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Os homens não têm filhos?

por naomedeemouvidos, em 28.02.19

Na sequência de uma série de opiniões radicalmente diferentes, emocionais, emocionadas, ou, tão somente, dignas das tais sociedades estimadas por nada respeitáveis juízes e seus (im)prestáveis coadjudantes, sobre qual deverá ser o papel da mulher  - na sociedade e na família - li um comentário admirável: os "homens" (ainda bem que os homens não são todos iguais) têm mais sucesso profissional porque, entre outros enormes atributos (que também se enalteciam na prosa), "não têm filhos"

 

Cri, na altura, ter percebido a ideia, embora, expressa de forma algo retorcida. Os homens não têm a capacidade de carregar um filho no ventre e, a seguir, pari-lo. Supus que era esta a intenção que se pretendia reforçar; não o facto de haver alguns homens que, mesmo sendo pais, não têm, efectivamente filhos, porque deixam esse transtorno a cargo das mulheres, para que estas possam atingir, com zelo e sucesso, o seu potencial maternal, ou lá o que era.

 

Talvez tenha percebido mal, no entanto. Hoje, entre as 14.00 h e 15.00 h recebi cinco chamadas de um mesmo número desconhecido, que só pude atender (tinha o telemóvel em modo silencioso) à sexta tentativa desse contacto. Era de um centro de saúde. Para falar com urgência, com a mãe da bebé fofura-de-tal, de um mês, por causa de uma consulta também ela urgente. Lamentei, não era eu, seria um engano. De modo que, depois de uma hora e qualquer coisa a tentar falar com a mãe da criança - que não eu - , acerca de uma situação da maior urgência, o homem (chega a diabolicamente irónico) ao telefone desculpa-se e refere que, nesse caso, vai ligar para o outro número alternativo: o do pai da menina...

publicado às 17:45

Deus, Pátria e Bolsonaro.

por naomedeemouvidos, em 26.02.19

    Há uns meses, foi notícia a deputada brasileira Ana Caroline Campagnolo. Motivo? O apelo que fez, publicamente, para que os alunos filmassem as aulas de professores que revelassem discursos "político-partidários ou ideológicos", uma forma pouco velada de dizer denunciem todos os professores que ousem criticar esse messias, literalmente, dos tempos modernos, Jair Bolsonaro, o santo presidente do Brasil. "Na semana do dia 29 de outubro, muitos professores doutrinadores estarão inconformados e revoltados. Muitos não conseguirão disfarçar sua ira", assim rezava a deputada, logo a seguir à eleição do seu amado presidente. Daí até a desembaraçada menina abrir um denunciário online, para acolher os danosos, e danados, pecados desses reles doutrinadores, pouco éticos e incompetentes, foi um clique no sítio habitual. Aliás, “é só comportar direitinho que não precisa ter medo, cidadão” (não sei se será só a mim que isto causa calafrios...). Caso contrário, já sabe. E salvaguarda-se, como não?, a identidade do arrojado e casto denunciante.

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       Entretanto, a Justiça terá determinado a remoção da publicação do apelo na página de Facebook da senhora deputada do PSL, e a intrépida defensora da liberdade dos desde que mui adequados costumes até chegou a ver as suas contas reprovadas

 

    Ora, suponho que para garantir que o cidadão continue a portar-se direitinho, o Governo braileiro pretende, agora, pôr os alunos, nas escolas, a cantar o hino e a ler uma espécie de oração que termina com o todo-poderoso, conspícuo, mais-que-conhecido slogan “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!”. Afinal, é de pequenino que se torce o pepino. Não se dirá assim, por lá – não faço ideia – mas, sendo o objectivo exterminar problemas, ou professores incómodos, também não deve fazer grande diferença. E, porque um país grande em qualquer parte da América há-de ser, por força, um país em perfeita sintonia, também se aconselha que o acto solene – ou, pelo menos, parte dele – seja filmado por um representante da escola e o vídeo enviado, com os dados da escola. Aleluia. Qualquer rasgo de semelhança com alguma suposta ditadura é pura maledicência de gente desordeira, impura e completamente ignorante.

