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Uma espécie de epílogo.

por naomedeemouvidos, em 06.01.20

Agradeço a todos os que por aqui passaram, usando generosamente do seu tempo para me lerem.

Agradeço, também, à equipa Sapo pela guarida e atenção que deu também a este pequeno blogue.

 

Vivam bem. Genuinamente.

Obrigada.

publicado às 11:46

Um mundo ingovernável.

por naomedeemouvidos, em 06.01.20

Steve Bannon deu uma entrevista fraquinha (ou era eu que estava demasiado entusiasmada; é mais provável) ao jornal “Expresso”. Mas avisou que isto é uma revolução, que não leva a sério o que Trump tuíta (menos mal…), que os senadores republicanos não ousarão votar contra o presidente no processo de impeachment (embora, segundo a peça jornalística, num almoço que juntou 45 dos 53 senadores republicanos e no qual houve um voto secreto sobre tal processo, 35 tenham votado a favor do afastamento), que o telefonema entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky foi perfeito e o resto são fake news e teses democratas. Haverá um novo frente-a-frente entre Hillary Clinton e Trump que resultará, inevitavelmente, na vitória do último. Em 2024 é provável que alguém como Oprah ou Kanye West se apresente como candidato presidencial e, sobretudo, presidenciável. A política já não é o que era.

De momento, Bannon dedica parte do seu tempo a um programa de rádio, “War Room: Impeachment”, para dar assistência ao seu presidente a partir de um movimento de bases. E se quiserem chamar-lhe “uma das pessoas mais perigosas à face da Terra”, usará esse título “como uma medalha”.

 

Tudo bem encaminhado, portanto. A megalomania aventureira e tresloucada do todo-poderoso Donald Trump escalou novo degrau com o assassinato daquele que era tido como o “segundo homem mais poderoso do Irão”. Os superlativos andam ao rubro, por estes dias.

Parece que não é nada de tão infame. Afinal, Qassem Soleimani não era um dos “bons”. Boris Johnson – que estaria de férias e ainda não se tinha pronunciado sobre o ataque encomendado pelo presidente norte-americano – veio, entretanto, também dizer qualquer coisa do género; o reino cada vez menos unido não irá lamentar a morte do general iraniano. O importante agora é manter a calma e não incentivar retaliações. Evidentemente.

 

No funeral de Qassem Soleimani gritou-se “Morte à América”, o Iraque aprovou uma ordem de expulsão do país das tropas norte-americanas e outras forças militares estrangeiras, o Irão rasgou o acordo nuclear assinado em 2015 com os EUA e Trump ameçou, via tuiter (que descanso!), com sansões “muito fortes” e o ataque a 52 alvos estratégicos, alguns de grande importância para a cultura iraniana. Serão atingidos "VERY FAST AND VERY HARD", que o homem não brinca. Ou brinca, mas cada vez menos gente quer saber. “Olho por olho, dente por dente, vida por vida”, até não sobrar pedra sobre pedra e Trump subir aos céus embalado pelos anjos, depois de ter cumprido a missão em que o deus de alguns o enviou.

TrumpEv.PNG

E fica aqui um bom artigo da Teresa de Sousa, para mantermos alguma sanidade.

 

Entretanto, a Austrália continua a arder. Os bombeiros estão exaustos, há um coro de críticas à actuação (ou falta dela) do primeiro-ministro Scott Morrison e o fogo parece dar poucas ou nenhumas tréguas. A época de incêndios prolongar-se-á até ao fim de Março e o cenário é desolador.

 

Menos mal que, por cá, sempre temos futebol. O FCP e o Sporting jogaram ontem e os principais canais nacionais dedicaram-se esmeradamente a essa orgia desportiva. Horas e horas de opinião, antecipação, prognósticos antes e depois do jogo, um corrupio de análises, debates, palpitações e êxtase. Até pensei que estávamos no final da época e me tinha escapado qualquer coisa. Imperdoável.

O resto não interessa muito. O Orçamento de Estado será aprovado apesar das supostas ameaças, o país está bem e recomenda-se. Pelo menos, enquanto o Vox não conseguir mais uns quantos escaños no parlamento da Espanha que para o partido de Santiago Abascal existe para lá da raia que os separa de Portugal. Há quem diga que é apenas uma “estilização” mal conseguida do mapa do país vizinho. É capaz. Ultrajante seria ficarem-nos com o Cristiano Ronaldo. Ou com o comendador Jorge Jesus.

