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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Isto não é sobre o artigo 13º.

      Tenho um filho de 11 anos, logo, “conheço” o Wuant. Pelo menos, o fenómeno.

    Perguntei-lhe, ao meu filho, claro, se estava a par do apocalipse anunciado pelo youtuber, como se diz. Ele respondeu que sim e “explicou-me” que não seria só o canal do Wuant a acabar, mas toda a internet; “por causa do artigo 13”. Fiquei aparvalhada. O miúdo “sabia” o que era o artigo 13 e eu andava a leste.

    “E não te preocupa que a internet acabe?”. Encolheu os ombros, e eu não soube se resignado, se astuto, daquela astúcia de que, às vezes, só os miúdos são capazes. Em parte, acho que tenho alguma culpa neste dar de ombros. O meu filho tem, em mim, o exemplo vivo e ilustrado, eventualmente não imitável, de que é possível ser-se absolutamente, constrangedoramente, inapto para as coisas do virtual e, no entanto, viver uma existência muito próxima do actual normal. Talvez, excepto, quando o meu telemóvel ou o meu computador têm acessos momentâneos de mau-humor autónomo, alheios às minhas vontades e necessidades, e eu tenho de o chamar aos gritos, ou quase, para que acuda às minhas aflições. Seja como for, vou resistindo e sobrevivendo.

    Mas, isto não é, de facto, sobre o artigo 13º. Até porque, o tal Wuant não deve ser parvo e o seu canal não é só para meninos. Ou, não era, até agora. O pânico ensaiado (que, li algures, levou crianças às lágrimas…) parece que fez disparar o número de visualizações do tal canal (o Herman, se me lesse, perdoava-me), merecendo, inclusive, uma resposta por parte da represente da Comissão Europeia em Portugal. E o rapaz deve estar orgulhoso da façanha. Não só toda a gente ficou a saber o que é o artigo 13º, o que é bom, como, mesmo quem não tem filhos menores, passou a saber quem é o Wuant, o que, para este, deve ser formidável.

    E, sim, isto vai levar-me aonde eu quero chegar. À questão de como alguns, tantos!, se deixaram sequestrar por esses proclamados e aclamados influenciadores, fazendo depender da sua bênção parte substancial das suas existências, da roupa que devem vestir aos livros que devem ler, dos lugares que devem frequentar, às opiniões que não podem ter. Não me refiro a sugestões, troca de ideias, partilha de experiências ou de diferentes pontos de vista, como é evidente, para quem queira perceber.

    Para mim, as pessoas são quase como os livros. Não consigo ler um livro virtualmente, na insipidez de um écran. Preciso de lhe tocar, de o cheirar, de ouvir o barulho das folhas que murmuram sob os meus dedos e que comigo choram, riem, desconfiam, se desiludem ou, simplesmente, sucumbem à mestria do artista. Com as pessoas, necessito da mesma convivência. Com as devidas correcções, que não gosto de abraçar, muito menos cheirar, toda a gente que conheço, não vão tomar-me por maluca. Mas não entendo a dimensão que assumem algumas relações à distância, sem que os intervenientes se tenham, alguma vez, visto, sentido, abraçado, discordado olhos-nos-olhos, perfeitamente entendido da mesma forma.

    Acho, no entanto, que facilmente podemos criar empatias virtuais. Cheguei aqui completamente desprevenida, cheia de certezas várias e fui apanhada por algumas afinidades inesperadas, dando comigo a perceber que se pode, afinal, ter uma ideia do tipo de pessoa que se esconde por detrás das letras a que dá forma e, por conseguinte, vida. Só não entendo a facilidade com que tanta gente se deixa arrastar para uma realidade que não é sua, procurando na net o conforto e o sentido que poderia encontrar à sua volta, se, simplesmente, quisesse despender o esforço necessário. Sem pressas, sem likes, sem ilusões cheias de nada.

Inocente Perfídia.

     

    A aia entrou nos aposentos e fez uma ligeira vénia.

