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Bem ou mal, tudo o que aqui está escrito é da autoria de naomedeemouvidos, salvo citações e/ou transcrições devidamente assinaladas, embora, alguns textos "EntreLetras" se baseiem em lendas ou histórias conhecidas.
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O menino dorme um sono tranquilo, enrolado na manta branca e macia. Está esgotado da viagem. As chamas bailam, insubmissas, moldando os toros de pinheiro acabado de rachar e o calor vai emprestando ao ar da sala um suave odor a resina, enquanto a madeira geme baixinho em estalidos secos e quentes que embalam a conversa solta e fora de horas. É um tempo de recordação e memórias, de lembrar um passado que se fez de mais de um século e que finda agora como, daí a pouco, a chama amarelecida da lareira que, por ora, afaga suavemente a face apaziguada do menino.
Dizem as gentes da terra que já não há mulheres assim. Daquelas que dão à luz sozinhas, parindo nada mais chegar do campo, com uma ligeira indisposição, talvez seja a hora, vou a casa, ver se isto passa ou se, pelo contrário, aqueço, antes, a água na panela, enquanto ato, numa pressa, um lençol grande a duas cadeiras, para ajudar a amparar a menina, para o caso de estar mesmo a chegar. E o caso é que lá chegou, assim foi, num enorme pranto, cheia de vida acabada de colher no meio da sala, num lençol limpo, não demasiado esticado, é preciso uma tesoura, escaldada, pelo sim, pelo não, também lá está, logo ali à mão, e a menina sozinha com sua mãe, como se, à época, fizesse falta qualquer outra coisa mais. Talvez a parteira, que já não veio a tempo, é certo, mas, ao menos, só para ter a certeza que as duas estão bem de saúde. Está tudo como deve ser. E a dorzita passou, afinal. Calhando, amanhã, ainda volto ao campo…
Seguramente, ainda haverá mulheres assim. Era bom que já não houvesse, que fôssemos todas iguais.
O menino ainda dorme, sob o olhar amoroso. Não acredita em anjos. Se acreditasse, talvez fosse fácil imaginá-los assim, aquecidos pelo lume da lareira, ouvindo, num sono quieto e venturoso, histórias de encantar.
Passo por ela todos os dias. Ela não chega bem a passar por mim. Porque me atravessa a alma em desalinho. Arrasta-me suspensa dos seus olhos negros e profundos que apenas vislumbro por entre a máscara de trapos que compõem o horrendo e espesso niquab. Apesar das correntes que a trazem agrilhoada, nesse dia como noutro dia qualquer, move-se com elegância. As mãos, cobertas pelas luvas pretas, opacas e decentes, como convém, parecem pequenas e graciosas. Vai deslizando os pés, suavemente, estrangulados nuns sapatos pretos, de biqueira arredondada, emergindo a lufadas curtas e rápidas, como um náufrago aspirando, sofregamente, os farrapos azedos do ar que ainda o mantém vivo. Pode caminhar na rua sozinha, sem a companhia decente de um homem, por isso, fatalmente encarcerada, sente-se livre. O mais livre que lhe permite a sua condição. Foi abençoada. Casou bem. De momento, o marido está em viagem de lua-de-mel com a segunda esposa. Ela autorizou. A primeira esposa goza desse privilégio. O de autorizar segundas esposas. Ou terceiras. A quarta, eventualmente. Todas devem viver com o mesmo imposto, abominável, conforto.
É estranho que não tenha filhos. Mas, talvez ainda não seja a hora. Não imagino a sua idade. Os olhos negros nem sempre me permitem a ousadia de os suster nos meus. Sou estrangeira e impura, não conversamos, jamais poderíamos ser amigas. E, no entanto, há algo, naquele silêncio que nos une, uma vez a cada semana, quando nos cruzamos, fugazmente, na rua, uma quietude imensa, avassaladora, que me arrelia e me inunda de contradições. Emociono-me, pasmo, rio, deslumbro-me. Nunca sinto pena, no entanto, não sei se deveria.
Não. Não somos amigas. Como poderíamos, sendo tão diferentes? Se nunca, sequer, a vi, inteira, pouco mais que uma sombra. E ninguém faz amizades futilmente, que disparate, com alguém que não conhece, com quem nunca trocou uma única palavra, apenas olhares breves, silêncios incontidos, em rebuliço, suspensos de um entendimento para lá do aceitável, dadas as circunstâncias. Acabarei por mudar-me e deixarei de me cruzar com a sua alma quase muda, vertida nos olhos profundos que me atormentam.
