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Isto não é sobre o artigo 13º.

por naomedeemouvidos, em 30.11.18

      Tenho um filho de 11 anos, logo, “conheço” o Wuant. Pelo menos, o fenómeno.

    Perguntei-lhe, ao meu filho, claro, se estava a par do apocalipse anunciado pelo youtuber, como se diz. Ele respondeu que sim e “explicou-me” que não seria só o canal do Wuant a acabar, mas toda a internet; “por causa do artigo 13”. Fiquei aparvalhada. O miúdo “sabia” o que era o artigo 13 e eu andava a leste.

    “E não te preocupa que a internet acabe?”. Encolheu os ombros, e eu não soube se resignado, se astuto, daquela astúcia de que, às vezes, só os miúdos são capazes. Em parte, acho que tenho alguma culpa neste dar de ombros. O meu filho tem, em mim, o exemplo vivo e ilustrado, eventualmente não imitável, de que é possível ser-se absolutamente, constrangedoramente, inapto para as coisas do virtual e, no entanto, viver uma existência muito próxima do actual normal. Talvez, excepto, quando o meu telemóvel ou o meu computador têm acessos momentâneos de mau-humor autónomo, alheios às minhas vontades e necessidades, e eu tenho de o chamar aos gritos, ou quase, para que acuda às minhas aflições. Seja como for, vou resistindo e sobrevivendo.

    Mas, isto não é, de facto, sobre o artigo 13º. Até porque, o tal Wuant não deve ser parvo e o seu canal não é só para meninos. Ou, não era, até agora. O pânico ensaiado (que, li algures, levou crianças às lágrimas…) parece que fez disparar o número de visualizações do tal canal (o Herman, se me lesse, perdoava-me), merecendo, inclusive, uma resposta por parte da represente da Comissão Europeia em Portugal. E o rapaz deve estar orgulhoso da façanha. Não só toda a gente ficou a saber o que é o artigo 13º, o que é bom, como, mesmo quem não tem filhos menores, passou a saber quem é o Wuant, o que, para este, deve ser formidável.

    E, sim, isto vai levar-me aonde eu quero chegar. À questão de como alguns, tantos!, se deixaram sequestrar por esses proclamados e aclamados influenciadores, fazendo depender da sua bênção parte substancial das suas existências, da roupa que devem vestir aos livros que devem ler, dos lugares que devem frequentar, às opiniões que não podem ter. Não me refiro a sugestões, troca de ideias, partilha de experiências ou de diferentes pontos de vista, como é evidente, para quem queira perceber.

    Para mim, as pessoas são quase como os livros. Não consigo ler um livro virtualmente, na insipidez de um écran. Preciso de lhe tocar, de o cheirar, de ouvir o barulho das folhas que murmuram sob os meus dedos e que comigo choram, riem, desconfiam, se desiludem ou, simplesmente, sucumbem à mestria do artista. Com as pessoas, necessito da mesma convivência. Com as devidas correcções, que não gosto de abraçar, muito menos cheirar, toda a gente que conheço, não vão tomar-me por maluca. Mas não entendo a dimensão que assumem algumas relações à distância, sem que os intervenientes se tenham, alguma vez, visto, sentido, abraçado, discordado olhos-nos-olhos, perfeitamente entendido da mesma forma.

    Acho, no entanto, que facilmente podemos criar empatias virtuais. Cheguei aqui completamente desprevenida, cheia de certezas várias e fui apanhada por algumas afinidades inesperadas, dando comigo a perceber que se pode, afinal, ter uma ideia do tipo de pessoa que se esconde por detrás das letras a que dá forma e, por conseguinte, vida. Só não entendo a facilidade com que tanta gente se deixa arrastar para uma realidade que não é sua, procurando na net o conforto e o sentido que poderia encontrar à sua volta, se, simplesmente, quisesse despender o esforço necessário. Sem pressas, sem likes, sem ilusões cheias de nada.

publicado às 15:16

Inocente Perfídia.

por naomedeemouvidos, em 29.11.18

     

    A aia entrou nos aposentos e fez uma ligeira vénia.

    – Mylady, a carruagem está pronta. O senhor vosso pai aguarda-vos.