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publicado às 14:30

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“A mulher dita feminista – a que integra as “tribos”, a que se deslumbra com as capas de revistas, a que se diz emancipada, a que não precisa de relações estáveis, a que não quer engravidar para não deformar o corpo nem perder oportunidades profissionais, a que frequentemente foge da elegância no vestir e no estar – optou por se objectificar, pretendendo ser apenas fonte de desejo em relações casuais, rejeitando todo o seu potencial feminino, matrimonial e maternal”.

 

    Assim começa um artigo de opinião escrito por uma mulher, médica, anti-feminista, e publicado no passado dia 24 de Fevereiro, no jornal online Observador. Juro. É só ir lá ler.

    Se fosse dia 1 de Abril, o dito artigo de opinião poderia ser encarado como a mentira da praxe com que os chamados meios de comunicação também gostam de nos entreter nessa apreciada (por muitos) data. Não é. Mas, por outro lado, estamos perto do Carnaval e a época também se presta a piadas, palhaçadas e outro tanto de coisas que temos tendência a desprezar durante o resto do ano.

    A doutora Joana Bento Rodrigues é de opinião que as três características mais belas da mulher são, precisamente, o seu potencial feminino, matrimonial e maternal. Nas suas eruditas palavras, a mulher gosta de se arranjar, de se sentir bonita, de ter a casa arranjada e bem decorada, de bem receber, de assumir com alma as tarefas domésticas, de se sentir útil e ser a retaguarda familiar de que o marido precisa para ser profissionalmente bem sucedido e, por norma, não se incomoda em ter menos rendimentos do que o marido, pelo contrário!, até porque aprecia – essa mulher que a doutora Joana Bento Rodrigues conhece – a ideia de ter casado bem.

    Por outro lado, a doutora Joana Bento Rodrigues, considera que apenas na maternidade a mulher encontra a verdadeira realização. E, mesmo quando não é mãe, essa tal mulher é a melhor tia do mundo, a melhor madrinha do mundo. Ámen.

    Eu não sei bem com que tipo de mulheres é que a cândida senhora anda a tomar chá. É, contudo, importante referir que a doutora Joana Bento Rodrigues julga que as mulheres são possuidoras de enorme inteligência social e emocional, coisa que, ao lê-la, poderá ficar em dúvida. Não. As mulheres são inteligentíssimas. Tanto que, no nosso País, a representatividade feminina na medicina e na advocacia já ultrapassa a masculina. E isso, na opinião da douta senhora, é preocupante! Eu acrescentaria aviltante! Tanto que defendo que a doutora deveria reconsiderar e dar o seu lugar a um homem, para minimizar essa tremenda preocupação, quiça, essa abominável injustiça. Imagine-se! Anda por aí, quem sabe, uma ou outra rapariga que queira casar bem - coisa que nem as minhas avós (as duas, malvadas) foram capazes de me ensinar o que seria - e o desgraçado do noivo não arranja emprego, porque os postos de trabalho estão apinhados de mulheres preocupadas em esbanjar, sem pudor, todo seu enorme potencial feminino.  

   

    No fim de tudo, ocorre-me que, talvez, a doutora Joana Bento Rodrigues, seja do tempo daquele outro senhor, o Neto de Moura. Devem ter estudado os dois pelo Código Penal de 1886. Eu sei que a senhora é médica, não é advogada, mas, a comunhão de ideias é bastante parecida e não deve ser dada a detalhes de importância menor. Aliás, acho, até, que podiam juntar-se a essa outra sumidade social e intelectual, a psicóloga Maria José Vilaça, e, de uma penada, arrumava-se com uma data de problemas sociais…Isso, ou obrigar as meninas a vestir rosa.

publicado às 11:40

Posso ficar com a biblioteca? S'il te plaît...?

por naomedeemouvidos, em 26.02.19

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Karl Lagerfeld morreu e deixou uma fortuna de 200 milhões de dólares, mais coisa menos coisa, ou seja, nada porque valha a pena perder o sono, até porque, parece que "há suficiente para todos". Na verdade, todos não serão, mas, dá-se o caso de, entre esses poucos, haver uma gata, Choupette de sua imensa graça, ela própria uma estrela com 264 mil seguidores no Instagram. A pequena, branca e delicada bichana - que há quem considere a metáfora perfeita à misantropia do criador agora falecido -  arrisca-se a fazer parte da lista de herdeiros.

