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Memórias.

por naomedeemouvidos, em 12.03.19

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    O menino dorme um sono tranquilo, enrolado na manta branca e macia. Está esgotado da viagem. As chamas bailam, insubmissas, moldando os toros de pinheiro acabado de rachar e o calor vai emprestando ao ar da sala um suave odor a resina, enquanto a madeira geme baixinho em estalidos secos e quentes que embalam a conversa solta e fora de horas. É um tempo de recordação e memórias, de lembrar um passado que se fez de mais de um século e que finda agora como, daí a pouco, a chama amarelecida da lareira que, por ora, afaga suavemente a face apaziguada do menino.

    Dizem as gentes da terra que já não há mulheres assim. Daquelas que dão à luz sozinhas, parindo nada mais chegar do campo, com uma ligeira indisposição, talvez seja a hora, vou a casa, ver se isto passa ou se, pelo contrário, aqueço, antes, a água na panela, enquanto ato, numa pressa, um lençol grande a duas cadeiras, para ajudar a amparar a menina, para o caso de estar mesmo a chegar. E o caso é que lá chegou, assim foi, num enorme pranto, cheia de vida acabada de colher no meio da sala, num lençol limpo, não demasiado esticado, é preciso uma tesoura, escaldada, pelo sim, pelo não, também lá está, logo ali à mão, e a menina sozinha com sua mãe, como se, à época, fizesse falta qualquer outra coisa mais. Talvez a parteira, que já não veio a tempo, é certo, mas, ao menos, só para ter a certeza que as duas estão bem de saúde. Está tudo como deve ser. E a dorzita passou, afinal. Calhando, amanhã, ainda volto ao campo… 

    Seguramente, ainda haverá mulheres assim. Era bom que já não houvesse, que fôssemos todas iguais.

 

    O menino ainda dorme, sob o olhar amoroso. Não acredita em anjos. Se acreditasse, talvez fosse fácil imaginá-los assim, aquecidos pelo lume da lareira, ouvindo, num sono quieto e venturoso, histórias de encantar.

publicado às 11:05

Contos com fadas.

por naomedeemouvidos, em 20.02.19

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    Pararam em frente ao portão, magnífico. Quase não têm a certeza de estar no lugar certo. São outros tempos e o GPS ainda não é essa realidade incontornável e absolutamente imprescindível.

    Há muito que vêm ladeando o muro, no correr da estrada, adivinhando o imenso jardim, como se toda a vila coubesse dentro do pequeno castelo. Olharam, novamente, o mapa, uma ratificação redundante, desnecessária, não há mais nada em volta e a morada é exactamente aquela.

   

    A campainha soou delicada, enchendo o ar, ainda assim, tal a dimensão do silêncio. Esperam um pouco, até a dona da casa assomar à porta, lá ao longe. Sabem que, apesar do tamanho da propriedade e do primoroso estado de conservação e cuidado irrepreensível, quase não há criados.

   A senhora apressa-se a recebê-los, em passos curtos e elegantes. É pequena, ao longe, quase parece uma criança. Chega, enfim, ao portão, a sorrir, o cabelo todo branco, não, prateado, preso num coque, suavemente maquilhada, os olhos ainda jovens e brilhantes, atentos e genuínos. Desculpa-se pela demora. Conversa, diligente, mas delicada, em português. É portuguesa, explica, viveu em Portugal até aos nove anos, tem, por isso, o vocabulário ao nível de uma criança dessa idade. Pois, terão sido uns nove anos versados, lúcidos, perfeitos.

    Encaminha-os para a entrada da casa. Encanta-se com o pequeno, há-de sempre tratá-lo com enorme carinho, nesses dias que se avizinham. Não tem filhos e adora crianças.

    O marido espera-os à soleira da porta. Tem a mão direita envolta numa ligadura. Magoou-se a cuidar do jardim, pela manhã. É um pouco teimoso e recusa grandes ajudas. Às vezes, abusa. Mas, entrem, entrem, soyez les bienvenus!

