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Bem ou mal, tudo o que aqui está escrito é da autoria de naomedeemouvidos, salvo citações e/ou transcrições devidamente assinaladas, embora, alguns textos "EntreLetras" se baseiem em lendas ou histórias conhecidas.
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Hoje nasce um novo projecto. Aqui, na blogosfera. Num acesso de semi-loucura, imagino, a Sarin lançou um desafio a alguns sapos que por aqui saltitam e estrebucham em torno de opiniões, desabafos, desaforos e outras coisas que tal.
Na verdade, a cidadania exerce-se de muitas formas, como por lá se irá ler. Já lá iremos. O Rasurando vai ousar propor-se ser mais uma delas. Porque, os tempos e os hábitos tornaram-se apenas um instante, demasiadas vezes inconstante, e tudo o que temos dado mais ou menos como certo e adquirido escapa-se-nos por entre os dedos, entre cacos, estilhaçado, em constante sobressalto. De modo que, se nos sobressaltarmos em conjunto, cada um a seu modo e a seu mando, talvez se unam distâncias, talvez o mundo pule e avance, borboletas batam asas, energicamente, e um turbilhão de ideias e vontades crie o mais perfeito dos caos. Se não for nada disso, continuaremos a divertir-nos, a esgrimir devaneios, a concordar e a discordar. Sobretudo, continuaremos a pensar em nome próprio e com direito. Será bem feito.
O projecto Rasurando – e os seus participantes (de momento), Eduardo Louro, Gaffe, Júlio Farinha, Mami, naomedeemouvidos, Sarin, Pedro Vorph – propõe-se “Discutir o Estado e a Cidadania” e “Convidar à Reflexão Conjunta”. Parece demasiado; mas fazêmo-lo tantas vezes, quase sem darmos por isso. Porque não em conjunto? Sem propaganda, sem julgamentos, sem partidos, sem políticos, sem intenções para além das que possam conduzir a uma contribuição, pequena ou grande, para um debate saudável e construtivo. Perca-se um pouco por lá. Participe, opine, discuta, proponha, discorde, contribua. Vai ver que não dói nada. Ou assim se deseja. Se precisar de um motivo de forma maior, fique a saber que o projecto Rasurando foi magnificamente vestido por esta endiabrada menina, exímia na arte de transformar palavras em imagens de marca.
Amanhã será um outro dia. Encontramo-nos (também) por lá. Por enquanto, dê uma espreitadela. Está mesmo aqui
Independentemente do que venha a acontecer nos próximos dias na Venezuela, vou fixar este nome: Juan Guaidó. Por completa ignorância minha, só recordo tê-lo ouvido, pela primeira vez, há uns dias, quando foi detido por agentes dos serviços secretos que, segundo li, acabaram destituídos por ordem do Governo da Venezuela.
Nicolás Maduro era, até ontem, pelo menos, presidente desse Governo. Ora, por motivos profissionais, passo um dia inteiro sem ver, ou ler, notícias e, de repente, uma precipitação de acontecimentos vertiginosos, cujo alcance se perceberá nos próximos dias. Não. Nos próximos dias, não. Nas próximas horas. Minutos, não sei. Segundo a Wikipédia, Juan Guaidó (já) é 58º Presidente da Venezuela, onze países já afirmaram reconhecê-lo como tal, entre eles, os EUA, Canadá e Brasil, e o Instagram e o Facebook deixaram de certificar as contas de Nicolás Maduro naquelas redes sociais. Só por isto, deve ser verdade. Augusto Santos Silva disse que o tempo de Maduro acabou e, parece que por terras da Madeira, o entusiasmo levou a que se hasteasse a bandeira venezuelana na varanda da Câmara do Funchal (olha qu’âfofo…agora que o “nosso menino” caiu lá do pedestal e pode perder as lindas condecorações, é capaz de vir a ser necessário procurar nomes alternativos para o aeroporto…).
Apesar do corrupio alucinado e alucinante, um ditador é um ditador, é um ditador. Não gosto de ditadores. Muito menos, de ditadores que comem bifes em restaurantes de luxo e fumam prazerosamente charutos, embalados pela performance de gosto duvidoso de um diz-que-é-chef reconhecido, enquanto o seu povo vive miseravelmente e passa fome.
Assanhado, Maduro diz que o povo da Venezuela é que manda. Com toda a certeza! Entretanto, é capaz de vir a receber calorosas condolências de Jerónimo de Sousa, que a solidariedade com os oprimidos é uma coisa muito bonita.

