Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Sobre o assédio.

por naomedeemouvidos, em 21.02.19

beijo.PNG

 

    Há cerca de dois meses, num artigo de opinião no Expresso, Daniel Oliveira perguntava se podemos levar o #MeToo até Neruda”? O artigo vinha na sequência da proposta para que o aeroporto de Santiago do Chile (Aeroporto Internacional Comodoro Arturo Merino Benítez) se passe a chamar Aeroporto Pablo Neruda, e a polémica tem a ver com o facto de o poeta chileno, Nobel da Literatura em 1971, ter confessado, num livro de memórias, que violou uma funcionária de limpeza na antiga colónia britânica do Ceilão. Dizia Daniel Oliveira, a dada altura, que “se todas as personagens do nosso passado coletivo tiverem de passar pelo teste de decência perante as minorias étnicas, os homossexuais ou as mulheres dificilmente sobreviverá alguém”.

    Já antes eu tinha ouvido Pedro Mexia questionar – nesse que é capaz de ser o melhor programa de actualidade política, do momento e que dá pelo nome de "Governo Sombra" – se fará sentido recuar vinte ou trinta anos para acusar alguém de abuso ou de assédio sexual.

    A questão não é de somenos, antes, reveste-se da maior importância. Uma vítima não deixa de ser vítima porque, entretanto, passaram duas ou três décadas – e mais que fossem – ou porque o seu abusador é um homem (porque de homens se trata maioritariamente) elegante, intelectual brilhante, famoso e outro tanto de predicados que, para o caso, deveriam interessar zero. Dizer que os tempos eram outros também não minimiza o acto, sendo evidente, no entanto, que a maior consciencialização desse abuso e dos crimes que lhe estão associados tem, actualmente, e ainda bem!, uma dimensão que não tinha à data dessas décadas passadas. O que não quer dizer que todos os homens fossem uns potenciais violadores porque assim ditavam os costumes. Daí eu não ser capaz de aceitar bem o argumento de Daniel Oliveira, lá em cima, ou o de Pedro Mexia.

 

    Vem isto a propósito do beijo mais famoso da nossa História recente. Esse de que se tem falado a propósito da morte de um dos seus protagonistas, o marinheiro George Mendonsa luso-descendente que, eufórico com o fim da II Guerra Mundial, animado de uns copos que já tinha bebido na companhia de outra mulher – aquela com quem viria a casar-se (na altura, conheciam-se há poucas semanas) – viu a enfermeira (que, afinal, também não era bem enfermeira) austríaca Greta Friedman na rua, agarrou-a e beijou-a. A imagem do beijo foi imortalizada pela lente do fotógrafo Alfred Eisenstaedt, tornou-se mundialmente famosa e eu, como tantos outros milhares de pessoas, acho-a magnífica. Um omnisciente Anónimo – ou Anónima, não sei – acusou-me, aqui pela blogosfera, de não ser boa pessoa, se se dá o caso de eu considerar maravilhosa a imagem do assédio sexual. Eu sei o que a imagem representa para mim, e isso basta-me, não devo explicações a anónimos, por mais puros que sejam. Mas, fui tentar perceber o que o acto representou para a própria, para a mulher arrebatada no meio da rua, por um completo desconhecido, por ele beijada naquele dia que ditou o fim daquela Guerra. Para Greta Friedman, “It wasn’t that much of a kiss. It was more of a jubilant act,” não chegou bem a ser um beijo, foi mais um acto de celebração. Não desvaloriza o facto de ter sido beijada por um desconhecido, simplesmente não lhe atribui um acto de assédio sexual.

     Durante muito tempo, nem se sabia bem quem era o par fotografado. A mulher que viria a casar com o marinheiro – e que assistiu ao beijo –, um matrimónio que durou cerca de 66 anos, afirmou que isso, o beijo, nunca foi uma questão, ao longo de toda essa vida em comum.

    Nos nossos dias, seria impensável e inadmissível que alguém, sob que pretexto fosse, pudesse agarrar outro alguém, completos desconhecidos, no meio da rua, e lhe pespegasse um beijo por mais wasn’t that much of a kiss que esse beijo (não) fosse.

