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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

A dupla negativa...

Já estávamos familiarizados com as delicadas inverdades, as inconvenientes fake news e os coloridos factos alternativos. Também não desconhecíamos os lapsus linguae (acontece aos melhores…) e as dramáticas descontextualizações; as proveitosas amnésias dos políticos e dos donos disto tudo e o desconhecimento periclitante e amador dos gestores de topo. Faltava-nos, no entanto, a inovadora e elegante dupla negação que Donald Trump (quem mais!?) invocou para se defender da chuva de duras críticas de que foi alvo, por assumir publicamente que tomava como verdadeira e impoluta a palavra de Vladimir Putin no que toca à alegada ingerência russa nas últimas eleições presidenciais americanas.

“Em quem acredita?”, perguntou o jornalista da Associated Press, Jonathan Lemire, a Donald Trump lado a lado com o presidente russo, em plena conferência de imprensa, em Helsínquia. Uma pergunta simples nem sempre exige uma resposta simples, é um facto. Mas, Donald Trump deu uma resposta simples; à sua maneira. Se não no conteúdo, pelo menos, na forma. Com a sua habitual inépcia e vocabulário rudimentar, Trump começou por dizer qualquer coisa do género “a minha gente falou comigo, Dan Coats e outros, e dizem que acham que foi a Rússia”. Ora, com o presidente Putin ao seu lado, nada mais inteligente e astuto do que perguntar ao próprio, não?, pelo que, Donald Trump rendeu-se a essa brilhante e eficaz estratégia política e rematou “eu tenho o presidente Putin a dizer que não foi a Rússia e digo isto: não vejo por que razão seria”. “Não vejo por que razão seria”. Vários forward and rewind depois (afinal, o inglês, aparentemente, também é uma língua traiçoeira…), posso jurar que foi mesmo isto que Trump disse. Mas, só que … parece que não.

Dois dias de mimos depois – desde traidor, erro trágico, vergonhoso, bizarro e afins – Trump foi ao Twitter (outro must) reforçar a GREAT confidance que tem nos SEUS serviços de inteligência. Assim, em letras gordinhas e maiúsculas para não haver mal-entendidos. E, para que não restassem mesmo dúvidas – afinal “devia ter sido óbvio, pensei que fosse óbvio, mas, queria esclarecer para o caso de não ter sido” – Trump veio afirmar que, nas suas declarações em Helsínquia, usara a palavra, “seria”, em vez de “não seria”. Ou seja, frase deveria ter sido “Não vejo nenhuma razão por que não seria a Rússia.” Uma espécie de dupla negativa, também nas sábias palavras do próprio. Tudo isto, em directo para as televisões e sem corar de vergonha. A seguir, ainda aceitou (imagino que a custo) a conclusão dos Serviços Secretos americanos de que houve interferência da Rússia nas eleições de 2016, para logo acrescentar que também poderiam ter sido outros, pois há muita gente por aí

Imagino que, quando voltar a reunir-se com Vladimir Putin, Donald Trump lhe explique que, desta vez, terá usado a palavra “aceito” em vez de “não aceito” a conclusão dos seus Serviços Secretos. Mas o diabo mora nos detalhes e, a provar que eles andam mesmo por aí, as luzes da sala onde Donald Trump se desdizia com máxima e empolgante convicção desligaram-se.

Tudo isto teria imensa graça, não fosse dramático e perigoso. Foi inaugurada uma nova forma de estar na política (e não só), onde cabem todas as formas possíveis da mais perniciosa desonestidade e com as quais, aparentemente, se convive bem, pois causam menos indignação do que todas as formas do é p´ro menino e p´ra menina e seus derivados.

Redes Sociais: use com moderação...

Um dos mergulhadores ingleses que participou nas operações de resgate dos doze meninos tailandeses e do seu treinador sugeriu que Elon Musk podia “stick his submarine where it hurts”, que é como quem diz, ele que enfie o submarino onde lhe doer. Fantástico, não é? A brilhante tirada vinha na sequência – em declarações à imprensa – de uma pergunta sobre qual teria sido exactamente a intenção do CEO da SpaceX ao enviar o “mini-submarino” para Mae Sai. Na opinião do mergulhador, o mini-submarino não tinha qualquer hipótese de funcionar como opção de recurso ao salvamento e Musk, por sua vez, não teria qualquer noção das características da gruta no que toca aos percursos a realizar. Não estando em causa a perícia dos mergulhadores – e daquele, em particular – para criticar a fiabilidade das soluções apresentadas por outros, mandava o bom senso que não se caísse na brejeirice. Digo eu, que estou bastante desactualizada nestas coisas.

