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Já não sei bem o que sou...

por naomedeemouvidos, em 14.07.17

Parece que “Ladies and gentlemen” vai deixar de ser a saudação oficial dos utentes do metro de Londres. Parece que é por causa daquelas pessoas que não sabem bem o que são, mas sabem bem o que não são. E não são, nem do sexo feminino, nem do sexo masculino. Ponto. Parece que falta o género neutro e, portanto, “Hello, everyone” é muito mais adequado. Para não ferir susceptibilidades.

Eu concordo e assino por baixo!

Aliás, tenho uma sugestão. Devia eliminar-se os pronomes definidos, bem como as terminações em “a” ou “o” associadas, pelo menos, aos adjectivos. Por exemplo, ao cumprimentar alguém diríamos qualquer coisa do género, “olá, Ex.m’ … (eventualmente) cois’ (como não sabemos se é ele, ou ela, ou outra coisa qualquer, cois’ deverá ser inofensivo, certo?)! Como vai? Está muito bonit’ hoje! Está bem dispost’?”

Faz muito mais sentido. Porque, o mais “normal”, é não pertencermos a género nenhum. Adão e Eva já eram e, tenho para mim, que, se fosse hoje, a Eva podia comer a maçã à vontade que, quando olhasse para o Adão, não veria diferença nenhuma, pelo que, nenhum deles precisaria de se tapar com a vergonha. Estão a ver o que se poupava em História?

Caminhamos a passos largos para uma imbecilidade tamanha que não sei onde acabaremos.

Evidentemente, todo o indivíduo deve ser tratado com respeito e em pé de igualdade com o seu semelhante, independentemente da sua cor, etnia (parece que também não se pode dizer raça…), religião, orientação sexual, etc. Mas, não estaremos a criar problemas onde eles não existem? Um destes dias, acabaremos a não conseguir comunicar sem constrangimentos porque tudo pode ser ofensivo, tudo pode ser um abuso, tudo pode ter um duplo sentido, e sei lá mais o quê. Tratar o outro em pé de igualdade e com respeito, não será suficiente?

publicado às 23:57

Idade...

por naomedeemouvidos, em 14.07.17

A idade não traz só rugas e cabelos brancos, graças a Deus!

 

autora: Eu mesma!

publicado às 23:21

Amphitheatrum Flavium

por naomedeemouvidos, em 14.07.17

Enquanto subia as escadas sentia as gotas se suor correrem por entre os seus seios. Agarrava o guia electrónico como se este tivesse pernas e, animado de vida própria, lhe pudesse escapar à primeira distracção. O esforço despropositado fizera-a cravar as unhas nas palmas das mãos, o que agora lhe proporcionava um desagrável ardor intermitente a lembrar-lhe a idiotice do acto. Não conseguia explicar o nervosismo que sentia ao caminhar por entre aquelas paredes, apesar de consciente de que sempre sentira um fascinío algo mórbido por aquela época da história. Na sua mente, num acesso de infantilidade romântica, mulheres de vestes andrajosas transformavam-se em elegantes deusas de pele leitosa que os mantos abraçavam numa carícia amorosa. E homens bexiguentos, atarrecados, gordos e fedorentos como porcos depressa se transfiguravam em arrojados gladiadores em busca de glória, suportando estoicamente o peso das suas esplêndidas armaduras.

Continuou a caminhada. Candeeiros, de vidro e negro, vertiam sobre as escadas de pedra uma luz amarelada que tornava o ambiente um pouco fantasmagórico, apesar do corropio de gente que àquela hora se afadigava na mesma rotina.

  A subida despejou-a, subitamente, no patamar imediatamente acima da arena. As pernas tremiam-lhe, traíram-na, sentiu-se rodopiar numa longa vertigem e uma violenta náusea atingiu-a em cheio no estômago obrigando-a a curvar-se abruptamente. Invadia-a uma estranha sensação, a boca picava-lhe como se prenha de espinhos afiados e sentia um cheiro nauseabundo que parecia despontar do seu próprio hálito. Sem pudor e sem aviso, o imponente e intemporal colosso parecia cuspir sobre ela toda a barbárie que fora obrigado a aclamar ao longo dos séculos. Podia jurar que o ouvia gemer em agonia.

A custo, endireitou-se. O calor insuportável, era verdade, toldava-lhe a vista e agoniava-a um pouco, mas não conseguia libertar-se de um presságio avassalador. Observou a multidão ávida de sangue e circo encher o anfiteatro obedecendo à sua condição: o “podium” dos opulentos e privilegiados nobres, onde não faltava a tribuna imperial; os “maeniana”, primeiro, da classe média abastada, acomodada nos seus assentos de mármore branco, depois, dos soldados, dos casados e outras classes; e os mais miseráveis dos pobres e as mulheres, renegados, atirados para o "maenianum summum in ligneis", longe da gloriosa arena. A arena! Imponente, estendia-se languidamente e ardilosa como uma meretriz. Era o palco de todo o horror que a assolava, a personificação do mal que se abatera sobre os seus ombros despojando-a da razão. A “harenam” tingida de vermelho, manchada de sangue, suor e insânia, maior a dos homens do que a das feras.

Sobressaltou-a um ruído metálico quando o elevador rudimentar iniciou a subida e os dois magníficos animais emergiram do subsolo. Os rugidos enrouquecidos aumentaram de tom quando a jaula se abriu e as bestas se libertaram, possantes, em toda a grandeza e esplendor da sua fúria ameaçadora. Ficou suspensa da elegância dos arqueiros habilmente treinados para suster os ímpetos selvagens das feras e preservar a vaidade dos nobres e foi então, só então, que sentiu o chão fugir-lhe na vertigem que a acossava desde cedo. Fechou os olhos, deixou que as lágrimas quentes a lavassem do terror que a tomara de assalto até se deixar acariciar novamente pelo inclemente sol de Agosto.

publicado às 22:58


“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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