Lagerfeld (também) adorava ler. Saber. Conhecer. «J'aime tout savoir. Je suis une espèce de concierge universel, pas un intellectuel». Entre os atributos da gatinha Choupette imagino que não esteja a mesma capacidade do seu dono e mentor de apreciar livros e, por isso, eu gostava tanto de lhe pedir se me deixa ficar com a biblioteca...

 

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publicado às 10:08

Votar ou Não Votar, eis a questão.

por naomedeemouvidos, em 25.02.19

Passava da meia-noite quando o escrutínio terminou. Os votos válidos não chegavam a vinte e cinco por cento (…). Pouquíssimos os votos nulos, pouquíssimas as abstenções. Todos os outros, mais de setenta por cento da totalidade, estavam em branco.”

Ensaio sobre a Lucidez, José Saramago

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O insólito referido acima nunca aconteceu, a não ser, na imaginação do escritor. Num país imaginário, o povo cansa-se, o Governo pasma, manda repetir a votação e, em vez de setenta por cento, são, agora, oitenta e três por cento os votos “brancosos”. Uma desgraça que há-de deixar a capital, e o país, em estado de sítio.

 

Abster-se, votar em branco ou inutilizar o boletim de voto de modo a anular esse direito que temos a escolher quem nos represente. Qualquer uma das três opções é possível de ser apresentada como uma forma de protesto por quem dela dispõe. Em temos práticos, os votos nulos ou os votos em branco não têm qualquer influência no apuramento de votos e na sua posterior conversão em mandatos. Mesmo que uma onda branca de indignação assolasse a vontade popular, como no livro de Saramago. Será melhor, então, a abstenção? Como forma de protesto, digo? Ficará ao critério de cada um.

Apesar de tudo, há quem defenda que as três atitudes são radicalmente diferentes. Eu tendo a concordar. A abstenção tem sempre um significado um pouco confuso. Como forma de protesto, é bastante cómodo. Um pouco como as greves da função pública à sexta-feira. E, na realidade, pode ter causas bastantes inócuas e alheias ao suposto protesto e à votação em si mesma: uma doença súbita, um caderno eleitoral desactualizado, uma recente alteração de morada. Para não falar dos que há muito se divorciaram da política, dizem, e aproveitam para ir à praia, almoçar fora, passear em família. Já os votos brancos ou nulos, pelo menos, implicam deslocarmo-nos à mesa de voto. Como forma de protesto, talvez tenha a vantagem de nos termos dado ao trabalho. Há, até, quem defenda que os votos em branco deveriam ter assento parlamentar, na forma de cadeiras vazias. Uma cadeira vazia teria sido eleita em 2011, quando o número de votos nulos atingiu um máximo histórico.

Temos o direito de fazer as nossas próprias opções, incluindo decidir que nenhum partido merece a confiança do nosso voto. Seja pela abstenção, pelos votos em branco, ou pelos votos nulos. Não sei é se podemos continuar de costas voltadas à política e aos políticos. E também não sei que impacto teria, na nossa democracia e nos partidos que a sustentam, uma elevada percentagem de votos nulos distribuídos por cadeiras vazias nas filas do Hemiciclo. Seria esse um ponto de partida para a mudança de que tanto se fala e que parece, no entanto, nunca chegar?

publicado às 08:02

Venezuela contra Venezuela

por naomedeemouvidos, em 24.02.19

   

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    Ouvir falar Nicolás Maduro causa-me o mesmo asco que escutar Donald Trump ou Jair Bolsonaro. Talvez não sejam os três iguais, mas parecem, embora, neste caso, pareçam não estar exactamente do mesmo lado. Mas, isso, é outra história. E, claro que há mais do mesmo género, mas, ouvir e entender alguém na sua própria língua tem outro impacto.

