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Boas Festas

por naomedeemouvidos, em 20.12.19

Boas Festas e Um Bom Ano de 2020.

Até breve.

 

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Photograph: CostFoto/Barcroft Media

 

 

publicado às 11:29

Insurreição

por naomedeemouvidos, em 20.12.19

As montanhas escarpadas de granito impõem uma sensação de abismo iminente. Constantemente. A cor rosa pálido da pedra aquecida pelo sol anima um teatro de vultos endiabrados, que se escapam e reaparecem ao sabor das curvas estreitas. De um lado, a insolência das rochas que se deitam sem aviso sobre o caminho. Do outro, o precipício despido, selvagem, provocando os meus sentidos atentos aos caprichos da estrada.

Entre duas paredes de pedra erguidas pelo punho implacável do tempo, abre-se uma janela para o mar azul turquesa, intenso, ao fundo, intranquilo sob o manto de nuvens branco cinza, escassas ainda, porém, alvoroçadas pelo vento imprevisto que faz gemer a rocha lascada num coro de penas; numa expiação. A estrada passa por aí, exactamente a meio, entre falésias sinuosas e afiadas, surpreendentemente rosáceas, criando a ilusão de se prolongar na água, até o quadro se desvanecer, apenas para emergir, mais perfeito ainda, na curva seguinte.

 

Há algum tempo que tenho um carro colado à traseira do meu. Percebo que o condutor conhece bem a estrada, ao contrário de mim, recém-chegada, forasteira e ao volante de um carro alugado. Tem pressa, mas é difícil ultrapassar, a menos que eu lhe dê passagem. As curvas e contracurvas apertadas sucedem-se numa espiral alucinante, o jogo de luz e sombras impõe maior prudência, e as rochas que brotam, sem cuidado nem decoro, das paredes altas dos penhascos imponentes inibem tentações mal calculadas.

 

O trilho maciço, esguelhado, o tom corado da pedra afogada na luz travessa do sol, o abismo cru, indomável, e a ladainha seca da montanha à mercê do vento que a toca à sua vontade, mantêm-me viva, totalmente alerta; refém da deslumbrante paisagem da ilha, também. Ao sabor da rota, as cores sofrem transmutações irreais, adensadas em matizes fortes, o azul, o verde, o dourado, em abraços impossíveis e padrões compactos que “entram por mim dentro”, e aí permanecem; não permito que passem para “o outro lado da minha alma”, com medo do que possa perder.

 

Acabo por deixá-lo passar num troço mais generoso do caminho. Ao condutor apressado. Posso deixar-me guiar pela sua destreza e evidente cumplicidade com as impertinências do percurso. É, sem dúvida, um local. A estrada obedece-lhe. E eu a ele, também.

Dizem que é uma estrada para se percorrer de mota. Mas nunca aprendi a conduzi-las com a competência e habilidade que merecem.

publicado às 11:29

Destituição e Destruição

por naomedeemouvidos, em 19.12.19

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Diário de Notícias

 

Sem grande surpresa, a Câmara dos Representantes aprovou dois artigos de acusação a Donald Trump, que podem levar à destituição do presidente dos Estados Unidos. E, também sem grande surpresa, sabe-se que essa destituição dificilmente poderá acontecer. Donald Trump e os seus republicanos montaram uma soberba estratégia de vitimização burlesca, tão arrojada quanto despudorada. No processo, arrasam implacavelmente e sem remorsos qualquer tentativa de debate sério. Quem não está com eles não está só contra eles: é um alvo a abater a qualquer preço, sendo o insulto mais nojento a moeda de troca preferida. Imagino, aliás, que seja esse um dos principais motivos da rendição total do partido republicano à política sabuja de Trump. O outro, imbatível, deve estar relacionado com dinheiro – e outras formas de poder absoluto igualmente caras.

O presidente norte-americano converteu os EUA no seu grandioso palco. O seu apoteótico reality show segue dentro das regras democráticas que o próprio despreza, a não ser que as possa usar em proveito próprio e altamente rentável. O povo americano está refém de um homem disposto a esmagar quem ousar contrariá-lo, sem preocupações no modo: é o que servir melhor o seu humor do momento. Não se pode aceitá-lo sem hipotecar a alma; não se pode enfrentá-lo sem mergulhar no lodo, “consumidos pela inveja, ódio e raiva”. Infalível.

