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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Da liberdade de expressão à liberdade de ser idiota

      “El año que viene se cumplen 50 años (supuestamente) que el hombre pisó la Luna. Estoy en una cena con amigos... discutiendo sobre ello. Elevo la tertulia a público! Creéis que se pisó? Yo no!”; palavra de Iker Casillas, que não (?) acredita que o Homem tenha chegado a ir à Lua. Nos la colaron…Confesso que, mesmo para futebolista, é imbecil de mais. Mas, deve ser defeito meu, porque parece que há mais de 40% (entre os que respoderam ao "desafio") de outros imbecis a concordar com o Iker e, desconfio, nem todos jogam à bola.

      Donald Trump também não acredita no aquecimento global. Há quem não acredite que a Terra é redonda. E, aparentemente, cresce o número de pais e mães que não acreditam na vacinação dos filhos como forma de os proteger de doenças graves.

      No caso de Iker Casillas – e, apesar dos futebolistas, em geral, não serem reconhecidos pela grande inteligência, de facto – imagino que ele esteja só de broma. Para ocupar o tempo. Uma espécie de deixem lá ver quantos parvos caem nisto. E, assim, chegámos ao direito à liberdade de expressão. Essa “liberdade de expressão” baseada em palpites de gente semi-famosa, ou em artigos pseudocientíficos entretanto provados como sendo autênticas fraudes, mas a quem é que isso interessa?

    Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão, assim diz o artigo 19º da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Tal-qual! Não há, ali, nadinha que impeça um indivíduo ignorante de propagar a ignorância. A democracia tem destas coisas…O livre arbítrio ao serviço da boçalidade impingida pelas modas das redes sociais, servido em todas as variantes e para todos os gostos, em bandejas de luxo, perdão, de lixo, dos que estarão sempre à mercê desses admiráveis influencers (principalmente) do mundo virtual.

    Para os adeptos das diferentes teorias da conspiração, ao melhor estilo Matrix, repetir uma mentira muitas vezes, ou nem por isso, é quanto basta para torná-la verdade absoluta. A ciência é uma patranha; um logro sofisticado e maquiavélico com o único objectivo de domar a humanidade e vergá-la aos interesses económicos das diferentes indústrias. Os iluminados há muito tomaram o comprimido vermelho e libertaram-se das garras do conhecimento científico para se entregaram aos hunches do momento. Os outros, os que acreditam em factos e que discutem com base em factos, permanecem, coitados, ligados à máquina e submersos nas mais densas trevas…

O Murmúrio da Água

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   O caminho de terra amarelecida serpenteava por entre o tapete verde manchado de folhas secas e estaladiças que, ao pisar, libertavam um intenso cheiro a Outono. As árvores semi-nuas ofereciam, languidamente, os seus ramos à brisa soalheira da tarde que com eles dançava num vibrante e alegre corrupio.

   Caminhava devagar. Acenando aos pássaros e aos esquilos, detendo-se um momento mais nas derradeiras folhas, briosas do seu ar, que teimavam em manter-se agarradas aos caules, viçosas, vermelhas, ostensivamente belas, enchendo o ar de contrastantes perfumes, numa luxuriante orgia de odores intensos. Enquanto as admirava, surgiu-lhe ao caminho um pequeno riacho encimado por uma elegante ponte de madeira, em arco. Surpreendeu-se; nunca, até aí, o vira. Correu para a água clara e cristalina que escorria tranquila sob a romântica ponte e depressa tratou de mergulhar os pés pequenos e delicados naquele manto fresco, brilhante e vivo. Brincou com os seixos, lisos, de diferentes cores, formas e tamanhos, alheia ao passar das horas e às variações das sombras, ora espreitando, ora fugindo, em constante mudança.

   O tempo foi escoando, derramando-se esquivo e sorrateiro até a envolver devagar e suavemente, como uma fina teia de aranha. Alarmada, deu-se conta do inusitado silêncio que pairava no ar. Não se ouviam os pássaros, nem os esquilos. Os arbustos não se agitavam, como antes, e os pavões, que já tinha visto passar arrastando as suas majestosas mantilhas azuis e verdes, pareciam ter existido apenas na sua lembrança.  Como um quadro mal pendurado, subitamente desajustado ao redor, a paisagem alterara-se, transfigurara-se, como uma tela pintada e toscamente sobreposta na mancha verde da floresta. Um arrepio agoirento fê-la levantar, em sobressalto.