Se um foi pouco elegante, a resposta do outro não ficou atrás e, recorrendo ao Twitter, Elon Musk acusou de pedofilia, nem mais nem menos!, o mergulhador inglês, de seu nome, Vernon Unsworth. E, claro está, sem fundamentar a acusação pois para isso é que a malta quer as redes sociais. Lógica? Da mais simples: Unsworth vive na Tailândia, a Tailândia tem um dramático problema de prostituição infantil, logo, Unsworth é pedófilo! Assim, uma espécie de tabela de verdade que só é “verdade” na ligeireza do bullying virtual que permite amigar e desamigar, bajular e insultar, dizer e desdizer de forma, aparentemente, tão apaixonada quanto inconsequente.

Eu acho que as redes sociais deveriam apresentar um alerta, assim ao estilo dos maços de tabaco: “a utilização de forma estúpida prejudica gravemente a sua saúde e a dos que o rodeiam”, ou, “descarregar baboseiras-barra-insultos nas redes sociais pode provocar a morte lenta e dolorosa da sua inteligência”.

É inacreditável como pessoas adultas e, supostamente, dotadas de algum discernimento, com provas dadas de competência em diferentes áreas, podem chegar a ser tão básicas.

Quando o meu filho era mais pequenino, perguntava-me muitas vezes “mamã, os adultos também fazem disparates?”. A inocência das crianças é algo delicioso; mas, olhando para o lado positivo da coisa, sempre podemos usar o seu valor pedagógico…

Fake you!

 Donald Trump voltou a ser Donald Trump. Depois das histéricas ameaças à NATO, depois dos insultos mais ou menos velados a Theresa May, depois dos disse-e-não-disse travestidos de fake news – tão caras ao próprio – o presidente dos EUA destratou, com pompa e circunstância, a rainha Isabel II.

Pessoalmente, não me incomoda muito que um homem rude, malcriado e estilo arruaceiro de esquina mal frequentada atropele protocolos monárquicos e, pelo meio, sua alteza a rainha-mãe. Não tenho qualquer afinidade com a monarquia, em nenhuma das suas vertentes. Mas, choca-me profundamente que um brutamontes desrespeite, ostensivamente e para o mundo inteiro ver, uma senhora de 92 anos e, ainda mais, sendo seu convidado.    

No entretanto, Donald Trump anunciou que será candidato a um segundo mandato como presidente da América, porque não vislumbra nenhum democrata capaz de lhe fazer frente. É natural. É sempre difícil argumentar com lunáticos. Mais ainda, com lunáticos que são, ao mesmo tempo, mentirosos compulsivos e candidatos brilhantes ao prémio de melhor bully do ano. Se fiquei absolutamente pasmada com a primeira eleição deste homem, já não me espantaria que voltasse a arrebatar a presidência dos EUA. Afinal, muitas são as críticas que lhe tecem, mas, a verdade é que o estilo vai colhendo frutos…

 

O príncipe com orelhas grandes.

– Mamã, contas-me uma história?

– Claro, meu amor. Foi há muito, muito tempo…

 

“Pairava no ar um cheiro a jasmim. Os passarinhos chilreavam pousados nos ramos castanhos das árvores frondosas e verdes do jardim do Castelo, enquanto os esquilos, macios e marotos, roíam avelãs que seguravam nas suas patinhas pequenas e ágeis. Algumas sardaniscas verde-esmeralda serpenteavam esbaforidas, em busca de um qualquer buraquinho minúsculo por onde se pudessem esgueirar. Coelhinhos brancos e felpudos saltitavam e afundavam-se na relva verde polvilhada pela geada daquela linda manhã, enquanto flores de todas as espécies baloiçavam ao sabor do vento suave, que transportava o seu pólen a todos os cantos do jardim encantado, fazendo aumentar a tela de cores e aromas que chegava a todos os habitantes do reino.

Porém, nem tudo era alegria, naquele jardim encantado. No tronco robusto de uma das árvores mais antigas do jardim havia um buraco por onde descida um túnel até às mais profundas entranhas da terra. E desse túnel, emergia, agora, um choro abafado e tão triste, tão triste que afugentava algumas das avezinhas que esvoaçavam nas proximidades da árvore.”

 

– O que era, mamã?

– Vou contar-te, meu querido.