    – Mylady, a carruagem está pronta. O senhor vosso pai aguarda-vos.

    Levantou ligeira e discretamente a cabeça para admirar a noiva. Estava linda. A mulher mais bela que alguma vez se havia visto nas cortes da época. Sem dúvida, a mulher mais bela que ela alguma vez conhecera.

 

    Olhou-se ao espelho, uma última vez, demoradamente.

   Vestia um traje riquíssimo, sinal da abastada condição social a que, por direito, pertencia. O vestido, branco como a neve, era bordado com delicados fios de ouro que alastravam pela mais fina seda, desenhando ricas e impetuosas pregas até à orla do decote quadrado, para aí pousarem, acariciando o colo macio e leitoso, prenúncio de desgraça, já, de tantos nobres. Uma faixa de brocado dourado envolvia-lhe a cintura estreita, como o abraço delicado de um amante. No cabelo, sedoso e doirado como uma luminosa manhã de primavera, repartido por duas magníficas tranças, repousava um fino diadema cravejado das mais graciosas, raras e sumptuosas pedras preciosas. O brilho das jóias iluminava a face da noiva tonando-a ainda mais angelical.

    Estava linda, sim. Era quase afortunada.

  Vestira-se ricamente e a rigor para se unir a um homem que não conhecia, cumprindo uma promessa de seu pai. Um acordo político com vista a unir duas partes poderosas do reino, em que o único papel que lhe cabia era o que aquele majestoso espelho lhe devolvia. De momento.

  Esforçou-se por pensar com clareza e com apurado optimismo. Afinal, não era apenas uma mulher admiravelmente bela. Era astuta e, sobretudo, poderosa. Beleza, inteligência e poder. Sim. Talvez também ela tivesse algo a ganhar com a união, ainda que forçada. Por um instante, os seus olhos pareceram encher-se de lágrimas, mas foi apenas um momento fugaz. Por enquanto, só ela se sabia capaz. 

"E pur si muove..."

    Também há belas lendas na história das ciências. Uma delas narra Galileu expiando a humilhação numa tímida revelia: obrigado a renegar a verdade científica para escapar à morte na fogueira que a Inquisição mantinha acesa e reservada aos perigosos hereges da época, terá suspendido num sussurro a sua crença mais profunda: “E, no entanto, ela move-se”.

    Quando, nos dias de hoje, observamos os avanços da ciência, porque dela somos parte indissociável, pasmamos com tudo o que ela nos permite, nas mais variadas áreas. Para a ciência, parece não haver impossíveis, antes incompetências inconstantes, passageiras, que se aligeiram com o tempo e com o progresso. Os prodigiosos avanços científicos explicam hoje o que ontem espantava e, amanhã, lançarão luzes sobre as presentes trevas. É assim que o mundo pula e avança, apoiado nos ombros dos gigantes, enormes, sagazes, que, não só sonham, como procuram, questionam e experimentam. Se a ciência o permitir, cedo ou tarde, o Homem alcançá-lo-á.

    A ciência e a religião são totalmente incompatíveis para muitos homens e mulheres da ciência. Peter Atkins reafirmou-o, por estes dias, em Lisboa, como já Stephen Hawking sentenciara que há-de chegar um momento em que não precisaremos de Deus para explicar a origem do Universo.

    Há, no entanto, os que crêem, sem remorsos ou constrangimentos, em Deus e na ciência. E há os que, com inabalável tenacidade e descaramento, crêem na ciência para se aproximarem do papel destinado unicamente, pelos devotos, a Deus.

    O mais recente dos intrépidos é o chinês He Jiankui. “Silenciou” um gene matreiro. E nasceram, parece, os primeiros bebés editados. Geneticamente. Lulu e a Nana possuem agora, eventualmente, a capacidade para resistir a uma futura infecção por VIH. Nunca, até agora, dizem, um investigador tinha conseguido fazer nascer um bebé com genes modificados e o geneticista já fez saber que há um terceiro bebé editado a caminho. A expressão continua a arrepiar, embora, a “edição genética” tenha nome – CRISPR-Cas9 – e haja algum trabalho experimental na área. Mas nada com tanta audácia e ninguém arrisca muitas explicações. Nem o próprio, de momento.