Donald Trump será julgado no Senado pelas acusações de abuso de poder e obstrução ao Congresso, e a sua defesa consistirá em assumir que, sim, fez (aliás, “fizemos”, que é outra forma de congregar adeptos, mesmo que contrariados) tudo isso, e depois? Fez porque pôde, porque pode, e porque nenhum dos seus rapazolas terá coragem de frustrar as suas ambições.

Resta a esperança de que o seu exacerbado sentimento de impunidade o faça cair de podre antes de ser impossível tornar a América um país minimamente decente outra vez.

publicado às 13:12

"Um mundo infestado de demónios"

por naomedeemouvidos, em 16.12.19

"Uma das lições mais tristes da História é a seguinte: se formos enganados durante muito tempo, temos tendência a rejeitar qualquer evidência do logro. Deixamos de estar interessados em descobrir a verdade. O logro capturou-nos. É simplesmente demasiado doloroso reconhecer, inclusive perante nós mesmos, que fomos apanhados. A partir do momento em que entregamos a um charlatão o poder sobre nós, quase nunca o recuperamos."

Carl Sagan

 

publicado às 12:01

Parvoíces

por naomedeemouvidos, em 16.12.19

E se Ferro Rodrigues proferisse - preferencialmente e com igual fervor indignado - ralhetes do tipo:

“Senhores deputados e senhoras deputadas, os senhores e as senhoras e os partidos a que vossas excelências pertencem, eu inclusive, usam a palavra "prescrição" com demasiada facilidade para, convenientemente, se livrarem de uma séria de maçadas. Coisa a que, convenhamos, os vossos - nossos - restantes compatriotas não poderão, nunca, aspirar com tamanho proveito. Excepto, claro, se forem clientes e/ou advogados de grandes escritórios, desses cujos nomes surgem, invariavelmente associados a todos os processos mais ou menos mediáticos em que o segredo de justiça – para que alguns se estão cagando, bem entendido – serve apenas para levantar poeira e enganar os tolos. E isso, meus senhores e minhas senhoras, ofende-vos, ofende o Parlamento e ofende, principalmente, aqueles para quem nada prescreve. Muito menos, a obrigação de pagar impostos. E taxas. E as sobretaxas, para tapar os buracos orçamentais alargados pelas generosas prescrições.”

Isso é que era…

publicado às 11:13

Para descontrair

por naomedeemouvidos, em 13.12.19

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recebido por whatsapp

 

Boa sexta-feira 13.

publicado às 10:54

Vamos lá acabar com o Brexit

e, de passagem, acabemos também com o Reino Unido.

por naomedeemouvidos, em 13.12.19

Boris Johnson arrasou. De derrota em derrota até à estrondosa vitória final, não sobrou pedra sobre pedra, que é como quem diz, agora, sim, Brexit means realmente Brexit. Dissiparam-se estas nuvens. Às vezes, é preciso chamar os bois pelos nomes. Até na política. Sobretudo na política. Jeremy Corbyn não o percebeu a tempo.

publicado às 10:38

Desventuras

por naomedeemouvidos, em 13.12.19

André Ventura é um oportunista vaidoso. Dança conforme a música e defende os “princípios” que lhe forem mais úteis a cada tempo: se for o de escrever uma tese académica, defende os direitos humanos e repudia "a discriminação das pessoas com base na sua origem e nas suas características étnicas e religiosas"; se for o tempo de se eleger como deputado na Assembleia da República, defende que os ciganos pertencem a um grupo de auto-excluídos da sociedade que vivem à custa de subsídios e há que ter a coragem, a dele, de acabar com a pouca-vergonha; se, já eleito, tropeçar em inconveniências do seu programa eleitoral, inverte-o.

A questão é que, para os devidos (d)efeitos, o homem foi eleito democraticamente e a democracia tem (ou tinha) regras. Ferro Rodrigues pode desprezar o cardápio, abominar a criatura que o vende a saldo e sentir-se tentado a educá-la nas boas práticas que convêm à não perturbação de vícios instituídos – já que vergonhas há muitas, não sejamos palermas – mas não pode destratar André Ventura como quem repreende um adolescente atrevidote. O problema de tentar desvalorizar – ou mesmo humilhar – estes santos de pau oco é que essa estratégia se converte, frequentemente, na sua canonização em vida.