Por vezes, encontro-a noutros olhos, noutras almas, noutras amizades igualmente improváveis. E, muitas vezes, volto, imprudentemente, a emocionar-me.

A cabeça de uma mulher decapitada deu à costa, hoje, em Leça da Palmeira.
O ano de 2019 começou com um número alarmante e vergonhoso de mulheres assassinadas pelos companheiros, indivíduos a quem – por falta de termo alternativo adequado e para não recorrer ao insulto – se chama homens, mas, que jamais o poderiam ser, como é evidente, já que os homens dignos dessa designação não espancam mulheres, muito menos, até à morte. Aqueles são assassinos que, por acaso, nasceram do sexo masculino.
O horror já quase não choca. É só mais um caso. Atrás de outro. Por isso, quando ouço gente inteligente insurgir-se contra a onda de contestação (e gozo; merecido, lamento) que se levantou contra o juiz Neto de Moura, dá-me volta ao estômago. Não falo das mensagens de ódio instantâneo que transbordam, verdes de asco, nas redes socias sempre que a turba de indignados-porque-sim se manifesta e que não merecem, sequer, o tempo que se perde a olhar para lá. Falo dos argumentos que se esgrimem em defesa da suposta liberdade dos juízes para aplicarem a lei e que não pode andar a reboque da pressão mediática e social, sob pena de, perniciosamente, tirar à justiça o que é da justiça.
Pois, com certeza, que a aplicação da justiça não pode ficar refém da opinião pública ou dos indignados-mor da pátria. Mas, penso que, no caso do juiz Neto de Moura, o risco que se corre não é o do atentado à liberdade de aplicação da lei. É o de não ser admissível que uma fundamentação jurídica, plasmada num acórdão que se pretende, precisamente, livre e soberano, se faça à custa do preconceito retrógrado e pessoal do juiz que a redige. Quem falha na sua independência é o juiz que escreve, sem sobressalto e em pleno uso das suas (in)competências profissionais, considerações arcaicas e levianas, como, por exemplo, que as mulheres adúlteras carecem de probidade moral. Isso dirão(?) alguns padres e, eventualmente, aquela senhora do CDS que gosta de receber bem e não se importa de ganhar menos do que o marido, mais a juíza Maria Luísa Arantes, que estava ao lado de Neto de Moura apenas para assinar de cruz, mais ou menos como Carlos Costa nos Conselhos de Crédito da CGD: era só para assegurar o quórum. Serão coisas totalmente diferentes, mas, o diabo, como se sabe, está nos detalhes.
Agora que o juiz Neto de Moura vai deixar de julgar casos de violência doméstica não se pense que o problema deixou de existir. Continua a haver acórdãos aberrantes. Como aquele em que um crime de violação é desvalorizado com base em considerações sobre a “sedução mútua”, apesar de, no momento do acto abjecto, a vítima estar quase inconsciente.
Amanhã é Dia da Mulher. E os senhores juízes e as senhoras juízas promovem um workshop de maquilhagem. Se alguém ousar oferecer-me flores, é capaz de levar com elas na cabeça.
Tomás Correia foi condenado pelo Banco de Portugal a pagar uma multa de 1,25 milhões de euros, por práticas irregulares no exercício do cargo de presidente da Caixa Económica Montepio Geral, actual Banco Montepio. É bom lembrar que Tomás Correia foi reconduzido, numa eleição que se imagina livre, à liderança da Associação Mutualista Montepio Geral já quando sobre ele pesavam suspeitas graves, gozando até do estatuto de arguido em alguns casos. Candidatou-se a essa renovação no cargo suportado por uma lista de individualidades de conhecido nome e suposta honra e ganhou, apesar da também conhecida possibilidade de vir a ficar impedido de exercer esse cargo caso resultasse, das investigações de que era (e é) alvo, alguma acusação.
Ora, Tomás Correia mostrou, como outros, que conhece bem as linhas com que se cose e a instituição a que preside. Homem prevenido vale por dois, ou mais, e parece que o senhor fez aprovar em Assembleia Geral e registar em acta uma espécie de seguro à prova de multas. Assim, numa AG que teve lugar em Março do ano passado, o expedito Tomás Correia apresentou uma proposta que parece obrigar o Banco Montepio a assumir os “custos em que possam incorrer os actuais ou antigos administradores e membros de outros órgãos sociais da Sociedade, relacionados com quaisquer processos ou procedimentos que sejam directa ou indirectamente relacionados ou resultantes da sua actividade na Sociedade e que resultem de contas de honorários passadas na devida forma ou de documentos emitidos por entidades oficiais”. Ou seja, por exemplo, aquele milhãozito e tal de euros de multa em que incorre o senhor Correia, como noticia o jornal Público, que também afirma estar na posse da acta dessa AG e que o documento nunca chegou a constar, como seria prática comum, no site oficial do banco.