   Ergueu os olhos para as copas despidas das árvores. Uma neblina densa ameaçava irromper em fúria por entre os troncos quietos e mudos. Não queria que o fim de tarde, sempre tão adiantado nesta época, a apanhasse ainda no coração daquele bosque encantado. Que imprevidente fora! Teria muito que explicar, quando chegasse a casa!

   Sentiu outro arrepio e uma aragem fria afagou-lhe o rosto, de forma insidiosa e sombria. Antes que pudesse voltar-se, em desassossego, uma escuridão profunda engoliu tudo ao derredor. O chão afundou-se como um mar agitado de tempestade e sentiu-se desfalecer como a chama periclitante de uma vela à mercê de um sopro breve e sinistro, os cachos de cabelo doirado impecavelmente dispersos na água fria da corrente, como nenúfares.

 

 ..

 

   Acordou banhado em suor, esgotado. Ainda a ouvia chorar. Os pesadelos eram, agora, menos frequentes, mas ainda o atormentavam. A imagem do corpo a flutuar no riacho, como uma boneca de trapos, materializava-se, frequentemente, nas suas memórias, desde o dia em que a encontrara.

   Levantou-se e tomou o pequeno-almoço, antes de se perder entre as flores do jardim e as verduras da horta. Havia que preparar as encomendas, pois logo começaria a chegar a freguesia. Deixara de ir à vila para poder dedicar mais tempo à edificação, abnegada, do seu santuário, mas os seus produtos eram frescos e a oferta não era muita, entre os habitantes, pelo que, as pessoas subiam até à ilha, para se abastecerem. Na realidade, muitas vinham impelidas por uma curiosidade mórbida, mas a azáfama fazia-lhe bem. Distraía-o dos sonhos maus e das alucinações constantes dos últimos meses.

   Por vezes, os sussurros tornavam-se insuportáveis e cuidar da terra ajudava-o a manter alguma serenidade. Isso e cuidar do tétrico relicário. Sabia que eram muitos os que o consideravam louco, mas não o incomodavam e ele também não. Desde que o deixassem sozinho com as suas lembranças e as suas bonecas.

   Nos dias mais curtos, notava-a mais inquieta. Os lamentos cresciam e um burburinho de vozes enfurecidas, em uníssono, ameaçavam enlouquecê-lo. As noites tornavam-se demasiado longas, os passos urgentes e desordeiros, ameaçadores. Tapava os ouvidos e entoava as suas preces, baixinho, mas, sabia que precisava de lhe acalmar o espírito, por isso, as recolhia e as usava como ornamentos que outros viam como macabros, mas não ele. Muitas vezes, mais recentemente, costurava-as ele, enchia-as de trapos velhos e dava-lhes forma, embalado pela recordação dos seus cabelos loiros e do corpo franzino de menina.

   O culto tornara-se parte reclamada da sua rotina e surtia efeito. Acalmava-o a ele, mas, sobretudo, apaziguava-a a ela. Não sabia bem quando iniciara, como iniciara, a inusitada jornada. Depois de começar a ouvi-las, seguramente. As vozes. E os passos miúdos e ansiosos, quando deambulava pelo bosque, sozinha, atordoada, pisando as folhas secas e murmurejando as canções de embalar que aprendera da mãe. Pressentir a voz da mãe sempre tivera o poder de a acalentar, como se nenhum mal pudesse medrar desde que fosse capaz de continuar a ouvi-la.

   Nesse dia, acabara de costurar outra linda boneca de trapos. Contemplou-a longamente, admirando a arte que fora aperfeiçoando ao longo do tempo. Era maravilhosa! Encantá-la-ia! Mais do que a última, menos do que a próxima. Assim se ia dando conta do aprimorar da sua obra, a cada etapa, pelo silêncio reparador que se seguia. As longas noites permaneceriam tranquilas durante algumas semanas, cessariam os passos e os murmúrios aflitos e incansáveis. E, desejosamente, deixaria, por algum tempo, de escutar a corrente apressada e caprichosa, implacável como uma tormenta.