O populismo vende como castanhas quentes porque há sempre, na vida de cada um de nós, um momento em que sentimos algumas destas coisas como verdade, justa ou injustamente. O pior que podemos fazer é fingir que não. Ou mandar calar o André Ventura.

Indignem-se menos e questionem-no mais.

publicado às 09:27

Estranhezas

por naomedeemouvidos, em 12.12.19

 

Choveu. Há um cheiro intenso a terra fértil e a musgo verde. Coada pelos ramos altos e quase despidos das árvores, a luz morna da manhã estica-se, apressada, sobre o chão húmido, exaltando as cores de Outono em pulsos desordenados, como o bater de um coração antecipando a tempestade.

No tronco da árvore maior, não muito acima do solo, há uma cavidade aberta, semi-oculta, inundada a diferentes tempos pela luz que lá chega ao sabor do andamento das nuvens carregadas ainda. Mesmo aí, à entrada, uma pequena aranha de ventre ovalado e negro encontrou algum abrigo enquanto tece a sua teia de seda, ardilosa, uma artesã paciente e escrupulosa numa azáfama encantada, movendo as patas muito finas, um maestro guiando uma orquestra a movimentos precisos, subindo e descendo, soltando melodias silenciosas magistralmente materializadas numa renda delicada e enganadoramente frágil, um leito fatal aguardando a primeira presa.

Suspenso na parte já esculpida da teia, há um fio fino de gotinhas cristalinas de água harmoniosamente alinhadas como as contas de um colar.

Tenho tempo. Fico a vê-la montar o seu ardil. Paciente como ela.

 

publicado às 21:37

Belas Artes

por naomedeemouvidos, em 12.12.19

No rescaldo eufórico da vitória portuguesa no Festival Eurovisão da Canção, em 2017, Salvador Sobral - sempre demasiado enfastiado com os elogios e a fama repentina – atirou para a plateia presente num espectáculo solidário para com as vítimas dos incêndios de Pedrogão: “Eu sinto que posso fazer qualquer coisa que vocês aplaudem. Vou mandar um peido para ver o que é que acontece”.

A provocação era, e é (ou ao contrário, é indiferente), eloquente a vários níveis. Nomeadamente, como uma afronta a esse delírio postiço com que passou a ser moda sentir tudo intensamente, como se o mundo fosse acabar mais depressa ainda do que as previsões de Greta Thunberg. E, para que conste, gosto mais do que desgosto da pirralha e também sou das que acha que as previsões tendem mais para o certo (mais ou menos) do que para o errado.  

 

Deve ter sido uma coisa parecida que Maurizio Cattelan pensou quando resolveu colar à parede, com fita adesiva, uma banana e chamar-lhe arte. Deixa lá ver se isto cola melhor do que ali a fitinha cinzenta. Talvez não tivesse imaginado vender a "obra" por 108 mil euros, mas isso não passa de um detalhe. Caro. Embora eu ainda duvide que alguém tenha realmente comprado o logro, mas, isso sou eu que não percebo nada de arte.

 

Os novos tempos vivem-se assim. Arrebatadamente. Entre desfalecimentos abruptos de compaixão ou idolatria e indignações viscerais. Já não há espaço para correr o risco de não pertencer a lugar nenhum. Tudo deve ser exacerbado ao limite do sentimento. A piedade, a gratidão, a igualdade, a solidariedade, o ódio. O amor. O treinador português do momento disse que, em Portugal, “é uma complicação para dizer amor”, e eu acho que prefiro assim. A felicidade tornou-se um estado fingido que vende. E vende muito. Entre o politicamente (e hipocritamente) correcto imposto como remédio para todos os males da sociedade e a busca inadiável pelo paraíso na Terra enquanto ela dura, deixou de haver tempo para pensar. Para duvidar, para questionar. Para nos sentirmos, em todas as nossas contradições e infelicidades também. Não há nada de errado em não ser feliz a tempo inteiro. A felicidade a qualquer preço é capaz de ser cara demais. Mais cara do que a banana do Maurizio Cattelan.

publicado às 09:31

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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