As gentes da nossa terra têm fama de desenrascadas. Aquele jogo de cintura que falta a outras sociedades mais disciplinadas e organizadas, onde, quando ocorre um imprevisto não documentado que pára a linha de produção, ninguém sabe bem o que fazer, até chegar um português. É uma característica que dizem única. Será um exagero, enfim. Mas, é indiscutivelmente útil em muitos casos. Só se torna algo obscena quando dela se faz aquele hábito oportunista que fica no limiar da fronteira propositadamente dúbia entre o ilegal e o imoral. Tomás Correia será só um exemplo. Outro, é o médico oftalmologista Henrique Fernandes.
O doutor Henrique Fernandes foi despedido do Hospital Sousa Martins, na Guarda por exercer actividade clínica privada enquanto estava de baixa. Baixa falsa, portanto, ou, pelo menos, selectiva e atestada por um colega idóneo, talvez. Inicialmente, foi proposto o arquivamento do processo, mas o hospital recusou e acabou por demitir o médico. Este recorreu. O que motivou, no entanto, o recurso não foi a eventual injustiça ou erro na decisão de o demitir, como se poderia ingenuamente pensar. Foi um pormenor que resulta muito mais eficaz para quem percebe da tal arte do desenrasque: o processo disciplinar de que foi alvo e que levou ao seu despedimento foi promovido fora dos prazos legais previstos. Quando o doutor Henrique Fernandes foi notificado da sua demissão, tinham passado os trinta dias de que, legalmente, o Hospital dispunha para fazer essa comunicação ao senhor. Finalmente, que é como quem diz, oito anos depois, o Hospital foi obrigado a reintegrar o médico que pede, agora, uma indeminização de três milhões de euros, a pagar pelos do costume.
De modo que, cada um desenrasca-se com a arte que quer, pode e conhece. Deve ser por isso que o nosso mais famoso hacker tem algum receio de ser extraditado para Portugal. Talvez não seja um caso de vida ou de morte, que exagero. Mas é capaz de ser só um caso de justiça ou falta dela.
Apesar das inúmeras horas dedicadas ad nauseam ao futebol mais todas as suas enfadonhas variáveis, ainda vale a pena ver a SicNotícias. Nem sempre nesse denominado horário nobre, é certo, mas, se conhecermos a grelha, ou se tropeçarmos, por acaso, no Contas Poupança, podemos aprender coisas úteis.
Foi assim que fiquei a saber que "no seguro automóvel, há uma cobertura que pode usar em caso de emergência que o pode ajudar a poupar centenas ou até milhares de euros, mesmo que tenha deixado o carro em casa. É a assistência em viagem".
Aparentemente, se estivermos fora do país - tendo viajado com o carro segurado ou não! - e tivermos algum incidente ou problema de saúde, a "assistência em viagem" cobre "despesas médicas, alojamento e bilhetes de viagem em caso de acidente ou doença" . Seja torcer um pé, apanhar uma gripe, sofrer um ataque epiléptico, precisar de ser transportado de ambulância, inclusive, chamar algum familiar para ficar com filhos menores.
E esta, hein?, como diria o querido Fernando Pessa.
Na terça-feira passada, António Mexia foi ao Parlamento dizer, entre outras coisas, que, não só não há nada disso de rendas excessivas na EDP, como a empresa a que preside é o abono de família do Estado.
Ricardo Salgado deu uma entrevista à TSF, na qual, como habitualmente, clamou por inocência sua e má vontade dos outros. Por entre as respostas às habituais perguntas fofinhas que este tipo de gente sempre inspira aos jornalistas – mesmo os mais prestigiados e competentes – voltou a dizer que os lesados do BES, em quem o próprio pensa todos os dias, coitado, são culpa do Banco de Portugal, de Pedro Passos Coelho e da maldita resolução, e não dos seus actos de gestão.
