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Retratos Sociais.

por naomedeemouvidos, em 31.05.19

Uma viagem tão trivial quanto necessária. Por exemplo, de avião. De regresso a casa, com muitas horas de sono perdidas a troco de trabalho ou lazer, entre escalas apertadas, algo atordoados entre diferentes fusos horários e o cansaço acumulado de vários dias fora da rotina normal. Que bom, sentarmo-nos, por fim, numa cadeira, mesmo de um lugar de avião, e relaxar um pouco. Quem sabe, dormitar, para quem tem a sorte de se deixar sossegar, ainda que viajando em classe turística.

Subitamente, entre um abrir e fechar de olhos mal amestrado, enquanto nos ajustamos na cadeira com impaciente esforço, procurando a dignidade escusada da posição menos desconfortável, esbarramos, atabalhoadamente, com a nossa imagem sequestrada no pequeno écran do telemóvel do miúdo de 11 ou 12 anos sentado no lugar ao lado do nosso.

 

Foi mais ou menos isto que aconteceu, recentemente, a uma amiga minha. No regresso a casa, durante uma viagem de avião reparou, por acaso, que o menino que viajava no lugar ao lado a fotografara – sem o seu consentimento, evidentemente – enquanto ela dormitava um pouco. Pediu-lhe que apagasse a imagem. Depois, foi falar com a mãe da criança, que, naquele dia, num vôo lotado, não viajava perto do filho.

 

Num mundo cada vez mais dominado pela imagem – e pela exploração dessa imagem nas redes sociais para fins vários, nem sempre, inocentes – é difícil encontrar o equilíbrio entre o direito a captar momentos únicos, eventualmente, irrepetíveis, que queremos preservar para além da nossa memória, e o direito que temos a não nos vermos expostos numa qualquer conta de Instagram, de alguém que não conhecemos, sabe-se lá com que intenção. O recíproco também se aplica. E, na verdade, é difícil fazermos fotografias sem captar, ainda que acidentalmente, a imagem de um qualquer desconhecido que não nos autorizou a fazê-lo. Os mais conscientes dessa pequena(?) violação de privacidade limitam, com algum decoro, a exibição desses retratos pessoais. Outros, acabam por promover a partilha mais ou menos exaustiva desses adorados (não necessariamente adoráveis) instantes, sem pensar demasiado nas consequências – por descuido, por piada mal ou bem-intencionada, por desconhecimento – ou, pelo contrário, com base num objectivo bem definido, por vezes, escandalosamente pérfido e com resultados tenebrosos. Foi assim, por (desgraçado) exemplo, que, em Novembro do ano passado, dois homens inocentes foram linchados por populares, no México. Alguém decidiu que eram eles os responsáveis pelo desaparecimento (que nem chegou a ser confirmado) de várias crianças e a notícia da sua “captura” rapidamente se espalhou pelas redes sociais, com apelos à justiça célere e por vontades próprias. Nem os comunicados da polícia isentando os homens, tio e sobrinho, da suspeita de que eram alvo foi suficiente para serenar a fúria justiceira da matilha de influencers. Foram queimados vivos por uma turba ululante e paranóica, entre aplausos, likes e emojis.

 

No último sábado, uma mulher espanhola suicidou-se. Aparentemente, não foi capaz de suportar ver-se exibida, entre os seus colegas de trabalho, num vídeo de teor sexual gravado há cerca de cinco anos (anterior ao casamento actual) e de que o marido também acabou por tomar conhecimento. Não é claro se foi a própria quem divulgou o vídeo, ou alguém por ela; nomeadamente, um ex-companheiro. Não será relevante, para o que veio a seguir-se.

O dramático é a facilidade com que a nossa intimidade se nos escapa, com ou sem culpa, com ou sem pesar de consciências e consequências, a troco não se sabe bem de quê. Imagina-se. E, no entanto, cada caso é um caso. Ser insipidamente normal, deixou de ser suficiente. A anormalidade trapaceira de Anna Sorokin valer-lhe-á uma séria da Netflix e outra da HBO. Talvez venha a ser, enfim, a milionária que encarnou durante os meses que viveu de crédulos e créditos alheios que atraiu e alimentou com a aura de glamour derramada pelas redes sociais. Ninguém gosta de ser defraudado por um – uma, no caso – pelintra andrajoso e pestilento, tresandando a miséria à distância. Mas, um (uma) vigarista é um vigarista apenas se não souber vestir-se com irrepreensível estampa, de Saint Laurent para cima; ou por qualquer lado, incluindo, lá pelos do tribunal, por onde Anna não gosta de aparecer com qualquer trapo. Há uma reputação fingida que é preciso manter a qualquer custo, que alguém não se importará de suportar pela própria.

