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Teorias da conspiração, ou, talvez não...sei.

por naomedeemouvidos, em 22.11.18

    “Há uma conspiração de extrema-direita a nível internacional, muitíssimo bem pensada, bem planeada e que vem sendo executada passo a passo”, assim começava no início deste mês, Miguel Sousa Tavares, uma das suas crónicas semanais no Expresso. E, a seguir, referia que Steve Bannon era, não o único, mas o rosto mais visível dessa insidiosa construção.

    Na altura, perguntei-me se Miguel Sousa Tavares não estaria a exagerar, um pouco ao seu estilo mais ou menos cáustico e, nem sempre, tão isento e impoluto quanto se gostaria, mas, todos temos os nossos pecados e quem não gosta, já sabe o que há-de fazer, que proliferam alternativas, inclusive às alternativas. Adiante. Seguramente, não sou só eu que reparo, mas, alguns cronistas da nossa prolífera e dotada praça mediática entretêm-se, muitas vezes, a mandar recados aos “inimigos” de profissão e de ideologia. Pode ser uma outra crónica, um desabafo num programa de televisão, uma piada radiofónica, enfim, na forma e no meio que estiver mais à mão, ou à boca, e, nisso, não há mal algum. Nem todos gostamos de falar sozinhos, como os malucos, e há dinâmicas bem interessantes. O caso é que, a teoria da conspiração de Miguel Sousa Tavares mereceu uma outra crónica, desta vez, no Observador de um outro autor que, na maioria das vezes, não leio, por nenhuma razão em especial. Acabei por ler por me sentir identificada com a dúvida: Miguel Sousa Tavares tem razão em levantar a suspeita da existência de uma gigantesca e perigosa conspiração, meticulosamente, ardilosamente pensada para usurpar a liberdade e a democracia, ou o senhor é apenas uma vítima da intensidade das suas próprias crenças políticas de proporções cósmicas?

    As duas crónicas vão muito para além desta discussão, eu continuo cheia de dúvidas, mas, lembrei-me de ambas ao ler este artigo e de cujo teor o DN dá conta aqui.

    Não sei se existe ou não uma tentativa concertada para elevar a extrema-direita ao poder, mas, há dias, também li que um em cada quatro europeus admite votar em partidos populistas, cujo número (também li) mais do que triplicou nos últimos 20 anos, e que, "Portugal, Estónia e Letónia são os únicos países da Europa que não elegeram nenhum populista", ainda.

    Também há dias, num jantar com amigos, falávamos dos motivos (alguns deles) que levaram muitos a escolher um presidente como Jair Bolsonaro. Entre outras coisas, surgiu, inevitavelmente, a questão da segurança. “Sabes o que é estares permanentemente atenta à hora de chegada do teu filho da escola? Esperar que ele te ligue a dizer que está tudo bem?”, perguntava-se. Não, não sabemos. Mas, nos EUA, onde o acesso às armas é o que é, também podemos ter o azar, eufemisticamente falando para não endoidecer, de os nossos filhos estarem no lugar errado à hora errada. “Mas, nos EUA, não grassa a impunidade dos criminosos, como no Brasil”, é verdade. “Precisamos de alguém como ele”, para pôr ordem na casa; “se não cumprir o que diz, corremos com ele também!”, o que parece uma estratégia inteligente e, tão ou mais importante, infalível. Não fosse o caso de a História já ter demonstrado que correr com eles pode não ser tão fácil e limpo, como parecia e se esperava. É possível que Donald Trump volte a ganhar as eleições presidenciais em 2020. E se não ganhar?