    He Jiankui diz, pelo menos, em público, ser contra o uso da edição genética para melhorar características do ser humano, como a inteligência ou a cor dos olhos. Eventualmente, a beleza, a força física. Mas, se tiver conseguido o que reclama, é capaz de vir a mudar de ideias. Se não for ele, virão outros, mais destemidos, mais arrojados. Já não há fogueiras e, em breve, talvez deixe de haver consciências. Apenas vontades. Nem certas, nem erradas, nem boas, nem más.

Somos o que pensamos?

    Este sábado, o jornal Expresso dava conta das conclusões de um estudo da Universidade de Cambridge realizado em oito países europeus e nos EUA, acerca da confiança que as populações têm (ou não) nas instituições.

    Os resultados do estudo no que toca a Portugal revelaram que não confiamos nos governos, nem nos militares, jornalistas, sindicalistas ou líderes religiosos. Mas confiamos na ciência, ou, pelo menos, nos cientistas. E, apesar de não darmos demasiado crédito às mentiras veiculadas como falsas notícias, somos, curiosamente, o país onde mais se acredita que existe um grupo que, secretamente, governa o mundo. Tudo segundo a mesma fonte.

    Numa altura em que a mentira domina grande parte – para não dizer todos – dos aspectos mais relevantes da nossa vida em sociedade, saber que não estamos (ainda, e que se mantenha a tendência) prontos a aceitar qualquer coisa que nos impinjam sem alguma dose de desconfiança é animador. Pelo menos, maioritariamente, vamo-nos mantendo a salvo de modas conspirativas anti-ciência; ainda acreditamos nos planos de vacinação, nos perigos das alterações climáticas, que a Terra não é plana, que o Homem chegou à Lua e que a Insight acaba de chegar a Marte. A manifesta descrença que revelámos ter nos políticos e nos jornalistas, por exemplo, ainda não é, aparentemente, suficiente para nos atirar para os braços de um qualquer aspirante a nacionalista-salvador-da-pátria, o que contraria um pouco a tal ideia de um grupo que, secretamente, governa o mundo.

    Se há, actualmente, um enorme desprezo pela verdade – e eu acho que há – o que fazer para que essa verdade se imponha, legitimada que está a mentira, mesmo a mais escabrosa? Mesmo o chamado jornalismo de referência se deixa, muitas vezes, assediar pela conquista fácil de audiências, porque é difícil o equilíbrio entre a notícia do momento e a verificação do seu real estatuto. Entre uma coisa e outra, perderam-se milhares de visualizações e de publicidade fácil. Há que insistir, investigar, escutar, duvidar. Informar. E, apesar de o jornalismo não cumprir, muitas vezes o seu papel como devia, hoje, mais do que nunca, é urgente, é imprescindível, promover o bom jornalismo.

    Não será, nunca, possível acabar com a desinformação, com a calúnia que prolifera como vermes nojentos no lixo servido nas plataformas digitais, onde uma mulher não pode mostrar um mamilo, mas onde há muitos constrangimentos em apagar uma página de incentivo à violência (por exemplo) sempre que aquela tenha muitos milhares de seguidores. Grande audiência igual a muito dinheiro e, para demasiada gente, é o dinheiro e não o sonho que comanda a vida. Quem discorda, faz o que pode para se manter sóbrio. Cá em casa, como só há um aparelho de televisão e está na sala, fazemos os possíveis por chamar a atenção do nosso filho para a importância da informação e, sobretudo, para a sua verdade. Assim, compensamos o sofrimento de ver um episódio do miúdo-maravilha (por acaso, nem é o pior, mas, de momento, não me ocorre outro…) com a “discussão” sobre o telejornal. Lamento, mas o miúdo vê notícias. Mesmo que sejam chocantes, porque, por muito que gostássemos, não controlamos tudo o que os nossos filhos vêem nos telemóveis e nos tablets (sim, temos “controlo-parental”, e…?). Ao vermos juntos, ao conversarmos, ao discutirmos, vamos alertando, instruindo, ensinando a duvidar e, sobretudo, a pensar pela própria cabeça. E, quando ele me pergunta, “mamã, tu não gostas daquele/a senhor/a?”, porque me apanhou a meio de uma crítica furiosa, posso sempre explicar-lhe que, por muito que tentem convencer-nos do contrário, não concordar não é igual a não gostar.