 

Os exemplos multiplicam-se. Banalizam-se.

A mãe do menino pediu desculpa. E o menino, provavelmente, nem percebeu bem porquê. Afinal, era só uma fotografia. Pelo menos, que se tenha dado conta...

 

Quando mando o meu filho desligar os "entreténs tecnológicos" - porque está na hora, ou porque não é a hora -, às vezes, ele resmunga um "mamã, se tivesses nascido neste tempo, ias perceber...". Imagino que seja o equivalente  moderno ao "no meu tempo..." e perdoo-lhe a impertinência. E, então, peço-lhe que me explique. Ouço o que me diz; ouço o que não me diz, atenta ao mais pequeno sinal de alarme, enquanto me esforço por tentar perceber se a mensagem passa em ambos os sentidos. Mas, esforço-me, sobretudo, por lhe mostrar o lado bom e o lado mau das redes sociais e por deixar claro que, online, um pequeno erro, uma brincadeira parva, pode assumir proporções inimagináveis e engolir-nos com implacável indiferença. Espero que ele me dê ouvidos.

 

 

publicado às 11:00

Das dívidas, e outras tendas.

por naomedeemouvidos, em 29.05.19

Está inaugurada uma nova era nas passerelles pelos corredores das comissões parlamentares de inquérito. Depois dos ataques de amnésia e dos truques de ensaiado amadorismo confesso, eis que chegou a vez do pessoalmente, não devo nada. Do guardei tudo, menos memória, ao perdi tudo, até as dívidas. Berardo parece ter dado o mote. Talvez tenha sido a carta de contrição – ou comunicado, ou lá o que foi – que o eventualmente futuro-ex-comendador usou para se fingir arrependido dos impulsos a que cedeu no calor da memorável audição que protagonizou. Afinal, foram muitos os que lhe reconheceram a bravura de não se ter escudado, como outros, no esquecimento burlesco e trocista; ou que exaltaram, perdoando-lhe, a ausência de pedigree à altura das digníssimas comendas. Será indiferente, pois acredito que todos os donos de coisa nenhuma, enfim, comungarão do amor enorme que têm por este país e pelos seus compatriotas; em que outro, poderiam levar a vida a rir como hienas, de boca aberta ou em surdina, do pecado da faustosa gula saciados com a bênção de todos os (des)governos e o indulto sempre manso e abnegado dos seus honoráveis concidadãos?

Diz-se que, por estas e nenhumas outras, o povo, há muito, decidiu-se pela abstenção, em dias de eleições. Quando, por isso, precisamente, devería engrossar fileiras, velar mesas de voto e entupir as urnas. Às vezes, não sei qual dos nojos se nos apresenta mais intolerável: é a falta de decoro, ou a de oportunidades de usar do mesmo generoso expediente?

 

Enquanto os bem-apessoados, grandes – magníficos! – devedores gozam, entre outras coisas, do muito sacro mas pouco santo sigilo bancário, a populaça descalça e distraída, desprovida de advogados de renome banhado a interesses partidários e da banca, esbarra no zelo (sempre) implacável (com a plebe) dos agentes da autoridade tributária assessorados por elementos da GNR.

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Seremos todos iguais; mas, haverá sempre uns mais animais do que outros.

publicado às 00:40

Não que se tenha falado muito, até agora. Mas, hoje, por tradição – que já não é o que era – é dia de reflexão. Não se pode fazer propaganda política – pelo menos, na forma clássica da coisa, já que, nas redes sociais, todos podemos muito do que quisermos – nem apelar ao voto. Nem candidamente, nem sofregamente. Para compensar, teremos sempre outra coisa. Como, por exemplo, a América de Trump.

