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Bem ou mal, tudo o que aqui está escrito é da autoria de naomedeemouvidos, salvo citações e/ou transcrições devidamente assinaladas, embora, alguns textos "EntreLetras" se baseiem em lendas ou histórias conhecidas.
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É um clássico. Mulher que é mulher nunca se põe a jeito porque, como muitos dizem saber, homem que é homem está sempre à altura de lhe agarrar o jeito. E, assim, sempre se vão desvalorizando os hediondos crimes que alguns – alguns!, é preciso que fique bem claro – homens cometem sobre as mulheres, com a complacência de todos.
No caso concreto da violência doméstica, sempre que alguma mulher morre às mãos de um desses assassinos, enchem-se páginas e páginas de jornais, sempre com as mesmas queixas, as mesmas incompetências, os mesmos lamentos, as mesmas lágrimas. Apenas durante um breve período de tempo. Menos do que aquele que se gasta a discutir um fora-de-jogo, tema que dá aí para, no mínimo, duas semanas de programas, comentários, debates, análises e mais um ror de coisas úteis. A notícia, a que à violência doméstica diz respeito, volta na próxima morte, com cenas dos capítulos anteriores, que serão, também, as dos próximos. Lamentável e vergonhosamente. Já são duas mãos cheias - e mais uma pequenina e insuportável -, ainda o ano está a começar. Mas, não aprendemos nada?
O último crime odioso de que se fala (também) levou a pequena Lara, de apenas dois anos. Na versão mais absurda que ouvi acerca desse infame estatuto que é o pôr-se a jeito, alguém dizia qualquer coisa do género, pobre menina, mas quem mandou à mãe ter um filho com um tipo daqueles. As palavras não eram exactamente estas, mas o sentido era este. Inacreditável, não é?
O tipo, tal como o pôr-se a jeito, serve para tudo catalogar. É a tipa que não é séria, ou o tipo que a ama muito, é tipo de roupa, o tipo de rendas, o tipo de tanga. O tipo de hora, o tipo de quarto, o tipo de amor. Esse amor tão grande que não aguenta ver o outro feliz e completo; não, tem que humilhar, maltratar, agredir e, quando nada mais sobrar, tem que matar.
Há dois dias, o senhor juiz desembargador Neto Moura recebeu, do Conselho Superior da Magistratura, uma advertência escrita, na sequência daquele acórdão de Outubro de 2017 que se tornou famoso pelas piores razões. O senhor vai recorrer. Muitos se indignaram. Muitos dos colegas do senhor doutor juiz. Afinal, é um atentado ao princípio da independência dos tribunais e à indispensável liberdade de julgamento, segundo li algures. Transcrevo parte do texto que constitui, por sua vez, parte do exercício dessa liberdade e independência de que devem gozar os juízes:
“Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372º ) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse. Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher”.
Eu sei que que deve haver pouca gente que ainda não tenha lido, mas, há coisas que nunca é demais lembrar. Aqui fica.
Só é pena que o senhor juiz possa ter razão num pequeno, grande, imenso, pormenor: “e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras.”
Há mulheres que não aprendem…

O que é um Orçamento de Estado? Como se faz? E qual é o Orçamento de Estado ideal? Não sei responder a tudo isto (bom, a parte do ideal é fácil…não existe, como qualquer ideal digno desse nome). Mas, imagino que um bom ponto de partida seria uma espécie de verdade de La Palisse, esse pobre coitado que não se livra do equívoco, se não estivesse morto faria inveja e claro que estaria vivo, ainda hoje, abençoados os erros de tradução, faltava-me qualquer coisa de útil para dar seguimento a este texto. Adiante.
É já aqui...