Considerações Avulsas.

    “Les «gilets jaunes»”. Soprado ao ouvido, de mansinho, podia ser o título de um belo conto infantil. Mas, não. O movimento “pacifista” iniciado nas redes sociais transformou, nos últimos dias, a mais bela avenida do mundo num campo de batalha. A cidade da luz rendeu-se às trevas de uma manifestação violenta que já pouco deve ter que ver com o aumento dos combustíveis ou da carga fiscal em geral. A “culpa é de Macron”. Se fosse fácil encontrar culpados, seria, talvez, mais fácil encontrar soluções. Para uma maioria de vontades, pois que nunca conseguiremos atender a todas.  

 

    O Conselho Europeu aprovou a saída do Reino Unido da União Europeia. Theresa May terá, agora, a tarefa de defender o “bom acordo” perante o Parlamento britânico. É possível que o texto cumpra com o que os eleitores votaram no referendo que disse “SIM!” ao “Brexit”. Mas, quantos britânicos ainda o subscrevem? O que aconteceu aos protagonistas mais empenhados em promover a retirada? Como vão ser as relações entre o Reino Unido e a União Europeia? O que significa, exactamente, a vitória (pequena?, grande?) de Espanha no que diz respeito à questão de Gibraltar? Afinal, o que foi que os britânicos votaram?

 

    A CMTV deve estar prestes a inaugurar um novo modelo de reality show. Um daqueles em que os inquéritos aos vários arguidos, em inúmeros processos mediáticos, passam a ser transmitidos em directo. Uma espécie de “o juiz decide”, mas sem juiz. Ou melhor, em que o juiz somos nós, sentadinhos no sofá da sala.

    Em rodapé, passará a constar os números de telefone em quem votar, consoante a simpatia e/ou o melhor desempenho. Para votar no/a procurador/a ligue o número tal; se prefere o advogado, ligue este número; se o seu favorito é o arguido, ligue aquele. O que a justiça passará a poupar em tempo e em honorários!

 

    Borba continua a chocar-nos. É mais uma desgraça que resulta da incúria que nunca, por cá, tem responsáveis, menos ainda, culpados. Olhamos para as imagens e pensamos como é possível, como foi possível? E há algo de indecoroso na beleza macabra daquela paisagem quando nos alheamos da tragédia, porque ela é nossa, enquanto país, mas, inevitavelmente, não nos fere a todos da mesma maneira.

    Não há “evidência de responsabilidades do Estado”, disse António Costa, sobre o absurdo desastre, mais ou menos, anunciado – o que torna tudo mais aviltante. Já não é só optimismo que é irritante, é a audácia. Não sendo tempo de férias, o primeiro-ministro pode fazer como Graça Fonseca e rumar a Guadalajara para não ter que ver jornais portugueses. Quando voltarem, pode ser que o país esteja bem melhor, quem sabe. O hábil monstro da política não sucumbe, nunca, às misérias das pessoas que compõem a imagem do país moderno que António Costa gosta de exibir para (já não só quem é) inglês ver.

