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A morte não nos fica bem.

por naomedeemouvidos, em 19.10.18

    As notícias que vão chegando sobre o (praticamente dado como certo) abate e esquartejamento animalesco do jornalista Jamal Khashoggi são mais do que macabras. Drogado, torturado, desmembrado ainda vivo, mergulhado em ácido, eliminado por um esquadrão da morte saudita, tudo parece mais do domínio da ficção policial hardcore; principalmente, do ponto de vista dos países ditos livres e moderados, mesmo que o sejamos cada vez menos. A civilidade em que vivemos está, há muito, ameaçada, é certo, e, ainda assim, tudo me parece demasiado maquiavélico e escabroso.

    Já não parece haver dúvidas de que Khashoggi entrou no consulado da Arábia Saudita, em Istambul, para nunca mais ser visto, a não ser, pelos seus carrascos, implacáveis, mesmo aqueles gostam de ouvir música enquanto trabalham, que a arte serve a todos. A cidade eternizada pela História, romanceada pela lente devota de Ara Güler (falecido há dois dias) e cujo retrato vivo ainda guardo nas minhas memórias de verão, convertida em palco esconso de um assassínio tétrico, anunciado e necessário para calar a crítica contundente e incómoda a um regime opressivo, hipocritamente embalado pelas grandes potencias mundiais, porque imensamente rico (para alguns) e segundo na lista das maiores reservas mundiais de petróleo. Ninguém quer arriscar. Quanto valem, por exemplo, os milhares de milhões de dólares que a Arábia Saudita gasta em armas compradas aos EUA? Seguramente mais do que a vida de um jornalista, que nem sequer era americano. Como a morte (in)útil e a soldo será difícil de justificar e defender abertamente, pode sempre tentar-se, entre outras coisas, atacar o carácter do defunto, não é também o que habitualmente se promove, nestes casos sabujos? O mais provável é que o homem se tenha posto a jeito, esse maravilhoso estatuto que desculpa sempre o recurso à mais vil cobardia e consequente violência.

    Em discursos erráticos e cheios de nada, como sempre, o presidente dos EUA vai dizendo que “não gosta” que se matem jornalistas, ou outros, mesmo que não sejam americanos, é um “terrível precedente”. Mas, também não gosta da “ideia de parar um investimento de 100 mil milhões de dólares, porque “eles” vão pegar nesse dinheiro e vão “gastá-lo na Rússia, na China, ou noutro lugar qualquer”. E, claro, só um louco arriscaria perder um negócio assim, não Donald Trump, seguramente; além disso, ninguém ainda sabe nada sobre o assunto, embora, circulem “por aí histórias bastante más”. Tirando isso, o presidente americano está bastante empenhado “em chegar ao fundo” da questão, tendo, aparentemente, já chegado: Jamal Khashoggi está morto, “isto é mau” e as “consequências devem ser severas”, só ainda não se percebeu que consequências, quão severas e dirigidas a quem. Mas, será que isso interessa substancialmente?

    A política – nacional, internacional – move-se em terrenos cada vez mais obscuros. Cada um – presidentes, ministros, ilustres desconhecidos, eleitores e não eleitores – arroga-se o direito à verdade em causa própria, ao que considera ser os seus factos. E essa verdade, esses factos, facilmente se ajustam, ou à crise, ou à oportunidade do momento. Pode falar-se muito sem dizer absolutamente nada; defender-se, convictamente e sem corar, uma coisa e o seu contrário, no mesmo discuro, até; converter todas as formas de diplomacia em descarada vassalagem; tourear, sem corninhos e com igual mestria, adversários políticos; usar a comunicação social como uma prostituta tão útil quanto descartável. A quem é que importa o rigor da informação? Ditadores e projectos de ditadores inundam as redes sociais de fake news, apenas para que a turba sucumba aos seus propósitos, e depois? Falta pouco ou nada para que já nem mentir seja necessário; bastará cada um servir com mais ou menos requinte aquela que considera (como alguém já disse) a sua verdade; ou, tão somente, a verdade que mais adeptos colher, no calor do momento, para tomar o poder de assalto.

    Mike Pompeo terá aconselhado Trump a esperar mais alguns dias pela versão da Arábia Saudita acerca da morte de Jamal Khashoggi. Aguarda-se, talvez, a conjuntura mais favorável para o mundo acatar a melhor das verdades, de forma mansa e sem comprometer os mais altos interesses das nações.

