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Madeleine Albright disse, um dia, que “há um lugar especial no Inferno para mulheres que não ajudam outras mulheres”. Na altura, referia-se à selva que podia imperar no local de trabalho, onde, para sobreviver num mundo de homens, as mulheres estabeleciam entre si mais laços de rivalidade do que de entreajuda. Não falava propriamente da violência bruta, predominantemente física, de alguns homens sobre algumas - demasiadas - mulheres. Ainda assim, desejo que haja, também, um lugar especial para esses homens (nunca são realmente homens) que fazem das mulheres o seu saco de pancada, onde descarregam todas as suas frustrações e traumas, porque só os velhacos mais repugnantemente cobardes podem sentir qualquer espécie de poder ou prazer na subjugação física e psicológica de outro alguém sobre quem se sentem superiores. Não é amor. Nunca é amor. É sempre abuso, raiva, ódio e, demasiadas vezes, sensação de impunidade.

 

Os números continuam a ser obscenos: no mundo, uma em cada três mulheres sofre violência sexual ou física. Cerca de 38% das mulheres assassinadas são-no às mãos dos maridos ou namorados. Em Portugal, só este ano, morreram trinta e duas pessoas em contexto de violência doméstica; vinte e três eram mulheres. Umas foram baleadas, outras espancadas, esfaqueadas, estranguladas. Por ciúme ou por amor. Esse amor egoísta e corrompido que serve apenas e sempre o mesmo monstro e que nada tem, nada!, desse sentimento avassalador que, no limite, leva alguém a dar a vida pelo outro, não a tirá-la da forma mais selvagem. Como a menina de dois anos asfixiada pelo próprio pai. Ou os oito homens igualmente vítimas destes carrascos poderosos, no que o poder tem de mais asqueroso e fanfarrão.

Não gosto particularmente de “dias de”. Que bom que pudéssemos eliminar este de vez.

 

publicado às 10:14

Sobre tecnologias.

Uma espécie de continuação do post anterior.

por naomedeemouvidos, em 21.11.19

“Agora há uns assim, livres-pensadores educados abruptamente no espírito da descrença, do negativismo e do materialismo. Antigamente (…), o livre-pensador era por vezes uma pessoa educada a princípio nos conceitos da religião, da lei, da moral, só depois chegando sozinha ao livre-pensamento, pela luta e pelo trabalho; mas agora surgiu um novo tipo de livres-pensadores ingénitos que crescem sem ouvirem sequer que existem leis da moral, da religião, que havia autoridades. Crescem espontaneamente com os conceitos da negação universal impregnados neles, ou seja, selvagens”.

 

Costumo usar as férias grandes para satisfazer vícios de leitora compulsiva. Leio ou releio com avidez, com a plena entrega que não alcanço tão frequentemente fora dessa época, porque sou incapaz de ler de qualquer maneira. Não leio na cama, não leio para descontrair – pelo contrário, preciso de estar no pleno uso dos meus sentidos, alerta como um vigilante – e sou incapaz de ler naqueles dez ou quinze minutos perdidos numa pausa entre labores; eventualmente, uma ou outra notícia de jornal, mas só. Caprichos. Como não beber vinho num copo sem pé, nem tomar café num copo de plástico. Mas isto não interessa nada. Interessa é que, contrariamente ao costume, estamos a caminho do final de Novembro e ainda me sobrou um livro de férias. Em minha defesa, este Verão, abusei de feiras do livro, de promoções e descontos, e decidi não deixar para outro ano o que andava há muito para ler e não li. Cumpro, por isso, a minha penitência antes dos livros de Outono-Inverno.