    Levantou ligeira e discretamente a cabeça para admirar a noiva. Estava linda. A mulher mais bela que alguma vez se havia visto nas cortes da época. Sem dúvida, a mulher mais bela que ela alguma vez conhecera.

 

    Olhou-se ao espelho, uma última vez, demoradamente.

   Vestia um traje riquíssimo, sinal da abastada condição social a que, por direito, pertencia. O vestido, branco como a neve, era bordado com delicados fios de ouro que alastravam pela mais fina seda, desenhando ricas e impetuosas pregas até à orla do decote quadrado, para aí pousarem, acariciando o colo macio e leitoso, prenúncio de desgraça, já, de tantos nobres. Uma faixa de brocado dourado envolvia-lhe a cintura estreita, como o abraço delicado de um amante. No cabelo, sedoso e doirado como uma luminosa manhã de primavera, repartido por duas magníficas tranças, repousava um fino diadema cravejado das mais graciosas, raras e sumptuosas pedras preciosas. O brilho das jóias iluminava a face da noiva tonando-a ainda mais angelical.

    Estava linda, sim. Era quase afortunada.

  Vestira-se ricamente e a rigor para se unir a um homem que não conhecia, cumprindo uma promessa de seu pai. Um acordo político com vista a unir duas partes poderosas do reino, em que o único papel que lhe cabia era o que aquele majestoso espelho lhe devolvia. De momento.

  Esforçou-se por pensar com clareza e com apurado optimismo. Afinal, não era apenas uma mulher admiravelmente bela. Era astuta e, sobretudo, poderosa. Beleza, inteligência e poder. Sim. Talvez também ela tivesse algo a ganhar com a união, ainda que forçada. Por um instante, os seus olhos pareceram encher-se de lágrimas, mas foi apenas um momento fugaz. Por enquanto, só ela se sabia capaz. 

publicado às 09:57

Liberdade de comunicação.

por naomedeemouvidos, em 29.11.18

    Um menino mudo falou com o Papa. Francisco escutou e fez passar uma mensagem sobre o doce encanto de ser "indisciplinadamente livre".

    Não sou lá muito católica, mas acho que a idade nos torna algo lamechas...

 

publicado às 09:07

"E pur si muove..."

por naomedeemouvidos, em 29.11.18

    Também há belas lendas na história das ciências. Uma delas narra Galileu expiando a humilhação numa tímida revelia: obrigado a renegar a verdade científica para escapar à morte na fogueira que a Inquisição mantinha acesa e reservada aos perigosos hereges da época, terá suspendido num sussurro a sua crença mais profunda: “E, no entanto, ela move-se”.

    Quando, nos dias de hoje, observamos os avanços da ciência, porque dela somos parte indissociável, pasmamos com tudo o que ela nos permite, nas mais variadas áreas. Para a ciência, parece não haver impossíveis, antes incompetências inconstantes, passageiras, que se aligeiram com o tempo e com o progresso. Os prodigiosos avanços científicos explicam hoje o que ontem espantava e, amanhã, lançarão luzes sobre as presentes trevas. É assim que o mundo pula e avança, apoiado nos ombros dos gigantes, enormes, sagazes, que, não só sonham, como procuram, questionam e experimentam. Se a ciência o permitir, cedo ou tarde, o Homem alcançá-lo-á.

    A ciência e a religião são totalmente incompatíveis para muitos homens e mulheres da ciência. Peter Atkins reafirmou-o, por estes dias, em Lisboa, como já Stephen Hawking sentenciara que há-de chegar um momento em que não precisaremos de Deus para explicar a origem do Universo.

    Há, no entanto, os que crêem, sem remorsos ou constrangimentos, em Deus e na ciência. E há os que, com inabalável tenacidade e descaramento, crêem na ciência para se aproximarem do papel destinado unicamente, pelos devotos, a Deus.

    O mais recente dos intrépidos é o chinês He Jiankui. “Silenciou” um gene matreiro. E nasceram, parece, os primeiros bebés editados. Geneticamente. Lulu e a Nana possuem agora, eventualmente, a capacidade para resistir a uma futura infecção por VIH. Nunca, até agora, dizem, um investigador tinha conseguido fazer nascer um bebé com genes modificados e o geneticista já fez saber que há um terceiro bebé editado a caminho. A expressão continua a arrepiar, embora, a “edição genética” tenha nome – CRISPR-Cas9 – e haja algum trabalho experimental na área. Mas nada com tanta audácia e ninguém arrisca muitas explicações. Nem o próprio, de momento.