 

Vox.PNG

 

 

publicado às 10:43

Santa Paciência

por naomedeemouvidos, em 03.01.20

O Papa Francisco (talvez tenha sido mais o Jorge Bergoglio) teve um acesso ríspido de humanidade. Irritou-se com uma “fiel” e deu-lhe duas palmadas na mão, como se faz(ia) aos miúdos mal-criados. Logo se ergueu um coro de críticas mais indignadas que o próprio Papa, que os tempos assim o exigem. Os tempos, aliás, vivem-se de forma bastante curiosa: aos bons exige-se que sejam santos; os maus, os escroques, levam-se em braços, embalando a sabujice e exaltando os méritos da coragem anti-sistema e outros engodos do género.

dois papas.PNG

Mas, falava de Papas. Há dois, e eu vi o filme. Por acaso, logo no finado dia 23, sem saber nada daquilo. Abri a Netflix, vi o título e o Anthony Hopkins e bastou-me. O que é um pouco injusto, até, já que Jonathan Pryce tem, também, uma interpretação extraordinária. Mas, Hopkins é Hopkins. Rendo-me sempre ao seu talento que, pelos vistos, não se esgota no grande ou pequeno écran. Não fazia ideia que pudesse, por exemplo, compor uma valsa, até a minha irmã me mostrar o André Rieu a tocá-la com a sua orquestra. Enfim. Já o disse por aqui. Há pessoas que escolhem talentos e talentos que escolhem pessoas.

Gosto de ver filmes – e de ler livros – por acidente, sem saber nada deles, sem ter ouvido um simples rumor que seja, de surpresa, para poder beber dos seus defeitos e virtudes sem pré-conceitos nem pára-raios, sem rede de segurança e vendada a instruções alheias. Só eu e eles, para pensar o que me muito bem ou mal me apetecer.

Ao contrário do que ouvi, depois, a alguma gente, passei a apreciar mais, e não menos, a figura de Joseph Ratzinger. É bem provável que a culpa seja, novamente, de Anthony Hopkins, mas vi um Bento XVI brilhante como nunca me tinha (a)parecido antes, na época em que ocupava o Vaticano. Não que lhe tenha prestado assim tanta atenção, nessa altura, a bem da verdade.

Maravilhei-me com a riqueza dos diálogos que sei que não ocorreram, na sua grande maioria, embora os textos que os inspiraram possam ser reais; recordei as críticas mais assanhadas feitas aos dois homens, Ratzinger o nazi e Bergoglio cúmplice do regime ditatorial de Jorge Videla; reconheci a intelectualidade brilhante, bela, de um e o delicioso humor do outro e encantei-me com a magnífica cena do tango que sei também que os dois nunca dançaram. Não prestei atenção ao lado religioso da coisa, nem ao drama Papa-Mau versus Papa-Bom que alguns ensaiaram à laia de ralhos e exaltados de crenças, dentro e fora da Igreja. É maravilhoso não possuir dotes de análise profunda sobre o que é, ou é suposto ser, a arte em qualquer uma das suas formas. Assim, posso dizer que detesto ver uma banana colada à parede com fita adesiva, ou uma data de vigas brancas plantadas em frente ao mar, independentemente do preço das peças, do génio do autor, e da pseudoprofundidade do seu alcance artístico, da mesma maneira que posso deslumbrar-me com um filme sobre dois homens extraordinários que, por acaso, são Papas. Maio ou menos.

 

Como posso ler “A Outra Margem do Mar” de um fôlego, arrebatada, e não nutrir grande simpatia pela pessoa de António Lobo Antunes. Ou não ficar rendida ao “Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos”, de Olga Tokarczuk, apesar do prémio Nobel, que nunca (ainda?) entregaram a Lobo Antunes. E claro que também li o “Imortal”. O melhor das férias é dispormos de tempo para desbaratar, embora o tema da Inteligência Artificial seja para levar bem a sério. Muito a sério, mesmo na escrita que muitos acusam de pouco erudita de José Rodrigues dos Santos.

 

Por falar em férias, parece que temos um ano novo. Pelos menos, nós, que medimos o tempo pelo calendário do Papa Gregório XIII, para não fugir tão descaradamente ao tema de partida.

Não tenho resoluções de ano novo. Um ano é uma imensidão de tempo, independentemente da forma como o medimos, pelo que, nunca sou capaz de dizer “que ano magnífico!” nem, ao contrário, que “ano horrível!” foi este que acabou agora mesmo. Esforço-me por dispor felicidades (e desgostos) uma-a-uma, peça-a-peça, como numa construção de legos. Só saberei se valeu a pena quando chegar ao fim e, para isso, preciso de mais do que um ano, ainda assim; preciso de uma vida, e ainda não acabei.

Tenham, então, uma boa vida, mais do que um bom ano.

Sorrisos.PNG"Children" - Junta-se um grupo de amigos e uma roda e o resto é magia. (Birmânia - Myanmar) @KKAUNG

 

publicado às 11:02


“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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