    O impasse na Venezuela começa a ser surreal e algo vergonhoso. Mais de quarenta, creio, países reconhecem Juan Guaidó como presidente da Venezuela, e depois? Os militares continuam fiéis a Nicolás Maduro, que não tem qualquer pudor em mandar as tropas atirarem sobre os manifestantes, sobre o povo venezuelano.  

    Parece ser já evidente que houve uma espécie de erro estratégico, ou, pelo menos, de intenção, por melhor que fosse. Se alguém pensou – que é como quem diz, essa tal comunidade que dá pelo nome de internacional – que bastava manifestar apoio público a Guaidó para que uma massa significativa de militares atirasse ao chão as armas e se curvasse à bondade e vontade do presidente interino, já se percebeu que o plano falhou estrondosamente. A próxima pergunta é: e agora?

    Nicolás Maduro ainda domina. E goza. Chama palhaço a Guaidó, o presidente da oposição da Wikipédia, bromea, infame, e instiga o seu adversário a marcar as eleições que ele próprio rejeita, obviamente. Entre insultos e discursos, ainda tem tempo e ânimo para dançar salsa com a primeira-dama. Dava vontade de rir, não fosse o caso de a situação ser, como é, demasiado – insuportavelmente – trágica.

    Entre indignações selectivas e relaxadas sobre a inadmissível ingerência de países estranhos sobre a soberania de cada Estado, vamos assistindo à miséria das condições de vida(?) do povo venezuelano, que implora por ajuda que chega, mas não chega. Que tipo de chefe de Estado deixa que o seu povo morra de fome e de abandono, por puro e mesquinho despeito? É mais que evidente que Maduro está menos preocupado com o possível golpe de Estado de que acusa os países apostados em fazer entrar as caravanas de ajuda humanitária na Venezuela, do que em perder o poder que usurpou numas eleições que ficaram marcadas por denúncias de fraude, boicote à oposição e uma elevada abstenção. Não teme nada, nem lhe treme o pulso, fanfarrão, a não ser, claro, que venha a ser obrigado a sujeitar-se a sério escrutínio por parte dos seus pares.

    Enquanto os militares se mantiverem fiéis a Nicolás Maduro, não parece haver solução à vista, a não ser que se intente a intervenção militar externa que ninguém deseja. Resta saber até quando resistirá Juan Guaidó e o seu povo faminto e esgotado. 

publicado às 11:02

Sobre o assédio.

por naomedeemouvidos, em 21.02.19

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    Há cerca de dois meses, num artigo de opinião no Expresso, Daniel Oliveira perguntava se podemos levar o #MeToo até Neruda”? O artigo vinha na sequência da proposta para que o aeroporto de Santiago do Chile (Aeroporto Internacional Comodoro Arturo Merino Benítez) se passe a chamar Aeroporto Pablo Neruda, e a polémica tem a ver com o facto de o poeta chileno, Nobel da Literatura em 1971, ter confessado, num livro de memórias, que violou uma funcionária de limpeza na antiga colónia britânica do Ceilão. Dizia Daniel Oliveira, a dada altura, que “se todas as personagens do nosso passado coletivo tiverem de passar pelo teste de decência perante as minorias étnicas, os homossexuais ou as mulheres dificilmente sobreviverá alguém”.

    Já antes eu tinha ouvido Pedro Mexia questionar – nesse que é capaz de ser o melhor programa de actualidade política, do momento e que dá pelo nome de "Governo Sombra" – se fará sentido recuar vinte ou trinta anos para acusar alguém de abuso ou de assédio sexual.

    A questão não é de somenos, antes, reveste-se da maior importância. Uma vítima não deixa de ser vítima porque, entretanto, passaram duas ou três décadas – e mais que fossem – ou porque o seu abusador é um homem (porque de homens se trata maioritariamente) elegante, intelectual brilhante, famoso e outro tanto de predicados que, para o caso, deveriam interessar zero. Dizer que os tempos eram outros também não minimiza o acto, sendo evidente, no entanto, que a maior consciencialização desse abuso e dos crimes que lhe estão associados tem, actualmente, e ainda bem!, uma dimensão que não tinha à data dessas décadas passadas. O que não quer dizer que todos os homens fossem uns potenciais violadores porque assim ditavam os costumes. Daí eu não ser capaz de aceitar bem o argumento de Daniel Oliveira, lá em cima, ou o de Pedro Mexia.

