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Nos EUA, pode ser "Bloody Friday", por cá, pode ser "Black Fraud", e as imagens que vemos na telvisão deixam pouco mais à imaginação. Resta-nos observar com horror. Atropelos, insultos, agressões, adultos a arrancarem, literalmente, os ansiados objectos das mãos de crianças inocentes que pais com pouca consciência atraem para o selvagem tumulto...a Humanidade no seu melhor, cujo modelo já começamos a copiar com zelo, que nunca queremos ficar para trás, no que toca à modernidade.

publicado às 19:53

Gesù.

por naomedeemouvidos, em 23.11.18

    Como das outras vezes que o visitara, a invulgar serenidade do lugar permitia que se perdesse tranquilamente na contemplação pura da arte. Imaginava que não podia ser apenas obra de hábeis artífices terrenos; havia, naqueles frescos, naquelas imponentes estátuas de mármore, nos gessos, na perfeita harmonia das cores e das formas, algo de divino, de sobrenatural.

    Inexplicavelmente proscrita dos tradicionais circuitos turísticos, tropeçava-se nela, por acaso. Num passeio ocasional e descontraído, sem se perceber que, depois de a conhecer, jamais seria possível esquecê-la. A simplicidade enganadora da fachada principal não despertava grandes paixões aos transeuntes. Como uma amante ardilosa, permanecia quieta e muda no exterior, enganadoramente tímida e angelical. Era, apenas, quando os mais atrevidos e incautos se deixavam seduzir – num apelo oculto e silencioso – pela sua singeleza, que se expunha, então, em toda a sua volúpia, aprisionando-os para sempre e irremediavelmente numa teia inebriante de avassaladora beleza.

    Passou o umbral da porta e saudou as magníficas capelas, à esquerda e à direita, com os seus maravilhosos altares. Contemplou, pela enésima vez, o caminho de opulente arquitectura e elegante graça que conduzia ao altar-mor. Avivava-se-lhe a memória como se nunca tivesse partido e, ao mesmo tempo, sentia renovada a novidade do espanto que sentiu quando lá entrara pela primeira vez.

    Foi caminhando pela exuberante nave. Viu os dois anjos ajoelhados, os santos mártires, a derrota dos rebeldes e as almas do Purgatório. Viu os anjos do Céu receberem São Francisco Xavier; o massacre dos inocentes, a adoração dos magos, a derrota da heresia que, já antes, como agora, a deixava embrutecida de amoroso pasmo.

    Uma orquestra de reflexos e sombras vertidas pelas escassas entradas de luz animava um fantástico maestro que, com destreza divina, alinhava as cores dos frescos com as formas dos mármores, enchendo de vida as pinturas e as estátuas, numa muda e, ao mesmo tempo, vibrante coreografia. A perfeição espantosa das linhas pintadas tudo parecia tornar vivo; os anjos desciam dos tectos cortejando as imponentes figuras abaixo e, estas, depressa se suavizavam, sucumbindo com deleite ao despudorado namoro, uns e outros alheios aos actores secundários que, arrebatados e em silêncio, disfrutavam do prazer sublime da contemplação. A leve penumbra do espaço ajudava ao êxtase celestial, confundindo mais os espectadores, fundindo os traços pintados com os mármores esculpidos, não se sabendo já onde começavam uns e acabavam outros, uma coexistência perfeita e encantadora.

    Na última capela, à direita, a Madona segurava o menino, por cima do altar. Mas eram, sobretudos, os tectos, pintados com excelsa mestria e arte, que para sempre cativavam os imprudentes intrusos. Contemplá-los era ficar sem fôlego, voltar atrás no tempo, fazer parte das histórias eternizadas nas bíblias em que, ironicamente, não cria. As figuras mexiam-se, embalavam-se e embalavam, o tremeluzir das velas como sussurros soprados ao acaso numa  sinfonia encantada, os gessos pintados em delicadas carícias que confundiam os sentidos em êxtase sequestrados. A perícia da técnica criando deformações ilusórias, simetrias inexistentes e, ainda assim, reais e vertiginosas. Era impossível conter tanta maravilha sem explodir de emoção, contida em cada esboço, em cada detalhe, em cada ardil de inocência eterna e impiedosamente usurpada.

    Passou horas em enlevada admiração, esmagada pela magnânima beleza da igreja desconhecida da mole usual de turistas. Precisava de sair e apanhar ar.

    Lá fora, deixou-se engolir pela multidão em frenesim, esforçando-se por voltar a uma normalidade agitada, mas, urgente e necessária para recuperar a razão de uma existência mundana.

publicado às 18:48

Chumbos, e outros ardis.

por naomedeemouvidos, em 23.11.18

    A discussão é antiga e recorrente: acabar ou não com os chumbos, acabar ou não com os exames nacionais. Recentemente, somou-se outra: eliminar ou não (e, para já) o 2º ciclo de ensino.

    Há professores totalmente contra a retenção de alunos, pelo menos, até ao chamado 3º ciclo (até ao 9º ano), e há professores a quem não choca a retenção de um aluno que não atingiu os chamados objectivos mínimos para transitar para o ano seguinte. Independentemente da opinião ou da posição do professor ou professora, quem está no terreno, como é costume dizer-se, sabe que, na prática – pelo menos, no que diz respeito aos anos entre o 5º e o 9º – não é fácil reter um aluno, mesmo nos casos em que aquele tem muitas negativas, para usar uma linguagem fácil. Não acho que haja propriamente, uma cultura de retenção, a não ser, considerando que todos os alunos deviam passar de ano automaticamente, o que está longe de ser consensual. Cada professor, em conselho de turma, pode ver a “sua” nota votada pelos seus pares e alterada por decisão da maioria, conduzindo, por vezes, a situações de enorme alheamento com o cumprimento dos tais objectivos mínimos. Aconteceu-me muitas vezes e sei que continua a ocorrer.

