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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Alienações.

Leu, algures, uma indignação profundamente sentida, incontida, contra aqueles que se preocupam mais com a violência das paredes esventradas e dos monumentos históricos violados do que com o sofrer das gentes, com a miséria do povo, com as humilhações, a fome, a exclusão social, o domínio dos mais fortes sobre os mais fracos. A impossibilidade de arranjar tempo para dar vida aos sonhos, pois que todo o tempo se esgota na labuta diária, servindo um capitalismo sôfrego, bárbaro, que promove uma nova forma de escravatura de que as classes populares se fartaram. Afinal, o que são carros incendiados, vidros partidos, casas espoliadas, ruas calcinadas, quando comparados com o desamparo de quem trabalha de sol a sol sem que, ainda assim, o dinheiro chegue, ao menos, para comer dignamente, quanto mais, para levar os filhos ao cinema, ao jardim zoológico, para almoçar fora ou ir de férias? Era repugnantemente verdade e foi acometida por profundo sentimento de vergonha. Também ela se indignara com o que não se poderia indignar. E, no entanto, fosse por culpa da alienação das massas, da informação manipulada e tóxica, da bolha de conforto e ignorância saloia em que vegetava, ou por pura e descuidada cegueira, também ela não vira, ali, essa aviltante desgraça. Olhava e continuava a não ver, ali, naquela circunstância exacta, essa gente que, esmagada, sofre miseravelmente. Seguramente, não via mulheres iguais àquela que pobre fora toda a sua vida, porém, quase sem queixume. Aquela que parira dezena e meia de filhos, quando essa era a regra, que amara para lá o admissível um homem que toda a vida a mal-tratou, como também se esperava que fizesse, e que, teimosamente, já que insurgência maior não podia, a cada agrura juntava uma esperança nova; a cada lágrima, um sorriso, a cada fraqueza, uma força redobrada. Sempre se deixara comover por aquela alegria encarniçada e insana; sempre admirara a sua capacidade de resistir, enfurecidamente, furiosamente, contra todas as contrariedades; a desconcertante faculdade para continuar a sorrir e a sonhar, irritantemente, para lá do tolerável.

Também leu que só quem nunca conheceu a miséria se permite pensar ser mais grave a barbárie de danificar um monumento histórico do que a impossibilidade de sonhar, viver e alimentar a família. Soltou uma gargalhada cínica e deu por si a pensar que até na pobreza e na miséria, a dignidade, como a falta dela, se pode viver de forma tão desconcertantemente diferente...

Conspirações.

"Hoje em dia imperava o medo, o ódio e a dor, mas não a dignidade nas emoções, nem desgostos profundos ou complexos."

George Orwell, 1984.

A profecia.

    O céu gemia anunciando a tormenta, vociferando em tons de cinza e azul desmaiado e sarapintado por pequenas manchas brancas, fugidias, sem génio nem atrevimento para moldar nuvens formosas. Um pesaroso e pálido arco-íris definhava em agonia a escassos metros da insigne cúpula, sufocado pelo mau-agoiro conjecturado há séculos. Agora, por vontade maior do que a da mão que segurara a pena pressagiadora do infortúnio, o mundo inteiro, ignorante e desprevenido, estava prestes a ser chamado às últimas páginas da História, obrigado a assistir, sem vontade, nem privilégios, ao início da capitulação.

 

    As televisões do mundo inteiro mostravam o homem sentado no trono escarlate, proferindo o discurso em língua morta. Com ar cansado, curvado ao peso dos anos e dos escabrosos vícios da corrompida côrte, vai desfiando um rol de certezas que não está seguro de possuir, mas é indiferente. O homem omite, evidentemente, as razões de relevo, sem chegar a mentir no seu propósito, e a multidão já não ouve. Estacou, perplexa, no princípio anunciado da mensagem, traduzida em várias línguas e nem por isso mais entendível.

    Cá fora, na elegante e imaculada praça, aqueles que estão mais próximos do homem velho e cansado que se despede do mundo abrem a boca de espanto. Uns choram, outros calam, uns e outros em choque, impreparados para o que aí vem, adivinhando, ainda assim, a desgraça. Nem todos são crentes. E, no entanto, todos sentem um mal-estar profundo, em dissonância com a santidade do espaço, sem saber ao certo o que espreita, o que se esconde, o que se avizinha. À medida que o tempo passa, outros tantos acorrem à praça fustigada pela chuva e obscurecida pelo cair da noite, todos em busca, senão da verdade desejada, de um sentido maior para a notícia que se estilhaça em alvoroço.