Muita gente sabe o que é o crowdfunding. Ou, pelo menos, já ouviu falar. Em português, pode dizer-se financiamento colectivo. Não é que seja uma coisa totalmente nova. A questão é que, com a Internet (como não?), passou a ser possível chegar a mais gente que possa simpatizar com a coisa, no caso, com a causa, a nossa, a de cada um, e pedir-lhes dinheiro. É como fazer uma vaquinha (lembram-se?), mas, esta voa mesmo, muito alto e muito longe. Dependendo do nível de simpatia que a coisa, a tal que é causa, desperte, em pouco tempo, às vezes minutos, pode atingir-se a lua, que o mesmo é dizer, muitos milhares, às vezes milhões, de euros. É melhor do que ir ao tanque procurar um tubarão disponível, de onde podemos sair com os nervos em frangalhos e o orgulho ferido à dentada.
Ora, o crowdfunding serve imensas causas. Desde pagar casamentos e luas-de-mel, viagens de finalistas e afins, até à ajuda financeira de diversos negócios, de tamanho e importância de mercado variáveis. O dinheiro pode ser, simplesmente, doado, ou oferecido em troca de uma pequena contrapartida ou recompensa. Os meandros deste sistema de financiamento podem parecer simples, mas, talvez não seja bem assim. Para o que aqui me traz, não interessa nada. Ou talvez sim.
E o que aqui me traz é a greve dos nossos enfermeiros. Em Dezembro passado, a greve dos enfermeiros alcançou um enorme sucesso, no que diz respeito ao crowdfunding: 360 mil euros de donativos angariados e batidos todos os recordes da plataforma PPL que, dizem (eu nunca tinha ouvido falar), ocupa 80% deste mercado de negócio.
Na plataforma PPL, os enfermeiros dizem-se em luta para salvar o SNS. Eu não duvido. Não duvido mesmo. Acredito que o que reivindicam é justo e merecido, para a maioria destes profissionais de saúde e para a classe profissional a que pertencem. O que me incomoda sempre nas greves é os seus efeitos sobre os mais fracos e sobre aqueles que não têm voz. Dizem que é um preço que há que pagar, porque, se não for assim, nunca se consegue fazer pressão sobre as entidades patronais e garantir esse direito e essa justiça que se procura. E a greve é um direito. Mas, a greve também costumava vir acompanhada de uma forma de pressão, ou tampão, para quem exercia esse direito: a perda de salário para quem dele dispunha. Se essa variável sair da equação, até onde será possível levar esse direito? A possibilidade de manter o braço-de-ferro sem prejuízo financeiro para os que exercem um justo protesto parece um pouco perversa. Como ficam os doentes? Numa das suas últimas intervenções públicas, Lúcia Leite, presidente da Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros, sugeriu que alguém que está há meses (não recordo o número que referiu) à espera de uma cirurgia, pode esperar mais um mês. Não faz muita diferença. Toda a gente tem direito a frases infelizes, mas, quando se trata de pessoas em situações de fragilidade física e psicológica, a inépcia choca um pouco mais.
Não sendo ilegal, aparentemente, financiar uma greve recorrendo a um sistema de crowdfunding é difícil perceber onde pode ficar o limite aos danos (irreparáveis?) que esta forma de protesto financiado causa sobre os outros. Os doentes, neste caso. E, afinal, a quem é que interessa financiar a greve dos enfermeiros?
Ontem, em entrevista à SicNotícias, António Costa – que, já antes, havia classificado a greve dos enfermeiros como “selvagem” e “absolutamente ilegal” – diz que o Governo chegou ao limite das negociações, condena a conduta da bastonária da ordem dos enfermeiros, a quem acusa de práticas que podem constituir “actividade sindical” em, eventualmente, ilegal oposição aos estatutos regem as ordens profissionais e deixou implícita a possibilidade de apresentar queixa às autoridades competentes. Entretanto, milhares de cirurgias vão sendo adiadas, há utentes a deslocarem-se dezenas de quilómetros em vão e a “guerra” não parece ter fim à vista.

Parece que o Facebook completou 15 anos de existência. Como não uso, passou-me um pouco ao lado, apesar das últimas notícias e programas sobre até onde a Rede nos pode embrulhar.