E, entre essas outras coisas, que o homem não pára, o presidente dos EUA declarou guerra à China. Mais ou menos. Não foi bem guerra, não foi bem à China. Donald Trump, no seu estilo único, que nunca desaponta (mais…) acusa a Huawei de ser uma coisa muito perigosa; olha-se pare eles, o que fizeram do ponto de vista da segurança, do ponto de vista militar, e aquilo é muito perigoso. Mais ou menos isto. Não é que seja muito importante o que diz, ou como o diz, Donald Trump. Sim, é o presidente dos EUA; para o bem e para o mal, impõe-se que o escutemos. Mas, as suas convicções oscilam ao sabor de…qualquer coisa que lhe passe pela cabeça, naquele exacto momento, vá lá saber-se o quê. Mas, imagina-se. A economia, estúpido; o seu narcisismo crónico e enjoativo; a fanfarronice pífia e o bullying descarado sobre tudo e todos os que ousem não lhe prestar a devida vassalagem.

 

Adiante. A embirração é contra uma empresa chinesa e não contra a China. Dizem os entendidos, é a mesma coisa. Na China, tudo passa (ou não) pela chancela do regime. E, à primeira vista, as preocupações de Trump são puras; genuínas e arrojadas. Não é por um mentiroso convicto e descarado ser um mentiroso convicto e descarado que devemos duvidar das suas intenções quando parecem, não apenas justas, mas credíveis. Mas, a economia...não é preciso ser estúpido para perceber a quanto obrigam os bons negócios. Aqueles da China - com a China ou não, pode ser com príncipes sem princípios, mas com fins e imensos meios, millions and millions de meios - não devem compadecer-se com atropelos de somenos. Afinal, se pudermos chegar a algum entendimento comercial, vantajoso para ambas as partes, talvez se possa remediar qualquer incómodo. Em segurança. Sempre em convenientíssima segurança. 

De modo que, bastaram quatro ou cinco dias (uma quase eternidade, no caso) para que se suavizasse a enorme preocupação de Trump com a mui perigosa Huawei, embalado e animado que estará com acordos comerciais emergentes e proveitosos.

 

Entretanto, o homem que, permanentemente, se queixa da má imprensa, dos terríveis jornalistas, classificando de fake qualquer notícia contrária ao seu humor, o chefe de Estado que adoraria acabar com todos os programas de entretenimento que o parodiam, e às suas políticas, esse presidente tão transparente que recusa, ao Congresso, a consulta da sua declaração de rendimentos (e tão brilhante que soube usar as leis do seu grande país para sobreviver à crise, acumulando, ainda assim, prejuízos milionários), esse profundíssimo poço de virtudes que desceu dos céus no seu avião particular para salvar a América de todos os seus inimigos, ajudou a divulgar um vídeo convenientemente manipulado pelos seus próprios apoiantes com o intuito de ridicularizar Nancy Pelosi. O vídeo foi editado de forma a abrandar  um discurso da líder da Câmara dos Representantes, dando a impressão que Pelosi não estava no seu estado normal; embriagada, eventualmente. A farsa era fácil de desmontar, mas, o que é que isso importa? Trump cavalgou o show  bem ensaiado da “crazy Nancy”, o YouTube eliminou o vídeo, o Twitter mantém-no sem emitir comentários e o Facebook mantém-no, também, a bem de uma coisa que alguns chamam de liberdade de expressão.

 

E, assim (não) se faz boa política.

 

 

publicado às 20:19

Concursos de estimação.

por naomedeemouvidos, em 24.05.19

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Não sou adepta de concursos de beleza, mas há quem aprecie. A beleza tem, no entanto, várias tonalidades; e, gostanto, ou não, de concursos que lhe rendam a (i)merecida homenagem, nem todas as disputas são iguais. 

Este ano, também haverá eleição. As interessadas só têm de enviar "1 ou 3 fotos", escolher o "nickname" e escrever "algumas palavras para se representar”. Parece que já estão inscritas algumas candidatas e "elas não fazem apelo à morte seja de quem for”. Que bom; embora, de momento, não haja portuguesas inscritas.