 

O excerto que transcrevi lá em cima é, claro, do livro de Lev Tolstói, Anna Karénina, escrito entre 1872 e 1877. “Todas as famílias felizes são parecidas” e, aparentemente, não só elas. Há resmungos, não só parecidos, como intemporais. Com as devidas adaptações, vamos ouvindo discursos quase idênticos ao longo dos tempos, uma espécie de ode ao pessimismo da gente mais conservadora e avessa ao progresso. Nos nossos dias, podemos transpô-lo para as críticas mais ferozes em relação à vertiginosa e omnipresente evolução tecnológica; em particular, na relação entre a verdade e a mentira, entre a liberdade de expressão e a faculdade de construir e espalhar boatos, falsidades aburdas, com intencional dolo, faculdade essa ao alcance de qualquer sonso, sem qualquer escrutínio, minando qualquer tentativa de debate, porque a pressa já não é só inimiga da perfeição: tornou-se, paradoxalmente, num empecilho útil à proliferação de todas as demagogias, dos chiliques instantâneos com as misérias alheias, ao ataque cerrado e cirúrgico às regras do jogo democrático.

 

A liberdade de expressão tem servido de respaldo a todos os perseguidos por livre-pensarem a sociedade que lhes apetece, a gente que lhes apetece, o mundo que lhes apetece, independentemente de qualquer razão, excepto a sua própria, inquestionável, inviolável, à prova de qualquer discussão, porque, obviamente, não é esse o objectivo. Mas, quando o chorrilho de vontades alternativas por medida ou encomenda atinge o despudor criminoso de incitar à morte, à violação, à perseguição de outro ser humano, sobra pouca tolerância para a liberdade dessa expressão.

 

De entre os que se insurgem contra tais revolucionários de pacotilha -  nem por isso menos perigosos - erguidos sobre os escombros de todos os nossos descontentamentos e ressentimentos, há que os que consideram que, ainda assim, a solução não passa pela censura dos conteúdos partilhados como pólvora. Associam a censura, de qualquer tipo, a um calamitoso acto de condicionamento da nossa expressão máxima de liberdade, receando que, a reboque e a coberto desses limitações apocalípticas, acabemos, afinal, quase todos amordaçados. Não digo que seja infundado receio. Não tenho uma opinião definitiva sobre o assunto. Sabemos o resultado de tentar calar vozes incómodas. Mas, já não é bem disso que se trata, pois não? 

 

publicado às 16:14

Expectativas.

Pensamento do meu dia.

por naomedeemouvidos, em 20.11.19

O facto de não nos comportarmos como a maioria, ou de não reagirmos à mesma coisa como os outros o fazem e, (também) por isso, o esperam, é capaz de não fazer de nós ou das nossas implacáveis omissões algo que valha a pena catalogar. Por nenhuma das partes. Não devemos satisfações dos nossos actos a tanta gente, se é que a alguém mais que a nós próprios. E haveria menos choro e ranger de dentes.

publicado às 14:00

Isto não é uma homenagem.

por naomedeemouvidos, em 20.11.19

É só um desejo de guardar memória e manter a esperança nas vontades que resistem às piores mudanças dos tempos.

publicado às 11:54

Ainda sobre os direitos das crianças

porque há números que nos envergonham.

por naomedeemouvidos, em 20.11.19

Para ler, pensar, ponderar, discutir e, sobretudo, procurar soluções. Eventualmente, participar nas soluções.

 

https://www.publico.pt/2019/10/30/sociedade/noticia/mil-criancas-ficaram-orfas-causa-violencia-domestica-mostram-dados-mai-1891785

https://www.dn.pt/pais/crimes-sexuais-contra-criancas-na-internet-aumentaram-40-entre-janeiro-e-outubro--11527299.html

https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/ministerio-publico-quer-que-as-criancas-expostas-a-violencia-domestica-sejam-ouvidas-em-tribunal

https://sarin-nemlixivianemlimonada.blogs.sapo.pt/pelo-direito-a-defesa-da-134507

 

E, obviamente, não se esgota aqui.

publicado às 11:46

Dia Internacional dos Direitos da Criança.

por naomedeemouvidos, em 20.11.19

De todos os Estados-membros das Nações Unidas, os EUA são o único país que ainda não ratificou a Convenção dos Direitos da Criança, depois da Somália e o Sudão do Sul o terem feito em 2015.

