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Califórnia.

por naomedeemouvidos, em 31.10.19

Califórnia.PNG

Photograph: Philip Pacheco/AFP/Getty

publicado às 08:54

Um dia como outro qualquer.

por naomedeemouvidos, em 30.10.19
É um dia como outro qualquer. Chove. O que não acontece todos os dias, é certo, mas não é extraordinário nesta época do ano. Gotas de chuva volumosas e cristalinas, perfeitas na sua forma, escorrem lentamente pelo vidro liso e frio, em atropelos desalinhados quando se cruzam os trilhos em que se desvelam. 

Não está frio, mas há gente afogada em gabardinas, e lenços, e guarda-chuvas vorazes, gravemente abespinhadas com a humidade do ar, com a desfaçatez do tempo, como se daí, e daí só, resultasse o mofo sombrio em que embebedam as suas vidas perfeitas e aprumadas, tão perfeitas e aprumadas quanto vazias, sem margem para imprevistos quezilentos da natureza, de natureza alguma.

Do outro lado do vidro, o mar vai e vem, desassombrado, alheio a enfados mundados, murmurando ladainhas acordadas e meigas, mornas, que crescem e morrem sob a batuta branca e espumosa das ondas que se esvaziam em paz na areia dourada da praia, numa ávida luxúria entretanto saciada.   

É um dia como outro qualquer. Entre as gotas da chuva suspendo memórias, e risos, e lágrimas, e tempos perfeitos e imperfeitos, como notas numa pauta, como acordes de música, sem medo de errar e cheia de dúvidas, sem mancha de remorsos e cheia de medos, numa harmonia mais-que-perfeita, alheia às amarras dessa felicidade absoluta com que pretendem corromper-me, tolher-me o desassossego de viver em constante sobressalto. Como se viver plenamente se pudesse de outro modo.

publicado às 11:30

Outubros.

(com alguns dias de atraso...)

por naomedeemouvidos, em 30.10.19

A casa começa a aquecer-se em Outubro. Com lenha trazida do coração das fazendas que ainda resistem ao amanho laborioso da terra, à mercê das mãos quase despidas, à força dos braços velhos, teimosos, que escapam do tempo e se entregam à vontade dos dias que sobram.

É imprescindível que se comece em Outubro. A casa é grande, talhada de pedra, de suor, de risos e lágrimas, assente em memórias dos despojos de outros tempos, de outras vidas, em tábuas e aços de caminhos-de-ferro perdidos, desconhecidos da gente nova e miúda, não fossem as histórias aquecidas à lareira, em molduras de mármores maciços de igrejas velhas, escassas no divino e devido culto. Começa-se em Outubro, porque, até no Verão, o fresco do santuário pode ser inquieto e rude sem o aconchego de um xaile sobre as costas vergadas.

Em dias de maior labuta, há que dar lume também ao forno de lenha da serventia, lá fora, onde o vento rodopia embalado pelas folhas secas, em frufrus suaves como num vestido de gala. Cozem-se broas de milho recheadas de farrapos de bacalhau demolhado ou tiras finas de presunto pouco seco, consoante a ordem e a dimensão do pecado.

O forno range e estala reclamando a massa generosa, benzida numa cruz para remissão de males em que já ninguém acredita, mas ninguém quer renegar. Quando as entranhas devolverem o pão quente e estaladiço, o milho amarelo e guloso cozido entre silvos caprichosos e aromas hereges, será tempo de saciar a alma até ao Outubro seguinte.

publicado às 09:14

Sobre almas, mortos e, porque não, borboletas.

por naomedeemouvidos, em 29.10.19

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As borboletas-monarca não gostam do Inverno. No início do Outono, migram para o México e, aparentemente, a sua chegada coincide com o período de celebração do Dia dos Mortos há tempo suficiente para que as magníficas borboletas mereçam fazer parte da cultura local. São recebidas em festa. Pelo menos para as crianças, as exuberantes borboletas-monarca representam as almas dos mortos que os vivos atraem com as flores perfumadas que depositam nas campas dos seus, dos que já partiram. Fiquei a sabê-lo por acaso, entre alguns afazeres e inúmeros zappings, até tropeçar num dos episódios do programa "One Strange Rock", do National Geographic.

Lembrei-me de que o meu filho - a quem a morte sempre suscitou uma curiosidade imensa, com que eu nem sempre soube como lidar sem aflição - tem uma espécie de teoria sobre essa coisa da reencarnação de que ouviu falar mas não sabe, ainda, se acredita. Mas acredita em almas. Em alma. 