 

Há uns anos, um homem foi condenado por ensinar o cão a fazer a saudação nazi. Não tinha más intenções, o pobre coitado, só queria ser engraçado e irritar a namorada. Não se terá lembrado de organizar um concurso. Era capaz de ter irritado a namorada na mesma e, talvez, tivesse tido mais piada...

publicado às 12:22

Claro que vou votar, no Domingo.

por naomedeemouvidos, em 24.05.19

"Cada um de nós, cidadãos europeus, titular de um passaporte da UE, que nos garante todo um catálogo de direitos que mais nenhum cidadão de outro espaço jurídico no planeta goza, podendo circular livremente, viver e trabalhar em cada um dos outros Estados-membros, gozar do direito à saúde em cada um deles, usar a mesma moeda em dezoito deles, devemos fazer a nós mesmos esta pergunta: preferimos viver aqui, neste espaço europeu que conquistámos ou preferíamos viver nos Estados Unidos de Donald Trump, na Rússia de Putin, na Turquia de Erdogan, na China de Xi Jinping, no Brasil de Bolsonaro? Onde é que nos sentimos mais defendidos? Onde é que os nossos direitos têm mais força?"

Miguel Sousa Tavares, Expresso. Ou, então, aqui.

 

E levo, como tem sido um hábito, o meu filho comigo.

publicado às 09:21

Banalidades.

por naomedeemouvidos, em 22.05.19

 

Relógio.PNG

 

Há dias em que o tempo teima em fugir-me. Como uma pequena corrente de água insubmissa que escoa por entre os dedos, desdenhosa e ágil, se tentamos agarrá-la. Às vezes, venço-o. Às vezes, esgoto-me...

publicado às 12:20

Privações

por naomedeemouvidos, em 20.05.19

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imagem aqui

 

"Jejuareis determinados dias; porém, quem de vós não cumprir jejum, por achar-se enfermo ou em viagem, jejuará, depois, o mesmo número de dias. Mas quem, só à custa de muito sacrifício consegue cumpri-lo, vier a quebrá-lo, redimir-se-á alimentando um necessitado;"

 

Era o fim do jejum. Naquele ano, o mês de Ramadão coincidira com o pico de Verão. Nos lugares públicos, sempre evitara desrespeitar o costume, embora tal costume nunca lhe tivesse sido imposto. Pelo contrário. Nas cidades, com raras excepções, os bares, padarias, restaurantes funcionavam no horário normal, e os estrangeiros, turistas ou não, não estavam obrigados a qualquer privação. Eventualmente, evitariam comer ou beber na rua. Um dia, ainda uma recém-chegada distraída e estouvada, cedeu à gula e comeu um pedaço de pão acabado de cozer, mesmo à saída da padaria habitual. Um homem repreendeu-a, fazendo-a sentir-se como uma miúda apanhada desprevenida a meio de uma travessura.

 

Mas, naquele ano, naquele dia, o calor era quase insuportável. Nunca soube como aguentavam. Não beber. Sobretudo, não beber, do nascer ao pôr-do-sol, no meio de um calor abrasador. Paciência e benevolência, diziam. E a consciência da superação. 

 

Encaminharam-se para o comboio que os levaria a Marraquexe. Havia passageiros a embarcar, guiando, pela trela (na verdade, pedaços de corda demasiado gastos, ameaçando romper-se à primeira cisma do bicho), gordos e imprudentes cordeiros que, daí a algumas horas, sacrificarão ao ritual do desjejum que marca o fim do Ramadão.

Tinham pedido dormitórios num dos vagões de primeira classe. Era a primeira viagem num transporte público local, imersos numa realidade estranha, dramaticamente alheia aos seus costumes. Estavam preparados, mais ou menos, mas, ainda assim, para um número limitado de experiências bizarras. 

Chegaram ao número que indicavam os bilhetes. Não havia qualquer dúvida, pernoitariam ali os quatro. Para lá da porta, dois beliches duplos, numa armação mal-amanhada de metal oxidado, mas, aparentemente, robusta. As camas estavam preparadas com lençóis que desejavam (e, na  verdade, pareciam) limpos, apesar do quadro um pouco ameaçador. Sobre cada uma delas, repousava um cobertor fino, demasiado curto e com aspecto bastante mais agreste do que tudo o resto. Foi então que se deram conta de que tudo estava perfeito.

publicado às 08:30

Vão-se as comendas, fiquem-se as imoralidades?

por naomedeemouvidos, em 17.05.19

Reúne, hoje, o “Conselho das Ordens” para decidir se se desencomenda o senhor Berardo. Depois do show da outra sexta-feira, as medalhas começaram a pesar nos ombros e nos peitos de alguns ilustres, como aquelas nódoas de gordura que nos caem nos melhores trapos, nos piores momentos. Eu estou de acordo com retirarem-se louvores a quem se presta a deboches sobre aqueles – pessoas, instituições, nações – que, por particular e prestigiada insígnia, os distinguem e condecoram. Como também concordo em não distribuir comendas como quem distribui rebuçados. Deixemos as pérolas para os porcos no domínio das metáforas, se tal ainda nos for consentido.

