Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

13.Jul.17

Não sou racista, mas...

naomedeemouvidos

Dezoito agentes da PSP foram formalmente acusados, pelo Ministério Público, de violência sobre alguns jovens negros.

Como habitualmente, a comunicação social não tem dado tréguas e, entre debates, opiniões públicas, entrevistas e análises, temos ouvido de tudo um pouco.

O cerne da questão, além da notícia em si (inédita), parece ter que ver com dois aspectos:

  1. estes (e sublinho “estes”) elementos da PSP excederam-se ou não na “reposição da ordem pública” e
  2. actuaram ou não com base em preconceitos racistas.

E isto admitindo que os jovens invadiram mesmo a esquadra, o que parece não ter sido o caso.

Vamos por partes.

Em Portugal não há racismo, mas… Quase todas as pessoas “não racistas” começam as intervenções com um efusivo “não sou racista, mas…”. Eu também não me considero uma pessoa racista e, no entanto, dei por mim, um dia, bastante desconfortável por seguir, quase sozinha, rodeada por quatro jovens negros numa carruagem de comboio. Quando entraram na carruagem em que eu já estava sentada, e se sentaram à minha volta, o meu primeiro impulso foi sair. A seguir, pensei: se o fizer, vão seguramente interpelar-me. Por isso, deixei-me ficar, enquanto ia espreitando, da forma mais discreta de que era capaz, as duas pessoas que seguiam nas filas bem lá da frente (escusado será dizer que mais ninguém se sentou por ali). A minha estratégia era sair quando elas saíssem. Fui racista? Sou racista? Se fossem jovens brancos, em vez de negros, eu teria a mesma reacção? Honestamente, creio que sim, mas a fronteira entre o que somos e o que achamos que somos, às vezes é um pouco “esborratada”… A viagem chegou ao fim e, apesar da atitude inicial um pouco intimidatória (ou seria só imaginação minha), os jovens olharem para mim, talvez, meia vez até ao fim da viagem.

Independentemente de se tratar de racismo ou não, como alguém dizia numa intervenção num espaço público, quando há “problemas destes”, quase sempre estão envolvidos “negros ou ciganos”. A mim, parece-me um argumento idêntico ao dos que “não são” machistas, afinal as mulheres são tão inteligentes-preparadas-capazes-competentes como os homens, mas… parece que não ganham campeonatos de xadrez. Acho que dá para perceber.

Por outro lado, quem é que nunca teve já vontade de esmurrar alguém? Pois. Mas a mim parece-me que é isso que nos distingue dos selvagens, dos anárquicos, dos ditadores e por aí fora. Devo dizer que me chocou particularmente ouvir o senhor António Ramos, em representação do Sindicato dos Profissionais da Polícia, em directo no programa “Opinião Pública”, defender que “quando é para repor a ordem pública, é para repor a ordem pública”. A qualquer que preço? Espancando, insultando e humilhando? É que o senhor nunca condenou actos menos próprios dos agentes. A dada altura, chegou mesmo a afirmar, sem qualquer pudor (não sei se sem corar, porque a cara do dito não aparecia) que se deixassem a polícia trabalhar como há uns anos atrás, “bastava oito dias” para pôr o país e os criminosos todos na linha. Se não é uma ameaça, parece. Mas eu até tendo a concordar. Há países em que se corta a mão ao ladrão, apedreja-se o/a adúltero/a e outras coisas que tais. Vejam lá, se por lá (passo a redundância) não anda tudo na linha. Ah, não anda?

É, pois, por isso importante e urgente perceber que tipo de relação autoridade – cidadãos é que queremos ter. Não podemos cair em extremos, como quando se condenou o agente que matou a criança de treze anos que se seguia num carro em fuga, mas não o assaltante e pai da criança, que a levava no carro.

Haja, por isso, respeito, seriedade e sobretudo, justiça. E esta não se consegue sem que cada um saiba respeitar o outro.