![]()
Bem ou mal, tudo o que aqui está escrito é da autoria de naomedeemouvidos, salvo citações e/ou transcrições devidamente assinaladas, embora, alguns textos "EntreLetras" se baseiem em lendas ou histórias conhecidas.
Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Uma amiga que estimo e que não tenho por fascista, nem sequer por radical, confessou-me o seu voto em Bolsonaro. “O Brasil precisa de uma ditadura”, respondeu perante o meu ar de espanto. E continuou, “o criminoso, no Brasil, já não é um criminoso comum, a vida não vale nada, as ruas estão tomadas pelo crime, é impossível ter uma vida normal, criar os filhos, viver com tranquilidade. Eu não concordo com tudo o que Bolsonaro diz, mas é preciso alguém que contenha a escalada de violência”.
Uma coisa é um fascista defender Bolsonaro. Outra coisa, bem diferente e que tem, obrigatoriamente, de nos pôr a pensar a todos é uma pessoa comum, pacífica, educada, vivendo em função de valores democráticos, considerar que um homem como Bolsonaro pode ser uma solução para o Brasil. Como Donald Trump, para os EUA, e Viktor Orbán, para a Hungria, embora estes não estejam ao nível de Bolsonaro. Ainda?
Vale a pena lembrar que Bolsonaro preferia ter um filho morto do que homossexual; que afirmou que o voto, no Brasil, não mudará nada, só “uma guerra civil, fazendo o trabalho que o regime militar não fez”; que vai “bater” se “vir dois homens se beijando na rua”; que não viola mulheres feias, porque elas não merecem; que o “erro da ditadura foi torturar e não matar”; que os seus filhos foram “muito bem educados” e, portanto, “não correm o risco” de se relacionarem com mulheres negras ou com homossexuais e ele, Bolsonaro, não discute “promiscuidade com quem quer que seja”. Ao quinto filho, Bolsonaro deu “uma fraquejada e veio mulher” e as mulheres devem ganhar menos do que os homens porque engravidam; os índios, ou, alguns deles, deviam “comer capim” para “manter as origens” e os pobres devem ser “esterilizados” como forma de combater a criminalidade e a miséria.
Admitindo que há muitos que votam em Bolsonaro e não partilham destes juízos, como explicar, de facto, a decisão de correr o risco de apoiar um homem como este?
Há quase dois anos, os EUA elegiam Donald Trump como o seu 45º presidente. Poucas semanas, poucos dias!, antes daquele 8 de Novembro de 2016, a grande maioria dos analistas e comentadores políticos, de vários quadrantes e nacionalidades asseguravam que Trump não seria eleito. Era impensável e impossível. E, no entanto, nem mesmo qualquer um dos típicos escândalos – sexuais, financeiros, de interferência política – que já fizeram cair outros candidatos presidenciais e abalaram reputações chegou para abanar Trump, antes ou depois da sua eleição. As instituições que, afiançavam-nos, iriam contrabalançar o poder do presidente dos EUA, eram o garante inabalável do normal funcionamento das instituições democráticas americanas. As convicções informadas, esclarecidas, eruditas, experientes, vão caindo como peças de um dominó populista, demagogo e demoníaco, sem escrúpulos, porque as pessoas estão cansadas, incrédulas e assustadas. E desesperadas!
A imposição de um “politicamento correcto” que nos tornou refém das palavras e minou os debates políticos e sociais; os movimentos activistas que querem promover uma igualdade que apenas oprime diferentes formas de pensar; a exaltação dos direitos das minorias como formas veladas de reeducação em massa das sociedades, confundido a obrigação do respeito pelo outro com a negação da identidade do próprio; a visão romântica e simplista de que todos os problemas sociais são possíveis de resolver com solidariedade e “aceitação”, e a soberania ignorante e descontrolada do logro sofisticado – ou apenas popular – instigado pelas redes sociais, esmagou a verdade, a vontade, a cultura, a civilidade e, pior, a capacidade de reagir e contrariar.
Os políticos sem escrúpulos crescem, estão bem e começam a recomendar-se porque a verdade deixou de ser importante, a justiça deixou de ser cega e os factos passaram a ser, não só alternativos, como moldáveis à vontade de cada um.
O Brasil não sobreviverá a Bolsonaro e eu temo que a Europa sucumba à onda de "segurança" promovida pelo medo.
Hoje, Bolsonaro vai sair vencedor das eleições no Brasil. Ontem Brett Kavanaugh foi confirmado juiz do Supremo Tribunal dos EUA. Na passada semana, Trump gozou (para gáudio do seu público circense) com a mulher que se apresentou, no Senado, como vítima do novo juiz, apesar de ter reconhecido, anteriormente, que o seu depoimento parecia credível. Os famosos checs and balances que todos os entendidos juravam que garantiriam a democracia americana apesar do seu presidente, parecem ruir como castelos de cartas. Pessoas supostamente educadas, esclarecidas e informadas sucumbem aos juízos mais primários, confundindo vontades, desprezando factos e distribuindo insultos por quem tem opinião diferente. O Porto e o Benfica jogam hoje e, como sempre, esse é um tema que ocupa as televisões desde a manhã, porque, em Portugal, só o futebol tem direito a horas e horas de emissões contínuas, porque nada é mais importante para o país. O presidente da Interpol está desaparecido, quiçá, preso pelas autoridades chinesas, mas isso é apenas uma nota de rodapé. A Serra de Sintra voltou a arder. E eu estou zangada.