Entre as determinações salvaguardadas pela Convenção está o respeito pelo “direito da criança, separada de um ou de ambos os pais, de manter regularmente relações pessoais e contactos directos com ambos, salvo se tal se mostrar contrário ao seu interesse superior”. 

Ontem, recordei a inacreditável história do bebé que, com apenas 4 meses, foi separado do pai nada mais entrarem nos EUA, não por assalto, trepando muros ou fugindo do controlo aduaneiro, mas, por vias legais, com base num pedido de asilo. O pai permaneceu preso durante 4 meses, em solo americano, regressou à Roménia sem o filho que tinha sido, entretanto, entregue a uma família de acolhimento americana. Quando, finalmente, o bebé regressou para junto dos pais, com 9 meses, 5 meses depois do início do pesadelo, não é difícil imaginar a violência do drama: o bebé não reconhecia os pais, pedia o colo da “mãe” de acolhimento, e cada um chorava as suas mágoas em circunstância que nem me atrevo a imaginar, se é que há imaginação ao alcance daquela realidade demente.

É verdade que não é sobre o actual presidente dos EUA que cai a responsabilidade da não ratificação da Convenção dos Direitos da Criança. Essa responsabilidade é, primeiramente, dos seus antecessores no cargo, nomeadamente, George W. Bush e Barack Obama. Os opositores ao tratado falam de usurpação da soberania americana; receio da emergência de possíveis acções judiciais desencadeadas pelo não cumprimento dos direitos sociais e económicos; grupos de pais que se insurgem contra o que vêem como uma ameaça à sua autoridade no que toca à educação dos filhos, nomeadamente, no que diz respeito à educação sexual e religiosa. No entanto, nunca, como agora, se tinha assistido à separação impiedosa, bárbara, de pais e filhos como uma forma tortuosa e torturante de castigar os que se atrevem a sonhar com o paraíso americano, sendo certo que não são novas as denúncias sobre as condições desumanas (no mínimo) em que estão encarcerados milhares de jovens nos EUA.

Obviamente, os EUA têm a braços um problema gigantesco, de difícil resolução, no que diz respeito à imigração ilegal. Não se pode fingir que é ilegítimo ou imoral querer regulá-la. Mas é imoral, obsceno, abjecto, mais do que desumano usar a ameaça do drama da separação de uma criança - bebés, às vezes - dos seus pais como medida intimidatória para reprimir a imigração ilegal. No caso do pai daquele bebé que recordei ontem (e hoje também), não era o caso sequer: Vasile entrou nos EUA por um ponto de entrada legal para pedido de asilo e, embora - segundo a reportagem do The New York Times - tivesse antecedentes criminais por fraude, inclusive, envolvendo roubo, não pode valer tudo em nome de uma política de tolerância zero. Para afirmar, sem remorsos, "se trouxer uma criança às escondidas, processá-lo-emos, e essa criança poderá ser separada de si, tal como a lei exige".

Donald Trump foi obrigado a assinar uma ordem executiva que impede a separação das famílias, um juiz federal considerou as separações inconstitucionais e ordenou a célere reunião das famílias separadas. Mas, não há ordem executiva que sare o trauma que tantas crianças sofrem às mãos de déspotas.

publicado às 08:51

Museu do Prado.

por naomedeemouvidos, em 19.11.19

Isabel de Bragança.PNG

Jornal "Publico"

publicado às 10:18

Portugal e o futebol.

por naomedeemouvidos, em 18.11.19

Uma amiga brasileira disse-me estar espantada com número de horas que as televisões portuguesas dedicam ao futebol, o que me espantou a mim. Não porque eu não partilhe da sua opinião, partilho e acho quase um escândalo, mas porque nunca imaginei que tal espantasse quem vem de um país onde o futebol é rei. Se dedicamos mais horas ao futebol do que o Brasil, no que diz respeito à programação televisiva, o circo ainda é pior do que eu pensava.