Entretanto, o Novo Banco – o tal que era bom – voltou a meter a mão no Fundo de Resolução para arrecadar mais 1,149 mil milhões euros, coisa pouca, para fazer face à toxicidade daqueles activos que tombam sempre para o mesmo lado, o do Estado, ou seja, o do aparentemente amplo e cheio (para alguns) bolso do contribuinte (eventualmente, de outros bancos que se portaram bem, se é que ainda sobra algum).
Há alturas em que se torna difícil expressar indignação com a mesma eloquência com que somos insultados. Isto, se quisermos manter o nível dois ou três patamares acima do gozo rasteiro e ordinário e, ao mesmo tempo, não deixar que nos tomem por parvos. É que, mesmo entre os brandos costumes, deveria haver limites para o desaforo.
As comissões parlamentares de inquérito têm servido, em grande parte, para deixar a nu a descomunal lata de alguns dos seus principais protagonistas. Nesse sentido, António Mexia não desiludiu. Falou de “demagogia” e “manipulação” para rejeitar as críticas aos chamados CMEC – custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual – e as suspeitas que recaem sobre a forma como esses contratos foram negociados. Para o gestor da EDP, tais contratos não vieram favorecer a sua, literalmente, empresa. Pelo contrário, até terá perdido dinheiro na passagem dos CAE (contratos de aquisição de energia) para os CMEC. Se não fossem os CMEC, as compensações que Estado deve (como não) à empresa teriam ascendido a muitos mais milhões de euros. O magnífico e competentíssimo gestor de um gigante monopólio (não sei se a ENDESA chega bem a ser concorrência) dedicado à distribuição e venda de um bem essencial para o funcionamento regular de uma sociedade mais ou menos civilizada, está, até, disponível para “para desfazer-se das barragens, se forem devolvidos os 2115 milhões de euros pagos, bem como para "fazer as contas" e reverter os CMEC”. E, para provar que a EDP até perdeu 200 milhões de euros com a tal troca dos CAE para os CMEC, António Mexia levava um estudo completamente independente e idóneo, encomendado à Nova School of Business and Economics, essa cujo campus foi patrocinado pela…EDP.
Ricardo Salgado, que consegue dormir apesar de não totalmente descansado, é outro mártir incompreendido da pátria. Não lhe cabe nenhuma culpa, nem no colapso do seu banco, nem na delapidação das poupanças de muitas vidas (alguns terão procurado lucros demasiado fáceis, é verdade). Era só mais uma injecçãozita de capital e resolvia-se o problema, mas, o que havia era uma enorme vontade de acabar com o Banco Espírito Santo, toda a gente sabe que somos um país de invejosos. Ou isso, ou o Diabo, mais as suas coincidências.
Bom, o caso que é Ricardo Salgado foi afastado da liderança do BES e de outros cargos em instituições financeiras nos próximos anos. Mas, ao ritmo a que se move a Justiça portuguesa, o banqueiro ainda é bem capaz de regressar em emocionada e ansiada apoteose, que é como quem diz, ainda volta a ser dono disto tudo, que há manias que nunca se perdem.
E, a provar como é fantástico fazer negócios com o Estado português – não para todos, é verdade – lá chegamos, então, à nova factura desse Novo Banco. Em princípio, não será a última, já nos descansaram quanto a isso. Afinal, ainda restam, parece, dois mil milhões lá no fundo desse Fundo de Resolução, que dificilmente resistirão até 2025, como se (calhar ninguém, seriamente) previa. Pelo sim, pelo não, o Governo, diligente, pediu uma auditoria. Deve ser parecida com a da Caixa Geral de Depósitos, mais grande devedor, menos grande devedor. Que nunca devem nada, aliás: investem dinheiro que não é seu, se correr bem, ficam com os lucros, se correr mal, o Estado paga. Quem disse que para ser empresário é necessário correr riscos?
Manuel Pinho inaugurou a tendência e continuam todos a fazer-nos corninhos. Seja na forma de comissões de inquérito, entrevistas ou auditorias...
A inteligência associada ao sentido de humor costuma resultar em mixórdias explosivas, cujas ondas de choque chegam a cumprir mais serviço público do que todos os "dia-de” juntos, mesmo que aliados aos workshops mais estapafúdios, que é como quem diz, o de maquilhagem "p´rá juíza e p´ró juiz", como forma miserável de assinalar o dia da mulher, num ano que começa com mais de duas mãos cheias de mortas por violência doméstica e num país que – dizem – está na moda. Na verdade, vale mais um palhaço inteligente do que um saco de juízes muito doutos, que não é o mesmo que dizer muito dotados.