    He Jiankui diz, pelo menos, em público, ser contra o uso da edição genética para melhorar características do ser humano, como a inteligência ou a cor dos olhos. Eventualmente, a beleza, a força física. Mas, se tiver conseguido o que reclama, é capaz de vir a mudar de ideias. Se não for ele, virão outros, mais destemidos, mais arrojados. Já não há fogueiras e, em breve, talvez deixe de haver consciências. Apenas vontades. Nem certas, nem erradas, nem boas, nem más.

publicado às 08:52

Somos o que pensamos?

por naomedeemouvidos, em 27.11.18

    Este sábado, o jornal Expresso dava conta das conclusões de um estudo da Universidade de Cambridge realizado em oito países europeus e nos EUA, acerca da confiança que as populações têm (ou não) nas instituições.

    Os resultados do estudo no que toca a Portugal revelaram que não confiamos nos governos, nem nos militares, jornalistas, sindicalistas ou líderes religiosos. Mas confiamos na ciência, ou, pelo menos, nos cientistas. E, apesar de não darmos demasiado crédito às mentiras veiculadas como falsas notícias, somos, curiosamente, o país onde mais se acredita que existe um grupo que, secretamente, governa o mundo. Tudo segundo a mesma fonte.

    Numa altura em que a mentira domina grande parte – para não dizer todos – dos aspectos mais relevantes da nossa vida em sociedade, saber que não estamos (ainda, e que se mantenha a tendência) prontos a aceitar qualquer coisa que nos impinjam sem alguma dose de desconfiança é animador. Pelo menos, maioritariamente, vamo-nos mantendo a salvo de modas conspirativas anti-ciência; ainda acreditamos nos planos de vacinação, nos perigos das alterações climáticas, que a Terra não é plana, que o Homem chegou à Lua e que a Insight acaba de chegar a Marte. A manifesta descrença que revelámos ter nos políticos e nos jornalistas, por exemplo, ainda não é, aparentemente, suficiente para nos atirar para os braços de um qualquer aspirante a nacionalista-salvador-da-pátria, o que contraria um pouco a tal ideia de um grupo que, secretamente, governa o mundo.

    Se há, actualmente, um enorme desprezo pela verdade – e eu acho que há – o que fazer para que essa verdade se imponha, legitimada que está a mentira, mesmo a mais escabrosa? Mesmo o chamado jornalismo de referência se deixa, muitas vezes, assediar pela conquista fácil de audiências, porque é difícil o equilíbrio entre a notícia do momento e a verificação do seu real estatuto. Entre uma coisa e outra, perderam-se milhares de visualizações e de publicidade fácil. Há que insistir, investigar, escutar, duvidar. Informar. E, apesar de o jornalismo não cumprir, muitas vezes o seu papel como devia, hoje, mais do que nunca, é urgente, é imprescindível, promover o bom jornalismo.

    Não será, nunca, possível acabar com a desinformação, com a calúnia que prolifera como vermes nojentos no lixo servido nas plataformas digitais, onde uma mulher não pode mostrar um mamilo, mas onde há muitos constrangimentos em apagar uma página de incentivo à violência (por exemplo) sempre que aquela tenha muitos milhares de seguidores. Grande audiência igual a muito dinheiro e, para demasiada gente, é o dinheiro e não o sonho que comanda a vida. Quem discorda, faz o que pode para se manter sóbrio. Cá em casa, como só há um aparelho de televisão e está na sala, fazemos os possíveis por chamar a atenção do nosso filho para a importância da informação e, sobretudo, para a sua verdade. Assim, compensamos o sofrimento de ver um episódio do miúdo-maravilha (por acaso, nem é o pior, mas, de momento, não me ocorre outro…) com a “discussão” sobre o telejornal. Lamento, mas o miúdo vê notícias. Mesmo que sejam chocantes, porque, por muito que gostássemos, não controlamos tudo o que os nossos filhos vêem nos telemóveis e nos tablets (sim, temos “controlo-parental”, e…?). Ao vermos juntos, ao conversarmos, ao discutirmos, vamos alertando, instruindo, ensinando a duvidar e, sobretudo, a pensar pela própria cabeça. E, quando ele me pergunta, “mamã, tu não gostas daquele/a senhor/a?”, porque me apanhou a meio de uma crítica furiosa, posso sempre explicar-lhe que, por muito que tentem convencer-nos do contrário, não concordar não é igual a não gostar.