    A casa é magnífica, tal como esperavam. Sim, estão um pouco cansados da viagem, mas, claro que terão o maior prazer em acompanhá-los num passeio pelo jardim. É só o tempo necessário para pousar as malas e trocar de roupa, um duche rápido, um breve instante.

 

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    Amanhã, como todas as manhãs, o pequeno-almoço terá início às 9.30h em ponto, na imponente sala de jantar, na companhia dos restantes hóspedes e do casal de anfitriões. Evidentemente, é a dona da casa quem se encarregará, como habitualmente, de o preparar e servir, com uma pequena ajuda da jovem criada. Parece perfeito. E assim será.

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(imagens próprias)

 

 

publicado às 08:30

Das Profundezas da Terra.

por naomedeemouvidos, em 01.02.19

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  O monte ergue-se imponente e estéril, distante dos dias em que, enfurecido, cuspiu as escaldantes cinzas negras que cobriram a cidade, imprudente, quando a escuridão emergiu das profundezas da terra e se abateu sobre a população assustada, alheia à demoníaca natureza da montanha, inconsciente do humor das suas entranhas e da sua fúria iminente. Milhares de anos adormecido, em contido tumulto, espiando a vida num corrupio elegante e caprichoso, mais abaixo, onde a cidade cresce e fervilha, alheia ao infortúnio que se agiganta. Paira no ar um leve cheiro a enxofre, subtil ainda, não basta para provocar espanto ou temor. Nem mesmo a nuvem inquieta, sobranceira à encosta, medonha e esgalhada, impelida pelo ar em torvelinho, levanta a mínima suspeita. Como outrora, o monstro jaz adormecido, em deleite, paciente, à espreita, à espera do momento em que, de novo se há-de erguer e semear o caos. Como então, sabe que a calma é dissimulada. Aparente, apenas, porque ávida, pronta a cobrar, inclemente, leves sopros de vida descuidados, todos, um-a-um, com o seu viscoso hálito preto, tranquilo e silencioso, escoado num manto intermitente de morte. E, tal como antes, há um sossego putrefacto, um murmúrio áspero, vibrante e audaz, soprando nojo e ruína, como uma besta encurralada.

 

    Deixou o carro no sopé do morro. Vai subindo devagar a íngreme encosta, invocando fantasmas passados, de gesso resgatados, almas cegas e desprevenidas, reunidas em demorados enlaces, abafados, sem tempo para inúteis e prolongadas lamúrias. As lágrimas esgotam-se num assombro, definham nada mais assomar-se à memória, ela própria esvaindo-se ligeira e desdenhada. E é melhor assim, enxotar prontamente o horror, sucumbir à mordaça seca e certeira do pó, em vez do abismo crepitante e voraz do fogo do inferno. Sobem lamentos e penas. A terra treme e desfalece, engolindo caminhos e casas. Os pátios soltam gemidos, assustando os bichos que correm, insanos, fugindo das rochas que começam a chover do céu. Rugem os bichos, rugem as rochas, silvam poeiras em remoinhos. Dois amantes estacam, imponentes, fundem-se num derradeiro abraço, sem espaço, sem tempo nem vontade para lá da paz sôfrega, apaziguadora, ainda assim. Acalmam os medos, indiferentes, já, às largas chamas que brilham no céu, como tochas, iluminando os caminhos estreitos e cavernosos como as câmaras esconsas e aninhadas sob o peso de ambos. Ainda é dia, mas o Sol há muito se desfez em negros estilhaços e a Lua, antes uma leve sombra esbatida, sumiu-se, renegada, em atormentados lamentos.     