    Passam poucas horas desde o anúncio, quando o céu se ilumina dramaticamente para descarregar, rugindo, toda a sua fúria sobre a cúpula da Basílica. Um violento relâmpago atinge o cume sagrado do templo. Ainda a mole de gente recupera, em assombro, da chocante visão bíblica, quando um segundo relâmpago fulmina o mesmo ponto elevado, mais que improvável, impossível, no mesmo local exacto, para desassossego dos que assistem em incontido espanto. Os mais fervorosos não têm dúvidas; a resignação desencadeou a ira de Deus. Tantos séculos depois, a profecia foi despertada. Acordado o monstro, o princípio do fim põe-se em marcha.

(continua, se me apetecer...)

Diz que é inveja.

    Diz-se que somos um país de invejosos. Parece que invejamos quem tem dinheiro, poder e aquilo a que se chama estatuto social.

    Há muito que suspeito que a vil inveja que nos assalta é capaz de resultar de casos como os relatados aqui, aqui e aqui.

    Não gostamos de nos comparar, mas talvez seja bom lembrar outras histórias, de desencantar.

   No princípio são os banqueiros. Parece que existem quarenta e sete banqueiros presos por causa da crise financeira de 2008. Metade são da Islândia. Que tem menos de 350 mil habitantes, mas deve ter muitos bancos. De momento, há um preso famoso e não consta que seja islândes. Bernard Madoff é americano e, em seis meses, Bernie, para os amigos, foi preso, acusado e julgado. Nos EUA de antes, pelo menos. É verdade que o seu famoso esquema Ponzi ludibriou muita gente, autoridades incluídas, durante mais de duas décadas, mas, o homem acabou condenado a 150 anos de prisão. Madoff terá confessado o esquema aos filhos que o denunciaram. O que terá passado pela cabeça daquelas almas? E, em que consistia o esquema? No "pagamento de lucros anormalmente altos a investidores à custa de investidores que chegavam posteriormente, em vez de receita gerada por qualquer negócio real" (aqui). Jura! Qualquer semelhança com alguns banqueiros da nossa praça é capaz de ficar por aqui. O mais próximo da prisão que algum deles, desses, esteve foi em preventiva. Um houve que, dizem, foi vaiado num restaurante chique da linha, mas outros há que continuam a ser eleitos e adorados. Prisão, prisão, entre recursos, apensos, férias judiciais e outros que tais, talvez quando o Bernie acabar de cumprir os tais 150 anos. Ah!, se a Madonna calha em descobrir mais cedo os encantos de viver em Lisboa...Talvez a vida do Bernie fosse diferente, mesmo sem conhecer o Carlos Alexandre.

    Depois, são os gestores. De topo. Aqueles que pagamos a peso de ouro, não vão esses ilustres génios fugir para o estrangeiro e deixar o país ao deus-dará. Sou de opinião que, se alguém os quiser levar, pagar-lhes o que por cá recebem para fazer o que por cá fazem, é deixá-los ir. Poupamos, nós, dinheiro e, eles poupam-se - e poupam-nos - ao ridículo dos ataques de amnésia em comissões de inquérito, onde ainda são obrigados a ouvir a Mariana Mortágua a chamar-lhes amadores...é bem merecido.

    Entretanto, discute-se o valor do ordenado mínimo, que continua a ser miserável e há, em Portugal, perto de meio milhão de pobres. "Um país rico não pode ter trabalhadores pobres", e eu acho que o mesmo se aplicaria às empresas.

  

 

Uma morte não será sempre uma morte.

O Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, não pode garantir que não haja mortes como consequência da greve de enfermeiros.

A Bastonária da Ordem dos Enfermeiros, Ana Rita Cavaco, admite que a greve dos profissionais que representa pode "potenciar" mais mortes de doentes.

 

Como a greve se mantém, suponho que a morte em si não preocupe grandemente qualquer um dos intervenientes. O médico culpará o enfermeiro, que culpará o Governo, que culpará os sindicatos. Até que se consiga atribuir alguma responsabilidade, todos poderão dormir de consciência tranquila, imagino, com a irrelevante excepção dos familiares dos que morreram. Deve ser aquilo a que se chama "danos colaterais"; ninguém quer, mas acontece a bem de um outro bem maior.

 

A greve é um direito. Os motivos das greves, às vezes, espantam e as consequências, muitas vezes, enojam. Porque, ou há um manifesto exagero na anunciação da suspeitada trajédia, ou a trajédia é mesmo possível. Em qualquer dos casos, os protagonistas deviam ter vergonha.

 

 

"TIME", e a luta contra a profanação da verdade.

A revista TIME elegeu jornalistas como a Personalidade do Ano. Com especial destaque para Jamal Khashoggi, são evocados jornalistas que, ou foram mortos, ou estão presos porque se tornaram notória e irritantemente incómodos. A TIME chamou-lhes "Os Guardiões", agregando, na designação, o (bom, acrescento eu) jornalismo em geral, e é por estas e por outros que muitos acreditam que os EUA vão sobreviver apesar de Donald Trump, ao imberbe Donald Trump.