Não tenho nada contra quem gosta de futebol. O meu pai adora e, eu e a minha irmã, íamos muitas vezes ao estádio das Antas, quando o futebol ainda era futebol. Agora, não sei bem o que é e interessa-me pouco, na verdade, excepto, quando o futebol toma o país de assalto e nos torna reféns do tal circo que volta a iniciar-se hoje.

publicado às 11:25

Sobre tecnologias...

...e os novos velhos do Restelo.

por naomedeemouvidos, em 16.11.19

 

 

Ando um pouco curta de opiniões publicadas. Não porque me escasseiem os achismos diários. Tenho-os em catadupa, muitas vezes, ansiosa e tresloucadamente, como os restantes mortais. Simplesmente, tem-me faltado tempo, paciência e engenho para apanhar os cacos com que se faz o alarido mediático e imediato de todos os novos dias e convertê-los em coisas escritas que façam algum sentido. Pelo menos, para mim. Antes de mais, para mim. Agradeço a todos os que perdem algum do seu tempo a ler o que escrevinho, mas, receio sempre que me levem demasiado a sério. Escrevo, essencialmente, porque me apetece. Foi para isso que criei este blogue, e não para educar, informar, influenciar, ou qualquer outra coisa igualmente séria. Eu sei que se percebe, mas, pelo que tenho visto e ouvido, nunca é demais recordá-lo.

 

Ainda assim (ou, por isso mesmo), se, por vezes, posso partilhar algo que encontra eco desse lado, seja qual for o tema (ou, se calhar, não), goste-se ou não, concorde-se ou não, não quero deixar de o fazer. Ainda não. E, como, recorrentemente, se fala da maldição das tecnologias, do seu uso e abuso, da forma como nos deixamos influenciar e manipular, por mais atentos e informados, e de como o problema não está exactamente na (ben)dita tecnologia e na sua estrondosa capacidade de abrir caminhos, não só desconhecidos, mas, de outra forma interditos a uma fatia considerável da população, hei-de vir aqui falar da nova série documental baseada em algumas reportagens do jornal norte-americano The New York Times que o canal Odisseia estreou na passada terça-feira. Já vi o primeiro episódio, “A Toca do Coelho”. 

publicado às 12:36

Política, Amor e Beijos.

por naomedeemouvidos, em 14.11.19

 

"Por mim, preferia que políticos e comunicação social se focassem na discussão sobre os problemas do país e a melhor estratégia para os enfrentar, e deixassem de lado assuntos de tabacaria, carpintaria, alfaiataria, estágios e sobrenomes. Bem sei que a política sem picardia é coisa sem a paixão necessária para o efeito; como aqueles beijos técnicos dos romances de Hollywood: parece que é, mas não é bem. Mas, a Assembleia da República devia servir para avaliar quem tem os melhores projectos ou a melhor retórica?"

 

Este pequenino texto fazia parte de um rabisco que deixei na gaveta por altura do segundo dia de debate no Parlamento aquando da discussão do programa de Governo. Parecia-me ter tanto para dizer sobre o assunto, na altura, quando, de repente, houve uma data de gente que se deu conta de que, afinal, a Joacine gagueja com incontornável e incontrolável zelo, como se tivessem acordado naquela altura (João Miguel Tavares chegou, inclusive, a dizer que, no programa de Ricardo Araújo Pereira, tal facto não teria sido assim tão evidente, e fiquei na dúvida se teríamos visto o mesmo), amuei e deixei as ideias e o texto em suspenso.

Com tanta coisa a acontecer, e eu sem tempo para (me) perder, numa pausa mais curta do que aquilo que mereço, esbarrei no dito rabisco e reparei, com alguma graça (ou não), que, também a mim, a política, por algum motivo, já me tinha levado ao lado (pouco) romântico da coisa...enfim, ainda agora comecei e já estou a precisar de férias.

publicado às 11:45



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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