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Entre as sombras.

por naomedeemouvidos, em 01.03.19

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Subo a avenida do bairro chique e limpo alheio ao caos que fervilha no outro canto da cidade. Há um leve cheiro a jasmim, sem dor, nem nódoa, e vou olhando os edifícios elegantes e esterilizados, do outro lado da rua, perdida por detrás da lente da minha câmara. Os outros seguem mais à frente; os miúdos riem e falam de coisas que apenas adivinho, à distância. As árvores balançam, com graça, os ramos esguios, enquanto desenham suaves sombras tombadas no chão que, nada mais ajeitar-se o vento, de mansinho, escoam céleres pelos sumidouros rendilhados e brilhantes, em permanente galanteio.

 

Demoro um pouco a perceber que o homem se dirige a mim, especificamente. Energicamente. Nem o vi chegar. Parece um segurança, fardado, moreno, levanta a mão – não se atreve a tocar-me – e ordena-me que pare, sem que eu tenha chegado a entender uma única palavra. Percebo, intuitivamente, que fiz algo que não devia, mas, não falo a sua língua e, ele, nenhuma outra além dessa.

Uma foto. Percebo que aponta para a minha máquina fotográfica e mantém-me refém de uma suposta autoridade que me confunde. Continua no meu caminho, impassível, e sinto o calor apertar-me mais. Os outros, lá adiante, parecem distraídos. Não tarda, escapam-se, à esquina da rua, e deixarei de os ver. Amaldiçoo-me por me ter deixado ficar tão para trás, eu e os meus malditos instantes. Irrepetíveis, urgentes, inadiáveis.

 

Encaro o homem na minha frente. Estou segura, agora, de que se trata de um problema com alguma ou algumas das minhas fotografias. Mostro o écran da máquina e pergunto se devo apagar alguma coisa – não desconfio, sequer, o quê –, imaginando que me faço entender de algum modo. Segura na mão um walkie-talkie algo obsoleto que aproxima do rosto enquanto olha para mim. Percebo que fala com alguém e é evidente que aguarda instruções. A esquina está cada vez mais próxima, mas, não quero chamar, com receio de elevar demasiado a voz e acabar por denunciar a aflição tonta que me agonia. O riso das crianças chega-me já encolhido, pálido, e o calor ameaça confundir-me irremediavelmente.

 

Perco-me por momentos, entre as sombras e os cantos do tempo, até o homem começar a chamar-me, uma cacofonia insistente e confusa. Acaba por tocar-me no braço, à altura do cotovelo, leve, mais suavemente do que sugere o enorme chinfrim em que pretende que eu o entenda. Mas compreendo que posso ir, afinal, não há problema. E, que houvesse, não cheguei a entender que seria. Num devaneio algo infantil, desejo, intimamente, poder falar e entender todas as línguas do mundo.

 

Acabam de chegar à esquina quando se voltam, finalmente, para trás. Mas, já está tudo bem. Volto a escutar as gargalhadas, agora, cristalinas, inocentes e alegres como antes.

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publicado às 22:41



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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