   Sim, estava linda! Sabia, exactamente, onde colocá-la, mas, haveria tempo amanhã. Por ora, precisava de descansar e dispor prazerosamente do raro sossego da noite.

 

...

 

   A lua enchia o céu limpo, imenso, derramando a sua luz prateada como um manto de seda macia que escorria, indolente, pela paisagem adormecida.

   Viu-se a entrar na floresta, descalço e obediente, pois há muito que lhe pertencia. Percebia a urgência do seu apelo. Ele também estava muito cansado. Não tinha tanta pressa, mas rendera-se à agonia dela e consumira-se. Chegara a hora e sentia-se em paz.

   A corrente estava calma, desmaiada entre os seixos polidos como um amante saciado. Os pássaros chilreavam em notas aliviadas e harmoniosas, sem o habitual prenúncio de morte, que ironia! Talvez pudesse ficar; cuidando dos esquilos, voando com os colibris e admirando os pavões com as suas magníficas caudas garridas de penas aveludadas. Mas, não. Ela reclamava-o e ele pertencia-lhe desde o instante em que a descobrira, repousando nas águas frias do riacho, como uma eterna e adorável bela adormecida.

   Um calor doce e tranquilizador envolveu-o com deleite. Abandonou-se à volúpia da morte e permitiu-se repousar, por fim.

 

(Inspirado na lenda da ilha das bonecas, México)

 

Pela boca...

…MORRE O PEIXE. Lá diz o ditado. E os ditados, como se sabe, alimentam-se (também) dos vícios e das fraquezas dos Homens.

O problema de apregoar virtudes sem lhes seguir a linha é que, tarde ou cedo, o dissimulado virtuoso há-de tropeçar, com mais ou menos estrondo, derramando, irremediavelmente, toda a sua putrefacta pureza.

 “Ainda não vi ninguém que ame a virtude tanto quanto ama a beleza do corpo”. Pobre Confúcio. Vivesse ele agora e ainda não teria visto ninguém que amasse tanto a virtude quanto ama a sua conta bancária.

A virtude tem destes defeitos. Como a coerência, estão destinadas aos imbecis. É mais prudente não as levar demasiado a sério, não vá dar-se o caso de termos que renunciar a uma magnífica oportunidade de entrarmos para o rol dos privilegiados por uma qualquer convicção chocha que tivemos que defender no passado (mesmo que esse passado não esteja muito longe). Foi assim com a casinha de 600 mil euros de Pablo Iglesias, em Espanha, é assim com o imóvel em Alfama de Ricardo Robles (será do apelido?). Afinal, a perspectiva de lucrar, em pouco mais de quatro anos, 4-vírgula-qualquer-coisa milhões de euros numa transação comercial (legal, legítima e blá, blá, blá, blá…) choca de frente - e de forma muito violenta e dolorosa, diga-se! - com a indignação contra a especulação imobiliária. Como não ser sensível a tantos dígitos? O vereador Ricardo pode continuar a insurgir-se contra a malévola Cristas mais a sua lei, enquanto o (co-)proprietário Robles evoca as mesmas para mostrar, até, benevolência na actualização das suas rendas. Assim uma espécie de Heckel and Jeckel do fantástico mercado imobiliário.

“Quanto à virtude, não basta conhecê-la, devemos tentar também possuí-la e colocá-la em prática.” Ora, essa! Quem disse?

 

Jornalismo poucochinho

“Quem é que paga e quanto é que custa”, (ajudar a salvar uma vida), perguntou, insistentemente e em directo, o jornalista da Sic, Rodrigo Pratas, terça-feira à noite, ao Secretário de Estado da Protecção Civil, José Artur Neves. Face à manifesta falta de vontade e desconforto do visado em responder à questão, naquele contexto, o jornalista puxou da legitimidade daquela.