 

Vários foram os que se indignaram – verbo da moda, maltratado – com a miserável desfaçatez do comendador. Pertenço a esse grupo. Olho para aquela imagem, naquela sala, na presença de representantes da Nação Portuguesa, e sinto uma vergonha imensa. Saber que aquele homem – como outros do género, que a lista é longa – merece uma distinção honorífica por “ter prestado serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores”, deixa-me, no mínimo, à beira de um ataque de nervos. Os símbolos não são tudo, mas são muito. Deviam ser o suficiente para não nos sentirmos ultrajados.

 

Não comungo, não inteiramente, da opinião dos que, em Berardo, mais não vêem do que um peão boçal, simplório, ao serviço de um jogo maior, atirado – agora e convenientemente – às feras, para gáudio dos que pedem sangue, saciando, assim, a sede e a fome de um público atoleimado, ao mesmo tempo que os impostores se escondem atrás do lume à espera que a memória colectiva se desvaneça na borralha. É, no entanto, evidente que o senhor não está sozinho. Serviu e serviram-no. Ele e outros, a ele, como a outros, assim chafurdam as nossas elites, da banca à política, dos meios sociais aos empresariais. Todos diferentes, (quase) todos iguais.

 

Ontem, a SiC Notícias apresentava uma reportagem sobre um desses novos senhorios sem rosto e sem escrúpulos, que se dedicam à compra por atacado de imóveis de interesse, montando, em seguida, uma insolente, desprezível, manobra de intimidação sobre os inquilinos que ousem não ceder ao assédio. No caso em concreto, um negócio entre a Fidelidade e o fundo americano Apollo, e a estória de como a compra de uma pequena arrecadação - que ainda há-de vir a ser dividida em cinquenta partes - tem servido para produzir o milagre da subtracção de impostos, livrando o fundo americano de pagar IMT sobre a compra de 425 milhões de euros em prédios de habitação. De acordo com a nossa lei, são isentas de tal imposto as aquisições de prédio para revenda por “sujeito passivo” que “exerce normal e habitualmente a atividade quando comprove o seu exercício no ano anterior mediante certidão passada pelo Serviço de Finanças”. Nesse caso, desde que, no ano anterior, tenha sido adquirido (e devidamente registado) para revenda ou revendido algum prédio antes adquirido para esse fim, o sujeito livra-se da obrigação de pagar o tal Imposto Municipal sobre Transmissões Onerosas de Imóveis. Foi o que fizeram os sujeitos verbos e predicados das quatro sociedades que constituem o fundo Apollo: compraram uma humilde mas cumpridoira arrecadação, com cinco metros quadrados, situada na cave de um prédio de Vila Nova de Cerveira. A saga da compra e venda da generosa arrecadação é digna de ser conhecida, para se perceber bem como a lei serve apenas para ser cumprida pelos contribuintes incautos ou que não têm a sorte de poder pagar a bons advogados. Como se mostra na reportagem, no último dia utilíssimo do ano de 2017 (a data não é irrelevante), foram convenientemente vendidos nove de cinquenta avos da arrecadação pelo preço de cinquenta euros, numa oportuníssima e oportunista venda a retalho que poupou cerca de 28 milhões de euros em imposto aos compradores dos prédios vendidos pela Fidelidade. A um pedido de entrevista da SIC a Apollo respondeu apenas que na data da aquisição as 4 sociedades que constituem o fundo reuniam os requisitos previstos na lei para beneficiar da isenção de IMT e que o cumprimento desses requisitos foi atestado pela Autoridade Tributária.

 

Como é que o Estado, este Estado, se pode levar a sério?

publicado às 13:58

Condecorações, para que vos quero.

por naomedeemouvidos, em 15.05.19

 

"As Ordens Honoríficas Portuguesas destinam-se a galardoar ou a distinguir, em vida ou a título póstumo, os cidadãos nacionais que se notabilizem por méritos pessoais, por feitos militares ou cívicos, por actos excepcionais ou por serviços relevantes prestados ao País."

