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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Bons professores, Maus professores, muito, pouco ou nada?

Em qualquer profissão, os medíocres, por muito pouco que ganhem, ganham sempre demasiado. Entre os professores, a regra também se aplica. Há professores excelentes, há professores assim-assim e há professores francamente medíocres.

Já trabalhei como professora, sempre em escolas públicas, e já convivi com todas as espécies, mais ou menos raras, dos melhores aos piores. Deixei de leccionar em escolas e passei a dedicar-me, exclusivamente, ao apoio particular de alunos do ensino secundário e universitário, onde continuo a partilhar as experiências dos meus explicandos no que toca a bons e maus profissionais do ensino (e dando muitos benefícios de dúvida, porque sabemos que “quem conta um conto, acrescenta um ponto”...). Já trabalhei com alunos em que, a primeira coisa que tinha que fazer, quando chegavam à explicação, era corrigir, não todos, mas muitos dos exercícios que a “professora” tinha resolvido na aula. Eu nunca cometi um erro, no meu trabalho? Claro que sim! Pontualmente, assumido frontalmente e frontalmente corrigido e sempre enquadrado, nunca por pura ignorância ou manifesta incompetência técnica: se não estou segura, prefiro confirmar antes de dizer um enorme disparate. Não é isso que se espera de um profissional, qualquer que seja a sua área? Por que motivo deve ser diferente, entre os docentes? Por que motivo se permite que um mau professor continue a ensinar? E, já agora, a ensinar exactamente o quê, nesse caso?

Deixemos a competência técnica e passemos à competência pedagógica, seja lá o que isso for. Também há professores que, pura e simplesmente, não conseguem “passar” o seu saber aos seus alunos. São manifestamente incapazes de captar a atenção de uma turma, de envolver os alunos no processo de aprendizagem e, portanto, também são incapazes de “ensinar”. Lembro-me, dramaticamente, de uma professora de psicologia que eu tive no meu ensino secundário. Na primeira e única vez que lhe pedi para me esclarecer uma dúvida, a senhora limitou-se a ler, letra a letra, o que estava escrito no manual. Fui um pouco rude (ou, se calhar, não) e respondi-lhe que “ler”, eu sabia há, pelo menos, 10 ou 11 anos. Mas, também recordarei eternamente e com um enorme respeito, a professora de matemática, com a sua bata branca e o seu ponteiro (isso, mesmo, o seu ponteiro), que apenas começou a sorrir-nos no segundo ano em que foi nossa professora e que, na sua sala de aula, domesticava a matemática com rigor, engenho e elegância. Devo-lhe, com toda a certeza, uma fatia generosa do meu enorme fascínio por aquela ciência e pelo prazer de a ensinar, a par da química e da física.

Já não há batas brancas e ponteiro e, creio que, ainda bem. Mas, que ninguém se engane. Os miúdos sabem perfeitamente distinguir um bom professor de um mau professor. Mais ainda, sabem respeitar um bom professor e, não, não é aquele/a bacano/a, grande amigalhaço, que vai com a malta ao café e os trata como compinchas. A maior proximidade que existe, e bem, entre professores e alunos, actualmente, nunca deve ser refém da falta de autoridade que o professor deve, obrigatória e disciplinarmente, exercer dentro da sua sala de aula.

Um dos exemplos pessoais mais marcantes, no que toca a disciplina e respeito, vivi-o na primeira pessoa e no primeiríssimo ano em que leccionei. Dava aulas de física a uma turma de mecânica com 28 rapazes e duas raparigas (sim, havia turmas com 30 e mais alunos e julgo que ainda haverá, em alguns casos). Havia um grupo de sete rapazes que se sentavam na última fila e passavam a aula a cochichar, apesar de todas as minhas advertências e tentativas de os “pôr na ordem”. Eu dia, fartei-me e disse-lhes: “Vocês aí, os sete! As faltas são para se dar, portanto, se acham que não estão aqui a fazer nada, saiam da sala!” Um deles levantou-se e respondeu-me: eu não saio! Os outros, encorajados, começaram também a dizer que não saíam, do estilo, se ele não sai, eu também não! E eu, do alto dos meus 20 e poucos anos, sem experiência nenhuma daquilo, pensei: eu mandei-os sair e, dê por onde der, eles têm de sair! Assim, animada mais de orgulho e amor próprio do que propriamente de convicção, desci do meu estrado (sim, as salas também ainda tinham estrado), dirigi-me ao fundo da sala, tentando controlar o nervosismo que sentia (e se não saíssem mesmo, como é que eu resolveria o imbróglio?), olhei-os a todos o mais firmemente que consegui e, num esforço para que a voz não tremesse tanto como eu sentia, repeti e ordem de saída, porque “eu mandei” e “aqui dentro, quem nada sou eu!” Os alunos saíram, imediatamente, e aprendemos todos uma lição (embora eu tenha decidido, nesse momento, que, pelo sim, pelo não, nunca mais mandaria 7 alunos para a rua ao mesmo tempo…). É verdade que os tempos são outros e os miúdos são mais ariscos. Ou não? O respeito tem idade e tempo ou somos nós que preferimos pensar que sim, porque impô-lo com bom senso e firmeza dá mais trabalho do que “deixar andar”?