 

    O mundo ficou a saber que, nos EUA, mortes por encomenda são aceitáveis, se praticadas por Estados com muitos, muitos dólares para gastar. Às urtigas a diplomacia estrangeira, os serviços secretos, investigações, relatórios e outros levianos entraves ao bom desenvolvimento das nações. Se Donald Trump pudesse “presidenciar” por mais de dois míseros mandatos, talvez chegasse o tempo em que não fosse necessário falsificar vídeos para afastar jornalistas incómodos; ou ficar acordado até altas horas da manhã para mandar uns tuites aos adversários políticos. Mas, ao ritmo a que normalização do absurdo tem evoluído, oito anos são capazes de ser suficientes…

 

    A sonda InSight aterra hoje em Marte, se tudo correr bem. Se houver vida noutros planetas, que seja mais inteligente do que a nossa.

Black Friday, ou o jeito e a arte de nos portamos como selvagens.

Nos EUA, pode ser "Bloody Friday", por cá, pode ser "Black Fraud", e as imagens que vemos na telvisão deixam pouco mais à imaginação. Resta-nos observar com horror. Atropelos, insultos, agressões, adultos a arrancarem, literalmente, os ansiados objectos das mãos de crianças inocentes que pais com pouca consciência atraem para o selvagem tumulto...a Humanidade no seu melhor, cujo modelo já começamos a copiar com zelo, que nunca queremos ficar para trás, no que toca à modernidade.

Gesù.

    Como das outras vezes que o visitara, a invulgar serenidade do lugar permitia que se perdesse tranquilamente na contemplação pura da arte. Imaginava que não podia ser apenas obra de hábeis artífices terrenos; havia, naqueles frescos, naquelas imponentes estátuas de mármore, nos gessos, na perfeita harmonia das cores e das formas, algo de divino, de sobrenatural.

    Inexplicavelmente proscrita dos tradicionais circuitos turísticos, tropeçava-se nela, por acaso. Num passeio ocasional e descontraído, sem se perceber que, depois de a conhecer, jamais seria possível esquecê-la. A simplicidade enganadora da fachada principal não despertava grandes paixões aos transeuntes. Como uma amante ardilosa, permanecia quieta e muda no exterior, enganadoramente tímida e angelical. Era, apenas, quando os mais atrevidos e incautos se deixavam seduzir – num apelo oculto e silencioso – pela sua singeleza, que se expunha, então, em toda a sua volúpia, aprisionando-os para sempre e irremediavelmente numa teia inebriante de avassaladora beleza.

    Passou o umbral da porta e saudou as magníficas capelas, à esquerda e à direita, com os seus maravilhosos altares. Contemplou, pela enésima vez, o caminho de opulente arquitectura e elegante graça que conduzia ao altar-mor. Avivava-se-lhe a memória como se nunca tivesse partido e, ao mesmo tempo, sentia renovada a novidade do espanto que sentiu quando lá entrara pela primeira vez.

    Foi caminhando pela exuberante nave. Viu os dois anjos ajoelhados, os santos mártires, a derrota dos rebeldes e as almas do Purgatório. Viu os anjos do Céu receberem São Francisco Xavier; o massacre dos inocentes, a adoração dos magos, a derrota da heresia que, já antes, como agora, a deixava embrutecida de amoroso pasmo.

    Uma orquestra de reflexos e sombras vertidas pelas escassas entradas de luz animava um fantástico maestro que, com destreza divina, alinhava as cores dos frescos com as formas dos mármores, enchendo de vida as pinturas e as estátuas, numa muda e, ao mesmo tempo, vibrante coreografia. A perfeição espantosa das linhas pintadas tudo parecia tornar vivo; os anjos desciam dos tectos cortejando as imponentes figuras abaixo e, estas, depressa se suavizavam, sucumbindo com deleite ao despudorado namoro, uns e outros alheios aos actores secundários que, arrebatados e em silêncio, disfrutavam do prazer sublime da contemplação. A leve penumbra do espaço ajudava ao êxtase celestial, confundindo mais os espectadores, fundindo os traços pintados com os mármores esculpidos, não se sabendo já onde começavam uns e acabavam outros, uma coexistência perfeita e encantadora.