 

    Vem isto a propósito do beijo mais famoso da nossa História recente. Esse de que se tem falado a propósito da morte de um dos seus protagonistas, o marinheiro George Mendonsa luso-descendente que, eufórico com o fim da II Guerra Mundial, animado de uns copos que já tinha bebido na companhia de outra mulher – aquela com quem viria a casar-se (na altura, conheciam-se há poucas semanas) – viu a enfermeira (que, afinal, também não era bem enfermeira) austríaca Greta Friedman na rua, agarrou-a e beijou-a. A imagem do beijo foi imortalizada pela lente do fotógrafo Alfred Eisenstaedt, tornou-se mundialmente famosa e eu, como tantos outros milhares de pessoas, acho-a magnífica. Um omnisciente Anónimo – ou Anónima, não sei – acusou-me, aqui pela blogosfera, de não ser boa pessoa, se se dá o caso de eu considerar maravilhosa a imagem do assédio sexual. Eu sei o que a imagem representa para mim, e isso basta-me, não devo explicações a anónimos, por mais puros que sejam. Mas, fui tentar perceber o que o acto representou para a própria, para a mulher arrebatada no meio da rua, por um completo desconhecido, por ele beijada naquele dia que ditou o fim daquela Guerra. Para Greta Friedman, “It wasn’t that much of a kiss. It was more of a jubilant act,” não chegou bem a ser um beijo, foi mais um acto de celebração. Não desvaloriza o facto de ter sido beijada por um desconhecido, simplesmente não lhe atribui um acto de assédio sexual.

     Durante muito tempo, nem se sabia bem quem era o par fotografado. A mulher que viria a casar com o marinheiro – e que assistiu ao beijo –, um matrimónio que durou cerca de 66 anos, afirmou que isso, o beijo, nunca foi uma questão, ao longo de toda essa vida em comum.

    Nos nossos dias, seria impensável e inadmissível que alguém, sob que pretexto fosse, pudesse agarrar outro alguém, completos desconhecidos, no meio da rua, e lhe pespegasse um beijo por mais wasn’t that much of a kiss que esse beijo (não) fosse.

    Obviamente, não se trata de desvalorizar, ou normalizar, um acto de abuso. Mas, será que aquele, em Times Square, foi um acto de assédio sexual? Nas palavras da suposta vítima, não foi, nunca o terá encarado como tal, porque nunca se sentiu abusada. Viu, naquele beijo, o mesmo que eu e muitos outros vêem. E é completamente diferente da violação assumida por Pablo Neruda, e de outros casos idênticos.

     A estátua que ficou para a História como um marco do fim da II Guerra Mundial foi vandalizada. Eu acho que é uma pena. Para ambos os lados.

publicado às 17:53

Vota uma, votam todas!

por naomedeemouvidos, em 21.02.19

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Carolina Beatriz Ângelo

 

“Acreditamos que uma grande maioria das mulheres não quer votar. Elas irão evitar ir às mesas de voto nos dias das eleições e irão preferir ficar em casa a cuidar das suas tarefas domésticas".

 

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As mulheres votaram pela primeira vez a 19 de Setembro de 1893, na Nova Zelândia e foi preciso chegar a 2011 para que a Arábia Saudita permitisse o voto às suas mulheres.