Não foram os confrontos, a primeira coisa que me chamou a atenção nas imagens. Foi o retrato brutal da degradação do bairro e as condições miseráveis em que, às portas de Lisboa, vive gente. Lembrou-me algumas zonas do Marrocos mais pobre e mais sombrio que vi, pela primeira vez, há vinte anos. Os mesmos prédios inacabados, mortos-vivos, esventrados, as parabólicas moribundas e, ainda assim, em violento contraste com a indecorosa pobreza, a escorrerem pelas paredes, o lixo amontoado, o entulho, mobílias esventradas lado-a-lado com carrinhos de bebé, um emaranhado caótico de fios e tubos…como é possível?
Não serei a única a não saber exactamente o que, por estes dias, aconteceu no bairro da Jamaica (quase podia ser nome para outra melodia). Mas, nem todos os negros são delinquentes, nem todos os polícias são bófias e, muito menos, de merda, para usar uma linguagem erudita e digna e não ficar atrás de alguns daqueles a quem se chama assessores parlamentares. Dito isto, há escumalha que tresanda em ambas as partes, de todas as cores.
Para não fugir ao cliché, comportamento gera comportamento, violência, mais violência e há quem não olhe a palavras para engordar indignações; virulentas, também. O acesso às redes sociais, com direito a instantâneos e a achaques em directo, devia estar vedado àqueles que, sendo totalmente irresponsáveis, ocupam cargos que exigem, senão inteligência, pelo menos, alguma ponderação e bom senso.
Numa pequena cidade ribatejana não muito longe de Lisboa, há um pequeno centro comercial – se assim se lhe pode chamar, em comparação com os que pululam pela capital e não só – e, nele, uma pequena loja de flores. A florista, que nunca vi, distribui os ramos de orquídeas, os vasos e os bouquets das mais variadas formas e feitios pelo pequeno hall que separa a entrada da loja do seu acesso principal e, também, pelo lanço de escadas coradas e a cheirar a jasmim e rosmaninho, que nos acompanha da rua ao interior do edifício.
A porta, pequena como a loja, tem um pequeno recorte no fundo, onde estaca sem tocar no chão, mas apenas com a abertura suficiente para empurrar, para o interior, as notas e/ou moedas que perfazem o total indicado no preço elegantemente desenhado num pequeno pedaço de cartão, que se prende e desprende com uma minúscula e adorável molinha de madeira, à película que adorna vasos e arranjos florais. Escolho o meu, verifico o preço, baixo-me ao nível da improvisada caixa registadora e deposito o pagamento no interior, no chão, com a maior elegância que me permitem a minha saia justa e os meus saltos de 10 cm. É difícil, mas estou habituada. A usar salto alto e a pagar o que devo, mesmo quando não há ninguém a ver e, portanto, aparentemente fácil usar de desvios e estratagemas para ludibriar e pagar menos, ou não pagar de todo. Mas, há valores que não justificam tamanhas vergonhas e trapaças. Se não nós próprios, outros haverá a apontar-nos o dedo chamando-nos pelo nome à altura da ocasião. Essa, que dizem que faz o ladrão. Eu acho que não. O ladrão faz-se a si mesmo, com engenho e arte, com pouca vergonha, e menor ainda quando valores maiores se levantam.
Ontem foi um dia magnífico. Por vários motivos e todos diferentes, mas cada coisa ao seu lugar. Um deles mostrou-nos que há mais vergonha em não pagar, à socapa, um ramo de flores, por exemplo, do que em não pagar os impostos que nos são devidos. O melhor do mundo fez o que outros fazem. Ele, que se orgulha de ser diferente de todos, único, inigualável, de outro mundo. Largo sorriso, elegante, confiante, namorada a tiracolo, para completar e compor o bom ar. Magnífico. Há imagens que valem por milhões (talvez sejam perto de dezanove) de palavras. Cá fora, esperam-no os admiradores (é um grande atleta, não há a menor dúvida), indiferentes a fugas que não sejam às selfies ou aos autógrafos. Pois, há tempo para dar autógrafos. Hoje, ontem, é dia de dar autógrafos.