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publicado às 10:36

“The world is a very dangerous place!”

por naomedeemouvidos, em 21.11.18

    Deve ser difícil manter uma conversa séria com Donald Trump. Pelo menos, no que diz respeito a garantir uma presidência funcional de um país que se quer grande. Excepto no que toca a conversas de balneário ou negócios mais ou menos obscuros (aí, o homem agarra quem quer que seja, por onde quer que seja, ao estilo do que por cá chamaríamos um pato-bravo), o vocabulário do presidente dos EUA está ao nível de uma criança que ainda não completou o primeiro ciclo escolar. Tem uma mão cheia de adjectivos que oscilam entre o bom, óptimo, mau, de vez em quando, um erudito perverso, eventualmente, apimentados com um eloquente muito e que servem para tudo, do clima às pessoas, dos ataques terroristas aos dantescos incêndios na Califórnia. As pessoas são boas, às vezes são mesmo great, ou, quando más, podem chegar a bad, bad people, a repetição elevando e enfatizando o grau de maldade do indivíduo.

    O senhor presidente tem uma opinião forte acerca das alterações climáticas. Graças a um tio que, no caso, era mais do que great, era mesmo um brilliant genius – que a família tem bons genes, basta olhar para a Ivanka – e com quem também discutia questões nucleares all the time. Pela força, da opinião, o presidente quer e terá um evidentemente great clima para os EUA. Enquanto o bom clima não chega, os americanos vão aprender a prevenir incêndios com os finlandeses, que sabem o que fazem e têm bons solos. Também se requer bons solos. E ancinhos. Mas Trump está habituado a ter o que quer e, além disso, já falou com o presidente da Finlândia, alternativamente sobre este ou outros temas, é indiferente; o que conta é a intenção.

    Noutro (perigoso) desvario caseiro, o presidente norte-americano recusou ouvir a gravação áudio do assassinato de Jamal Khashoggi. Já classificou o acto como perverso e como muito más as pessoas que o cometeram. Não quer ouvi-la e acha que não há razão nenhuma para que a ouça. Eu acho que é capaz de haver para cima de 100 mil milhões de razões para não alarmar o excelentíssimo príncipe da Arábia Saudita e Trump, ao contrário de uns quantos hipócritas, não tem pudor em lembrá-lo repetidamente. Afinal, a venda de armas é um excelente negócio, gera muitos, muitos empregos; a lot. Além disso, as pessoas têm direito a defender-se de ameaças, como se vê, semana sim, semana não, nos EUA. Esta semana foi em Chicago. Quando os professores americanos andarem armados, acabam-se os massacres. Como é que ninguém se tinha lembrado disso antes? E quando for o Jair a mandar, pode ser que todos os problemas da humanidade desapareçam por artes bélicas, pois teremos conseguido exterminar todos os maus da face da Terra; jamais os franceses voltarão a correr o risco de aprender alemão.

    Entretanto, há milhares de refugiados às portas do EUA na fronteira com o México. Uma caravana, várias caravanas, amálgamas de sonhos desesperados, de esperanças indomáveis, voluntariosas, fazendo das fraquezas individuais uma força resistente que renasce, como uma fénix, das cinzas que tentam e teimam em deixar para trás. Trump não os quer há muito, o México não tem como continuar a querê-los e nós vamos suspirando com envergonhado e cobarde alívio, porque não chegou à nossa porta. Ainda. Como será, quando chegar? O que fazer entre a obrigação moral de ajudar quem precisa e a frustrante incapacidade de chegar a todos? E se, por um acaso do destino, a caravana nos transportasse a nós?

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publicado às 09:17

Desgraças que nos confundem.

por naomedeemouvidos, em 20.11.18

   

    A estrada ruiu entre Borba e Vila Viçosa e, na ruína, arrastou uma retroescavadora e dois automóveis e a morte de, pelo menos e de momento, duas pessoas. Também há desaparecidos, feridos, possivelmente, mais mortes e, como habitualmente, todas as críticas a uma desgraça anunciada. . Começa, mais uma vez, o circo de especialistas e contra-especialistas que, muitas vezes, na posse das mesmíssimas informações, conseguem a extraordinária proeza de tirar conclusões completamente antagónicas. Eu sei que é possível. Na última reunião de condomínio a que assisti, e também a propósito de umas obras, uma advogada dizia a outro condómino presente: “não preciso de ver (um parecer jurídico que aquele lhe tentava mostrar); amanhã, podia entregar-lhe outro a dizer exactamente o contrário”. Incrível, não é? Se há testemunhos da fragilidade do estado da estrada, também há quem garanta a sua perfeita segurança. Como se viu.