 

Em Portugal, Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a exercer o seu, mais ou menos, direito de voto: tinham, à época, direito a votar «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família», assim dizia a primeira lei eleitoral da República Portuguesa. Ninguém se terá lembrado que um chefe de família pudesse ser uma mulher, que disparate, de modo que, para acabar com os abusos, a partir de 1913, o regime republicano lá especificou que apenas “os chefes de família do sexo masculino” podiam votar, ou ser eleitos. As mulheres, algumas, só voltariam a poder exercer esse direito em 1931 – nas eleições para as juntas de freguesia: “mulheres portuguesas, viúvas, divorciadas ou judicialmente separadas de pessoas e bens com família própria e as casadas cujos maridos estejam ausentes nas colónias ou no estrangeiro”. Mais tarde, “os portugueses do sexo feminino, solteiros, maiores ou emancipados, com curso especial, secundário ou superior, comprovado pelo diploma respectivo” também passariam a gozar desse privilégio.

 

Nos dias que correm, não sei se não estaremos a desprezar, de forma grotesca e perigosa, um direito que, não tendo sido sempre de todos, tanto custou a alguns.

Não imagino o que é ser impedida de votar, como não imagino o que é viver amordaçada, privada dos meus direitos e liberdades, privada de mim, como, infelizmente, ainda acontece em tantos cantos obscuros do mundo (se calhar, acontece em cantos obscuros mesmo aqui ao lado, debaixo do nosso nariz, há muitas formas de arrancar alguém de si mesma/o).

 

Os sistemas eleitorais democráticos surgiram, precisamente, para garantir a soberania do poder que reside no povo. O nosso permite converter votos em mandatos pelo método de Hondt, que dá uma ligeira vantagem ao partido mais votado. Não é perfeito (até há quem diga que é antidemocrático...) porque isso é coisa que não existe. E até vimos nascer uma geringonça, mas, no caso, a culpa não foi totalmente do Hondt, coitado.

A escolha desse tipo de sistema é fundamentalmente política, não há uma resposta certa ou única. Aporta efeitos previsíveis, como também, consequências totalmente imprevistas e absolutamente espantosas, veja-se o caso dos EUA. A forma como escolhemos os nossos partidos, os nossos candidatos, os nossos representantes, tem influência directa no nosso modo de vida. Desconsiderar a responsabilidade de cada um na participação dessa escolha, nomeadamente, pelo exercício do direito de votar é um luxo a que não nos podemos permitir. Não acredito na obrigatoriedade do voto, mas, creio ser urgente estabelecer uma ponte entre dois extremos, se quisermos preservar esse pior regime político, com excepção de todos os outros. A mim, pessoalmente, não me apetece ficar em casa a tratar de tarefas domésticas

publicado às 08:55

Contos com fadas.

por naomedeemouvidos, em 20.02.19

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    Pararam em frente ao portão, magnífico. Quase não têm a certeza de estar no lugar certo. São outros tempos e o GPS ainda não é essa realidade incontornável e absolutamente imprescindível.

    Há muito que vêm ladeando o muro, no correr da estrada, adivinhando o imenso jardim, como se toda a vila coubesse dentro do pequeno castelo. Olharam, novamente, o mapa, uma ratificação redundante, desnecessária, não há mais nada em volta e a morada é exactamente aquela.

   

    A campainha soou delicada, enchendo o ar, ainda assim, tal a dimensão do silêncio. Esperam um pouco, até a dona da casa assomar à porta, lá ao longe. Sabem que, apesar do tamanho da propriedade e do primoroso estado de conservação e cuidado irrepreensível, quase não há criados.

   A senhora apressa-se a recebê-los, em passos curtos e elegantes. É pequena, ao longe, quase parece uma criança. Chega, enfim, ao portão, a sorrir, o cabelo todo branco, não, prateado, preso num coque, suavemente maquilhada, os olhos ainda jovens e brilhantes, atentos e genuínos. Desculpa-se pela demora. Conversa, diligente, mas delicada, em português. É portuguesa, explica, viveu em Portugal até aos nove anos, tem, por isso, o vocabulário ao nível de uma criança dessa idade. Pois, terão sido uns nove anos versados, lúcidos, perfeitos.

    Encaminha-os para a entrada da casa. Encanta-se com o pequeno, há-de sempre tratá-lo com enorme carinho, nesses dias que se avizinham. Não tem filhos e adora crianças.