publicado às 12:31

Considerações Avulsas.

por naomedeemouvidos, em 26.11.18

    “Les «gilets jaunes»”. Soprado ao ouvido, de mansinho, podia ser o título de um belo conto infantil. Mas, não. O movimento “pacifista” iniciado nas redes sociais transformou, nos últimos dias, a mais bela avenida do mundo num campo de batalha. A cidade da luz rendeu-se às trevas de uma manifestação violenta que já pouco deve ter que ver com o aumento dos combustíveis ou da carga fiscal em geral. A “culpa é de Macron”. Se fosse fácil encontrar culpados, seria, talvez, mais fácil encontrar soluções. Para uma maioria de vontades, pois que nunca conseguiremos atender a todas.  

 

    O Conselho Europeu aprovou a saída do Reino Unido da União Europeia. Theresa May terá, agora, a tarefa de defender o “bom acordo” perante o Parlamento britânico. É possível que o texto cumpra com o que os eleitores votaram no referendo que disse “SIM!” ao “Brexit”. Mas, quantos britânicos ainda o subscrevem? O que aconteceu aos protagonistas mais empenhados em promover a retirada? Como vão ser as relações entre o Reino Unido e a União Europeia? O que significa, exactamente, a vitória (pequena?, grande?) de Espanha no que diz respeito à questão de Gibraltar? Afinal, o que foi que os britânicos votaram?

 

    A CMTV deve estar prestes a inaugurar um novo modelo de reality show. Um daqueles em que os inquéritos aos vários arguidos, em inúmeros processos mediáticos, passam a ser transmitidos em directo. Uma espécie de “o juiz decide”, mas sem juiz. Ou melhor, em que o juiz somos nós, sentadinhos no sofá da sala.

    Em rodapé, passará a constar os números de telefone em quem votar, consoante a simpatia e/ou o melhor desempenho. Para votar no/a procurador/a ligue o número tal; se prefere o advogado, ligue este número; se o seu favorito é o arguido, ligue aquele. O que a justiça passará a poupar em tempo e em honorários!

 

    Borba continua a chocar-nos. É mais uma desgraça que resulta da incúria que nunca, por cá, tem responsáveis, menos ainda, culpados. Olhamos para as imagens e pensamos como é possível, como foi possível? E há algo de indecoroso na beleza macabra daquela paisagem quando nos alheamos da tragédia, porque ela é nossa, enquanto país, mas, inevitavelmente, não nos fere a todos da mesma maneira.

    Não há “evidência de responsabilidades do Estado”, disse António Costa, sobre o absurdo desastre, mais ou menos, anunciado – o que torna tudo mais aviltante. Já não é só optimismo que é irritante, é a audácia. Não sendo tempo de férias, o primeiro-ministro pode fazer como Graça Fonseca e rumar a Guadalajara para não ter que ver jornais portugueses. Quando voltarem, pode ser que o país esteja bem melhor, quem sabe. O hábil monstro da política não sucumbe, nunca, às misérias das pessoas que compõem a imagem do país moderno que António Costa gosta de exibir para (já não só quem é) inglês ver.

 

    O mundo ficou a saber que, nos EUA, mortes por encomenda são aceitáveis, se praticadas por Estados com muitos, muitos dólares para gastar. Às urtigas a diplomacia estrangeira, os serviços secretos, investigações, relatórios e outros levianos entraves ao bom desenvolvimento das nações. Se Donald Trump pudesse “presidenciar” por mais de dois míseros mandatos, talvez chegasse o tempo em que não fosse necessário falsificar vídeos para afastar jornalistas incómodos; ou ficar acordado até altas horas da manhã para mandar uns tuites aos adversários políticos. Mas, ao ritmo a que normalização do absurdo tem evoluído, oito anos são capazes de ser suficientes…

 

    A sonda InSight aterra hoje em Marte, se tudo correr bem. Se houver vida noutros planetas, que seja mais inteligente do que a nossa.