    Depois da tragédia, das mortes estúpidas, banais, insignificantes, uns senhores mais ou menos doutos e mais ou menos engravatados vêm (mais hão-de vir) tentar explicar o inexplicável; outros tantos, fazer o jogo do eu avisei. Toda a gente via e sabia e ninguém quis ver o suficiente e nem saber de mais nada. Morre-se tantas vezes por incúria, por ignorância, por incompetência, por despachos assinados das nove às dezasseis, por falta das verbas que parecem nunca falhar na hora de renovar frotas e gabinetes dos representantes da nação espoliada. Não será comparável, mas é nos detalhes que ele costuma estar. Os infortúnios mais ou menos previsíveis, principalmente os alheios, podem sempre esperar por dias melhores. No caso deste, a contagem ia, pelo menos, em 4 anos. Teria ou não sido evitável este acidente? Vamos ter o direito a conhecer alguma verdade, a pedir responsabilidades, se as houver?

    Nos próximos dias, abrir-se-ão inquéritos, pedir-se-ão relatórios e exigir-se-ão, eventualmente, demissões. Ou não. Há desgraças mais merecedoras do que outras. É provável que o nosso popular Presidente venha reconfortar os familiares das vítimas, exigir respostas e prometer justiça doa a quem doer. Dói sempre aos mesmos e nunca ninguém tem culpa.

    Há cerca de oito meses, a revista Visão denunciava uma situação de urgência na execução de trabalhos de manutenção da Ponte 25 de Abril, cuja segurança podia estar em causa. O LNEC avisava o Governo que, na ausência de obras, poderia vir ser necessário restringir-se o tráfego de pesados e de comboios de mercadorias, na ponte. O mesmo LNEC veio, depois do alarme que a notícia gerou, sossegar-nos, não era bem, bem uma questão de risco, de colapso iminente. Era uma necessidade um pouco mais que poucochinha. Pelo sim, pelo não, foi anunciada, na altura, uma verba de 18 milhões de euros para proceder a obras urgentes. Que não começaram ainda. Vejamos se a urgência, que tanto se apregoa e sempre se atrasa, chega a tempo de prevenir outra calamidade.

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publicado às 07:32

IRAs (des)necessárias.

por naomedeemouvidos, em 19.11.18

“ 21Tomando a palavra, o governador inquiriu: «Qual dos dois quereis que vos solte?» Eles responderam: «Barrabás!» 22Pilatos disse-lhes: «Que hei-de fazer, então, de Jesus chamado Cristo?» Todos responderam: «Seja crucificado!» 23Pilatos insistiu: «Que mal fez Ele?» Mas eles cada vez gritavam mais: «Seja crucificado!»

 

24Pilatos, vendo que nada conseguia e que o tumulto aumentava cada vez mais, mandou vir água e lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: «Estou inocente deste sangue. Isso é convosco.»”

 

    O IRA (para que conste, qualquer semelhança com o “Irish Republican Army” é capaz de não ser apenas uma malévola coincidência…) dedica-se a resgatar animais em perigo e/ou em sofrimento profundo. E, até aqui, nada a apontar. A coisa começa a ficar um pouco obscura quando começamos a dar-nos conta do (por exemplo, aqui) método: parece que actuam à margem da lei (aka, ilegalmente) encapuzados, pelos menos dois são mamutes com mais de 100 kg, alguns são polícias, e estão prontos para tudo, inclusive, para partilhar na internet o nome e outros dados pessoais dos prevaricadores. Afinal, este IRA, tal como o outro, parece-me, “não existe para paninhos quentes”; quem não gosta não come, o que, em linguagem virtual, passou à versão quem não gosta que tire o like lá da página.