"Duvidar de tudo ou crer em tudo são duas soluções igualmente cómodas que nos dispensam, ambas, da necessidade de reflectir."
Henri Poincaré, francês, matemático, físico e filósofo.
Nos meus tempos de adolescente, quando comecei a sair à noite, os meus pais davam-me conselhos, como faz a maioria dos pais. Nunca eram proibições porque quem percebe qualquer coisa de miúdos e adolescentes sabe que não vale a pena proibir o que quer que seja. Mesmo os mais sensatos, inteligentes, ponderados, introvertidos e “santos” têm, em algum momento, um deslize só porque sim, porque nunca fazer um disparate também é estúpido e, além disso, cansa.
Nessas saídas nocturnas, também não me era imposta uma hora para chegar a casa. Mas não me era permitido sair todos os fins-de-semana e, enquanto não tive carta de condução, quem me ia buscar a casa tinha que estacionar o carro e subir, temos pena. E, quem me ia buscar, também era responsável por me trazer, mas, eu sabia que se alguma coisa corresse menos bem, ou muito mal, podia ligar ao meu pai para me ir buscar, fosse onde fosse e a que horas fosse. Mesmo que fosse uma amiga, e não eu, a precisar de ajuda, podia contar com o meu pai e com a minha mãe. Foi sempre assim e acho que só nos últimos anos, já na idade adulta e sendo também mãe tenho plena consciência desta sabedoria dos meus pais, já há tantos anos, primeiro comigo e, depois, com a minha irmã.
Entre os conselhos que, nomeadamente, o meu pai me dava estavam o “nunca largues o teu copo”, “nunca aceites bebidas de ninguém”, “prefiro que não fumes, mas, se fumares, eu compro-te os cigarros”, “não vás à casa de banho sozinha” e outras coisas aparentemente tão básicas e, no entanto, tão avisadas e actuais. Nunca, no entanto, me disse o meu pai não vistas essa mini-saia, não uses salto alto, não pintes os lábios de vermelho. E também nunca me disse se fores sedutora com um homem, se aceitares ficar sozinha com ele e te rires coquetemente dos seus disparates, prepara-te, minha filha, porque estás mesmo a pedi-las e se, por acaso, ele te violar, azar, não o tivesses provocado. Mas, lá está, isto era o meu pai que é e sempre foi um homem inteligente, sério e digno, qualidades que parecem cada vez mais raras nos dias de hoje.
Entre os comentários que mais me enojam na desculpabilização de um abusador sexual estão, exactamente, aqueles que estabelecem uma tosca, arbitrária e asquerosa relação de causa-efeito entre o que a vítima veste, diz ou faz e o consequente (?) abuso ou mesmo violação. O circo do momento é defesa incondicional e acéfala de Cristiano Ronaldo, o mítico e inatingível CR7, o atleta de outro planeta, o melhor embaixador do Portugal da moda e a quem, supõe-se pelos comentários de alguns imberbes, as mulheres deviam pagar pelo usufruto da sua magnânima presença e, não, queixar-se de supostas violações. E, é verdade, Cristiano Ronaldo é um atleta fora de série, nada disso está em causa.
Eu não sei – e, parece-me que, ninguém a não ser os próprios – se Cristiano Ronaldo violou ou não Kathryn Mayorga. Mas tenho o mínimo de inteligência para suspeitar, pelo que li no extenso artigo da revista alemã Der Spiegel, que, se a “história é estranha” ou “está mal contada” é mais pelo lado de Ronaldo. A Der Spiegel é uma revista séria e afirma estar na posse de documentos válidos e comprometedores para o atleta, entre outras coisas, que só não sabe quem não quer saber, porque estar informado e tirar conclusões pela sua própria cabeça está fora de moda. É melhor consultar o facebuque e ler caixas de comentários nos jornais que ainda o permitem. É mais fácil, relativamente barato e dá milhões…de likes.
Por outro lado, sabemos que, infelizmente, a justiça não é, de facto, igual para todos; quanto mais não seja, porque só alguns tem capacidade financeira para pagar os honorários quase obscenos dos advogados mais expeditos e ardilosos. Por isso, não é provável que uma mulher desconhecida, com um passado que não é propriamente o de uma freira casta, abnegada e isenta de calores pecaminosos, se atrevesse a acusar um semi-Deus do desporto, adorado e idolatrado, só à procura de fama e de dinheiro. Vamos lá fazer um esforço por não insultar a inteligência de quem tem mais do que dois neurónios e os usa, pasme-se!, para reflectir e duvidar.
E, quando é uma mulher a tecer comentários machistas e a atacar outra mulher, sem conhecimento de causa, num crime hediondo como é o da violação, só me ocorre desejar (apesar de não ser muito católica) que Madeleine K. Albright esteja certa e que o Inferno tenha, realmente, um lugar especial para as mulheres que não ajudam outras mulheres.
Idade - Tem dias.
Estado Civil - Muito bem casada.
Cor preferida - Cor de burro quando foge.
O meu maior feito - O meu filho.
O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.
Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.
Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.
Imprescindível na bagagem de férias - Livros.
Saúde - Um bem precioso.
Dinheiro - Para tratar com respeito.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.