 

“Os reis daquele reino distante tinham tido um filho. Mas, ao invés de exultarem de alegria, ficaram envergonhados porque o bebé nascera com umas grandes orelhas, o que o tornava diferente dos outros meninos. E os reis seus pais, movidos pela vergonha e preconceito de terem um filho diferente, esconderam-no dentro da árvore.

Os anos foram passando e o principezinho foi crescendo no interior do tronco da árvore, tendo por amigos alguns dos animaizinhos do jardim. Os esquilos traziam-lhe avelãs e os coelhinhos, cenouras e, assim se alimentava todos os dias. As formiguinhas traziam-lhes as folhas com que cobria o chão em que se deitava; os passarinhos deixavam-lhe penas fofas e coloridas com que se cobria; as cigarras cantavam-lhe belas canções com as quais afugentava as suas mágoas e serenava os seus serões, os furões traziam-lhe livros, com que se instruía e sonhava, e os pequeninos mas valentes ouriços protegiam-no, com os seus espinhos, de outros animaizinhos menos afáveis.

Enquanto o menino crescia – e à medida que os anos passavam, os reis seus pais recordavam-no cada vez menos… até que, um dia, o esqueceram por completo.

Uma manhã, o rei acordou em sobressalto, o seu coração apertado e angustiado num prenúncio de mau agoiro e coisa ruim que se aproxima a passos largos. Acordou a rainha no seu leito e, juntos, assomaram à janela da torre mais alta do castelo. Alarmados e confusos, tudo o que avistaram foi uma profunda escuridão. Chamaram os criados e as aias, os cozinheiros e os cocheiros, os jardineiros e os cutileiros. Gritavam, gesticulavam, exigiam explicações. Mas, ninguém sabia explicar. As trevas tinham engolido as casas, os estábulos, os caminhos, o jardim, a floresta, e todos os habitantes, dos mais ricos aos mais pobres, sentiam uma profunda e inexplicável tristeza.

Vários dias se passaram.

As flores definharam no jardim; as árvores, outrora robustas e frondosas, vergaram como se carregassem o peso de todas as desilusões; os animais fugiram assustados, não se sabe bem para onde. O sol mergulhou no mar e não voltou, a lua perdeu o seu brilho, as colheitas secaram, a fome bateu a todas as portas e em todas consegui entrar. O Rei e a Rainha sentiam-se confusos e impotentes e, em breve, por todo o reino, tudo eram choros e lamentações.

Mais anos foram passando sem que ninguém conseguisse devolver a alegria ao reino ou, tampouco, perceber o porquê de tanta desgraça. Já não se distinguiam os reis dos seus súbditos: a miséria deixara-os a todos maltrapilhos e famintos e deambulavam todos pelo reino, sem qualquer propósito.

Um dia, no meio de um enorme desespero e sofrimento, temendo pelo futuro do seu reino e dos seus súbditos, os reis rezavam pedindo auxílio, suplicando por uma luz que os ajudasse a traçar um caminho de esperança. Soluçavam baixinho, quando começaram a ouvir um choro sufocado e triste, como que vindo de muito, muito longe, mas que crescia, crescia…. E à medida que o choro se tornava mais forte, ia penetrando nos corações do rei e da rainha, inundando-os de uma dor tão intensa que chegou ao mais profundo da sua alma e os fez sucumbir de remorsos.”

 

– Era o principezinho, mamã?

– Era, sim, meu amor, de quem os reis se envergonharam à nascença e que, agora, os envergonhava mais ainda, pelo seu acto tão cruel!

– E o que aconteceu depois, mamã?

– Vou contar-te, meu querido.

“Quando os reis se aperceberam do choro do príncipe – que eles próprios tinham escondido e esquecido – perceberam a enorme injustiça que tinham cometido com o seu filhinho. E perceberam, também, que todas as agruras por que estavam a passar mais não eram do que um castigo bem merecido pelo seu preconceito e pela sua crueldade. Então, de imediato, correram ao jardim encantado, procuraram a árvore onde tinham encerrado o príncipe, escorregaram pelo túnel e, com a ajuda dos animaizinhos resgataram o menino, que, entretanto, se convertera num belo rapaz, tão instruído e sensato, conversador e simpático, que ninguém reparava nas suas grandes orelhas.

E, a partir desse dia, o sol voltou a brilhar sobre o reino, as colheitas foram mais fartas do que nunca, as árvores mais belas, as flores mais cheirosas, os animais mais alegres e brincalhões.