      Há quem ache isto, não só generoso e nobre, como necessário, já que, as autoridades, pasme-se!, têm que cumprir a lei e não podem entrar em casa das pessoas sem mandato. Urge fazer-se justiça e essa urgência impõe-se às regras do jogo democrático, que nos tem reféns, esgotados e impotentes.

     Os fins justificam os meios, quando os meios nos são caros, é disso que se trata? Porque, nesse caso, podemos formar e armar de meios pouco lícitos todos os grupos que garantam a nossa própria justiça social. É so escolher, e até podemos organizar catálogos. Primeiro, dos violadores aos pedófilos, dos vulgares ladrões aos elegantes assaltantes de bancos, até chegarmos à caça de todos os que, por azar, estavam no local errado à hora errada. Podemos passar a usar um dístico na lapela que nos identifique (espera…) como os bons e que podemos ir mudando ao sabor das novas políticas, de forma a pertencermos sempre ao rebanho certo e, assim, evitarmos confusões e conflitos violentos. Ou podíamos devolver o Pelourinho às nossas belas praças pejadas de turistas (alguns, seguramente, apreciariam), não na forma de monumento histórico, mas, resgatando-o dessa mesma História para cumprir, novamente o seu  sublime e justo papel. Suspendemos a democracia durante um breve período de tempo, até eliminar todos os pecaminosos vícios dos outros e, quando pusermos ordem na casa, corremos com os justiceiros, reavemos a mesma liberdade que sacrificámos em nome de um bem maior e recuperamos a dignidade hipotecada. Não é assim que se matam, depois de usados, os Bolsonaros?

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publicado às 11:44

Anjos e Demónios.

por naomedeemouvidos, em 19.11.18

    Levantou-se já passava das duas da tarde. A noite fora longa e produtiva. Começara, finalmente, a dominar a arte com elegância e, sobretudo, com uma eficiência implacável. Na realidade, não havia muito mérito no seu sucesso. É verdade que já lho tinham assegurado – começara, aliás, por aí – mas, ainda assim, a facilidade com que as pessoas se deixavam manipular por absolutos desconhecidos continuava a surpreendê-lo. Um bom drama era infalível na recolha de simpatias estranhas aos círculos habituais de amigos; a boa figura fazia o resto, quando a situação assim o reclamava. Era melhor do que passear cãezinhos nos parques da cidade, onde tinha que dar a cara muito antes de conseguir qualquer coisa que valesse realmente a pena. Ao contrário do que aparentava a sua personalidade, não se importava de correr alguns riscos, mas, se pudesse minimizá-los, melhor.

    Tomou um duche rápido. Precisava de entregar o projecto antes das 20 h e faltava fazer ainda alguns acertos. Deixara que as recentes distracções lhe tivessem tomado mais tempo do que mandava a prudência, mas não podia permitir-se muitos deslizes, a nível profissional. Afinal, gostava bastante do que fazia; o resto era um passatempo para o qual se tinha deixado arrastar, mas que não pretendia estender mais do que o necessário e sob nenhum aspecto.

    Gostava de manter o escritório na penumbra, mesmo durante o trabalho, pelo que, a única luz naquela divisão vinha dos dois enormes écrans que mantinha permanentemente ligados e de um pequeno, mas vistoso, candeeiro de secretária, que emava uma luz ténue e amarelada. Vivia entre o requinte de um luxo delicado e gracioso, não ostensivamente burlesco ou arrogante; o suficiente para se fazer notar entre os seus pares e esperar alguma deferência por parte de quem tinha serviços para lhe prestar. Ainda assim, muitíssimo distante das historietas de penúria e privação que espalhava na internet, nas páginas e páginas que davam vida a existências alternativas e deprimentes, lançando o isco que melhor servia cada um dos diferentes propósitos daquela espécie de experiência semi-virtual em que se envolvera havia alguns meses. Primeiro, pela curiosidade, depois pela expectativa excitante e pelo gozo; porque podia.