publicado às 12:20

Nos EUA, pode ser "Bloody Friday", por cá, pode ser "Black Fraud", e as imagens que vemos na telvisão deixam pouco mais à imaginação. Resta-nos observar com horror. Atropelos, insultos, agressões, adultos a arrancarem, literalmente, os ansiados objectos das mãos de crianças inocentes que pais com pouca consciência atraem para o selvagem tumulto...a Humanidade no seu melhor, cujo modelo já começamos a copiar com zelo, que nunca queremos ficar para trás, no que toca à modernidade.

publicado às 19:53

Gesù.

por naomedeemouvidos, em 23.11.18

    Como das outras vezes que o visitara, a invulgar serenidade do lugar permitia que se perdesse tranquilamente na contemplação pura da arte. Imaginava que não podia ser apenas obra de hábeis artífices terrenos; havia, naqueles frescos, naquelas imponentes estátuas de mármore, nos gessos, na perfeita harmonia das cores e das formas, algo de divino, de sobrenatural.

    Inexplicavelmente proscrita dos tradicionais circuitos turísticos, tropeçava-se nela, por acaso. Num passeio ocasional e descontraído, sem se perceber que, depois de a conhecer, jamais seria possível esquecê-la. A simplicidade enganadora da fachada principal não despertava grandes paixões aos transeuntes. Como uma amante ardilosa, permanecia quieta e muda no exterior, enganadoramente tímida e angelical. Era, apenas, quando os mais atrevidos e incautos se deixavam seduzir – num apelo oculto e silencioso – pela sua singeleza, que se expunha, então, em toda a sua volúpia, aprisionando-os para sempre e irremediavelmente numa teia inebriante de avassaladora beleza.

    Passou o umbral da porta e saudou as magníficas capelas, à esquerda e à direita, com os seus maravilhosos altares. Contemplou, pela enésima vez, o caminho de opulente arquitectura e elegante graça que conduzia ao altar-mor. Avivava-se-lhe a memória como se nunca tivesse partido e, ao mesmo tempo, sentia renovada a novidade do espanto que sentiu quando lá entrara pela primeira vez.

    Foi caminhando pela exuberante nave. Viu os dois anjos ajoelhados, os santos mártires, a derrota dos rebeldes e as almas do Purgatório. Viu os anjos do Céu receberem São Francisco Xavier; o massacre dos inocentes, a adoração dos magos, a derrota da heresia que, já antes, como agora, a deixava embrutecida de amoroso pasmo.

    Uma orquestra de reflexos e sombras vertidas pelas escassas entradas de luz animava um fantástico maestro que, com destreza divina, alinhava as cores dos frescos com as formas dos mármores, enchendo de vida as pinturas e as estátuas, numa muda e, ao mesmo tempo, vibrante coreografia. A perfeição espantosa das linhas pintadas tudo parecia tornar vivo; os anjos desciam dos tectos cortejando as imponentes figuras abaixo e, estas, depressa se suavizavam, sucumbindo com deleite ao despudorado namoro, uns e outros alheios aos actores secundários que, arrebatados e em silêncio, disfrutavam do prazer sublime da contemplação. A leve penumbra do espaço ajudava ao êxtase celestial, confundindo mais os espectadores, fundindo os traços pintados com os mármores esculpidos, não se sabendo já onde começavam uns e acabavam outros, uma coexistência perfeita e encantadora.

    Na última capela, à direita, a Madona segurava o menino, por cima do altar. Mas eram, sobretudos, os tectos, pintados com excelsa mestria e arte, que para sempre cativavam os imprudentes intrusos. Contemplá-los era ficar sem fôlego, voltar atrás no tempo, fazer parte das histórias eternizadas nas bíblias em que, ironicamente, não cria. As figuras mexiam-se, embalavam-se e embalavam, o tremeluzir das velas como sussurros soprados ao acaso numa  sinfonia encantada, os gessos pintados em delicadas carícias que confundiam os sentidos em êxtase sequestrados. A perícia da técnica criando deformações ilusórias, simetrias inexistentes e, ainda assim, reais e vertiginosas. Era impossível conter tanta maravilha sem explodir de emoção, contida em cada esboço, em cada detalhe, em cada ardil de inocência eterna e impiedosamente usurpada.