De modo que, seria bom, mais do que bom, seria imprescindível para a própria dignidade da carreira docente que se separasse o trigo do joio e se mandasse para a rua, literalmente, os maus professores, independentemente do “tempo de serviço”, dos “créditos”, dos “números de graduação” e por aí afora.

Ora, os sindicatos não deixam e os maus professores também não querem, claro. Ao contrário de outras profissões, os funcionários públicos em geral e os professores em particular não têm que prestar muitas contas. “Avaliações” e “despedimentos por justa causa” provocam indignações virulentas, como se fosse possível, longe da asa do Estado, todos os trabalhadores de uma empresa, literalmente e sem excepção, poderem ascender ao topo da sua carreira sem prestar provas de competência. Mário Nogueira e os seus comparsas têm como único objectivo defender rendimentos e não defender a educação. E “o Homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”, Immanuel Kant.

"The handmaid´s tale": ficção ou possível realidade?

Acabei de ler esse (dizem que) profético romance da escritora canadiana Margaret Atwood. “The handmaid´s tale” (em português, O Diário de uma Serva, ou a História de uma Serva), escrito há, qualquer coisa como, 30 anos relata a história de uma Serva, que veste de vermelho, cuja identidade violentamente arrancada e descartável se traduz apenas por um “De”, de posse, seguido do nome próprio do seu dono e senhor, marcada como gado fértil para fins reprodutores das casas mais ricas.

Como não podia deixar de ser, a acção desenrola-se nessa América que alguns querem “great again” onde, a coberto de extremismos religiosos e falsas protecções da moral e dos bons costumes (seja lá o que isso for), a sociedade, em geral, passa a ser reprimida obedecendo a uma elite de duvidosas boas intenções, enquanto as mulheres, em particular, vêem decapitados os seus direitos mais básicos.

Nessa nova América de exacerbadas virtudes, as mulheres são divididas por “classes” ou “tipos”. Há as Martas, que vestem de verde e prestam apenas para os afazeres das casas senhoriais e para tratar do desejado bebé que a Serva de serviço há-de parir, se Deus quiser. As Servas, essas, servem para ser violadas em cerimónias inspiradas na Bíblia e na benevolência e submissão de Sarai, mulher de Abrão, que entrega ao marido a sua serva Hagar para que com ela se deite e com ela conceba um filho. Nesta América nova, imaculada e virtuosa, a falta de descendência é culpa das Esposas, como não, pelo que os machos têm a obrigação de copular com as Servas com o único propósito, claro está, de procriar e inverter a fatal tendência de diminuição da natalidade. Os teocráticos podiam, apenas, ter impedido as mulheres de trabalhar, mas, há 30 anos, não consta que o polaco Janusz Korwin-Mikke fizesse campanha pela supremacia masculina no Parlamento Europeu e era capaz de dar menos gozo.

As Esposas vestem de azul e expiam a sua culpa e incompetência suportando, entre outras coisas e deitadas de costas, o peso de parte do corpo da Serva entre as suas pernas enquanto o marido, sobre esta, se afadiga na sua tarefa bíblica e suprema. A Serva não pode abrir os olhos, só as pernas, durante o acto e o contacto entre ela e o senhor da casa é, por lei, estritamente restringido a essa solene formalidade.