    Na última capela, à direita, a Madona segurava o menino, por cima do altar. Mas eram, sobretudos, os tectos, pintados com excelsa mestria e arte, que para sempre cativavam os imprudentes intrusos. Contemplá-los era ficar sem fôlego, voltar atrás no tempo, fazer parte das histórias eternizadas nas bíblias em que, ironicamente, não cria. As figuras mexiam-se, embalavam-se e embalavam, o tremeluzir das velas como sussurros soprados ao acaso numa  sinfonia encantada, os gessos pintados em delicadas carícias que confundiam os sentidos em êxtase sequestrados. A perícia da técnica criando deformações ilusórias, simetrias inexistentes e, ainda assim, reais e vertiginosas. Era impossível conter tanta maravilha sem explodir de emoção, contida em cada esboço, em cada detalhe, em cada ardil de inocência eterna e impiedosamente usurpada.

    Passou horas em enlevada admiração, esmagada pela magnânima beleza da igreja desconhecida da mole usual de turistas. Precisava de sair e apanhar ar.

    Lá fora, deixou-se engolir pela multidão em frenesim, esforçando-se por voltar a uma normalidade agitada, mas, urgente e necessária para recuperar a razão de uma existência mundana.

Chumbos, e outros ardis.

    A discussão é antiga e recorrente: acabar ou não com os chumbos, acabar ou não com os exames nacionais. Recentemente, somou-se outra: eliminar ou não (e, para já) o 2º ciclo de ensino.

    Há professores totalmente contra a retenção de alunos, pelo menos, até ao chamado 3º ciclo (até ao 9º ano), e há professores a quem não choca a retenção de um aluno que não atingiu os chamados objectivos mínimos para transitar para o ano seguinte. Independentemente da opinião ou da posição do professor ou professora, quem está no terreno, como é costume dizer-se, sabe que, na prática – pelo menos, no que diz respeito aos anos entre o 5º e o 9º – não é fácil reter um aluno, mesmo nos casos em que aquele tem muitas negativas, para usar uma linguagem fácil. Não acho que haja propriamente, uma cultura de retenção, a não ser, considerando que todos os alunos deviam passar de ano automaticamente, o que está longe de ser consensual. Cada professor, em conselho de turma, pode ver a “sua” nota votada pelos seus pares e alterada por decisão da maioria, conduzindo, por vezes, a situações de enorme alheamento com o cumprimento dos tais objectivos mínimos. Aconteceu-me muitas vezes e sei que continua a ocorrer.

    Há cerca de doze anos deixei o ensino dito normal e optei por trabalhar, exclusivamente, com explicações particulares, nomeadamente, na preparação para exames nacionais dos alunos do ensino secundário (10º, 11º e 12º anos). Penso que, por isso, por já não estar tão perto do ensino regular, não tenho, actualmente, uma opinião tão vincada sobre as vantagens, ou não, de eliminar de vez a possibilidade de reter um aluno. Estou convencida de que nenhum professor tem qualquer tipo de interesse em chumbar um seu discente. Da forma como eu – e muitíssimos outros professores – vejo a arte de ensinar, o sucesso dos meus alunos é o meu próprio sucesso. Quando eles falham, eu sinto que falho também, sob algum aspecto. Mas, não entendo bem como uma espécie de transição administrativa pode coabitar com o nosso sistema de ensino actual, nomeadamente, com a forma como os professores são colocados nas escolas públicas, que não têm competência nem autonomia para escolher os mais capazes. Na matemática, por exemplo, uma fatia significativa de alunos chega ao 12º ano sem entender plenamente o conceito de função (que começa a ser estudado no 7º ano), cometendo erros básicos na análise e interpretação de gráficos. Ora, não sendo todos os professores incompetentes, nem todos os alunos pouco dotados, há algo de muito errado na forma como se promove a transmissão de conhecimentos. Poderia enumerar um rol bastante extenso e composto de outros exemplos que os professores de matemática conhecem de cor. 