 

    A nuvem negra adensa-se e vocifera como uma matrona. Mais abaixo, a cratera nua e seca parece torcer-se num escárnio. O odor a enxofre é, agora, mais intenso e enoja-a violentamente. A montanha agita-se, em fúria. Uma chuva miúda e pastosa cola-se-lhe à pele e parece queimar. Quando o céu se esvai numa imensa negritude, a terra rasga-se, em malograda volúpia, e a incontida besta desperta, finalmente, enorme, assombrosa, derramando, em jorros, a sua implacável cólera.

publicado às 08:00

A profecia (fim).

por naomedeemouvidos, em 03.01.19

    O homem de branco vai subindo a colina envolta em chamas negras de morte. Enquanto caminha, em pesarosa e digna penitência, arrasta, no seu enlaço, outros mártires em resignada aflição, calados que são, agora, os que jazem tombados em agonia. Impelido a ascender ao topo da colina por entre os corpos dilacerados, o homem caminha em direcção à imponente cruz, para aí se prostar, ajoelhado, sob os impiedosos braços abertos em desgraça. Nunca foi amado pelos seus pares. Foi chamado de herege por apelar à conciliação entre os povos e por perdoar os pecadores, os mesmos que outros, antes de si, repudiaram e renegaram. Não era por isso que sofria. Sabia, aliás, desde o princípio, a sorte que o esperava. Entregara-se à vontade de Deus que, finalmente, o reclamava, tal como o avisara a última dos pastorinhos.

    No céu, nuvens enfurecidas formavam cavalos negros, outros, vermelhos, cujas crinas compunham um manto espesso, sacudindo as estrelas, que caíam sobre as sete colinas, como bolas de fogo ardente. A lua avermelhou. Uma mancha de sangue espesso e fedorento que engoliu uma parte do Sol, enquanto, das entranhas da Terra, se abria um imenso abismo e dele emanando o calor de uma fornalha infernal e inclemente. Os cavalos, no ar enegrecido e putrefacto, multiplicavam-se e espalhavam-se em todas as direcções, como gafanhotos, exalando fumo, fogo e enxofre.

    No cimo do monte, o homem de branco vai rezando pelas almas dos mortos e dos ainda vivos. Jaz, no chão, caído debaixo da Cruz, de joelhos prostrado sob a espada empunhada, em chamas, pela mão esquerda do anjo que comanda o exército divino, soldados armados de setas e balas que disparam, uns atrás de outros, certeiros e sem piedade. Quando todos sucumbem, enfim, os anjos recolhem o sangue dos mártires, embalados ao som das trombetas. No seu ventre, a terra acalma-se e o céu ilumina-se e abre-se, como as páginas de um livro.

    Tão precipitadamente como se destapou, num tremendo terramoto, fecha-se o abismo, para sempre selado, aprisionando as almas dos pecadores para a agonia eterna.

 

    Na pequena Capela, o artesão contempla, saciado, a sua obra, ainda pura, Cristo de pé, chamando os eleitos, rodeado dos apóstolos, dos mártires, das virgens, dos anjos, dos homens. Já não ouve as cornetas dos anjos, enquanto o barqueiro empurra as miseráveis almas condenadas ao fogo eterno. Por trás, um maravilho céu lápis-lazúli renasce, agora, das cinzas, agraciando o mestre.

publicado às 11:33

A profecia (continua).

por naomedeemouvidos, em 19.12.18

    Na pequena Capela, os cardeais escutam, em absoluto silêncio, o juramento solene que o carmelengo vai desfiando, como um rosário, sob a viva encarnação do dilúvio que de novo ameaça precipitar-se em apoteótica e anunciada vingança. Os mantos escarlates agitam-se ao de leve, acusando a inquietude dos homens; sob a ténue luminosidade do lugar, lembram uma macabra poça de sangue, do sangue dos mártires recolhido debaixo da cruz, de braços abertos sobre a colina onde, como previsto, tudo se virá a extinguir.

    O carmelengo procede, agora, à ordeira e solene avocação, cada cardeal prometendo, obrigando-se, jurando, assim o exige o momento, assim o impõe a tradição. Os homens caminham com inusitado pesar, de um lado, Moisés morrendo, magnífico, às mãos de Signorelli, do outro, Pedro, ajoelhando, aceitando de Cristo as chaves do Céu, no tecto, recostado, jaz Adão em indolência, recebendo de Deus o princípio da vida, que ironia. Uma brisa fantasmagórica sopra, suave e doce, acariciando a túnica e os cabelos brancos do Pai que abriga e abraça a amorosa figura feminina, em acalentada espera, rodeada de anjos sobre o perturbador emaranhado de dobras do imenso manto.