Os jornalistas têm o inequívoco e incontestável dever de interpelar o poder político, e outros, em relação a todos os temas que dizem respeito à gestão dos cargos exercidos, pagos com dinheiros públicos (de nós todos, portanto!) e, particularmente, no que se prende com gastos e custos, pois com certeza! E, claro, o nosso direito à informação plena e detalhada não deve compadecer-se com incómodos dos interpelados, ora essa! A pergunta é, por isso, legítima. E oportuna, é? Naquele dia?

Teria adorado ver tanta assertividade, tanta transparência e firmeza, por parte da imprensa, em geral, e dos jornalistas, em particular, nas várias entrevistas a tipos como Ricardo Salgado, Zeinal Bava, Henrique Granadeiro, António Mexia e tantos outros que por aí pululam, onde a legitimidade de perguntar e o direito à informação esbarram, tantas vezes, com a deferência patética e a quase vassalagem a quem se julga à margem do justo escrutínio…Talvez, Rodrigo Pratas ainda não tenha tido essa oportunidade.

Monte Encantado

Àquela hora, a atmosfera húmida esculpia as primeiras formas com a habilidade de um maestro regendo uma orquestra viva de cores que envolviam a ilha imortalizada nas inúmeras fotografias que já tinha admirado, muito antes de lá chegar.

A fraca luz solar animava as sombras fantasmagóricas que lambiam demoradamente as paredes da abadia. A maré tinha subido. Furtiva, insidiosa e matreira, cercara o monte, silenciosamente, acariciando-o como uma amante apaixonada e ardilosa e ele, imponente e quedo, sucumbira, uma vez mais, deixando-se arrebatar, resignado.

À sua frente, o rochedo erguia-se imponente e imperturbável, como uma barca sagrada, evocando o demónio que, séculos antes, assumira a forma de um dragão do mar para espalhar o terror e semear a desgraça entre as gentes pobres da região.

Na quietude da sua contemplação profunda, podia ouvir o ondular da Besta; as águas silvando impiedosamente, embalando o monstro na sua pérfida demanda de reinar sobre o seu castelo e tiranizar os seus vassalos, por toda a eternidade.

Fechou os olhos. As preces das velhas subiram de tom. Nas suas vestes andrajosas, vertiam lamúrias, maltrapilhas como elas, que, à força de lágrimas, espalhavam como uma praga por terras agora normandas.

Um clarão dourado e quente perturbou, brevemente, o seu êxtase. O Arcanjo Miguel emergiu das sombras desmaiadas, armado da sua espada redentora, chamado pela urgência aflita das rezas e subjugou o Mal, ordenando-lhe que retornasse às entranhas do mar e de lá não mais voltasse.

Os que assistiram à batalha imaginavam-se, de novo, confundidos pelo Diabo, enredados em mais uma das suas fétidas artimanhas. Demoraram a ceder ao pedido do Arcanjo de, naquele exacto monte, erguer um oratório em sua homenagem.

Sentiu, então, a pressão do dedo do Arcanjo contra a sua testa e abriu os olhos para contemplar a relíquia exposta na Basílica de Saint-Gervais d’Avranches. Afinal, verdade ou mentira, a viagem iniciara-se, apenas, e o encanto do lugar era, com toda a certeza, bem real…

Presumíveis culpados ou a vergonha de ser honesta

Quando alguém atira uma beata de cigarro pela janela do carro que vai à nossa frente ou quando temos que afastar as beatas da areia para estender as toalhas de praia – mesmo naquelas praias que ostentam o típico símbolo de qualidade ambiental – não poucas vezes o meu marido desabafa um resignado “todos os fumadores são porcos até prova em contrário”. Assim mesmo. Em tom depreciativo. Para os porcos, porque, aparentemente, os animais até são limpos, sensíveis e inteligentes. Não os que atiram as beatas para o chão, os outros.

Adiante. Na política e nas elites sociais será mais assim: todos os suspeitos são culpados até prova em contrário. Se não é assim, parece exactamente assim. De José Sócrates a Manuel Pinho, de Armando Vara a Henrique Granadeiro, de Ricardo Salgado a Zeinal Bava, e tantos, mas tantos, etceteras mais que já ninguém acredita numa palavra desta gente.