E, à noite, o mais lindo e prateado luar emoldurava aquele quadro de harmonia e felicidade…

 

– Foi uma bela história! Não devemos julgar os outros pelas aparências, pois não mamã?

– Nunca, meu querido. Se ligarmos aos preconceitos, mais tarde ou mais cedo, perderemos a oportunidade de conhecer alguém maravilhoso.

– Boa noite, mamã.

– Bons sonhos, meu amor.

A menina botão de rosa

– Mamã, contas-me uma história?

– Claro, meu amor. Foi há muito, muito tempo…

 

“Havia, numa floresta, uma enorme casa onde vivia um casal de ricos mercadores. Marido e mulher eram muito amigos e, além disso, muito trabalhadores pelo que possuíam uma enorme fortuna. Mas também eram humildes e honestos e tinham conquistado o respeito dos seus amigos e de todos os habitantes das aldeias em redor.

No entanto, uma nuvem de tristeza teimava em manchar tal quadro de felicidade. O casal de mercadores não tinha filhos. Todas as noites, quando se recolhiam ao calor do seu quarto, confortável e ricamente decorado, era ouvir as suas lamentações. Se ao menos tivessem um filho… trocariam, até, toda a sua imensa fortuna se com isso pudessem experimentar a enorme alegria de terem uma criança a quem amar e que os amasse como pais. Nada lhes traria maior felicidade.

Na floresta, e pelos reinos vizinhos, todos conheciam a dor do casal de mercadores. Não havia quem não se condoesse da sua pouca sorte. Tão ricos, tão companheiros um do outro, tão amigos dos seus amigos, enfim, tudo para terem uma vida perfeita e aquela vontade tremenda de terem um filho que teimava em não chegar.

Um dia, passou pela floresta um mendigo faminto e maltrapilho que, ao ver a magnífica casa do casal de mercadores, resolveu tentar a sua sorte e bater à porta. Talvez fossem gente de bem e lhe dessem um caldo quentinho e uma côdea de pão. Bateu à porta e esperou, o coração apertado não fossem aqueles ricos senhores escorraça-lo à vassourada. Mas claro que isso não aconteceu, pois, como já sabemos, o homem e a mulher que ali viviam eram duas pessoas excelentes. Perceberam imediatamente que aquele mendigo mais não era do que um bom homem a quem a vida tinha pregado uma feia partida, pelo que o acolheram. Serviram-lhe um faustoso jantar, vestiram-no e calçaram-no com tudo o que tinham de melhor e convidaram-no a passar ali a noite, ao que o homem acedeu de bom grado. Decidiu-se, então, que partiria apenas pela manhã, depois de um sono reparador e de um belo pequeno-almoço.

Durante o serão, no aconchego do majestoso salão aquecido por uma grande e bela lareira, ficou o mendigo a conhecer a triste sina daquele amável e rico casal de mercadores. Lembrou-se, então, o pobre homem, de uma lenda que tinha ouvido há muitos anos atrás, ainda era ele uma criança que brincava com outras crianças e vivia com os seus pais.

– Que lenda era, mamã?

– Vou contar-te, meu querido.

 

“Contou, então, o mendigo àquele casal de mercadores que há muito, muito tempo atrás tinha ouvido falar de um jardim encantado onde só nasciam rosas; rosas de todas as cores, das mais belas e perfumadas que alguma vez se haviam visto. No tal jardim, havia um único botão de rosa que nunca desabrochava e em cujo interior vivia uma linda menina. Reza a lenda que a menina ficara órfã e tinha sido encantada pela sua fada-madrinha, que ali a colocara para a proteger de outras amarguras da vida, até lhe encontrar uns pais amorosos que se fizessem cargo da sua educação.

            A mulher do mercador sentiu o seu coração saltar do peito, tal o estado de excitação em que ficou. Se conseguissem encontrar aquele jardim encantado, poderiam resgatar a menina e cuidá-la como de uma filha! Quis logo saber onde ficava o jardim. Porém, esse parecia ser o grande problema. Ninguém sabia onde ficava o jardim. Já muitos outros casais desesperados o tinham tentado encontrar e todos haviam desistido da sua busca, sem nunca encontrar tal jardim ou tal menina. Havia, até, quem dissesse que toda aquela história não passava disso mesmo: uma história sem qualquer ponta de verdade.

            Mas o casal de mercadores não quis ouvir mais nada. Venderiam tudo o que não fosse essencial, trocariam a sua bela casa por outra mais humilde, juntariam todo o seu dinheiro, escolheriam a melhor e mais robusta carroça e os seus melhores cavalos, e partiriam o mais rápido possível em busca dessa tão desejada menina.