Ao melhor do mundo deram-se honras e condecorações, como manda o protocolo que se faça aos grandes representantes da nação, que ironia. Aguardam-se, agora, informações de fonte segura e suprema para decidir quais as voltas que se hão-de dar aos louros, entregues e recebidos. Mas, é capaz de ser só inveja. O homem tem o mundo e não só aos seus pés, que necessidade tinha de fugir ao que quer que fosse, não é assim que é costume dizer-se? E, mesmo que tenha fugido, não o fazem todos? Vergonha, vergonha é roubar rosas…
Afinal, como é que nos afeiçoamos a ratos? O meu filho não gosta que eu diga ratos. São hámsteres, que é muito mais digno e os bichos merecem. Os bichos são dois, a Pirata e o Kelvin. Pois, a Pirata pregou-nos um susto tremendo. Ninguém da casa sabia que os hámsteres sírios podem hibernar se, por exemplo, tiverem frio. De modo que, quando o meu filho, acabado de chegar a casa, de um dia excepcionalmente mais longo do que o normal, cujos motivos não vêm ao caso, e a viu muito quieta, aninhada no seu tubo, suspeitou imediatamente de algo anormal. Daí à confusão absoluta, foi um instante. A Pirata quase não se mexia e, quando o tentava, tremia e desequilibrava-se. Colocamo-la dentro da sua casinha e começamos a temer o pior. O caso é que o pequeno adora os seus bichinhos (são demasiado fofos, na verdade) e, num instante, rebentou um enorme drama. Para complicar a coisa, às 9h da noite, num dia de semana, não abundam veterinários que acudam a um ratinho. Mesmo os números que anunciavam serviços de urgências, urgiam pouco ou nada. Além disso, uma consulta fora de horas fica mais cara do que comprar um hamster novo, não fosse dar-se o caso, lá está, de a Pirata ser especial. Ao cabo de uma boa meia hora, entre muitas lágrimas e um enorme desgosto anunciado, lá conseguimos que alguém nos atendesse, finalmente, o telefone. Falávamos de internamentos e observações, valha-me nosso senhor, quando a bichinha sai disparada da casinha, irrequieta e cheia de energia, alegre e ressuscitada como se nada fosse e não houvesse amanhã, mas por motivos mais elevados. E nós pasmados, um susto de ... (quase), já o miúdo ria, aliviado, entre o martírio e expiação, afinal, ela não vai nada morrer!
Ficámos, então, a saber que a Pirata pode hibernar. É preciso aconchegá-la um pouco mais. O Kelvin, não sabemos. Há quem diga que os da sua marca não hibernam; apenas os sírios, e o Kelvin é um anão russo (o que se aprende entre as gotas e as voltas dos imprevistos), tão fofo e pequeno que cabe na palma de uma mão. O que lhe falta em tamanho, sobra-lhe em genica. No entanto, também há quem diga que sim, que podem hibernar, mas aguentam temperaturas mais baixas. Não sei bem o que se entende por temperaturas baixas, porque ambos estão dentro de casa, que não é propriamente fria. Adiante. O importante é que tudo acabou bem. Mas, urgências veterinárias…mais ou menos…, pelo menos, aqui pelas redondezas.
Eu gosto de citações. Concordando-se, ou não, com os autores, pelo menos, dão-nos a oportunidade de pensar e de discutir. De duvidar. Começo por uma tão conhecida que que se tornou uma espécie de clássico: “a democracia é a pior forma de regime, com excepção de todos os outros”. Não carece de assinatura, até porque, eventualmente, terá sido outro o autor original…na verdade, ”it has been said…”. Mas, isso é de somenos.
Nos últimos tempos, temos assistido a uma certa degeneração, vou chamar-lhe assim, das virtudes desta forma de governo. Assusta-me que possa estar, como outrora, em declínio, de algum modo novamente ameaçada, porque parece-me haver, realmente, maior justiça num regime em que o povo tem o enorme poder de designar o governo e o poder legislativo por sufrágio livre e igual. Mas, o poder de que gozamos, enquanto povo, reveste-se de tremenda exigência e de minucioso labor. Distribui direitos, porém, também demanda incontáveis e incontornáveis deveres que, se levados a sério, vão além de praguejar – com imensa vontade e maior razão, tantas vezes – contra todos os que se aproveitam das vantagens da democracia, declinando as suas imperfeições sempre e quando convenha. E não convém sempre o mesmo a toda a gente, muito menos, no mesmo instante. A democracia, agora, faz-se de instantes. De repente(?), abriu-se um vazio abismal entre os valores que a democracia defende e a indiferença com que esses mesmos valores são estropiados, todos os dias, uma miserável catadupa de atropelos, onde a liberdade e a igualdade vão sendo moldadas, deturpadas, ao sabor de cada momento. Outros valores mais altos se levantam, prontamente e em contra-mão.