    Por outro lado, começa a discutir-se se a eliminação do chamado 2º ciclo traria benefícios na consolidação das competências adquiridas pelos alunos mais novos, tendo em conta a elevada taxa de retenção no 5º ano. Passar-se-ia para um (primeiro) ciclo único de 6 anos, nos quais deixaria de haver a passagem abrupta de um professor para vários professores e de diferentes “áreas de saber” para várias disciplinas, minimizando o impacto que essa mudança possa ter no processo de aprendizagem. Mas, essa alteração mexe, por exemplo, no número de professores necessários para organizar esse possível ciclo único. Como ponderar essa realidade? Como reagiriam os sindicatos de professores, se um processo de alteração profunda da organização destes anos de ensino diminuísse significativamente o número de professores colocados? E seria esse o caminho para a diminuição do número de chumbos?

    A outra questão importante, prende-se com o modelo de acesso ao ensino superior, nomeadamente, o excessivo peso das notas dos exames nacionais. Os alunos e os professores focam-se, obcessivamente, na preparação do exame, descurando um processo de aprendizagem mais autónomo, onde a consolidação dos conceitos-base pudesse assumir maior relevo e traduzir-se, assim, em maior sucesso escolar. A questão não seria, propriamente, acabar com os exames nacionais, mas eliminá-los como factor diferenciador no acesso ao ensino superior, dando autonomia às Universidades para fazerem a sua selecção de alunos.

    Talvez seja absurdamente excessivo e profundamente injusto o peso que a nota de exame nacional tem na avaliação final e na média de acesso ao ensino superior. Daquilo que conheço ao nível dos exames nacionais de Física e Química A e Matemática A, que são as áreas em que trabalho, há, realmente, três absurdos: o grau de dificuldade absolutamente despropositado de alguns exercícios, muitas vezes, em forte oposição com as orientações programáticas; os próprios critérios de correcção elaborados pelo IAVE e a falta de autonomia na análise científica por parte dos professores correctores. Neste último – e no caso em que as respostas envolvem a elaboração de pequenos textos – há, não poucas vezes, erros grosseiros de correcção porque a resposta não é exactamente igual à proposta. Todos os anos, sem excepção, faço argumentações científicas para pedidos de reapreciação de provas de exame dos meus explicandos, principalmente, na disciplina de Física e Química A (em Matemática A não é tão comum), que seriam completamente desnecessárias, se corrigidas com rigor científico e não com uma aplicação acrítica de critérios de correcção. Chega-se ao absurdo de, num ano, se considerar “incompleta” uma resposta igual, a uma pergunta igual de há uns anos atrás (aconteceu no exame de FQA de 2018, da 2ª fase, em comparação com uma pergunta idêntica no exame de 2009, por exemplo).

    Por motivos profissionais, também conheço bem os exames de física, química e matemática de programas ingleses e espanhóis e que não têm, nem de perto, o grau de dificuldade dos nossos. Não tanto ao nível da aplicação de conceitos, mas da interpretação dos enunciados. Naqueles, a generalidade das perguntas são directas, claras, objectivas. Eventualmente, surge um exercício de dificuldade acima da média para o que se chama (meio a sério, meio a brincar) distinguir o aluno de vinte. Nos nossos exames nacionais, não raras vezes, o conjunto de perguntas não permite a um aluno médio manter a sua nota interna, e não estou a referir-me a situações em que as classificações são inflacionadas na respectiva escola. E continuo a referir-me exclusivamente aos exames das disciplinas que conheço.

    Tanto ou mais do que ensinar conteúdos e conceitos - e, sobretudo, a pensar e a ter espírito crítico - vemo-nos obrigados a ensinar os alunos a resolver exames nacionais, o que, sendo importante, não devia sobrepor-se às próprias competências académicas desses alunos. E há nisto algo de perturbador.

 

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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