Hei-de falar-lhe das borboletas-monarca. Talvez comece por lhe mostrar aquela fotografia, lá em cima, que tirei da galeria do "The Guardian". Ou, então, o tal episódio de “One Strange Rock”. Encontrei parte dele aqui. Não está legendado em português, mas é possível que não seja necessário. 

 

publicado às 22:08

Verdade? Qual verdade?

por naomedeemouvidos, em 28.10.19

Bons jantares e bons amigos resultam, normalmente, em boas conversas. É assim que se passa de um “que bom que está isto tudo!” para um “afinal, porque é que tu achas que Bolsonaro não é um democrata?”, porque as boas conversas também resultam de momentos de desacordo sem que, por isso, seja necessário partir a louça. De inconformidades alinhadas em torno de preocupações comuns também se faz (lá diz um ditado) a luz que falta para aferir a desordem truculenta dos novos dias.

 

Inevitavelmente, a discussão gravita em torno da importância da educação, essa tal “arma mais poderosa para mudar mundo”. Para livrá-lo dos piores vícios da humanidade. Da corrupção à outrofobia histérica e animalesca, a educação surge, para muitos, como a única forma de travar a deriva de tormentos infligidos pelos mais fortes sobre os mais fracos: se formos mais educados seremos menos corruptos, mais justos, menos abusadores, mais tolerantes, menos manipuláveis, mais avisados, menos assustadiços, mais ousados na busca incansável, indeclinável, da verdade e da justiça. Mas, será que a educação se basta, nos basta, nos seus intentos? Como podemos educar uma sociedade que, todos os dias, compactua com as mais diversas formas de rasurar, com vontade e à-vontade, esses tratados fundamentais para a “igualdade em dignidade e em direitos”, “sem distinção de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação”?

 

É, sem dúvida, verdade que não são novos os desafios que enfrentamos actualmente e que vemos personificados em notáveis líderes nacionalistas impecavelmente, implacavelmente, empenhados em manter as (in)devidas distâncias entre o nós e os eles. A diferença talvez esteja na facilidade com que aceitamos agora o que, não há muito tempo, tínhamos como intolerável. A ignorância assumiu outras formas. Metamorfoseou-se em falsete, como um Gregor de Kafka, e o inusitado parece impor-se, tão absurdo quanto banal, suspenso num tempo apressado, urgentíssimo, encerrado em si mesmo, sem espaço para razões contra-corrente. Já não é uma questão de procurar a verdade, de querer saber, de estar informado, mas, antes, de procurar a verdade que sirva a cada um, abençoada por medida como um cobiçado traje de baile. Ainda haverá educação que nos redima?

publicado às 23:06

A influência do absurdo.

por naomedeemouvidos, em 17.10.19

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Já não bastava o telefonema à Cristina, ao Casillhas, à Fátima, e por aí fora. Não sei se a República aguenta tanto afecto, mesmo acompanhado de sandes e pastéis de Belém...

Marcelo Rebelo de Sousa está como aqueles pais que, de tanto quererem parecer modernos e amigos dos filhos, às tantas, confundem-se nos papéis. Não havia necessidade.

 

publicado às 14:49

De hábitos.

por naomedeemouvidos, em 17.10.19

Espanta-me quando me responde que lê, nos tempos livres. Ainda mais, que confesse também ler jornais e revistas, como a National Geographic.

Desafortunadamente, reservamo-nos, cada vez mais, o direito de não esperar imponderadas surpresas.

Fico feliz por ter perguntado. Por não ter desistido. Por me ter permitido o desassossego da dúvida e o assombro da descoberta.

Às vezes, só preciso de os olhar nos olhos para lhe antever a alma. Preciso de não me esquecer disso. Não posso esquecer-me disso.

publicado às 10:35

Fotografia e não só.

por naomedeemouvidos, em 16.10.19

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De entre os jornais que leio (ou tento), o “The Guardian” tem a melhor galeria de fotografias. Podem ser inspiradoras ou ameaçadoras, deleitosas ou terroríficas, reconciliar-nos com Deus ou com o Diabo, às vezes, na mesma imagem crua, redentora ou demoníaca.

Da vida selvagem à política, de memórias românticas a palcos de guerra, há de tudo. Com arte, beleza, elegância, com sorrisos, com lágrimas, com arrojo ou com humildade. Fotografias, sim, mas não só.

 

publicado às 11:25

Em carne viva.

por naomedeemouvidos, em 16.10.19

A luta pela independência da Catalunha já fez correr muita tinta, e não vai ficar por aqui.

