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Vamos acabar com a praxe?

por naomedeemouvidos, em 02.11.18

    Entrei para a FCUP já lá vão quase 30 anos! Fui praxada e praxei. Nunca me senti humilhada, seguramente, e penso que nunca humilhei ninguém. A praxe, pelo menos o que dela conheci, consistia numa série de brincadeiras parvas e inofensivas, em que participava quem queria (aliás, era, no meu curso, a primeira coisa que se perguntava aos caloiros) e que, invariavelmente, terminava nas caves, em Gaia. E, aqui, os únicos que gozavam do direito de se embebedarem, se quisessem, eram os “doutores”. Por opção. O sofrimento imposto aos caloiros era roubar-lhes os copos de vinho do Porto das provas que nos concediam. Aos desgraçados apenas estava permitido cheirar, sonhar e aguardar pelo ano seguinte, quando chegaria a sua vez. O insulto mais ofensivo era chamar besta a um caloiro. Provavelmente, no castrador e agoniante politicamente correcto de hoje, até essa praxe era selvagem e aviltante. Acredito. E acredito que já nessa altura se cometiam excessos. Pessoalmente, nunca me senti diminuída como caloira e nunca diminuí ninguém, como doutora. Os padrinhos e as madrinhas que aí se arranjavam tornavam-se, não raramente, amigos dos seus protegidos e alguém a quem se recorria em caso de aflições académicas, mesmo das mais inocentes, como pedir apontamentos e outros materiais de estudo. Não eramos santos, mas, em geral, a praxe não servia para alimentar a sede de selvajaria pura e bruta.

    Há 30 anos, fui praxada e praxei. E, hoje, vou instruindo o meu filho para que não se deixe praxar. Em circunstância alguma e, isso, inclui a faculdade se, por sua vontade, lá quiser entrar. As praxes tornaram-se um nojento exercício de poder e sujeição que, não poucas vezes, termina em crime. Às vezes, em morte. Na alucinação dos tempos que correm, onde tudo vale para angariar seguidores, likes, visualizações e um ror de coisas mais, onde a crueldade e a falta de empatia passam incólumes, senão mesmo, celebradas, hoje, a praxe tornou-se abjecta, obscena e criminosa. Serve, pura e simplesmente, para entreter as hordas merdosas e bafientas. Humilhar, porque sim; porque posso e gosto muito.

    Hoje, mudei de ideias. Acho que, simplesmente, devíamos acabar com a praxe.

publicado às 20:06



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

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