O relato da autora é tão cru e violento como parece e, ao fim de algumas páginas, estou nauseada o suficiente para parar. Mas, entretanto, Donald Trump acaba de cumprir um ano de presidência dos EUA, ou será de Gileade?, janta alegremente com assassinos confessos e pede-lhes para cantar, cultiva e promove uma postura de arrogância e violência e, com excepção de alguns jornalistas, analistas políticos e alguma arraia-miúda, o mundo parece ter-se adaptado bem à mudança e, então, eu tenho uma curiosidade imensa em continuar.

As mulheres pobres, ou melhor, as mulheres dos homens pobres são, talvez, as menos infelizes. Afinal, gozam do direito de permanecer junto das suas famílias e, se se portarem da forma tida como decente, talvez não venham a ser enviadas para as colónias e envenenadas pelos resíduos tóxicos acumulados por décadas de todas as formas de pouca vergonha. Mas, sobretudo, não serão nunca disciplinadas e amestradas pelas Tias, nem obrigadas a rodar de casa em casa, a passar de mão em mão, até terem gerado e parido um número suficiente de filhos para sossegar as hostes até, finalmente, serem deixadas em alguma paz.

Ainda não consegui ver a série. Imagino que a reprodução visual do horror descrito por Margaret Atwood no seu livro não deixe ninguém indiferente. Muito menos, se esse alguém for mulher de corpo e alma e inteiramente livre. E, quando penso nisso, invade-me uma sensação viscosa, já que ninguém é, de facto, inteiramente livre. Como se a noção de liberdade pudesse ser moldada e modelada à urgência do tempo e das circunstâncias e o que hoje é abominável, amanhã possa vir a ser tolerado para depois de amanhã ser aceite como inevitável.

Esfrego os olhos energicamente e sigo em frente, afastando o nojo e o possível pânico. Afinal, é só um livro. Não é?

Oh inclemências indignadas!