    Para quem observasse de fora, era absolutamente ininteligível. Um homem atraente, distinto, com bom gosto, exibindo um elevado padrão de vida e perfeitamente capaz de suportar algumas extravagâncias comuns entre os do seu meio. Não precisaria de uma vida paralela, escondida nas malhas da darknet. Não tinha nada que ver com aquele grupo de fanáticos falhados que culpavam as mulheres por todas as suas desgraças, nomeadamente, pelo seu patético e auto-infligido celibato. Na realidade, nem sabia bem o que o movia. Começou por ser uma brincadeira; até onde poderia ir? O que estavam, as pessoas, dispostas a partilhar? Rapidamente descobriu que muito; demasiado. Expunham-se como nunca imaginara possível. Falavam de coisas banais, como a família, o trabalho ou os amigos, mas também partilhavam os seus medos e os seus desejos mais profundos e de que, provavelmente, jamais falariam com alguém próximo. Há sentimentos, conflitos, ressentimentos, paixões, mais fáceis de verbalizar a coberto do falso conforto que o anonimato da internet oferece. Era disso que ele se aproveitava. Sabia sempre o que dizer, ou escrever, para moldar o discurso, vergá-lo à sua vontade. A aparente facilidade com que o conseguia empolgava-o. Tanta gente desesperada e outro tanto com uma vontade imensa de praticar o bem. Eram todas marionetas num jogo perigoso, mesmo para os que estavam conscientes do seu papel e da sua participação nele.

    Sentou-se em frente da secretaria meticulosamente organizada e corrigiu ligeiramente a posição impecável do pisa-papéis. Com uma ligeira irritação, pensou que teria de voltar a advertir a nova empregada.

      

    Quando terminou o trabalho, ligou-se a uma das páginas que fora criando ao longo das últimas semanas. Escolheu uma personagem e preparou-se para ir à caça.

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publicado às 09:02

Pela importância das palavras.

por naomedeemouvidos, em 16.11.18

    Já foi escolhida a palavra do ano. É “tóxico”. Discordo, de forma arejada e consciente. Acho que a palavra do ano – deste e, se calhar, dos vindouros – devia ser duvidar, ainda que com moderação. Não só duvidar das notícias pré-fabricas e arremessadas para as redes sociais com o intuito de provocar o maior número de danos colaterais, mas também das estouvadas soluções radicais e milagreiras que tudo tornarão grande outra vez, das nações aos clubes de futebol. Se duvidarmos talvez possamos existir melhor, porque mais conscientes do logro pérfido com que nos confundem, entregando-nos, como rebanhos, nas mãos desses magníficos cavaleiros dos tempos modernos, já sem capa e sem espada, mas empunhando sofisticadas armas, em sentido literal ou tecnológico.

    No arsenal de guerra tecnológico, o WhatsApp matou, recentemente, dois homens inocentes. Inconscientemente, puseram-se a (esse insuportável!) jeito e à mercê dessas massas ultrajustas, supramoralistas, mobilizadoras da vontade do povo e, sobretudo, pró-justiceiras por meios céleres e próprios. O facto de os homens serem inocentes é um pormenor de importância nada maior. Servirá como exemplo e forma de intimidação sobre más-intenções futuras. Afinal, na guerra também morrem inocentes em prol de objectivos muito nobres, como a busca pela ansiada paz que teima em não chegar a todos. O importante é mostrar que acabou o tempo em que a culpa morria solteira. Se é possível casar à primeira vista, por maioria de uma necessidade imperativa há-de ser permitido condenar à morte ao primeiro relance e rumor de suspeita. A bem da ordem, da moral e dos bons costumes não deve dar-se à justiça um tempo que corre lesto e sôfrego na procura de soluções à medida, para todos os gostos e necessidades. Na urgência da luta contra os demónios que nos assaltam não cabe a ponderação nem a justiça das leis que urdimos para construir sociedades mais igualitárias. Essas, falharam-nos estrondosamente. O povo, cansado de todos os males que minam o seu bem-estar, quer dar a voz e a vez aos destemidos com mão de ferro que prometem o paraíso, seja na sua grandiosa terra, ou no seu modesto quintal.