Quando algum peixe graúdo surge apontado como suspeito ou arguido de qualquer crime, há três coisas que me fazem sempre suspeitar da suposta vontade que manifestam no cabal esclarecimento da verdade: a evocação do eterna e selectivamente violado segredo de justiça, a reclamação da presunção de inocência e a escolha dos doutos advogados de defesa.

Este fim de semana, ler o jornal Expresso e as revistas Visão e Sábado foi um exercício de levar à náusea qualquer pessoa de bem; impróprio para pessoas decentes que, apesar de tudo, ainda existem neste maravilhoso país. Deviam ter sido vendidos com bolinha vermelha acompanhada da indicação as publicações que se seguem contêm notícias susceptíveis de ferir o sentido de honra e decência dos leitores.

Quando se diz que, em Portugal, as pessoas são invejosas em relação a quem tem dinheiro deve ser porque, quando se vê como é que algum dinheiro é ganho, a margem é pouca para acreditar no mérito próprio. Entre as amnésias selectivas, os desconhecimentos súbitos e altamente oportunos, os procedimentos legais-barra-imorais e outras coisas que tais, sobra pouco para o benefício da dúvida e para a tal presunção de inocência. A promiscuidade entre política, negócios e alta finança é tanta e tão descarada que é impossível não desconfiar de toda a gente. E os esquemas estão tão enraizados na nossa maneira de estar que há quem conviva bem com ter uma “casa” recuperada com dinheiro que portugueses de bem (alguns, sabe-se lá com que sacrifício próprio!) reuniram para acudir às vítimas dos acontecimentos mais dramáticos que se viveram em Portugal, no verão passado. Não é nada de mais, certo? Os deputados também dão moradas de casas onde não vivem para poder engordar os ordenados mais um bocadinho e muitos encarregados de educação fornecem moradas falsas para matricular os seus filhos nas melhores escolas. Dir-se-á que não é comparável, é um facto, mas a questão é aceitação do que é errado como sendo normal. Os que entram no esquema são expeditos e inteligentes; os honestos, basicamente, otários e pouco eruditos.

Ser honesto não devia ser motivo de exultação, mas, pelo menos, não devia embaraçar-nos. Ainda assim, aqui há uns anos, vivi uma situação surreal que me fez ter alguma vergonha de ser séria. Encontrei-me com uma amiga na Fnac do Cascaishopping. Enquanto ela não chegava, sentei-me na parte da cafeteria, com um livro que pretendia comprar e comecei a ler, para ocupar o tempo. Quando a minha amiga chegou, trazia um embrulho que me entregou. Era uma T-shirt para o meu filho, pintada com um desenho do filho dela. Uma oferta de afectos. O caso é que coloquei o embrulho em cima do livro (tinham mais ou menos as mesmas dimensões) e fomos ficando por ali, a conversar. Quando, finalmente, saímos as duas da Fnac, nunca mais me lembrei do livro. O alarme, à porta da loja, não soou e só quando voltei a entrar no meu carro e pousei as coisas no banco ao lado é que reparei que saíra sem pagar o livro! Voltei à Fnac para fazer o pagamento e expliquei a situação, desculpando-me. A senhora que me atendeu chamou-me anjinho. Estive para lhe atirar o livro à cabeça. Nunca tinha tido vergonha de ser uma pessoa honrada, mas, parece que tinha sido mais avisado ter seguido o meu caminho. Parece o retrato perfeito da sociedade em que vivemos.

M, de Marrocos!

Sempre que me perguntam aonde ir ou o que visitar em Marrocos, nunca hesito. Fez, Fez, Fez!