    Obviamente, não se trata de desvalorizar, ou normalizar, um acto de abuso. Mas, será que aquele, em Times Square, foi um acto de assédio sexual? Nas palavras da suposta vítima, não foi, nunca o terá encarado como tal, porque nunca se sentiu abusada. Viu, naquele beijo, o mesmo que eu e muitos outros vêem. E é completamente diferente da violação assumida por Pablo Neruda, e de outros casos idênticos.

     A estátua que ficou para a História como um marco do fim da II Guerra Mundial foi vandalizada. Eu acho que é uma pena. Para ambos os lados.

publicado às 17:53

Vota uma, votam todas!

por naomedeemouvidos, em 21.02.19

Carolina Beatriz Ângelo.PNG

Carolina Beatriz Ângelo

 

“Acreditamos que uma grande maioria das mulheres não quer votar. Elas irão evitar ir às mesas de voto nos dias das eleições e irão preferir ficar em casa a cuidar das suas tarefas domésticas".

 

logoRasurando (1).jpg

 

As mulheres votaram pela primeira vez a 19 de Setembro de 1893, na Nova Zelândia e foi preciso chegar a 2011 para que a Arábia Saudita permitisse o voto às suas mulheres.

 

Em Portugal, Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a exercer o seu, mais ou menos, direito de voto: tinham, à época, direito a votar «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família», assim dizia a primeira lei eleitoral da República Portuguesa. Ninguém se terá lembrado que um chefe de família pudesse ser uma mulher, que disparate, de modo que, para acabar com os abusos, a partir de 1913, o regime republicano lá especificou que apenas “os chefes de família do sexo masculino” podiam votar, ou ser eleitos. As mulheres, algumas, só voltariam a poder exercer esse direito em 1931 – nas eleições para as juntas de freguesia: “mulheres portuguesas, viúvas, divorciadas ou judicialmente separadas de pessoas e bens com família própria e as casadas cujos maridos estejam ausentes nas colónias ou no estrangeiro”. Mais tarde, “os portugueses do sexo feminino, solteiros, maiores ou emancipados, com curso especial, secundário ou superior, comprovado pelo diploma respectivo” também passariam a gozar desse privilégio.

 

Nos dias que correm, não sei se não estaremos a desprezar, de forma grotesca e perigosa, um direito que, não tendo sido sempre de todos, tanto custou a alguns.

Não imagino o que é ser impedida de votar, como não imagino o que é viver amordaçada, privada dos meus direitos e liberdades, privada de mim, como, infelizmente, ainda acontece em tantos cantos obscuros do mundo (se calhar, acontece em cantos obscuros mesmo aqui ao lado, debaixo do nosso nariz, há muitas formas de arrancar alguém de si mesma/o).

 

Os sistemas eleitorais democráticos surgiram, precisamente, para garantir a soberania do poder que reside no povo. O nosso permite converter votos em mandatos pelo método de Hondt, que dá uma ligeira vantagem ao partido mais votado. Não é perfeito (até há quem diga que é antidemocrático...) porque isso é coisa que não existe. E até vimos nascer uma geringonça, mas, no caso, a culpa não foi totalmente do Hondt, coitado.

A escolha desse tipo de sistema é fundamentalmente política, não há uma resposta certa ou única. Aporta efeitos previsíveis, como também, consequências totalmente imprevistas e absolutamente espantosas, veja-se o caso dos EUA. A forma como escolhemos os nossos partidos, os nossos candidatos, os nossos representantes, tem influência directa no nosso modo de vida. Desconsiderar a responsabilidade de cada um na participação dessa escolha, nomeadamente, pelo exercício do direito de votar é um luxo a que não nos podemos permitir. Não acredito na obrigatoriedade do voto, mas, creio ser urgente estabelecer uma ponte entre dois extremos, se quisermos preservar esse pior regime político, com excepção de todos os outros. A mim, pessoalmente, não me apetece ficar em casa a tratar de tarefas domésticas

publicado às 08:55



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


Layout

Gaffe


Arquivo



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.