    Já não se enganam os tolos só com papas e bolos. Mas não é pela elegância da mentira e pelo assombro das causas que o engodo deixou de servir o seu propósito. E, por isso, a dúvida deve resistir; se não acima de tudo, para que, pelo menos, não prevaleça a confiança absoluta dos estúpidos.

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publicado às 15:08

"Adivinha lá...

por naomedeemouvidos, em 16.11.18

...se não me estivesses sempre a dizer que, com livros, nunca estamos sozinhos, não tinha conseguido completar as 180 palavras do texto de opinião!"

                                                      O meu filho, à saída do último teste de português. Moral da história: às vezes, ser chata compensa.

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publicado às 14:11

Exit the Brexit.

por naomedeemouvidos, em 15.11.18

O que nasce torto tarde ou nunca se endireita.  E, assim, Theresa May e o Reino Unido continuam reféns de um insano acordo que, afinal, parece que ninguém quer. Dizem que é desta. O acordo será finalizado e formalizado a 25 de Novembro. Será?

 

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publicado às 09:27

E o que é que vestia?

por naomedeemouvidos, em 15.11.18

    Há mulheres que não aprendem. Ou se põem a jeito ou põem cuecas de renda. Ou usam fio dental ou não apertam as pernas com firmeza. Ou dançam de forma sensual ou saem sozinhas à noite. Ignoram que os homens são predadores implacáveis, cheios do recato que lhes falta a elas, lobos com peles de cordeiro, sempre à espreita, à espera do convite fortuito, mas eloquente e irrecusável. O que elas querem, sabem eles. E sabem todos, sem excepção. Os que não sabem, não são bem homens. A ocasião faz o ladrão e as mulheres impudicas fazem os violadores.

    “Têm de olhar para a maneira como ela estava vestida. Usava um fio dental com a frente em renda”, advertiu a competente advogada, no tribunal, numa tanga sem renda. Que tamanho ultraje! Como é possível, tanta pouca vergonha? Há mulheres que são umas galdérias, de facto. Galdérias e ignorantes, pois, desconhecem que há homens, parece que todos, que não resistem a uma provocadora cueca de renda e fio dental. Que extraordinário descanso saber que há outras mulheres que nos alertam para o perigo que o nosso traje, o interior também, representa para os incautos. Só as mulheres recatadas – e parece que também as feias – nunca são assediadas ou violadas. Mas, as feias não contam, porque não merecem. Basta ler jornais. Ou perguntem aos homens, esses seres acéfalos, que não podem ver uma mulher de saias ou de rendas, porque a irracionalidade primária nunca os abandonou, coitados, apesar de séculos de evolução. As mulheres sérias e compostas não provocam sensações pecaminosas. Já as do tipo leviano e atiradiço são verdadeiros shots de excitação e adrenalina; um perigo para o fraco homem comum. As desse tipo deviam ficar em casa, trancadas nas torres mais altas e inacessíveis, com um espelho mágico a quem, por descanso, perguntar, espelho meu espelho meu, já estou em modo camafeu?, e, então, gozar da segurança e condições necessárias para preservar a honra.

    Vítima que é vítima não provoca, não instiga, não socializa indecentemente. Vítima que é vítima chora e grita, arranha e defende-se. Vítima que é vítima comporta-se da forma correcta e, sobretudo, não vai em tangas – e, logo, de renda – a lado nenhum.

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publicado às 08:32

Demónios reais.

por naomedeemouvidos, em 14.11.18

    Chegara ao país há menos de meio ano, recém-casada, e era a segunda vez que passava um mês inteiro sozinha. Não se sentia muito confortável. Não tanto pela solidão imposta, gostava do seu tempo e do seu espaço e já tinha feito muitas amizades, mas pela preocupação. Aquelas viagens de trabalho revestiam-se de algum risco e de medidas de segurança apertadas e quase hollywoodescas. As reuniões decorriam ao ar livre, de pé, supostamente no limiar da fronteira entre os dois países que os militares de ambos os lados guardavam e garantiam ser exactamente ali – embora não houvesse qualquer outro indicador dessa linha – enquanto empunhavam metralhadoras, provavelmente mais intimidatórias do que eficientes. O ambiente era sempre bastante tenso para os responsáveis europeus, muitos deles também recém-chegados a uma realidade completamente inesperada e quase irreal.