Oh inclemência! Oh indignação! Estará porventura periclitante a saúde mental desses pouco nobres e nada queridos deputados, ministros, conselheiros e (ir)responsáveis detentores de cargos públicos que todos nós ajudámos a criar? Bem sei que a frase não era exactamente assim, mas, a tirania é intemporal. Vai é assumindo diversas formas e, actualmente, trasveste-se de “redes sociais”. São úteis, porque servem para tudo: para perdoar ou humilhar, para amar ou odiar, para abafar ou inflamar, para denunciar ou camuflar, para ignorar ou indignar. E, indignar está na ordem do dia. A mim, ensinaram-me que quem não se sente, não é filho de boa gente. Mas, agora, não chega sentir. É preciso indignarmo-nos com todo o poder da nossa alma, um grito que nos sobe das entranhas mais profundas e que urge despejar como água benta sobre os impuros, ao mesmo tempo que sacudimos as gotinhas para longe do capote porque, passada a exibição honrada e honrosa da indignação, não queremos ter nada mais a ver com o assunto. Afinal, a falta de virtudes é tanta que temos que passar, lestos, de uma indignação à outra, sob pena de ficarmos rapidamente desactualizados e de reputação manchada. Não obstante, não sei bem contra quem me indignar. Vejamos. Há uma série de edifícios, assim mais ou menos importantes, quiçá, históricos que, em países que se honram de a ter, à História, se chama Património. Cultural e não só. Manda, se não mais nada, pelo menos, o bom senso, que um povo, que um país, respeite e faça respeitar o seu património histórico, cultural, monumental. Mas, por vezes, é difícil ser pobre e manter alguma dignidade, mesmo que histórica. Pelo que, aparentemente, alguém se lembrou que melhorar as finanças públicas talvez pudesse passar por cobrar uns trocos (literalmente, tendo em conta esse magnífico preçário incluído no despacho nº 8356/2014, publicado no Diário da República) pelo aluguer de monumentos históricos para o pessoal promover jantares e cocktails, proceder a filmagens para televisão ou cinema, lançar livros encantados ou não, sem esquecer os eventos académicos, infantis e os ligados à moda. Está lá tudo no despacho e é capaz de não ser mal pensado. Talvez assim haja mais gente a visitar museus. A primeira indignação surgiu com as imagens do jantar desse Founders Summit, presidido pelo admirável e não menos despenteado Paddy Cosgrave no nosso Panteão Nacional, lugar de memória e homenagem aos portugueses que se distinguiram por serviços prestados ao País. Essa gente ilustre dignificou, em vida, Portugal, e, Portugal, reconhecidamente e em retribuição, dignificaria, na morte, esses que foram e serão sempre seus. Simples, não é? Suponho que a segunda indignação, mas, essa, não expressa publicamente, tenha sido a do Paddy. Então, a malta marca um jantar num restaurante chiquérrimo, cheio de História, nem sequer precisa de se vestir a rigor, pode levar um casaco de ganga, paga o que está na tabela, regista na agenda pública do evento que entrega, até, em mão a membros do Executivo e, agora, desata tudo aos gritos, como se tivessem tomado a igreja de assalto? WTF? Pelo sim, pelo não, o Paddy pediu desculpa aos portugueses. Cai sempre bem e, mesmo assim, Portugal e a sua incrível cidade de Lisboa ainda devem ser dos locais mais incríveis para realizar uma incrível feira tecnológica, com abraços de pé igualmente incríveis. O único senão é que, para a próxima, o jantar talvez seja menos incrível… Depois, veio a indignação mais estrondosa, a do nosso primeiro-ministro. Mesmo depois daqueles abraços todos na Web Summit, da troca de mimos e exclamações, António Costa desconhecia que o Paddy levaria os seus colegas empreendedores a jantar à luz das velas no nosso Panteão Nacional. Não se faz! A indignação do nosso primeiro é mais que justa. Além disso, a culpa de se poderem fazer banquetes nos nossos museus, igrejas e jardins históricos não é deste governo, é do outro. Como sempre. Independentemente de quem governa, quando alguma coisa corre mal, a culpa é sempre do governo anterior, seja qual for esse ou o actual. No atirar de culpas, a nossa democracia é exemplar! O professor-presidente Marcelo também desconhecia o evento, que também achou indigno, enquanto Jorge Barreto Xavier- que aprovou em 2014 o tal despacho que regula a permissão da realização de eventos privados em monumentos nacionais- se indigna contra a cobardia política do actual governo e contra a falta de sensatez de se ter autorizado o jantar do momento! De indignação em indignação, pergunto-me por que motivo não terá havido nenhuma relativamente aos outros nove jantares que, pelo que li na imprensa, precederam este, no Panteão, e que já ocorrem desde 2002! Terei lido bem? Entretanto, a Directora do Panteão Nacional não pensa demitir-se já que se limitou a “submeter o pedido” para o dito jantar, “um entre tantos outros jantares que se realizaram no Panteão, de acordo com o regulamento em vigor”. De modo que, como também se dizia noutro clássico genial, chapéus há muitos. Cada palerma que escolha o que melhor lhe assente.

K: de quero, posso e mando, mesmo que seja ao murro e ao pontapé. (E, a quem interesse, por que deixei de ter caixa de comentários)

Basta ler as variadas denúncias ou comentários acerca das políticas de selecção de entradas à porta da discoteca Urban Beach, para perceber que ali não entra quem quer. Entra quem pode ou quem os “seguranças” autorizam. Eles é que mandam. Porque sim. Pode ser pela cor, pela roupa, pela etnia, pelos olhos, pelo cabelo, pelo humor, enfim, por qualquer coisa que caia bem ou mal, naquele momento preciso.

Logo à partida, a pergunta que se impõe é: eu sou obrigada a deixar entrar no meu estabelecimento quem quiser? Não posso selecionar quem pode ou não pode entrar? A que é que se chama “reservado o direito de admissão”?

Quantos de nós nunca se sentiram incomodados por alguém que, no mesmo espaço, insiste em tornar insuportável a coexistência pacífica? A quem é que nunca apeteceu pedir ao do lado para falar baixo, para desligar a música do telemóvel, para moderar a linguagem, para esperar pela sua vez, para controlar as suas crianças, para desaparecer, pura e simplesmente? Os que ficam tremendamente chocados por ver impedida a entrada a um negro, uma brasileira, um cigano, um “mal-vestido”, um “porque-não”, numa discoteca elitista de Lisboa, também se chocam com o impedimento da entrada de crianças em alguns hotéis da moda actual, por exemplo?

Portanto, em teoria, creio que qualquer estabelecimento comercial estará no seu pleno direito de permitir ou não o acesso a potenciais clientes. O problema é como fazer a dita “selecção”. Como desenhar a fronteira entre o direito de admitir e o direito de repudiar, ainda mais com recurso à violência extrema, severa e gratuita, os “inadequados”? E, como definir esses “inadequados”?