    Decorrerão, ainda, dias até que cada um deposite, com agravo, o nome do escolhido na bandeja de prata, levada à boca do vaso de vidro, não sem antes o lavrar num pequeno rectângulo de papel, de branco imaculado, eligo in summum pontificiem, o epíteto numa caligrafia clara e elegante. Em frente, atrás do altar, a terrível advertência do juízo final, sublime, maravilhosa, um turbilhão de anjos e a ressurreição dos mortos.

    Quando a fumata branca anunciar, finalmente, aquele que é o eleito, não haverá um único daqueles homens que não cisme na visão profética do santo, tantos anos antes.     

publicado às 20:17

A profecia (continuação).

por naomedeemouvidos, em 16.12.18

(início)

    Enquanto ali estava, no topo de uma das colinas sobranceira à cidade, contemplou o pequeno enclave murado, embalado pelo calor suave e acobreado do pôr-do-sol. O cansaço da viagem, os dias imensos de abnegação, as privações impostas pela dura travessia em extremada devoção, tudo pesou demasiado e sucumbiu, enfim, em agitado pranto ao inesperado assombro. Chorou em consentido silêncio, sem saber por quanto tempo. Tão-pouco soube se tinham passado apenas algumas horas ou, ao invés, ter-se-iam sucedido os dias, imperturbados, alheios à sua fatídica circunstância. Soube, apenas, que estava incumbido de levar a cabo a ominosa missão, para a qual se exigia a firmeza da sua virtude, a pureza do seu credo, a grandeza da sua fé.

    Levantou-se, resoluto, não recordando como caíra, adivinhando-se desfalecido em transe e em tormento.

   Tanto não tardou no regresso. Estugando o passo e a vontade, depressa retomou o caminho de casa, sem mais delongas.

    De volta à recolhida austeridade dos aposentos, tomou a pena com urgência e iniciou a anunciada lista, desfiando as cento e doze vidas, cento e doze prenunciadas vindas, Ex castro Tiberis, Inimicus expulsus, Ex magnitudine montis, Abbas suburanus,.. Ia prestando atenção aos velados sussurros que agitavam a luz bruxuleante das velas, para que nenhuma identidade se desvanecesse, nenhuma se confundisse, até que, finalmente, os sussurros cessaram, sedebit Petrus Romanus, já as velas eram cera morta, derramada em martírio sobre a mesa e sobre o soalho gasto, enquanto o lume da lareira definhava  em apaziguados estalidos, carpindo as mágoas do piedoso arcebispo.

publicado às 11:31

A profecia.

por naomedeemouvidos, em 13.12.18

    O céu gemia anunciando a tormenta, vociferando em tons de cinza e azul desmaiado e sarapintado por pequenas manchas brancas, fugidias, sem génio nem atrevimento para moldar nuvens formosas. Um pesaroso e pálido arco-íris definhava em agonia a escassos metros da insigne cúpula, sufocado pelo mau-agoiro conjecturado há séculos. Agora, por vontade maior do que a da mão que segurara a pena pressagiadora do infortúnio, o mundo inteiro, ignorante e desprevenido, estava prestes a ser chamado às últimas páginas da História, obrigado a assistir, sem vontade, nem privilégios, ao início da capitulação.

 

    As televisões do mundo inteiro mostravam o homem sentado no trono escarlate, proferindo o discurso em língua morta. Com ar cansado, curvado ao peso dos anos e dos escabrosos vícios da corrompida côrte, vai desfiando um rol de certezas que não está seguro de possuir, mas é indiferente. O homem omite, evidentemente, as razões de relevo, sem chegar a mentir no seu propósito, e a multidão já não ouve. Estacou, perplexa, no princípio anunciado da mensagem, traduzida em várias línguas e nem por isso mais entendível.