Não que seja fácil escolher, para uma visita de poucos dias, o melhor postal ilustrado vivo que irá perdurar na nossa memória retratando aquela viagem que levámos, às vezes, anos a planear. Não sei se porque lá vivi mais de dois anos, porque lá tive a minha primeira casa recém-casada, porque Marrocos é um país de violentos contrastes e partilha histórica com Portugal, são várias as cidades encantadas onde nos podemos perder com enorme e avassaladora paixão. Da cisterna portuguesa em El Jadida à praça Djemaa el Fna, em Marraquexe (a praça dos mortos mais viva de que há memória, suponho!), do hipnotizante pôr-do-Sol em Ouarzazate às estonteantes Gorge du Dadès no Atlas, da graciosidade de Asilah à exuberância de Chefchaouen, da quase sobriedade de Rabat à vibrante Essauira, da mundana Casablanca à elegância de Ifrane (e mais, e mais, e mais!), Marrocos tem um sem número de recantos que exaltam os nossos sentidos. Mas, Fez tem qualquer coisa de mágico que se cola à nossa pele. Parece parada no tempo, ao contrário, por exemplo, de Tânger que, em pouco mais de 20 anos, tornou-se numa cidade verdadeiramente cosmopolita.

A primeira vez que visitei Fez foi em 1997. E quantas memórias guardo! Recém-casada, recém-chegada a Tânger, onde eu e o meu marido tivemos a primeira casa, nunca esqueceremos, eu e ele, a visita nocturna à Medina de Fez. A grande Medina. A de El-Bali, com as suas mais de 700 mesquitas. Se o lugar já parece mágico à luz do dia, torna-se irreal ao luar. As portadas das lojas exibindo toda a sua beleza, as ruas e ruelas sinuosas e estreitas por onde os burros, daí a algumas horas, hão-de passar transportando diferentes mercadorias, as sombras que ora se apressam ora se encolhem à nossa passagem, os assobios da brisa morna lambendo as lânguidas esquinas…e, depois, a visão daquele cavalo possante e belo, negro como a noite, que surgiu do nada num momento fugaz de magnífica graciosidade para logo ser levado pelo garboso cavaleiro, como numa tela de cinema.

Fez, com toda a certeza!

Voltámos a Fez em Março último. Já lá tínhamos estado outras vezes, mas ainda não tínhamos o nosso filhote e, eu especialmente, ansiava por levá-lo a Marrocos. Que conhecesse a rua onde morávamos, em Tânger, os amigos que ainda lá temos e, sobretudo, que visse por si próprio que nem todos os árabes e muçulmanos são criminosos e terroristas. Que percebesse que as crianças são crianças e as árabes e muçulmanas não são tão diferentes dele, a não ser por a maior parte ter menos privilégios. Também queria que o meu filho sentisse isso, para que pudesse perceber melhor, dentro da inocência dos seus 11 anos, porque é que tantos meninos como ele perdem a vida no Mediterrâneo. Como estancar essa sangria alienada, se não podemos acudir a todos nem, tão-pouco, entregá-los à morte, dando de ombros como se o drama não fosse, também, nosso?

Há cerca de 20 anos, era impossível mergulhar na Medina de Fez sem um guia. Agora não. Ou melhor. Não necessariamente. Existem percursos numerados e assinalados com cores diferentes que se podem seguir facilmente. Basta ir de nariz no ar, procurando as pequenas placas suspensas nas ruas da Medina. Desta vez, usámos essa opção, até porque o nosso filho se entusiasmou bastante com a hipótese de ser ele a guiar-nos e foi uma experiência bem divertida. No entanto, continuo a achar mais interessante a opção de contratar um guia local. Há cantinhos que só eles, de facto, conhecem e histórias que só eles sabem contar. Sem isso, a experiência fica incompleta, como fica incompleta sem provar a comida marroquina. No restaurante Clock, bem no coração da Medina de Fez, foi divertido ver como um casal jovem, na mesa ao lado, olhava genuinamente incrédulo para a gula do nosso pequenote que se deliciava com um belo prato de cuscuz de galinha e legumes, enquanto eles se contentavam com um vulgar hambúrguer com batatas fritas.

Com um guia físico ou não, há trilhos imperdíveis, como o bairro dos curtidores, que nos guia pelo cheiro, ou o bairro dos latoeiros que nos guia pelo som. Há, aliás, em Fez, experiências para todos os sentidos.