Não se pode ficar indiferente à sentença proferida pelo Supremo Tribunal Espanhol que condenou a penas de prisão políticos catalães, na sequência do processo iniciado pela convocação e realização do fatídico referendo em Outubro de 2017. O referendo foi considerado ilegal, decorreu de forma caótica, num clima de crispação e afronta irracional e com consequências dramáticas e ainda não acabadas de contabilizar. Na altura, Carles Puigdemon estendeu a armadilha a um impreparado Mariano Rajoy, “atirando” velhos e crianças para a frente de batalha, com plena consciência de que, se algo corresse inesperadamente mal, seria bom para atiçar os ânimos ainda mais. No meio da confusão, com muitas dúvidas em relação à fiabilidade dos resultados, o sim à independência ganhou com 90% dos votos, num contraste aflitivo com as manifestações que se seguiram: naquela altura, a Catalunha parecia bastante dividida na vontade de ser independente, em Maio deste ano, 48,6% dos catalães rejeitava a independência da Catalunha frente a "Espanha", e, logo a seguir ao referendo de 2017, foram várias as empresas e bancos que ameaçaram mudar e mudaram as suas sedes para outros locais. Num processo continuamente atabalhoado, Puigdemon prometeu declarar a independência catalã, adiou-a, declarou-a para suspendê-la imediatamente a seguir e, quando se viu encurralado nos seus intentos, fugiu. No culminar deste processo, judicialmente falando, há políticos presos a quem muitos preferem chamar presos políticos, rasgando as vestes em protesto contra a ignomínia.

É sempre difícil encontrar consensos depois de se extremarem posições. Fala-se na necessidade de resolver politicamente o problema, mas, ninguém parece saber muito bem como, porque não é fácil. Os independentistas catalães mais radicais não querem ser confundidos com “espanhóis”. Sentem-se-lhes algo superiores, em vários aspectos, nomeadamente, na língua, na cultura, no trato. Daí que, a questão para aqueles não se prende com ter mais autonomia face à Espanha que desprezam; trata-se de se livrarem dessas amarras que entendem como uma invasão, literalmente. Por muito chocante que seja a condenação dos nove políticos catalães que foram sujeitos a julgamento, qual era a alternativa? Não é apenas na Catalunha que existem vontades independentistas, como conciliar, portanto, as leis de um estado democrático com a violação dessa mesma legalidade democrática?

À vontade de independência catalã, contrapõe-se o “nacionalismo espanholista”, que recusa, dizem, a hipótese de um Estado plural; federal, como o alemão, que é visto por muitos como uma solução para o longo conflito Barcelona-Madrid.  Numa Catalunha bastante dividida entre o sim e o não, é possível que o federalismo seja suficiente para afastar o desejo de independência?

 

É desolador ver como, ultimamente, as manifestações pela democracia facilmente resvalam para a violência mais selvagem. O direito de contestar e ser ouvido subvertido a um campo de batalha campal, onde sobra a destruição pura e bruta, a intimidação, o terror. Barcelona está transformada num cenário de guerra, como já esteve Paris, como já esteve Hong Kong, e ainda não acabou.

 

Precisamente, há alguns dias, o programa “Toda a Verdade” mostrava os bastidores das manifestações pró-democracia em Hong Kong. Abordava-se, também, a forma como os protestos pacíficos deram lugar a actos mais violentos, como a invasão do edifício do Conselho Legislativo e a sua vandalização como consequência do falhanço das acções pacíficas, até aí. Os manifestantes reforçavam a necessidade de vandalizar os símbolos da autoridade política como a única alternativa para se fazerem escutar, ao mesmo tempo, que fixavam cartazes a pedir para não vandalizar os livros da biblioteca, ou, as antiguidades e se apelava ao pagamento das bebidas que se consumissem nos espaços ocupados, porque não eram ladrões. Nada disto diminui, no entanto, o choque com que se olha para aquelas imagens, como não diminui o perigo de mergulhar na barbárie dos ataques violentíssimos de parte-a-parte. Depois de começar, de estar lá, no terreno, de fazer parte, é difícil não seguir o rebanho.

 

Não tenho qualquer simpatia por manifestações violentas de vontades; ainda que democráticas. Acho que nos afastam sempre da urbanidade sana de que precisamos para nos mantermos à tona, não à toa, da enxurrada de escombros que resulta do confronto entre duas partes que, mesmo quando se pretendem cordatas e razoáveis, deixam de ser capazes de se ouvir. A dada altura, deixa, igualmente, de ser necessário procurar entender quem tem razão. Urgente é encontrar uma base de entendimento e, imperiosamente, uma solução, antes que seja tarde demais.

publicado às 10:42

Para não esquecer.

por naomedeemouvidos, em 15.10.19

"Ó mãe, tantas árvores no chão, que tristeza."

 

publicado às 13:58

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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