Não sou adepta, não uso, não possuo desses amigos, ou seguidores, ou admiradores, ou ódios de estimação, ou outras coisas que tais que a Rede propicia. Mas, ainda me lembro de quais eram os princípios orientadores da dita: ligar-nos! A todos, no mundo inteiro, trocar conhecimento, partilhar experiências, reencontrar alguém de quem sentíamos a falta. Fazer chegar a voz de quem precisa aos que podem ajudar. Talvez eu tenha forçado a existência deste último princípio, não sei, mas lembrei-me dele ao ler esta notícia: o Facebook permitiu ajudar ao financiamento para a compra de barcos que ajudam crianças a atravessar um rio para chegar à escola, nas Filipinas. Antes dos barcos amarelos, faziam a travessia a nado, com as mochilas cheias à cabeça.
Acho que são devidos parabéns. Afinal, nem tudo é mau...

Nunca é fácil lidar com a morte. Pelo menos, nas nossas sociedades, europeias, ocidentais, cosmopolitas. Outras sociedades há em que a morte é celebrada, pois é vista como uma passagem ou como uma etapa do percurso da vida, que se repete, de libertação em libertação, até à purificação total e suprema. Os próprios católicos encontram um certo conforto, se assim se pode chamar, na fé que professam por acreditarem na ressurreição dos seus mortos. E, ainda assim, essa fé pode ser brutalmente esmagada pela violenta circunstância da vida. Ironicamente, de uma forma quase macabra, face a episódios recentes, conheço bem de perto um casal que perdeu os dois únicos filhos, ambos por doenças terminais e fulminantes, com um intervalo de poucos, pouquíssimos, anos. Eram profundamente católicos até à morte do segundo filho. O que pode restar de fé, depois disso? Eu, sendo não crente, não me espanta que pouco ou nada reste. E, no entanto, deixei, juntamente com o meu marido, que o nosso único filho fosse baptizado na Igreja Católica, já com 10 anos e a seu expresso pedido. Consentimos, como pais, porque a fé, ou a sua ausência, são assuntos de cada um.
Mas, imagino que, mesmo para quem olhe a morte como uma passagem, não como um fim absoluto, seja difícil ver partir aqueles que ama, de quem cuida, a quem se afeiçoou pelo caminho. E, se há mortes esperadas como naturais e inevitáveis – dolorosas, mesmo assim –, outras há quase obscenas. Como a do pequeno Julen; a dos dois irmãos amigos de infância do meu marido; a da pequenina de 2 anos que o pai levou ontem, à força, depois de ter esfaqueado a avó, que pereceu também. É tanta a maldade e a loucura que, por vezes, se torna difícil racionalizar sobre a inevitabilidade da morte.
Sendo inevitável, uma consequência natural da vida em si mesma, a morte não devia ser leviana. Ninguém devia morrer pela sua própria condição. Pela sua fé. Pelo seu género. Por ser homem. Por ser negro. Por ser pobre. Por ser criança. Por ser mulher.
Mais uma mulher morreu, no Nepal, exilada numa cabana sem janelas, onde acendeu uma fogueira para se aquecer. O seu crime? Estava menstruada, logo, impura, portadora de má sorte. Podia ter acabado de parir e o seu castigo seria o mesmo. Parece que assim o dita a prática do país. Prática essa que, aparentemente, foi banida do país já em 2005, mas, a quem é que isso interessa? É difícil reeducar uma comunidade inteira, um país. E, apesar de haver, desde 2017, uma lei que pune quem forçar as mulheres nepalesas a este isolamento forçado e absurdamente trágico, não há qualquer denúncia, ou qualquer queixa. No início do ano, outra mulher tinha morrido, juntamente com os dois filhos, nas mesmas condições. Chama-se "Chhaupadi". A prática.
Em Portugal, desde o início do ano, já nove mulheres foram mortas em contexto de violência doméstica. Nove. Por cá, como por outros países civilizados, a tradição é outra. Terá outro nome.
Há mortes que chegam a ser obscenas.