O Circo dos Beras

As discussões públicas, nomeadamente sobre política e futebol, tornaram-se obscenos circos mediáticos com palco nas principais estações televisivas, mesmo nas ditas de referência. Não faltam, sequer, palhaços de estilos vários, em solo nacional e internacional.

Apresentadores e pivôs de telejornal fazem as honras da casa, com enorme entusiasmo e alarido, estendendo generosamente o tapete vermelho a toda a espécie de demagogos, populistas, mentirosos, corruptos e candidatos a corruptos, chico-espertos e mais outro tanto de artistas que usurparam o país como cadafalso privativo, fazendo dos restantes cidadãos os condenados. Hoje, os corninhos de Manuel Pinho seriam encarados com brandura, quiçá, com humor ou até com bravura.

Inaugurou-se uma forma de estar na política e na vida em que apenas os tolos se podem dar ao luxo de ter rasgos de seriedade e lisura. As elites, essas comportam-se como bandos organizados de arruaceiros envernizados, do chico-esperto mais básico ao finório mais ardiloso e matreiro. De dirigentes políticos a dirigentes desportivos, de ministros e ex-ministros a assessores, da cigarra à formiga, se não todos assim parece, procuram proveitosos fins quaisquer que sejam os meios.

O povo, mercê da voragem vertiginosa das redes sociais, entretém-se em intensas orgias de ódios instantâneos e fugazes repulsas, trocando de alvo como quem troca de par em bailes de swing. Um caderno para menina não pode ser cor-de-rosa sem que isso levante um coro de gritos furiosos, mas um ministro em funções pode acumular ordenados com milhares de euros mensais provenientes de recheados e famosos sacos azuis sem que os Facebooks e os Twitteres se incendeiem. Os que consideram uma aberração que uma avó possa parir um neto são intelectualmente atrasados, egoístas e inclementes com a dor dos que não podem ser pais de outra forma, mas um pedófilo pode continuar em liberdade e a conviver com crianças até serem esgotados todos os recursos, da primeira à última instância, pois é prova de elevado intelecto respeitar a lei até às últimas consequências. Apontar o dedo e duvidar, à margem de decisões judiciais, da idoneidade e honestidade de quem ostensivamente se comporta como embusteiro e larápio revolta as entranhas dos acérrimos defensores do estado de direito e das minudências da lei, mas a raposa, depois de condenada, pode voltar a assenhorar-se do galinheiro que já pilhou sem que, por isso, tremam as redes sociais.

Hoje, é possível mentir, ludibriar, roubar (muito, claro!) sem que isso cause grande alarme social, mas limitar os géneros ao masculino e feminino é motivo de perseguição cerrada pelas brigadas pró-tolerância. As plataformas virtuais censuram e eliminam, implacavelmente, imagens de nus sejam eles a origem da vida ou o terror da guerra, mas, negar o holocausto deve, delicada e elevadamente, enquadrar-se no direito à nossa(?) liberdade de expressão.

Somos implacáveis, mas, apenas quando isso dá likes. De outro modo, a ira esvazia-se. Cada um segue o seu caminho por entre os pingos da chuva. Tomadas de posição, só em massa, a reboque do rebanho e, claro, desde que esteja na moda.

Para não fugir à regra, parece que o último golpe de génio é o aproveitamento da tragédia de Pedrogão Grande. Como não? Segundo a revista Visão, o esquema consiste na alteração das moradas fiscais, já depois da data dos incêndios, para que habitações não permanentes fossem tratadas como primeiras casas - mesmo aquelas onde ninguém vivia há anos. Que valores queremos deixar às nossas crianças e jovens? Dá nojo.

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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Eu Sou Assim

IDADE_Tem dias. ESTADO CIVIL_Muito bem casada. COR PREFERIDA_Cor de burro quando foge. O MEU MAIOR FEITO_O meu filho. O QUE SOU_Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa. IRMÃOS_ Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo. IMPORTANTE NA VIDA_ Saber vivê-la, junto dos amigos e da família. IMPRESCINDÍVEL NA BAGAGEM de FÉRIAS_Livros. SAÚDE_Um bem precioso. DINHEIRO_Para tratar com respeito.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."