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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

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Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

18.Ago.17

Mamã, a # é terrorista?

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Há dias em que a realidade supera, de facto, a ficção. “Se não formos capazes de viver inteiramente como pessoas, ao menos façamos tudo para não viver inteiramente como animais” disse, um dia, José Saramago, esse pessimista assumido, mas não inteiramente incondicional. Nunca, como hoje, a realidade se me assemelha tanto a essa cegueira branca que Saramago ensaiou para expor, de forma crua e bárbara, os nossos instintos mais básicos na luta pela sobrevivência quando nos sentimos ameaçados na existência tal como a conhecemos. À cegueira física, inventada, criada, romanceada, junta-se a cegueira filosófica e abstracta que nos envolve e que nos impede de ver o outro e compreender o outro.

Mamã, a # é terrorista?, perguntou, um dia, o meu filho, depois de ver (mais) uma notícia como a de ontem em Barcelona. Referia-se, em concreto, à associação entre terroristas e muçulmanos. Como muitas outras crianças, na escola, tem amigos ou, pelo menos, colegas muçulmanos e a pergunta, naquele momento e naquele contexto, fazia todo o sentido. Ou não? Todos os muçulmanos são terroristas? Todos os terroristas são muçulmanos?

Apesar de ter vivido num país muçulmano relativamente liberal, não comungo com a maioria das práticas associadas ao Islão. Lembro-me, uma vez, numa aula de inglês (em que me inscrevi mais para conviver de perto com as gentes, num ambiente diferente, do que por qualquer outra coisa) em que se discutia acaloradamente qual o papel da mulher nas variadas sociedades, de ser interpelada por um jovem, agastado com o rumo do debate e com as minhas intervenções demasiado liberais: “Tu até podes ter razão, mas isto é Marrocos!”. E, no entanto, tenho a certeza absoluta que nem todos os muçulmanos são terroristas. Como nem todos os terroristas são muçulmanos.

Evidentemente, é muito difícil combater e, sobretudo, derrotar inimigos que lutam com armas diferentes das nossas. Combater e derrotar quem não tem qualquer respeito pela vida, pelos direitos humanos, quem não tem compaixão e se move apenas pela ideologia da vingança e do ódio. Combater e derrotar quem tem como única missão destruir um modo de vida para impor um outro e nessa selvagem empreitada assassina, destrói e semeia o medo.

Explico ao meu filho, explicamos o pai e eu, que a # não é terrorista, claro que não. E decidimos que, apesar da tenra idade, vamos acompanhar o possível deste tipo de notícias com ele, em casa, em família, onde podemos, pelo menos, acompanha-lo nas suas dúvidas e temores e ensina-lo a não odiar. Ensina-lo que, apesar de não compreendermos as opções dos outros, de não partilharmos da mesma opinião muitas vezes, não somos necessariamente inimigos. Mas ensina-lo, também, que respeitar não significa submetermo-nos a ou abdicarmos de nós próprios, dos nossos hábitos, costumes ou crenças e muito menos significa viver no medo, embora, nunca como hoje, o medo faça parte da nossa vida.

José Saramago também disse, O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.

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