    Cá fora, na elegante e imaculada praça, aqueles que estão mais próximos do homem velho e cansado que se despede do mundo abrem a boca de espanto. Uns choram, outros calam, uns e outros em choque, impreparados para o que aí vem, adivinhando, ainda assim, a desgraça. Nem todos são crentes. E, no entanto, todos sentem um mal-estar profundo, em dissonância com a santidade do espaço, sem saber ao certo o que espreita, o que se esconde, o que se avizinha. À medida que o tempo passa, outros tantos acorrem à praça fustigada pela chuva e obscurecida pelo cair da noite, todos em busca, senão da verdade desejada, de um sentido maior para a notícia que se estilhaça em alvoroço.

    Passam poucas horas desde o anúncio, quando o céu se ilumina dramaticamente para descarregar, rugindo, toda a sua fúria sobre a cúpula da Basílica. Um violento relâmpago atinge o cume sagrado do templo. Ainda a mole de gente recupera, em assombro, da chocante visão bíblica, quando um segundo relâmpago fulmina o mesmo ponto elevado, mais que improvável, impossível, no mesmo local exacto, para desassossego dos que assistem em incontido espanto. Os mais fervorosos não têm dúvidas; a resignação desencadeou a ira de Deus. Tantos séculos depois, a profecia foi despertada. Acordado o monstro, o princípio do fim põe-se em marcha.

(continua, se me apetecer...)

publicado às 11:32

Inocente Perfídia.

por naomedeemouvidos, em 29.11.18

     

    A aia entrou nos aposentos e fez uma ligeira vénia.

    – Mylady, a carruagem está pronta. O senhor vosso pai aguarda-vos.

    Levantou ligeira e discretamente a cabeça para admirar a noiva. Estava linda. A mulher mais bela que alguma vez se havia visto nas cortes da época. Sem dúvida, a mulher mais bela que ela alguma vez conhecera.

 

    Olhou-se ao espelho, uma última vez, demoradamente.

   Vestia um traje riquíssimo, sinal da abastada condição social a que, por direito, pertencia. O vestido, branco como a neve, era bordado com delicados fios de ouro que alastravam pela mais fina seda, desenhando ricas e impetuosas pregas até à orla do decote quadrado, para aí pousarem, acariciando o colo macio e leitoso, prenúncio de desgraça, já, de tantos nobres. Uma faixa de brocado dourado envolvia-lhe a cintura estreita, como o abraço delicado de um amante. No cabelo, sedoso e doirado como uma luminosa manhã de primavera, repartido por duas magníficas tranças, repousava um fino diadema cravejado das mais graciosas, raras e sumptuosas pedras preciosas. O brilho das jóias iluminava a face da noiva tonando-a ainda mais angelical.

    Estava linda, sim. Era quase afortunada.

  Vestira-se ricamente e a rigor para se unir a um homem que não conhecia, cumprindo uma promessa de seu pai. Um acordo político com vista a unir duas partes poderosas do reino, em que o único papel que lhe cabia era o que aquele majestoso espelho lhe devolvia. De momento.

  Esforçou-se por pensar com clareza e com apurado optimismo. Afinal, não era apenas uma mulher admiravelmente bela. Era astuta e, sobretudo, poderosa. Beleza, inteligência e poder. Sim. Talvez também ela tivesse algo a ganhar com a união, ainda que forçada. Por um instante, os seus olhos pareceram encher-se de lágrimas, mas foi apenas um momento fugaz. Por enquanto, só ela se sabia capaz. 

publicado às 09:57

Gesù.

por naomedeemouvidos, em 23.11.18

    Como das outras vezes que o visitara, a invulgar serenidade do lugar permitia que se perdesse tranquilamente na contemplação pura da arte. Imaginava que não podia ser apenas obra de hábeis artífices terrenos; havia, naqueles frescos, naquelas imponentes estátuas de mármore, nos gessos, na perfeita harmonia das cores e das formas, algo de divino, de sobrenatural.