De tudo o que fui lendo na comunicação social acerca destes casos na discoteca Urban Beach (não apenas de agora) é claro e evidente que o ambiente é seleccionado. Italianas são melhores que brasileiras, brancos são melhores que pretos, ricos são melhores que pobres. Sub-repticiamente, em declarações publicadas e anteriores ao último episódio de violência isto está presente no “direito de admissão” naquele espaço. A indignação ensaiada e forjada dos responsáveis, quer da discoteca, quer da empresa de segurança só foi vertida para os mídia, neste momento, porque a (mais uma) agressão bárbara foi filmada por um telemóvel que, em vez de ir parar ao Tejo (como, aparentemente, tantos outros antes), caiu nas mãos da PSP e nas malhas das redes sociais, benditas sejam às vezes. Caso contrário, a polícia continuaria a fingir que não se passava nada ou que não valia a pena, os “seguranças” continuariam a treinar nos seus sacos de boxe animados e os senhores administradores e afins continuariam a garantir que os clientes eram problemáticos e os distúrbios acontecem é na via pública. Lavando todos as mãos como Pilatos.

A impunidade foi dando, assim, espaço a uma cultura de “quero, posso e mando”, inquestionada e inquestionável. A passividade com que alguns presenciam as cenas de violência gratuita são a prova viva e repugnante da banalidade. Veja-se, também, o caso de Coimbra. A indiferença e o à-vontade dos agressores é de uma brutalidade sinistra. As imagens passadas repetidamente nos écrans de televisão, mais do que nas redes sociais, parece-me, tornou insuportável continuar a virar a cara. Os julgamentos passaram a fazer-se, efectivamente, na praça pública. A questão é: porquê?

Nada me move a favor da condenação pública de causas que deviam ser julgadas e condenadas, ou não, em tribunais. Mas, muito duvido da “indignação” de alguns que sempre conheceram e, muito provavelmente, compactuaram com a situação e que vêm, agora, lamuriar-se de danos de imagem, reputação pela lama e perda de clientes. Lá diz o ditado, quem semeia ventos colhe tempestades. Mais tarde ou mais cedo.

 

P.S. Quando decidi iniciar este blog, fi-lo apenas com o intuito de dar asas a uma enorme paixão: escrever. Durante algum tempo, há mais de 10 anos, mantive o hábito de escrever para jornais naqueles espaços intitulados “cartas ao director”. Como os miúdos, recortei as páginas de jornal e coleccionei todas as minhas cartas publicadas. Entretanto, fui mãe e o meu tempo deixou de ser tão meu. Agora, quis retomar esse hábito, mas na forma deste blog. Mas, percebi que não sei lidar bem com a exposição aos comentários, mesmo que bons, inteligentes e construtivos, como são praticamente todos os que tive. Gosto de "discussões" cara-a-cara, sou pouco virtual. E, sobretudo, sinto-me algo culpada quando não consigo encontrar tempo para visitar e comentar todos os outros blogs de que gosto e gosto de muitos.

Assim, decidi retirar o espaço de comentários. Continuarei a visitar os vossos, a comentar sempre que quiser e puder e agradeço a todos os que me quiserem ler, mesmo que de forma anónima e sem exposição.

Obrigada e muito sucesso para todos!

Explica-me como se eu fosse muito burra...

O pedido que agora faço meu era apresentado pela Maria Rueff ou pela Ana Bustorff, não estou segura, de forma que se pretendia cómica, num anúncio de televisão, aqui há alguns anos. Já não recordo a que se referia, ou quem era o interlocutor, mas não interessa nada. A pergunta parece impor-se por si própria, nos dias que correm, tal é a intermitência de pensamento que desassossega variadíssimas almas de ainda mais variados sectores, aqui e ali, e o que se disse ontem foi ontem e devia ter lá ficado, pois hoje é hoje, um novo dia, e amanhã ainda vem longe.

De modo que, expliquem-me como se eu fosse muito burra. Se tiverem paciência e forem menos burros ou burras do que eu.