Talvez a democracia nos falhe porque não somos exigentes o suficiente. Com ela; e, por arrasto, connosco. Como se, compactuando com a fraude do próximo, ganhássemos, nós próprios, o direito à complacência para com a nossa própria fraude. Uma espécie de troca-por-troca viciada e bolorenta. Resignamo-nos por ignorância ou por comodismo? Insurgimo-nos contra o abuso por princípio ou por despeito, se dele não podermos usufruir? Ou, talvez, apenas nos tenhamos habituado a olhar a política como algo peçonhento. Como se nada pudesse ter de belo. Enjeitamo-la pelo nojo com que a vemos esventrada e submissa a vontades viciadas e indigentes. Não sendo possível suspender a democracia quando convém, aceitá-la implica regras, e há regras que custam a cumprir. Exigem algum grau de sacrifício e, por vezes, umas gotas de hipocrisia a que, elegantemente, chamamos diplomacia. Terá, aquele, deixado de ser o melhor de todos os regimes? O que conta mais, no momento de decidir? E o que estaremos dispostos a sacrificar, nessa procura de um melhor Estado, de coisas, de causas, de governo?
A imposição de um desastrado, e adulterado, politicamento correcto, que nos tornou refém das palavras e minou os debates políticos e sociais, esvaziou-nos, ao mesmo tempo, da capacidade de pensar e de duvidar. Pior. Ameaça deixar-nos tomados pelo medo, encolhidos, entregando, porventura, com alívio, o nosso poder de decisão a outros, que ousem assumir as rédeas das nossas fragilidades, como sociedade, guiando-nos como cordeiros em dia de procissão...
O Rasurando. Nos próximos dias, acharemos coisas mais ou menos interessantes, ou nem por isso, sobre o Estado em que vivemos. A democracia ainda é o melhor regime do mundo?
Deixo já aqui uma amostra. Mas, se passar por lá, há mais.
Hoje nasce um novo projecto. Aqui, na blogosfera. Num acesso de semi-loucura, imagino, a Sarin lançou um desafio a alguns sapos que por aqui saltitam e estrebucham em torno de opiniões, desabafos, desaforos e outras coisas que tal.
Na verdade, a cidadania exerce-se de muitas formas, como por lá se irá ler. Já lá iremos. O Rasurando vai ousar propor-se ser mais uma delas. Porque, os tempos e os hábitos tornaram-se apenas um instante, demasiadas vezes inconstante, e tudo o que temos dado mais ou menos como certo e adquirido escapa-se-nos por entre os dedos, entre cacos, estilhaçado, em constante sobressalto. De modo que, se nos sobressaltarmos em conjunto, cada um a seu modo e a seu mando, talvez se unam distâncias, talvez o mundo pule e avance, borboletas batam asas, energicamente, e um turbilhão de ideias e vontades crie o mais perfeito dos caos. Se não for nada disso, continuaremos a divertir-nos, a esgrimir devaneios, a concordar e a discordar. Sobretudo, continuaremos a pensar em nome próprio e com direito. Será bem feito.
O projecto Rasurando – e os seus participantes (de momento), Eduardo Louro, Gaffe, Júlio Farinha, Mami, naomedeemouvidos, Sarin, Pedro Vorph – propõe-se “Discutir o Estado e a Cidadania” e “Convidar à Reflexão Conjunta”. Parece demasiado; mas fazêmo-lo tantas vezes, quase sem darmos por isso. Porque não em conjunto? Sem propaganda, sem julgamentos, sem partidos, sem políticos, sem intenções para além das que possam conduzir a uma contribuição, pequena ou grande, para um debate saudável e construtivo. Perca-se um pouco por lá. Participe, opine, discuta, proponha, discorde, contribua. Vai ver que não dói nada. Ou assim se deseja. Se precisar de um motivo de forma maior, fique a saber que o projecto Rasurando foi magnificamente vestido por esta endiabrada menina, exímia na arte de transformar palavras em imagens de marca.
Amanhã será um outro dia. Encontramo-nos (também) por lá. Por enquanto, dê uma espreitadela. Está mesmo aqui
Não recordo bem a data em que iniciei este blog. É-me completamente indiferente. Não gosto de dias de…uma ou outra vez esquecemo-los, por algum motivo estéril, e, sem querer, ofendemos alguém que nos é muito querido. Os meus mais queridos já me conhecem e perdoam-me.