    Inexplicavelmente proscrita dos tradicionais circuitos turísticos, tropeçava-se nela, por acaso. Num passeio ocasional e descontraído, sem se perceber que, depois de a conhecer, jamais seria possível esquecê-la. A simplicidade enganadora da fachada principal não despertava grandes paixões aos transeuntes. Como uma amante ardilosa, permanecia quieta e muda no exterior, enganadoramente tímida e angelical. Era, apenas, quando os mais atrevidos e incautos se deixavam seduzir – num apelo oculto e silencioso – pela sua singeleza, que se expunha, então, em toda a sua volúpia, aprisionando-os para sempre e irremediavelmente numa teia inebriante de avassaladora beleza.

    Passou o umbral da porta e saudou as magníficas capelas, à esquerda e à direita, com os seus maravilhosos altares. Contemplou, pela enésima vez, o caminho de opulente arquitectura e elegante graça que conduzia ao altar-mor. Avivava-se-lhe a memória como se nunca tivesse partido e, ao mesmo tempo, sentia renovada a novidade do espanto que sentiu quando lá entrara pela primeira vez.

    Foi caminhando pela exuberante nave. Viu os dois anjos ajoelhados, os santos mártires, a derrota dos rebeldes e as almas do Purgatório. Viu os anjos do Céu receberem São Francisco Xavier; o massacre dos inocentes, a adoração dos magos, a derrota da heresia que, já antes, como agora, a deixava embrutecida de amoroso pasmo.

    Uma orquestra de reflexos e sombras vertidas pelas escassas entradas de luz animava um fantástico maestro que, com destreza divina, alinhava as cores dos frescos com as formas dos mármores, enchendo de vida as pinturas e as estátuas, numa muda e, ao mesmo tempo, vibrante coreografia. A perfeição espantosa das linhas pintadas tudo parecia tornar vivo; os anjos desciam dos tectos cortejando as imponentes figuras abaixo e, estas, depressa se suavizavam, sucumbindo com deleite ao despudorado namoro, uns e outros alheios aos actores secundários que, arrebatados e em silêncio, disfrutavam do prazer sublime da contemplação. A leve penumbra do espaço ajudava ao êxtase celestial, confundindo mais os espectadores, fundindo os traços pintados com os mármores esculpidos, não se sabendo já onde começavam uns e acabavam outros, uma coexistência perfeita e encantadora.

    Na última capela, à direita, a Madona segurava o menino, por cima do altar. Mas eram, sobretudos, os tectos, pintados com excelsa mestria e arte, que para sempre cativavam os imprudentes intrusos. Contemplá-los era ficar sem fôlego, voltar atrás no tempo, fazer parte das histórias eternizadas nas bíblias em que, ironicamente, não cria. As figuras mexiam-se, embalavam-se e embalavam, o tremeluzir das velas como sussurros soprados ao acaso numa  sinfonia encantada, os gessos pintados em delicadas carícias que confundiam os sentidos em êxtase sequestrados. A perícia da técnica criando deformações ilusórias, simetrias inexistentes e, ainda assim, reais e vertiginosas. Era impossível conter tanta maravilha sem explodir de emoção, contida em cada esboço, em cada detalhe, em cada ardil de inocência eterna e impiedosamente usurpada.

    Passou horas em enlevada admiração, esmagada pela magnânima beleza da igreja desconhecida da mole usual de turistas. Precisava de sair e apanhar ar.