    Procurou as chaves do carro. Chegava hoje, finalmente, e preferia ir buscá-lo à estação em vez de ficar em casa à espera, embora não gostasse muito de sair à noite sozinha.

    Os primeiros dias tinham sido um choque. Durante semanas, só saía de casa de calças de ganga disformes e camisolões dois tamanhos acima. Era assustador perceber que a conheciam, que a seguiam ocasionalmente e que quando apanhava um táxi para casa nem precisava de dizer onde morava. Já a tinham prevenido. Os estrangeiros, mesmo os cooperantes, nunca passavam despercebidos e eram regularmente controlados. Apesar disso, o país era bastante seguro e aberto, comparativamente com outros países árabes e muçulmanos. Acabou por se habituar, voltou a maquilhar-se e a usar as suas roupas – embora, as mais discretas – e começou a conduzir. Mas, à noite, evitava andar sozinha. Sentira-se um pouco intimidada, umas semanas antes. Inscrevera-se num curso de inglês, para passar um pouco o tempo, e, durante uma aula de conversação, um aluno árabe confrontara-a com o facto de ser estrangeira, ocidental, e não estar, por isso, muito habilitada a discutir sobre o papel da mulher nas sociedades muçulmanas. O tom, a postura e o facto de ter tido o à-vontade de se levantar da cadeira para lhe dirigir a palavra, deixaram-na um pouco alerta para a fragilidade de uma suposta abertura e tolerância a outras culturas. Apesar do assombro que a assolou na altura, continuaram ambos a frequentar o curso sem outros incidentes, mas, passou a ser mais prudente.

   Chamou o elevador e desceu à garagem. Preparou-se para suster a respiração durante o maior período de tempo que lhe fosse possível. Aproximava-se o final do Ramadão e os vizinhos dos quarto e sexto andares tinham trocado os mercedes (mais exactamente, os lugares de garagem…) pelos cordeiros que haveriam de sacrificar daí a dias, para assinalar o fim do jejum. Há três dias que os pobres animais jaziam, encolhidos, no chão frio da cave, numa espécie de transe semiconsciente do juízo final que os aguardava, onde a glória dedicada ao profeta exigia o sangrento sacrifício das suas vidas engordadas para o ritual.

 

    Percebeu que algo mais, e mais grave, tinha acontecido assim que o viu chegar. Vinha angustiado e curvado como se transportasse às costas todos os pecados do mundo. A cara, já séria e fechada por norma (nunca o vira ou ouvira rir à gargalhada; não era esse tipo de homem), mostrava-se ainda mais cerrada e parecia ter passado um ano, e não um mês, desde que saíra.

    Abraçaram-se em silêncio. Às vezes, não fazem falta palavras para que duas pessoas se entendam. O tempo e o conforto dos próximos dias, haveriam de trazer o distanciamento e a calma necessários para relatar o horror do que tinham presenciado, ele e os colegas. Como uma expiação, por terem feito a denúncia, como lhes competia e como mandava o protocolo entre a empresa e as autoridades locais, longe de imaginarem que a distância a que estavam dos seus países de origem – e que sabiam ir para além da geografia – pudesse roubar-lhes a alma.

    Nessa noite, sentiu-o reviver o drama, mas, só mais tarde, haveria de perceber que, no seu sono agitado, ouvia ainda os gritos de dor e desespero do jovem incauto, grotesca e violentamente punido pela polícia, por um roubo imbecil e imprudente e que, por sua conta e apesar do protocolo, jamais voltaria a ser denunciado. Infelizmente, naquele dia, já não pudera voltar atrás.

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publicado às 10:57




“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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