    O marido espera-os à soleira da porta. Tem a mão direita envolta numa ligadura. Magoou-se a cuidar do jardim, pela manhã. É um pouco teimoso e recusa grandes ajudas. Às vezes, abusa. Mas, entrem, entrem, soyez les bienvenus!

    A casa é magnífica, tal como esperavam. Sim, estão um pouco cansados da viagem, mas, claro que terão o maior prazer em acompanhá-los num passeio pelo jardim. É só o tempo necessário para pousar as malas e trocar de roupa, um duche rápido, um breve instante.

 

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    Amanhã, como todas as manhãs, o pequeno-almoço terá início às 9.30h em ponto, na imponente sala de jantar, na companhia dos restantes hóspedes e do casal de anfitriões. Evidentemente, é a dona da casa quem se encarregará, como habitualmente, de o preparar e servir, com uma pequena ajuda da jovem criada. Parece perfeito. E assim será.

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(imagens próprias)

 

 

publicado às 08:30

A palermice plena e a Terra que não é plana.

por naomedeemouvidos, em 19.02.19

Parece que há cada vez mais gente a acreditar que a Terra é plana. Dizem que a culpa é de um vídeo que anda a circular no YouTube. Agonia-me, mas não me estranha. Decidir “não acreditar” na ciência virou uma espécie de moda requintada.

 

As vacinas provocam autismo. Não interessa nada que esteja mais que provado que o suposto "estudo" que suportava tão erudita ideia não passou de uma fraude encomendada, bem paga e que o seu mentor tenha sido impedido de continuar a exercer medicina.

 

A água tem memória. E, nessa suposta memória, cabem as curas milagrosas que os promotores das águas açucaradas homeopáticas vendem aos mais frágeis, comprometendo, tantas vezes irremediavelmente, a saúde dos doentes. Não sei é considerado crime, mas devia.

 

O Homem nunca pôs os pés na Lua. Nos la colaran, que é como quem diz, enfiaram-nos o barrete, já dizia o Casillas, que é famoso, logo, percebe imenso de tudo o que importa perceber. A fama, aliás, tornou-se requisito necessário e mais que suficiente para atestar a fiabilidade de uma qualquer teoria da conspiração. É tudo uma enorme patranha. Qual Lua. É só olhar para a bandeira, esticadinha, e, isso toda a gente sabe – até os pindéricos dos cientistas – na Lua não há ar. E, claro, o aquecimento global, simplesmente, não existe. Já viram o frio que se tem feito sentir? Principalmente, na América? Se tiverem dúvidas, perguntem a Donald Trump, não se esqueçam que o homem até tem, ou tinha, um tio que era cientista, com bons genes, fantástico e que percebia imenso de ciência.

 

Alguns cientistas parecem defender que se deve promover mais a ciência. No caso da suposta planura da Terra, por exemplo, publicar mais vídeos e outros recursos que provam que a Terra é uma esfera, mais ou menos, pois ligeiramente achatada nos pólos, sendo o raio equatorial um pouco superior. É tão absurdo e improvável que a confusão venha daí - não faço a menor ideia - como de outra coisa qualquer, mas é absolutamente indiferente para quem quer achar o que quer que lhe apeteça.

Pergunto-me se valerá a pena o esforço. De promover a ciência junto destas sumidades. Esta gente, que desdenha das evidências científicas, está-se nas tintas para o conhecimento. Se quiserem acreditar que, afinal, é o Sol que gira à volta da Terra, fá-lo-ão sem quaisquer hesitações ou pruridos. É só levantar o nariz, não se está mesmo a ver o Sol a mexer-se, e não a Terra? Qual “e no entanto ela move-se”, que tamanha idiotice. Vamos, mas é, refazer os manuais de ciências. E de história, já agora. Resolve-se tudo de uma penada.

 

Uma coisa, no entanto, podíamos fazer. Não dar palco a estas imbecilidades e, muito menos, espaço partilhado para discutir, em pé de igualdade, ciência e crendice (às vezes, fraude intencional) como se fosse possível comparar o que não é comparável. Daqui a pouco, voltamos às teorias criacionistas nos bancos das escolas…parece já ter faltado mais.

publicado às 15:58

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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