Esse senhor que diz que é juiz, para vergonha de uma classe inteira e mais uns quantos de nós, com mais classe ainda, meteu-se com o humorista errado. Isto, sim, é o que se chama pôr-se a jeito. Ofendido na sua honra – que deve ter a côr e a data do Código Penal de 1886 que o próprio tanto aprecia – o senhor Moura ameaça processar alguns dos que o criticaram pelo teor das considerações que tem deixado cair em alguns acórdãos dignos de sociedades que, em Portugal, estão extintas há algum tempo, pese embora a distracção e o infortúnio do pouco ilustre senhor.
Em defesa do colega, o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses veio dizer que “um juiz também tem direitos, não é apenas um saco de pancada”, expressão admirável, que tem, pelo menos, o mérito de nunca poder ser considerada fora de contexto. Entre isto e as sessões de maquilhagem, venha um juiz e escolha.
Ricardo Araújo Pereira é um humorista brilhante. Mas é muito mais do que isso. Já há uns anos – num contexto completamente diferente – tinha mostrado o que vale quando se "pegou" com Odete Santos, no programa Dança Comigo. Ontem, na sua nova rubrica televisiva “Gente que Não Sabe Estar”, disse ao senhor Moura que, como diz o ditado, quem semeia ventos, colhe tempestades. E, às vezes, até o direito a um jogo em nome próprio.
Subo a avenida do bairro chique e limpo alheio ao caos que fervilha no outro canto da cidade. Há um leve cheiro a jasmim, sem dor, nem nódoa, e vou olhando os edifícios elegantes e esterilizados, do outro lado da rua, perdida por detrás da lente da minha câmara. Os outros seguem mais à frente; os miúdos riem e falam de coisas que apenas adivinho, à distância. As árvores balançam, com graça, os ramos esguios, enquanto desenham suaves sombras tombadas no chão que, nada mais ajeitar-se o vento, de mansinho, escoam céleres pelos sumidouros rendilhados e brilhantes, em permanente galanteio.
Demoro um pouco a perceber que o homem se dirige a mim, especificamente. Energicamente. Nem o vi chegar. Parece um segurança, fardado, moreno, levanta a mão – não se atreve a tocar-me – e ordena-me que pare, sem que eu tenha chegado a entender uma única palavra. Percebo, intuitivamente, que fiz algo que não devia, mas, não falo a sua língua e, ele, nenhuma outra além dessa.
Uma foto. Percebo que aponta para a minha máquina fotográfica e mantém-me refém de uma suposta autoridade que me confunde. Continua no meu caminho, impassível, e sinto o calor apertar-me mais. Os outros, lá adiante, parecem distraídos. Não tarda, escapam-se, à esquina da rua, e deixarei de os ver. Amaldiçoo-me por me ter deixado ficar tão para trás, eu e os meus malditos instantes. Irrepetíveis, urgentes, inadiáveis.
Encaro o homem na minha frente. Estou segura, agora, de que se trata de um problema com alguma ou algumas das minhas fotografias. Mostro o écran da máquina e pergunto se devo apagar alguma coisa – não desconfio, sequer, o quê –, imaginando que me faço entender de algum modo. Segura na mão um walkie-talkie algo obsoleto que aproxima do rosto enquanto olha para mim. Percebo que fala com alguém e é evidente que aguarda instruções. A esquina está cada vez mais próxima, mas, não quero chamar, com receio de elevar demasiado a voz e acabar por denunciar a aflição tonta que me agonia. O riso das crianças chega-me já encolhido, pálido, e o calor ameaça confundir-me irremediavelmente.
Perco-me por momentos, entre as sombras e os cantos do tempo, até o homem começar a chamar-me, uma cacofonia insistente e confusa. Acaba por tocar-me no braço, à altura do cotovelo, leve, mais suavemente do que sugere o enorme chinfrim em que pretende que eu o entenda. Mas compreendo que posso ir, afinal, não há problema. E, que houvesse, não cheguei a entender que seria. Num devaneio algo infantil, desejo, intimamente, poder falar e entender todas as línguas do mundo.
Acabam de chegar à esquina quando se voltam, finalmente, para trás. Mas, já está tudo bem. Volto a escutar as gargalhadas, agora, cristalinas, inocentes e alegres como antes.
Idade - Tem dias.
Estado Civil - Muito bem casada.
Cor preferida - Cor de burro quando foge.
O meu maior feito - O meu filho.
O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.
Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.
Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.
Imprescindível na bagagem de férias - Livros.
Saúde - Um bem precioso.
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