    Há cerca de doze anos deixei o ensino dito normal e optei por trabalhar, exclusivamente, com explicações particulares, nomeadamente, na preparação para exames nacionais dos alunos do ensino secundário (10º, 11º e 12º anos). Penso que, por isso, por já não estar tão perto do ensino regular, não tenho, actualmente, uma opinião tão vincada sobre as vantagens, ou não, de eliminar de vez a possibilidade de reter um aluno. Estou convencida de que nenhum professor tem qualquer tipo de interesse em chumbar um seu discente. Da forma como eu – e muitíssimos outros professores – vejo a arte de ensinar, o sucesso dos meus alunos é o meu próprio sucesso. Quando eles falham, eu sinto que falho também, sob algum aspecto. Mas, não entendo bem como uma espécie de transição administrativa pode coabitar com o nosso sistema de ensino actual, nomeadamente, com a forma como os professores são colocados nas escolas públicas, que não têm competência nem autonomia para escolher os mais capazes. Na matemática, por exemplo, uma fatia significativa de alunos chega ao 12º ano sem entender plenamente o conceito de função (que começa a ser estudado no 7º ano), cometendo erros básicos na análise e interpretação de gráficos. Ora, não sendo todos os professores incompetentes, nem todos os alunos pouco dotados, há algo de muito errado na forma como se promove a transmissão de conhecimentos. Poderia enumerar um rol bastante extenso e composto de outros exemplos que os professores de matemática conhecem de cor. 

    Por outro lado, começa a discutir-se se a eliminação do chamado 2º ciclo traria benefícios na consolidação das competências adquiridas pelos alunos mais novos, tendo em conta a elevada taxa de retenção no 5º ano. Passar-se-ia para um (primeiro) ciclo único de 6 anos, nos quais deixaria de haver a passagem abrupta de um professor para vários professores e de diferentes “áreas de saber” para várias disciplinas, minimizando o impacto que essa mudança possa ter no processo de aprendizagem. Mas, essa alteração mexe, por exemplo, no número de professores necessários para organizar esse possível ciclo único. Como ponderar essa realidade? Como reagiriam os sindicatos de professores, se um processo de alteração profunda da organização destes anos de ensino diminuísse significativamente o número de professores colocados? E seria esse o caminho para a diminuição do número de chumbos?

    A outra questão importante, prende-se com o modelo de acesso ao ensino superior, nomeadamente, o excessivo peso das notas dos exames nacionais. Os alunos e os professores focam-se, obcessivamente, na preparação do exame, descurando um processo de aprendizagem mais autónomo, onde a consolidação dos conceitos-base pudesse assumir maior relevo e traduzir-se, assim, em maior sucesso escolar. A questão não seria, propriamente, acabar com os exames nacionais, mas eliminá-los como factor diferenciador no acesso ao ensino superior, dando autonomia às Universidades para fazerem a sua selecção de alunos.

    Talvez seja absurdamente excessivo e profundamente injusto o peso que a nota de exame nacional tem na avaliação final e na média de acesso ao ensino superior. Daquilo que conheço ao nível dos exames nacionais de Física e Química A e Matemática A, que são as áreas em que trabalho, há, realmente, três absurdos: o grau de dificuldade absolutamente despropositado de alguns exercícios, muitas vezes, em forte oposição com as orientações programáticas; os próprios critérios de correcção elaborados pelo IAVE e a falta de autonomia na análise científica por parte dos professores correctores. Neste último – e no caso em que as respostas envolvem a elaboração de pequenos textos – há, não poucas vezes, erros grosseiros de correcção porque a resposta não é exactamente igual à proposta. Todos os anos, sem excepção, faço argumentações científicas para pedidos de reapreciação de provas de exame dos meus explicandos, principalmente, na disciplina de Física e Química A (em Matemática A não é tão comum), que seriam completamente desnecessárias, se corrigidas com rigor científico e não com uma aplicação acrítica de critérios de correcção. Chega-se ao absurdo de, num ano, se considerar “incompleta” uma resposta igual, a uma pergunta igual de há uns anos atrás (aconteceu no exame de FQA de 2018, da 2ª fase, em comparação com uma pergunta idêntica no exame de 2009, por exemplo).

    Por motivos profissionais, também conheço bem os exames de física, química e matemática de programas ingleses e espanhóis e que não têm, nem de perto, o grau de dificuldade dos nossos. Não tanto ao nível da aplicação de conceitos, mas da interpretação dos enunciados. Naqueles, a generalidade das perguntas são directas, claras, objectivas. Eventualmente, surge um exercício de dificuldade acima da média para o que se chama (meio a sério, meio a brincar) distinguir o aluno de vinte. Nos nossos exames nacionais, não raras vezes, o conjunto de perguntas não permite a um aluno médio manter a sua nota interna, e não estou a referir-me a situações em que as classificações são inflacionadas na respectiva escola. E continuo a referir-me exclusivamente aos exames das disciplinas que conheço.

    Tanto ou mais do que ensinar conteúdos e conceitos - e, sobretudo, a pensar e a ter espírito crítico - vemo-nos obrigados a ensinar os alunos a resolver exames nacionais, o que, sendo importante, não devia sobrepor-se às próprias competências académicas desses alunos. E há nisto algo de perturbador.

 

publicado às 08:44



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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