente e, na verdade, preferiam não visitar os mortos a coberto da escuridão que se avizinhava.

Os túmulos amontoavam-se, desalinhados, acotovelando-se desordenamente por entre a vegetação, também ela caótica. Os raios de sol teimavam, ainda, em espreitar pelas densas nuvens, como crianças travessas, ora criando fantásticas sombras em cada recanto, ora pintando de tons maravilhosos as folhas caídas no chão.

Um esquilo atrevido atravessou-se-lhes no caminho, vindo não se sabe de onde, provocando-lhes um sobressalto.

O silêncio imperava à medida que caminhavam por entre as lápides. Impunha-se, tirânico, alarmando-os a cada restolhar das folhas, a cada trinar dos pássaros. Como se “A Metamorfose”, de Kafka, pudesse elevar-se do seu próprio túmulo, tomar forma e aprisioná-los entre as suas páginas. E, arrebatados pelo silêncio dos mortos, sentiam-se, eles próprios, personagens numa história encantada…