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imagem aqui

 

Entretanto, no Brasil, um tiroteio numa catedral em Campinas fez mais quatro mortes estúpidas (parece que a 5ª é a do atirador e, essa, talvez não mereça a dimensão da agonia), enquanto, em Estrasburgo, outro tiroteio tirou a vida a outras três pessoas. Matar tornou-se tão banal como sair de casa todos os dias. Como há quem esteja absolutamente seguro que todos os males do mundo vêm dos imigrantes, principalmente pobres, que tomaram de assalto todos os países limpos e desenvolvidos, há-de ser fácil voltar a arrumar as casas, ou, neste caso, as nações. É só construir muros. E distribuir armas.

Quanto custa apaziguar uma "cólera justa"?

     É de um pessimismo alarmante pensar numa séria ameaça à paz na Europa?

    Domingo à tarde, entre amigos, discutíamos a relevância desta questão. Há ou não motivos para nos preocuparmos, seriamente, com o rumo dos acontecimentos mais ou menos recentes, entre os quais, a insurreição dos coletes amarelos, que tomaram de assalto as ruas de Paris?

    Emmanuel Macron perdeu o povo. É o que parece; e parece-me, também, irreversível. Diz-se que o discurso, já de si tardio, não convenceu, o que não espanta. De repente, o grito de revolta convergiu para uma única exigência que engorda a cada sábado: a demissão do Presidente francês, arremessado como símbolo da classe rica e das visceralmente odiadas elites. Não parece fácil de contrariar e, obviamente, a oposição não ajuda; ao invés, acicata. A questão é, e se a Macron não restar, como se perfila, outra alternativa que não a de se demitir? Porque, aparentemente, no próximo sábado haverá outra manifestação, que, como as anteriores, se avizinha violenta, a cólera justa projectada em estilhaços avulsos que tudo dizimam, implacavelmente, até aniquilar o alvo, em renovado caos e absoluto horror. Serão 100 euros e mais alguns trocos, ou migalhas, suficientes para comprar a paz social? Isto, admitindo que as medidas anunciadas passam, efectivamente, à prática, com consequências na gestão das expectativas dessa “France périphérique”, como lhe chamaram ou chamam, a França da periferia, em oposição à França sofisticada e rica das grandes cidades. Lá, como cá, os mesmos cansaram-se de acudir a todas as crises, tantas vezes recorrentes. Cá, ao contrário de lá, ainda vamos aguentando. Até quando, não sabemos. De momento, ouvi dizer que se vestem coletes, amarelos, a 21 de Dezembro.

    Se Macron cair, novas eleições em França talvez dêem a almejada vitória à temida - inevitável? - Marine Le Pen e ao seu renovado União Nacional. Com o Vox a engrossar a voz na vizinha Andaluzia, o cerco aperta-se. O CHEGA chegará para nos sacudir e assustar, ou já faz estragos silenciosos de que só daremos conta demasiado tarde? Ou, é ao contrário e a salvação das nações e dos povos subjaz, inevitavelmente, na emergência revigorante dos regimes nacionalistas e autoritários, eventualmente, ditatoriais?

 

P.S. Armando Vara foi à TVi insinuar que os últimos dez/nove anos da sua vida talvez tivessem sido diferentes se tivesse ajudado o juiz Carlos Alexandre. Talvez, até, não só a vida dele...

Com certeza, não serei só eu a ter uma opinião terrível sobre o significado disto.

Exit the Brexit?

Não sei se é possível dizer, sem sombra de dúvida, se Theresa May é realmente a favor do Brexit, ou se lhe tocou defender um projecto em que não acredita. Se já é difícil defender posições não consensuais quando nelas acreditamos com toda a convicção, imagine-se quando estamos a tentar defender algo em que cremos pouco ou nada.

Certo é que já se ouviram, pelo menos, antes do referendo, opiniões contraditórias sobre a posição da primeira-ministra do bastante dividido Reino Unido.

Aparentemente, não é a falar que os britânicos se entendem. Será a rir?

...

"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer
a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso
que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."

José Saramago, Ensaio sobre a cegueira.

 

 

“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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Eu Sou Assim

IDADE_Tem dias. ESTADO CIVIL_Muito bem casada. COR PREFERIDA_Cor de burro quando foge. O MEU MAIOR FEITO_O meu filho. O QUE SOU_Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa. IRMÃOS_ Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo. IMPORTANTE NA VIDA_ Saber vivê-la, junto dos amigos e da família. IMPRESCINDÍVEL NA BAGAGEM de FÉRIAS_Livros. SAÚDE_Um bem precioso. DINHEIRO_Para tratar com respeito.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."