    Passou horas em enlevada admiração, esmagada pela magnânima beleza da igreja desconhecida da mole usual de turistas. Precisava de sair e apanhar ar.

    Lá fora, deixou-se engolir pela multidão em frenesim, esforçando-se por voltar a uma normalidade agitada, mas, urgente e necessária para recuperar a razão de uma existência mundana.

publicado às 18:48

Afinal, "somos animais ou não?"

por naomedeemouvidos, em 22.11.18

"Somos como os macacos, só que temos roupa", e, para quem não sabe, os miúdos explicam nas manhãs da Comercial, no "eu é que sei". A seguir, podem mudar de frequência.

publicado às 11:06

Teorias da conspiração, ou, talvez não...sei.

por naomedeemouvidos, em 22.11.18

    “Há uma conspiração de extrema-direita a nível internacional, muitíssimo bem pensada, bem planeada e que vem sendo executada passo a passo”, assim começava no início deste mês, Miguel Sousa Tavares, uma das suas crónicas semanais no Expresso. E, a seguir, referia que Steve Bannon era, não o único, mas o rosto mais visível dessa insidiosa construção.

    Na altura, perguntei-me se Miguel Sousa Tavares não estaria a exagerar, um pouco ao seu estilo mais ou menos cáustico e, nem sempre, tão isento e impoluto quanto se gostaria, mas, todos temos os nossos pecados e quem não gosta, já sabe o que há-de fazer, que proliferam alternativas, inclusive às alternativas. Adiante. Seguramente, não sou só eu que reparo, mas, alguns cronistas da nossa prolífera e dotada praça mediática entretêm-se, muitas vezes, a mandar recados aos “inimigos” de profissão e de ideologia. Pode ser uma outra crónica, um desabafo num programa de televisão, uma piada radiofónica, enfim, na forma e no meio que estiver mais à mão, ou à boca, e, nisso, não há mal algum. Nem todos gostamos de falar sozinhos, como os malucos, e há dinâmicas bem interessantes. O caso é que, a teoria da conspiração de Miguel Sousa Tavares mereceu uma outra crónica, desta vez, no Observador de um outro autor que, na maioria das vezes, não leio, por nenhuma razão em especial. Acabei por ler por me sentir identificada com a dúvida: Miguel Sousa Tavares tem razão em levantar a suspeita da existência de uma gigantesca e perigosa conspiração, meticulosamente, ardilosamente pensada para usurpar a liberdade e a democracia, ou o senhor é apenas uma vítima da intensidade das suas próprias crenças políticas de proporções cósmicas?

    As duas crónicas vão muito para além desta discussão, eu continuo cheia de dúvidas, mas, lembrei-me de ambas ao ler este artigo e de cujo teor o DN dá conta aqui.

    Não sei se existe ou não uma tentativa concertada para elevar a extrema-direita ao poder, mas, há dias, também li que um em cada quatro europeus admite votar em partidos populistas, cujo número (também li) mais do que triplicou nos últimos 20 anos, e que, "Portugal, Estónia e Letónia são os únicos países da Europa que não elegeram nenhum populista", ainda.

    Também há dias, num jantar com amigos, falávamos dos motivos (alguns deles) que levaram muitos a escolher um presidente como Jair Bolsonaro. Entre outras coisas, surgiu, inevitavelmente, a questão da segurança. “Sabes o que é estares permanentemente atenta à hora de chegada do teu filho da escola? Esperar que ele te ligue a dizer que está tudo bem?”, perguntava-se. Não, não sabemos. Mas, nos EUA, onde o acesso às armas é o que é, também podemos ter o azar, eufemisticamente falando para não endoidecer, de os nossos filhos estarem no lugar errado à hora errada. “Mas, nos EUA, não grassa a impunidade dos criminosos, como no Brasil”, é verdade. “Precisamos de alguém como ele”, para pôr ordem na casa; “se não cumprir o que diz, corremos com ele também!”, o que parece uma estratégia inteligente e, tão ou mais importante, infalível. Não fosse o caso de a História já ter demonstrado que correr com eles pode não ser tão fácil e limpo, como parecia e se esperava. É possível que Donald Trump volte a ganhar as eleições presidenciais em 2020. E se não ganhar?

publicado às 10:36

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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