            Na manhã seguinte, partiu o mendigo e, passados poucos dias, partiu o casal de mercadores na sua fantástica cruzada.

            Muitos anos foram passando. O casal de mercadores tinha gasto todo o seu dinheiro na busca da menina encantada. Tinham vendido a carroça, os cavalos, as melhores roupas, os melhores sapatos, as jóias. Já não tinham o que comer e há muito que se alimentavam de bagas e pequenas folhas. Começavam a sentir o peso do desespero e a pensar que, se calhar, tudo tinha sido, de facto uma grande história daquele mendigo e não existia jardim, coisa nenhuma! A mulher chorava copiosamente, não pelo dinheiro perdido, mas porque perdia, mais uma vez, essa tão querida esperança de ser mãe.

            Sentindo-se exaustos e já sem saber muito bem que rumo tomar- pois parecia que já tinham dado a volta ao mundo dez vezes- marido e mulher abraçaram-se, tremendo de frio, mais parecendo eles, agora, mendigos, as roupas esfrangalhadas, os pés descalços e magoados e rezaram para, pelo menos, terem forças para voltar à humilde casinha que tinham deixado para trás.

Acomodavam-se como podiam no chão frio e húmido de um pequeno jardim que parecia tê-los apanhado no caminho, quando começaram a sentir um leve perfume adocicado a flores. Rosas? Seriam rosas? Sentiram-se exultar de alegria! Eram rosas! Não era o cheiro de uma flor qualquer! Cheirava a rosas! Levantaram-se apalermados e viram, estupefactos, como rosas de todas as cores se abriam mesmo à sua volta, libertando um intenso e maravilhoso odor que os confundia ainda mais. De súbdito, fixaram ambos o olhar num ponto mais distante. Viram uma luz brilhante e um vulto que se materializava um pouco acima do que parecia ser um botão de rosa.

 

– Era a menina, mamã?

– Era, sim, meu amor, e, por cima, a fada-madrinha zelando por ela.

– E o que aconteceu depois, mamã?

– Vou contar-te, meu querido.

 

“Quando o casal de mercadores se aproximou do único botão de rosa que não desabrochara, encontraram a fada. Esta disse-lhes ter esperado por eles, e só por eles todos aqueles anos. Sabia que apenas alguém tão desprovido de riquezas materiais, alguém que não se importasse de abdicar de todos os bens supérfluos, para encontrar algo tão precioso como uma criança, só alguém assim, disse-lhes a fada, poderia ter o direito a educar aquela menina como se fosse sua filha.

Quando a fada terminou de falar, tocou ao de leve no botão de rosa que, imediatamente se abriu, mostrando uma bela menina de faces rosadas e pele tão macia e branca que se confundia, ela própria, com as rosas do jardim. A mulher do mercador tomou-a nos seus braços, chorando de felicidade. Preparava-se para agradecer à fada, mas esta já tinha desaparecido e o casal de mercadores, mais a sua tão desejada filhinha, encontrava-se, agora, como por artes mágicas, na sua floresta junto à humilde casinha que tinham deixado para trás.

À medida que os anos foram passando, a menina foi crescendo feliz junto dos seus queridos pais, que, entretanto, fruto do seu trabalho e do seu bom coração, haviam recuperado grande parte da sua anterior fortuna.

– Foi uma bela história! Devemos fazer os possíveis por alcançar os nossos desejos, mamã?

– Sempre, meu querido, desde que esses desejos sejam nobres e possam enriquecer a nossa vida e a vida daqueles a quem amamos.

– Boa noite, mamã.

– Bons sonhos, meu amor.

10 coisas para fazer este verão

A Cátia Adriano Marques, do Nada acontece por acaso desafiou-me a participar no desafio 10 coisas para fazer este verão. Agradeço à Cátia, até porque devo ser a pessoa menos “blogger” que existe, se não à face da Terra, na comunidade Sapo, seguramente…

Bom, não tinha pensado muito nisso à laia de desafio, mas vou tentar.

Parece que as regras são

_ Agradecer a quem me nomeou, fazendo uma ligação para o respectivo blog.

_ Fazer uma lista de dez coisas que gostaria de fazer este verão e que sejam exequíveis.

_ Nomear cinco bloggers para fazer o mesmo.

 

Aqui vão as minhas 10 coisas a fazer, não necessariamente por esta ordem.