 

"A Ordem do Infante D. Henrique destina-se a distinguir quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores."

 

Se não se mudam os condecorados, adapte-se a História e alterem-se os valores. Caso contrário, corre-se o risco de a graça passar de honra a infâmia. 

 

 

(P.S. Peço desculpa a todos os que, nos últimos dias, por aqui passaram e não me (ou)viram. Obrigada, se, por acaso, não desistiram.)

 

publicado às 22:59

Professores.

por naomedeemouvidos, em 15.05.19

professores.PNGO professor Rui Correira foi o vencedor do 2ª Global Teacher Prize Portugal.

 

 

As sondagens valem o que valem e já nos enganaram - com estrondosa violência - algumas vezes. Os resultados de umas sobre que li recentemente, sugerem que a maioria dos portugueses está com António Costa, no que diz respeito à crise – teatral a todos os níveis e com responsabilidades distribuídas pelos principais artistas – gerada pelo documento (que, afinal, não o era) que propunha uma solução – mais não era do que um engodo concertado, como, rapidamente, se viu – para a reposição do tempo de serviço dos professores.

 

É possível que a popularidade de Costa tenha subido mais à custa do desaire dos responsáveis pelo CDS e PSD – com Rui Rio à cabeça, sem cabeça – do que propriamente pela aversão da opinião pública no que diz respeito aos privilégios dos professores e da sua falta de solidariedade com outras classes profissionais – dos sectores públicos aos privados; essencialmente privados – que nunca verão “repostas” quaisquer regalias perdidas para a austeridade; para a posteridade, também se aplica.

É-me difícil saber quem tem razão. Quem tem mais razão. No que toca a assuntos sérios, a razão tem tendência a não estar exclusivamente colada a um dos lados da discussão. Além disso, fui professora, a minha irmã é professora e tenho amigas e amigos professores. Mas, também por isso, me divido entre a solidariedade para com os bons professores e o enorme desprezo que sinto pelos medíocres que pululam pelas escolas, alguns dos quais a usam quase como uma segunda casa, começando pela aguçada arte de escolher as melhores turmas e os melhores horários, deixando para os contratados – ou para os que têm menos anos de serviço – tudo o que represente demasiado esforço ou inconvenientes adicionais. Não vale a pena escamotear a realidade, vociferar indignações, colar crachás ao peito. Toda a gente que lecciona no ensino público sabe que é assim e, às vezes, pior (o exemplo maior da falta de ética profissional - também absolutamente excepcional, é verdade - veio da professora de Português que acumulava funções de explicadora particular com um cargo de responsabilidade na elaboração das provas do respectivo exame nacional). Os bons professores, os competentes, os verdadeiramente empenhados na difícil e recompensadora (maioritariamente, se bem feita) tarefa de ensinar são esmagados, demasiadas vezes, pela falta de brio e de profissionalismo de colegas que estão na escola pública, apenas, porque ninguém os pode de lá tirar.

 

 

Quando a minha irmã me explica – sem crachás ao peito – porque razão tem direito ao pagamento integral dos nove anos, quatro meses e dois dias de tempo de serviço, eu tendo a concordar. Não porque seja minha irmã, mas porque sei que é uma profissional irrepreensível – atestam-nos outros colegas, daqueles que, realmente, importam, e alunos. Sobretudo alunos. São os alunos os mais prejudicados pela degradação do ensino, nomeadamente, o público; e o senhor Nogueira, mais uma parte significativa do seu séquito, poucas vezes se preocupam com os alunos. Não são os anos de serviço que moldam um professor de excelência. Podemos discutir os meandros da progressão de carreira dos professores, mas, isso é toda uma outra questão. E não deixa de ser curioso que se possa correr com um professor vaidoso, mas, não com um professor medíocre, ou manifestamente incompetente, inclusive, na área que "lecciona" (como também sabemos que acontece). É difícil de entender, sobretudo, de aceitar que o sucesso escolar seja relegado para depois dos bafiosos, mafiosos, alinhamentos burocráticos. Enquanto não nos unirmos para resolver este problema, perdemos todos: o país, os pais, os alunos e os professores. Muito mais do que nove anos e demais etceteras.

 

P.S. Entretanto, li que os professores não vão insistir na greve às avaliações, que estaria marcada para o próximo mês. Alegro-me.

 

 

publicado às 19:14

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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