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publicado às 20:29

Em modo automático.

por naomedeemouvidos, em 19.10.18

          Acabara de chegar. Depois de olhar para o écran que exibia, vagarosamente, a passagem dos números com a indicação do serviço e do balcão, optei por esperar na loja. Queria ir à tesouraria, tinha a senha B15 e, no momento, piscava a B6, pelo que, decidi não arriscar a saída. Tinha um livro como companhia, como sempre. “Quem meteu a mão na caixa”, da Helena Garrido, oferecido pelo meu pai. Sempre que pretende explicar-me algo para o qual acha que não tem competências à altura, o meu pai oferece-me um livro. Quando fiz 15 anos, ofereceu-me “Os Filhos da Droga” e disse-me, “filha, não sei explicar-te isto de outra maneira, por isso, lê”, e eu li; entre os protestos da minha mãe, que sempre foi menos prática, como quem tira um penso rápido com todo o cuidado porque vai doer, em vez de o arrancar à bruta, se vai doer de qualquer maneira ao menos que seja expedito. Mas, isto talvez dê outra história.

                 Sentei-me, guardei a senha e abri o livro.

              Não levava cinco minutos sentada quando uma senhora ocupa a cadeira ao lado da minha. Só levantei os olhos do livro por dois segundos, mas, creio que, não só sempre tive ar de boa ouvinte, como acho que isso se nota à distância, de alguma forma. Pela enésima vez, algures nos meus tempos de espera em serviços públicos, a senhora desata a conversar comigo, como se tivéssemos mais do que sido apresentadas, e não era sequer o caso.

        Percebo que não está sozinha. Vem com o filho, um homem de 40 anos, desempregado há mais de cinco e que, ainda por cima, é um pouco “atrasado”, como me dirá daí a pouco. Vai alertando o filho para estar atento aos números, ela vê mal. É cedo, daqui a pouco já verá um bocadinho melhor, tem que ir habituando a vista e forçando um pouco a pálpebra e, para já, muito contrariada, deve fiar-se do filho. Sossego-a, ainda faltam cinco senhas e eu própria vou olhando e controlando, não se preocupe. O livro já está guardado e ouço-a dizer que já hoje fez duas dúzias de rissóis para a patroa. Ainda não são nove e meia da manhã e não controlo o espanto, a senhora tem, seguramente, mais de 70 anos e a pergunta salta do meu pensamento sem eu dar por isso. “Então, minha querida, como é que não hei-de trabalhar? Tenho 300 euros de reforma, aquele ali (aponta o filho) que não trabalha e um marido que, olhe, é o mesmo que ter outro filho. Tenho dois filhos, é o que é. Ainda hoje saiu para uma consulta e, olhe, nem vale a pena…”. Fico a saber que o patrão, alemão, faleceu há dois anos, que, desde aí, tem mais trabalho, que a patroa viaja imenso e recebe muito, com as meninas, que quase podiam ser todas irmãs, porque são filhas de um primeiro casamento do doutor. Mas são muito amigas dela, sente-se bem a trabalhar na casa, mas tem tido muito trabalho e está muito cansada.

             Continuo a olhar para o écran. Faltam três senhas para o seu número. Faço-lhe saber. Já vê melhor, as letras e os números já têm forma. O filho exalta-se um pouco, não chego a perceber porquê, ela manda-o acalmar-se, como quem sossega um bebé, já está quase, é só mais um bocadinho.

                Prossegue a narrativa. Está muito cansada. Ainda não há muito tempo, desmaiou e ficou de cama durante alguns dias. Um caos. Mostra-me o colo magro e seco e, de repente, o número da sua senha começa a piscar. Vimo-lo ao mesmo tempo, chama o filho e despede-se de mim, tão lesta e precipitada como chegou.

             Fico um pouco atordoada, eu própria esgotada, e é então que percebo que, tão preocupada com não perder a vez da senhora, deixei passar a minha própria vez. Sou a B15 e o monitor mostra já a B17. Levanto-me de um salto, engolindo impropérios, e dirijo-me ao balcão 1. O papelito avisa-me que há uma tolerância de 3 senhas, pelo que, ainda não estou perdida.

            No balcão, alguém está a ser atendido e há uma espécie de porta-retratos de plástico transparente com uma advertência: “Por Favor, Não Interrompa o Atendimento”. Não interrompo. Espero que aquela senhora saia e aproximo-me do balcão. Mostro a senha e digo que me distraí, lamento. A funcionária informa-me que acabou de chamar a senha B18, portanto, já passou a tolerância das três senhas. Passa-me qualquer coisa pela cabeça e faço um esforço para não descer dos saltos e mandá-la à merda. Percebo de integrais e de números de complexos, de funções racionais e irracionais e não percebo da arte de contar três senhas de tolerância. Aponto-lhe o letreiro, salientando o óbvio, se tivesse interrompido o atendimento, ela já não teria tido tempo de premir o botãozinho para chamar o número seguinte, tão indolentes na maioria das vezes, tão diligente naquele dia. A mulher insiste, se chegar o B18, não me poderá atender. Penso na senhora com o filho, no corpo cansado e seco, nos rissóis que já preparou para as meninas ainda a manhã não acabou de se espreguiçar. O B18 não chega e agradeço-lhe baixinho enquanto a mulher ao balcão lá se resigna a atender-me…

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publicado às 11:04



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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