    Lá fora, deixou-se engolir pela multidão em frenesim, esforçando-se por voltar a uma normalidade agitada, mas, urgente e necessária para recuperar a razão de uma existência mundana.

publicado às 18:48

Anjos e Demónios.

por naomedeemouvidos, em 19.11.18

    Levantou-se já passava das duas da tarde. A noite fora longa e produtiva. Começara, finalmente, a dominar a arte com elegância e, sobretudo, com uma eficiência implacável. Na realidade, não havia muito mérito no seu sucesso. É verdade que já lho tinham assegurado – começara, aliás, por aí – mas, ainda assim, a facilidade com que as pessoas se deixavam manipular por absolutos desconhecidos continuava a surpreendê-lo. Um bom drama era infalível na recolha de simpatias estranhas aos círculos habituais de amigos; a boa figura fazia o resto, quando a situação assim o reclamava. Era melhor do que passear cãezinhos nos parques da cidade, onde tinha que dar a cara muito antes de conseguir qualquer coisa que valesse realmente a pena. Ao contrário do que aparentava a sua personalidade, não se importava de correr alguns riscos, mas, se pudesse minimizá-los, melhor.

    Tomou um duche rápido. Precisava de entregar o projecto antes das 20 h e faltava fazer ainda alguns acertos. Deixara que as recentes distracções lhe tivessem tomado mais tempo do que mandava a prudência, mas não podia permitir-se muitos deslizes, a nível profissional. Afinal, gostava bastante do que fazia; o resto era um passatempo para o qual se tinha deixado arrastar, mas que não pretendia estender mais do que o necessário e sob nenhum aspecto.

    Gostava de manter o escritório na penumbra, mesmo durante o trabalho, pelo que, a única luz naquela divisão vinha dos dois enormes écrans que mantinha permanentemente ligados e de um pequeno, mas vistoso, candeeiro de secretária, que emava uma luz ténue e amarelada. Vivia entre o requinte de um luxo delicado e gracioso, não ostensivamente burlesco ou arrogante; o suficiente para se fazer notar entre os seus pares e esperar alguma deferência por parte de quem tinha serviços para lhe prestar. Ainda assim, muitíssimo distante das historietas de penúria e privação que espalhava na internet, nas páginas e páginas que davam vida a existências alternativas e deprimentes, lançando o isco que melhor servia cada um dos diferentes propósitos daquela espécie de experiência semi-virtual em que se envolvera havia alguns meses. Primeiro, pela curiosidade, depois pela expectativa excitante e pelo gozo; porque podia.

    Para quem observasse de fora, era absolutamente ininteligível. Um homem atraente, distinto, com bom gosto, exibindo um elevado padrão de vida e perfeitamente capaz de suportar algumas extravagâncias comuns entre os do seu meio. Não precisaria de uma vida paralela, escondida nas malhas da darknet. Não tinha nada que ver com aquele grupo de fanáticos falhados que culpavam as mulheres por todas as suas desgraças, nomeadamente, pelo seu patético e auto-infligido celibato. Na realidade, nem sabia bem o que o movia. Começou por ser uma brincadeira; até onde poderia ir? O que estavam, as pessoas, dispostas a partilhar? Rapidamente descobriu que muito; demasiado. Expunham-se como nunca imaginara possível. Falavam de coisas banais, como a família, o trabalho ou os amigos, mas também partilhavam os seus medos e os seus desejos mais profundos e de que, provavelmente, jamais falariam com alguém próximo. Há sentimentos, conflitos, ressentimentos, paixões, mais fáceis de verbalizar a coberto do falso conforto que o anonimato da internet oferece. Era disso que ele se aproveitava. Sabia sempre o que dizer, ou escrever, para moldar o discurso, vergá-lo à sua vontade. A aparente facilidade com que o conseguia empolgava-o. Tanta gente desesperada e outro tanto com uma vontade imensa de praticar o bem. Eram todas marionetas num jogo perigoso, mesmo para os que estavam conscientes do seu papel e da sua participação nele.

    Sentou-se em frente da secretaria meticulosamente organizada e corrigiu ligeiramente a posição impecável do pisa-papéis. Com uma ligeira irritação, pensou que teria de voltar a advertir a nova empregada.

      

    Quando terminou o trabalho, ligou-se a uma das páginas que fora criando ao longo das últimas semanas. Escolheu uma personagem e preparou-se para ir à caça.

publicado às 09:02



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


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