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A profecia.

por naomedeemouvidos, em 13.12.18

    O céu gemia anunciando a tormenta, vociferando em tons de cinza e azul desmaiado e sarapintado por pequenas manchas brancas, fugidias, sem génio nem atrevimento para moldar nuvens formosas. Um pesaroso e pálido arco-íris definhava em agonia a escassos metros da insigne cúpula, sufocado pelo mau-agoiro conjecturado há séculos. Agora, por vontade maior do que a da mão que segurara a pena pressagiadora do infortúnio, o mundo inteiro, ignorante e desprevenido, estava prestes a ser chamado às últimas páginas da História, obrigado a assistir, sem vontade, nem privilégios, ao início da capitulação.

 

    As televisões do mundo inteiro mostravam o homem sentado no trono escarlate, proferindo o discurso em língua morta. Com ar cansado, curvado ao peso dos anos e dos escabrosos vícios da corrompida côrte, vai desfiando um rol de certezas que não está seguro de possuir, mas é indiferente. O homem omite, evidentemente, as razões de relevo, sem chegar a mentir no seu propósito, e a multidão já não ouve. Estacou, perplexa, no princípio anunciado da mensagem, traduzida em várias línguas e nem por isso mais entendível.

    Cá fora, na elegante e imaculada praça, aqueles que estão mais próximos do homem velho e cansado que se despede do mundo abrem a boca de espanto. Uns choram, outros calam, uns e outros em choque, impreparados para o que aí vem, adivinhando, ainda assim, a desgraça. Nem todos são crentes. E, no entanto, todos sentem um mal-estar profundo, em dissonância com a santidade do espaço, sem saber ao certo o que espreita, o que se esconde, o que se avizinha. À medida que o tempo passa, outros tantos acorrem à praça fustigada pela chuva e obscurecida pelo cair da noite, todos em busca, senão da verdade desejada, de um sentido maior para a notícia que se estilhaça em alvoroço.

    Passam poucas horas desde o anúncio, quando o céu se ilumina dramaticamente para descarregar, rugindo, toda a sua fúria sobre a cúpula da Basílica. Um violento relâmpago atinge o cume sagrado do templo. Ainda a mole de gente recupera, em assombro, da chocante visão bíblica, quando um segundo relâmpago fulmina o mesmo ponto elevado, mais que improvável, impossível, no mesmo local exacto, para desassossego dos que assistem em incontido espanto. Os mais fervorosos não têm dúvidas; a resignação desencadeou a ira de Deus. Tantos séculos depois, a profecia foi despertada. Acordado o monstro, o princípio do fim põe-se em marcha.

(continua, se me apetecer...)

publicado às 11:32

Diz que é inveja.

por naomedeemouvidos, em 13.12.18

    Diz-se que somos um país de invejosos. Parece que invejamos quem tem dinheiro, poder e aquilo a que se chama estatuto social.

    Há muito que suspeito que a vil inveja que nos assalta é capaz de resultar de casos como os relatados aqui, aqui e aqui.

    Não gostamos de nos comparar, mas talvez seja bom lembrar outras histórias, de desencantar.

   No princípio são os banqueiros. Parece que existem quarenta e sete banqueiros presos por causa da crise financeira de 2008. Metade são da Islândia. Que tem menos de 350 mil habitantes, mas deve ter muitos bancos. De momento, há um preso famoso e não consta que seja islândes. Bernard Madoff é americano e, em seis meses, Bernie, para os amigos, foi preso, acusado e julgado. Nos EUA de antes, pelo menos. É verdade que o seu famoso esquema Ponzi ludibriou muita gente, autoridades incluídas, durante mais de duas décadas, mas, o homem acabou condenado a 150 anos de prisão. Madoff terá confessado o esquema aos filhos que o denunciaram. O que terá passado pela cabeça daquelas almas? E, em que consistia o esquema? No "pagamento de lucros anormalmente altos a investidores à custa de investidores que chegavam posteriormente, em vez de receita gerada por qualquer negócio real" (aqui). Jura! Qualquer semelhança com alguns banqueiros da nossa praça é capaz de ficar por aqui. O mais próximo da prisão que algum deles, desses, esteve foi em preventiva. Um houve que, dizem, foi vaiado num restaurante chique da linha, mas outros há que continuam a ser eleitos e adorados. Prisão, prisão, entre recursos, apensos, férias judiciais e outros que tais, talvez quando o Bernie acabar de cumprir os tais 150 anos. Ah!, se a Madonna calha em descobrir mais cedo os encantos de viver em Lisboa...Talvez a vida do Bernie fosse diferente, mesmo sem conhecer o Carlos Alexandre.

    Depois, são os gestores. De topo. Aqueles que pagamos a peso de ouro, não vão esses ilustres génios fugir para o estrangeiro e deixar o país ao deus-dará. Sou de opinião que, se alguém os quiser levar, pagar-lhes o que por cá recebem para fazer o que por cá fazem, é deixá-los ir. Poupamos, nós, dinheiro e, eles poupam-se - e poupam-nos - ao ridículo dos ataques de amnésia em comissões de inquérito, onde ainda são obrigados a ouvir a Mariana Mortágua a chamar-lhes amadores...é bem merecido.

    Entretanto, discute-se o valor do ordenado mínimo, que continua a ser miserável e há, em Portugal, perto de meio milhão de pobres. "Um país rico não pode ter trabalhadores pobres", e eu acho que o mesmo se aplicaria às empresas.

  

 

publicado às 09:53



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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