  1. Escrever mais, não apenas no meu blog, mas naqueles três ou quatro projectos que tenho há anos e ainda não saíram do meu computador.
  2. Aprender italiano. Depois de duas viagens a Itália e outras duas passagens por Roma – cidade que me arrebatou o coração e a alma – aprendi a gostar da sonoridade da língua, apesar de não achar os italianos especialmente simpáticos.
  3. Aprender a nadar? Talvez? Prometi ao meu filho que ia tentar perder o medo da água e mentalizar-me para ter aulas de natação. Aos 47 anos, não se avizinha fácil, mas nunca é tarde e uma promessa é uma promessa!
  4. Cuidar da mente. Depois da recente e incrível história das 12 crianças tailandesas e do seu treinador, resgatados depois de todos os vaticinados impossíveis e mais alguns, cresce em mim – mulher das ciências e fã da racionalidade – a convicção que isto da força da mente é mesmo coisa séria.
  5. Continuar a viajar. Adoro. É capaz de ser um dos principais motivos porque tenho imensa pena de não ser rica. Próxima paragem, Istambul. Talvez escreva sobre isso.
  6. Aproveitar a pausa do trabalho para delinear outros projectos profissionais, porque o mundo não pára e o que ontem era impossível, amanhã já foi ultrapassado.
  7. Ler, ler e ler. É nesta altura que devoro todos os livros que fui comprando e não consegui ler até agora. O meu marido desespera com o peso da bagagem, mas eu não consigo ler livros em écrans. Preciso do cheiro e do toque do papel porque, de outra forma, não encaixo na história.
  8. Inscrever-me num ginásio ou usar a máquina que comprei há tempos e cuja principal funcionalidade, até à data, tem sido acumular pó, basicamente...
  9. Valorizar mais as coisas boas da vida, por mais insignificantes que pareçam, como os momentos passados com a família e os amigos.
  10. Rir (ainda) mais!

 

E aqui estão os meus cinco nomeados para o mesmo.

 P.P.

Cheia

Amelices

Fluffyland

Edepoisdos30

 

Que todos os vossos desejos se realizem!

O milagre da vontade.

"Há uma força motriz mais poderosa que o vapor, a electricidade e a energia atómica: a vontade." É uma das minhas frases preferidas. Se dúvidas houvesse quanto à convicção de Albert Einstein, bastava ter estado com os olhos postos nestas treze crianças tailandesas e no seu treinador, nestes últimos dias. E, também, naqueles que se disponibilizaram a ajudá-los.

Contra (quase) todas as expectativas, todos os peritos, todas as opiniões fundamentadas na técnica e na experiência e muitos outros eteceteras, um grupo de pessoas fantásticas protagonizou uma história que tem tanto de assustadora como de electrizante. Porque os “milagres” fazem-se, precisamente, da vontade de todos aqueles que se envolvem de corpo e alma nas tarefas a que se propõem. "Algo só é impossível até que alguém duvide e prove o contrário", terá dito, também, o génio.

Não sei se os meninos e o seu treinador aprenderam ou não a mergulhar, se saíram em macas, se terão sido ou não sedados ou outro tanto de coisas que se disseram nos meios de comunicação social. Mas sei que todos os especialistas, entre psicólogos, mergulhadores e outros técnicos competentes, chamados a dar os seus profissionais pareceres, foram unânimes nas enormes dúvidas em relação ao sucesso desta operação. Esqueceram-se dessa tremenda vontade que molda a alma dos que acreditam e se alimentam desse querer.

Tal como outras vezes, a realidade superou a ficção, mas, desta vez, na forma de um final admiravelmente feliz.

Ao  milagre do resgate, some-se a tremenda onda de solidariedade dos que se juntaram para apoiar as equipas de resgate, os jornalistas e as famílias dos meninos. Numa história feita de coragem, resiliência, persistência, competência e perseverança, a mulher do presidente da câmara de Mae Sai – que é presidente da Cruz Vermelha local – mostrou o que é o verdadeiro serviço público: fez uma “vaquinha” com os elementos da sua equipa e, com dinheiro pessoal, compraram os primeiros mantimentos e começaram a preparar as primeiras refeições. Antes de estar tudo mais organizado. Qualquer semelhança com a realidade de alguns é pura coincidência. Mas, também, tudo nesta história é maravilhosamente inacreditável. 

Seguramente, os sorrisos e a alegria das crianças e das suas famílias estarão também com aquele outro herói que perdeu a vida para ajudar a salvar as suas.