Creio que tem cerca de dois anos. O blog. Sem eu perceber bem como, esta estupenda rapariga passou por cá. Talvez a caminho das suas avenidas, cheia de graça e elegância, num doce balanço, astuta, crítica, inteligente, indomável. Seguramente, generosa. Imagino-a também generosa. Daquela generosidade que aquece sem estalar, como um suave sol de Inverno. Dizem que os ruivos, as ruivas, são raros e, por isso, especiais. É o que dizem.
Deu-se o caso, o assombroso acaso, de nos cruzarmos virtualmente; e eu, que não acredito em coisa nenhuma que mereça a pena à primeira vista, sucumbi sem nada ver, por castigo ou por virtude, enxergando, afinal, mais do que esperava, sem saber como retribuir o carinho a que, talvez por tonta e démodé teimosia, por pudor desmesurado, não ouso chamar amizade. Afinal, no meu tempo, não era assim. Hei-de vir a cumprir penitência.
À Gaffe, mais as suas admiráveis avenidas, o meu enorme obrigada. Por ter vestido com primor e mestria este pequeno espaço que, acabei por perceber, apavorada, não é meu somente. Agradeço-lhe pelo tempo, pela paciência…pelo atrevimento. Obrigada, querida Gaffe!
Estou absolutamente certa de que todos os que por aqui se perdem, incautos, honrando-me com a sua passagem e presença, ficarão tão pasmados quanto eu, neste momento. A todos esses, a todos vós, agradeço também o desassombro.
O Reino Unido anda às voltas com um Brexit que já poucos parecem querer e os EUA resistem, obstinadamente travados por um muro que Trump deseja como nenhum outro, pese embora alguns o tenham intentado antes.

A América continua sequestrada pela ausência de acordo entre democratas e republicanos (ou só entre democratas e Donald Trump) sobre quem constrói o quê e quem paga a conta antes, para ser apresentada aos mexicanos depois. O impasse mantém-se há 27 dias, a maioria dos americanos culpa o Presidente pelo shutdown, há milhares de funcionários federais a trabalhar sem remuneração e os conselheiros de Trump andam a avisá-lo acerca dos efeitos negativos que o apagão começa a ter na economia do país. Nada que Donald Trump não aguente. Pode sempre despedir os conselheiros que não o aconselhem como ele gostaria (a seguir, pode insultá-los, no Twitter, para aliviar o stress), dispensar os funcionários públicos e continuar a mandar vir pizzas e hambúrgueres do McDonald’s e, quanto à economia, bom, o homem percebe imenso de negócios, construiu um império dos diabos, está habituado a agarrar o que quer por onde lhe dá mais jeito e gozo, há-de ter a competência e a teimosia necessárias e suficientes para dar a volta ao assunto.
Parece, no entanto, que, nos bastidores, o Presidente anda um pouco enfadado. Irritado. Não percebe porque não se consegue chegar a um acordo. Talvez, porque o que Trump procura não é bem um acordo, é um acto de resignada vassalagem, eu quero, eu posso, eu mando, quem tem juízo obedece, os loucos que não atrapalhem. Afinal, quando Trump tiver terminado o seu muito higiénico e muito eficaz muro, acabar-se-ão todas as peçonhas, a América será grande outra vez e o povo americano, rendido à magnificência e visão do todo poderoso, não voltará a recordar estes dias de infortúnio; lembrará, sim, a intensa e ufana luta do melhor presidente das últimas décadas, empenhado em proteger a nação dessa horda de criminosos que são todos os emigrantes, com excepção da impecável e elegantíssima Melania, que faz decorações de Natal como ninguém, God Bless America (e, de passagem, o Brasil, que o senhor é omnipresente).
Entretanto, num esforço hercúleo, e heroico, a bem do país como só ele é capaz, Donald Trump deu descanso ao Twitter presidencial durante grande parte da tarde de ontem, preservando o bom humor para a reunião com alguns democratas moderados – parece que eram sete –; aos radicais já tinha chamado partido do crime e das fronteiras abertas, nada preocupados com a crise humanitária na fronteira do sul. Ora, todos sabemos como Trump e os seus aliados se preocupam. Tanto, que usam um gás natural para repelir os intrusos. Tão natural que se pode comer com nachos, como é que ninguém se tinha lembrado disso antes.
Se não for a bem, há-de ser a mal. E a contra-gosto. Até lá, bye-bye. Homem que é presidente não tem tempo a perder.
Idade - Tem dias.
Estado Civil - Muito bem casada.
Cor preferida - Cor de burro quando foge.
O meu maior feito - O meu filho.
O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.
Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.
Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.
Imprescindível na bagagem de férias - Livros.
Saúde - Um bem precioso.
Dinheiro - Para tratar com respeito.
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