“(…) depois, na altura da produção, dareis um quinto ao faraó; as outras quatro partes servir-vos-ão para semear os campos e para vos sustentardes, assim como à vossa gente e às vossas famílias.”
Bíblia, Génesis, capítulo 47, versículo 24
E, assim, Deus criou os impostos.
Acha que não? Vá lá ver...

O monte ergue-se imponente e estéril, distante dos dias em que, enfurecido, cuspiu as escaldantes cinzas negras que cobriram a cidade, imprudente, quando a escuridão emergiu das profundezas da terra e se abateu sobre a população assustada, alheia à demoníaca natureza da montanha, inconsciente do humor das suas entranhas e da sua fúria iminente. Milhares de anos adormecido, em contido tumulto, espiando a vida num corrupio elegante e caprichoso, mais abaixo, onde a cidade cresce e fervilha, alheia ao infortúnio que se agiganta. Paira no ar um leve cheiro a enxofre, subtil ainda, não basta para provocar espanto ou temor. Nem mesmo a nuvem inquieta, sobranceira à encosta, medonha e esgalhada, impelida pelo ar em torvelinho, levanta a mínima suspeita. Como outrora, o monstro jaz adormecido, em deleite, paciente, à espreita, à espera do momento em que, de novo se há-de erguer e semear o caos. Como então, sabe que a calma é dissimulada. Aparente, apenas, porque ávida, pronta a cobrar, inclemente, leves sopros de vida descuidados, todos, um-a-um, com o seu viscoso hálito preto, tranquilo e silencioso, escoado num manto intermitente de morte. E, tal como antes, há um sossego putrefacto, um murmúrio áspero, vibrante e audaz, soprando nojo e ruína, como uma besta encurralada.
Deixou o carro no sopé do morro. Vai subindo devagar a íngreme encosta, invocando fantasmas passados, de gesso resgatados, almas cegas e desprevenidas, reunidas em demorados enlaces, abafados, sem tempo para inúteis e prolongadas lamúrias. As lágrimas esgotam-se num assombro, definham nada mais assomar-se à memória, ela própria esvaindo-se ligeira e desdenhada. E é melhor assim, enxotar prontamente o horror, sucumbir à mordaça seca e certeira do pó, em vez do abismo crepitante e voraz do fogo do inferno. Sobem lamentos e penas. A terra treme e desfalece, engolindo caminhos e casas. Os pátios soltam gemidos, assustando os bichos que correm, insanos, fugindo das rochas que começam a chover do céu. Rugem os bichos, rugem as rochas, silvam poeiras em remoinhos. Dois amantes estacam, imponentes, fundem-se num derradeiro abraço, sem espaço, sem tempo nem vontade para lá da paz sôfrega, apaziguadora, ainda assim. Acalmam os medos, indiferentes, já, às largas chamas que brilham no céu, como tochas, iluminando os caminhos estreitos e cavernosos como as câmaras esconsas e aninhadas sob o peso de ambos. Ainda é dia, mas o Sol há muito se desfez em negros estilhaços e a Lua, antes uma leve sombra esbatida, sumiu-se, renegada, em atormentados lamentos.
A nuvem negra adensa-se e vocifera como uma matrona. Mais abaixo, a cratera nua e seca parece torcer-se num escárnio. O odor a enxofre é, agora, mais intenso e enoja-a violentamente. A montanha agita-se, em fúria. Uma chuva miúda e pastosa cola-se-lhe à pele e parece queimar. Quando o céu se esvai numa imensa negritude, a terra rasga-se, em malograda volúpia, e a incontida besta desperta, finalmente, enorme, assombrosa, derramando, em jorros, a sua implacável cólera.
Idade - Tem dias.
Estado Civil - Muito bem casada.
Cor preferida - Cor de burro quando foge.
O meu maior feito - O meu filho.
O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.
Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.
Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.
Imprescindível na bagagem de férias - Livros.
Saúde - Um bem precioso.
Dinheiro - Para tratar com respeito.
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