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Caminhos cruzados.

por naomedeemouvidos, em 22.04.19

   

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    O cego vai batendo com a bengala nas pedras que dão forma à calçada bordada no passeio estreito e iluminado pelo radioso sol primaveril. Parece um pouco aflito, confundido, procurando algo que não se acha ali, mas devia, e, nessa ligeira angústia, roda sobre si próprio, ora à esquerda, ora à direita, sem nunca se distanciar demasiado daquele ruído metálico que a calçada devolve.

  Do outro lado da rua, um homem atenta no desassossego urgente do cego. Encaminha-se para ele.

     -Precisa de alguma coisa?

    -Estou à procura da lavandaria, mas, parece-me que não é por aqui… - a bengala batucando, ágil e certeira, no chão e no rebordo do passeio, soltando notas, compondo sílabas desencontradas.

    -Há aqui uma lavandaria, um pouco mais à frente, eu levo-o até lá – e pega-lhe no braço, suavemente, orientando-o no caminho adiante.

   Não chegam a meia-dúzia de passos. O cego sobressalta-se, olhando em frente, atento ao diálogo que arranca do chão a golpes firmes, experimentados. Estaca, teimoso, no passeio, “não, não é por aqui”, enquanto o homem insiste, “está logo ali, a lavandaria, já lhe vejo a porta de entrada”. Mas, o cego não vacila, não duvida, “não é por aqui”, e logo volta atrás, arredio e decidido.

  -Ó amigo, tenha calma. Eu levo-o aonde o senhor precisar de ir. Diga-me, exactamente, que lavandaria é essa, porque, aqui, não conheço outra além desta…

     E o cego explicou, apaziguado, confiando no seu instinto e na bondade do homem.

    -Eu saio do autocarro, viro à direita, caminho uns poucos de metros à minha frente, viro, novamente, à direita e encontro logo a lavandaria…há dois degraus à entrada…

   Então, os dois homens voltam atrás, juntos. Retomam o caminho a partir da paragem do autocarro e vão seguindo a memória do cego. A bengala vai à frente, matraqueando, marcando o passo, astuta e ligeira, materializando acordes que apenas o cego pode ler e decifrar.

   -Ah, parece-me que, agora, sim, já vou no caminho certo – alegra-se o cego, estugando o passo. O homem segue-o, expedito, suspendo daquela melodia, a que não é totalmente surdo, mas que nunca chega a compreender.

    Só mais uns passos, à esquina direita da rua, e, lá está ela, “sim, agora vou bem!”, a lavandaria com os seus dois degraus à entrada. De fora, não se percebe que há uma lavandaria no interior, porque a loja tem várias secções. O cego conhece-a bem, o homem nunca antes havia reparado nela.

    -Obrigado!

  -Ora essa…boa tarde! – e o homem volta à sua rotina, uma admiração alegre e prazenteira estampada no rosto.

 

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publicado às 15:31

Sem tempo para chorar os mortos.

por naomedeemouvidos, em 22.04.19

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As tragédias sucedem-se sem dar tréguas. É a Natureza que grita, enfurecida e implacável. São templos que ardem. Extremistas religiosos, dementes, instrumentos de uma fé furiosa e vingativa. Supremacistas fanáticos, tão inebriados pelo ódio como os inimigos que elegem em nome da existência de um povo e de um futuro onde não há lugar para todos. Hoje uma igreja, amanhã uma mesquita, assim e alternadamente até não sobrar pedra sobre pedra, nem lágrimas para chorar. A violência ávida, insana, alastra, contamina, entorpece. A matança de inocentes, de todos os credos, de credo nenhum, materializou-se na intolerância extrema, saltou das páginas dos Evangelhos, usurpadores e usurpados reclamam o direito à ira, à sua, a única, a legítima, arrancada a sangue frio, numa orgia desvairada de vontades furiosas. No rescaldo do delírio, um rasto miserável de auto-imposta (involuntária?) indiferença face ao horror abundante e rotineiro. Se não for assim, como nos permitiremos sobreviver?

 

Em Amesterdão, no Museu do Holocausto, quatro fotografias tiradas em Auschwitz, em 1944, por Alberto Herrera - um judeu em cativeiro - e que mostram prisioneiros a caminho da câmara de gás e a queima de cadáveres, foram tapadas. Parece que se levantam questões éticas perante o horror e a falta de respeito pelos mortos assim exibidos nas imagens, o que também contraria o carácter pedagógico da exposição. Poupam-nos ao horror passado, enquanto, todos os dias, assistimos ao desfilar impune do horror presente, entre as pausas de um quotidiano cada vez mais insalubre.

 

Em Paris, no último sábado, alguns oprimidos do movimento “gilets jaunes” gritaram “suicidez-vous”, contra os agentes da polícia na rua. Desde o início do ano, terão sido já 28 os polícias franceses que cometeram suicídio. Há imagens impossíveis de tapar.

 

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publicado às 10:38



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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