Um juiz em pleno uso das suas faculdades e competências, supõe-se, profissionais e outras, assinou um acórdão onde afirma que o adultério da mulher é um atentado, grave, à honra e dignidade de um homem e, por isso, vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher, leia-se, a agressão com recurso a uma moca com pregos na defesa dessa tão maltratada honra. O mesmo juiz- dias depois, não de ter redigido o acórdão, mas de ter sido apontado em praça pública- vem defender que não é retrógrado e muito menos é tolerante à violência doméstica, violência essa que constitui um grave atentado à condição da mulher e cujas versões são, muitas vezes, desvalorizadas em tribunal. Segundo a revista Visão, estas últimas palavras são do mesmo juiz que escreveu as primeiras no dito acórdão. E parece que o senhor juiz está incrédulo com as reacções que suscitou. A sério? Ninguém diria…

O diz-que-é-mas-parece-que-não engenheiro José Sócrates fez face a algumas das suas despesas à custa de empréstimos desse fantástico e milionário bom amigo, de seu nome, Carlos Santos Silva. Parece que recebeu “um ou dois” empréstimos do amigo Carlos, por volta dos “cinco, sete mil euros”, que não se lembra bem para quê, mas lembra-se que pagou. Também se lembra que convenceu o seu amigo a trocar um Júlio Pomar por “seis ou sete” outros quadros que tinha em casa lá em casa. Parece que a esposa de Carlos, ou o próprio, gostava mais desses. Há, ainda, o testamento desse amigo, homem endinheirado, empresário internacional, que prefere guardar dinheiro em cofres e levantar em numerário somas avultadas, que favorece com 80% de seis milhões de euros (segundo apurou o Ministério Público) um primo de José Sócrates. Parece que o valor está relacionado com um negócio em Angola, ao qual o ex-primeiro-ministro é totalmente alheio, o primo e o amigo é que já foram sócios. Já a ex-mulher de Sócrates recebeu uma avença mensal de 5.000 euros por serviços prestados a uma empresa do omnipresente Carlos, pois, quem mais? O apartamento de Paris é outra grande prova de dedicação e amizade, mas já estou confusa que chegue. O nosso ex-primeiro acha que, não só, tudo isto é circunstancial, como nada tem de estranho ou suspeito e, colericamente indignado, como é seu hábito, garante que, no fim, não sobrará folha sobre folha. E é muita folha, pelo que, estou inclinada a acreditar que o homem deve saber o que diz…

O DDT e, aparentemente, igualmente tóxico Ricardo Salgado vive, actualmente, com o equivalente a um ou dois (não percebi bem) salários mínimos, mas, de consciência tranquila. Afinal, o Banco de Portugal é que criou os lesados do BES. A resolução do banco foi um desastre e o banco, o BES, não o de Portugal, tinha dinheiro suficiente para respeitar os compromissos com esses clientes, assegura o Ricardo. Entre suspeitas de sacos azuis e pagamentos mais avultados e menos claros a nomes como Carlos Santos Silva (não!, a sério?), Zeinal Bava e Henrique Granadeiro, aliados a outros nomes (a que também não falta o primo de José Sócrates, o José Paulo) e a dois tremendos negócios com muito por explicar, Ricardo Salgado vai alternando o profundamente chocado com o esquecido ou ignorante em doses mais ou menos moderadas. Se o choque e a suposta e ensaiada ignorância não chegarem, Ricardo Salgado, esse grande economista, monstro da banca, administrador de topo, não sente qualquer embaraço em evocar (ou, talvez invocar?) o Diabo mais as suas coincidências. Afinal, ninguém pretende a economia uma ciência exacta, pois não? Se um juiz chama Deus, um banqueiro de peso e renome, por maioria de necessidade, há-de poder chamar o Diabo. E, não pára de me espantar, como é que grandes gestores, principescamente pagos por excelência e competência, conseguem aparentar tantas falhas de memória, desconhecimento e imperícia sempre que lhes convém. A selectividade da memória e da habilidade deve fazer parte das cadeiras de economia e gestão.

Na Catalunha, a telenovela continua em novos episódios. O querer independentista era tanto e tão grande que, agora, muitos não sabem o que fazer com ele. Nos últimos dias, as sondagens já passaram de repudiar os independentistas nas urnas para lhes garantir a maioria nas próximas eleições. E, no meio do caos, como é que dizem dos ratos e dos navios? Bem me parecia.

E, então, explicam-me? Como se eu fosse muito burra?