Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A profecia (fim).

por naomedeemouvidos, em 03.01.19

    O homem de branco vai subindo a colina envolta em chamas negras de morte. Enquanto caminha, em pesarosa e digna penitência, arrasta, no seu enlaço, outros mártires em resignada aflição, calados que são, agora, os que jazem tombados em agonia. Impelido a ascender ao topo da colina por entre os corpos dilacerados, o homem caminha em direcção à imponente cruz, para aí se prostar, ajoelhado, sob os impiedosos braços abertos em desgraça. Nunca foi amado pelos seus pares. Foi chamado de herege por apelar à conciliação entre os povos e por perdoar os pecadores, os mesmos que outros, antes de si, repudiaram e renegaram. Não era por isso que sofria. Sabia, aliás, desde o princípio, a sorte que o esperava. Entregara-se à vontade de Deus que, finalmente, o reclamava, tal como o avisara a última dos pastorinhos.

    No céu, nuvens enfurecidas formavam cavalos negros, outros, vermelhos, cujas crinas compunham um manto espesso, sacudindo as estrelas, que caíam sobre as sete colinas, como bolas de fogo ardente. A lua avermelhou. Uma mancha de sangue espesso e fedorento que engoliu uma parte do Sol, enquanto, das entranhas da Terra, se abria um imenso abismo e dele emanando o calor de uma fornalha infernal e inclemente. Os cavalos, no ar enegrecido e putrefacto, multiplicavam-se e espalhavam-se em todas as direcções, como gafanhotos, exalando fumo, fogo e enxofre.

    No cimo do monte, o homem de branco vai rezando pelas almas dos mortos e dos ainda vivos. Jaz, no chão, caído debaixo da Cruz, de joelhos prostrado sob a espada empunhada, em chamas, pela mão esquerda do anjo que comanda o exército divino, soldados armados de setas e balas que disparam, uns atrás de outros, certeiros e sem piedade. Quando todos sucumbem, enfim, os anjos recolhem o sangue dos mártires, embalados ao som das trombetas. No seu ventre, a terra acalma-se e o céu ilumina-se e abre-se, como as páginas de um livro.

    Tão precipitadamente como se destapou, num tremendo terramoto, fecha-se o abismo, para sempre selado, aprisionando as almas dos pecadores para a agonia eterna.

 

    Na pequena Capela, o artesão contempla, saciado, a sua obra, ainda pura, Cristo de pé, chamando os eleitos, rodeado dos apóstolos, dos mártires, das virgens, dos anjos, dos homens. Já não ouve as cornetas dos anjos, enquanto o barqueiro empurra as miseráveis almas condenadas ao fogo eterno. Por trás, um maravilho céu lápis-lazúli renasce, agora, das cinzas, agraciando o mestre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:33

A profecia (continua).

por naomedeemouvidos, em 19.12.18

    Na pequena Capela, os cardeais escutam, em absoluto silêncio, o juramento solene que o carmelengo vai desfiando, como um rosário, sob a viva encarnação do dilúvio que de novo ameaça precipitar-se em apoteótica e anunciada vingança. Os mantos escarlates agitam-se ao de leve, acusando a inquietude dos homens; sob a ténue luminosidade do lugar, lembram uma macabra poça de sangue, do sangue dos mártires recolhido debaixo da cruz, de braços abertos sobre a colina onde, como previsto, tudo se virá a extinguir.

    O carmelengo procede, agora, à ordeira e solene avocação, cada cardeal prometendo, obrigando-se, jurando, assim o exige o momento, assim o impõe a tradição. Os homens caminham com inusitado pesar, de um lado, Moisés morrendo, magnífico, às mãos de Signorelli, do outro, Pedro, ajoelhando, aceitando de Cristo as chaves do Céu, no tecto, recostado, jaz Adão em indolência, recebendo de Deus o princípio da vida, que ironia. Uma brisa fantasmagórica sopra, suave e doce, acariciando a túnica e os cabelos brancos do Pai que abriga e abraça a amorosa figura feminina, em acalentada espera, rodeada de anjos sobre o perturbador emaranhado de dobras do imenso manto.

    Decorrerão, ainda, dias até que cada um deposite, com agravo, o nome do escolhido na bandeja de prata, levada à boca do vaso de vidro, não sem antes o lavrar num pequeno rectângulo de papel, de branco imaculado, eligo in summum pontificiem, o epíteto numa caligrafia clara e elegante. Em frente, atrás do altar, a terrível advertência do juízo final, sublime, maravilhosa, um turbilhão de anjos e a ressurreição dos mortos.

    Quando a fumata branca anunciar, finalmente, aquele que é o eleito, não haverá um único daqueles homens que não cisme na visão profética do santo, tantos anos antes.     

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:17

A profecia (continuação).

por naomedeemouvidos, em 16.12.18

(início)

    Enquanto ali estava, no topo de uma das colinas sobranceira à cidade, contemplou o pequeno enclave murado, embalado pelo calor suave e acobreado do pôr-do-sol. O cansaço da viagem, os dias imensos de abnegação, as privações impostas pela dura travessia em extremada devoção, tudo pesou demasiado e sucumbiu, enfim, em agitado pranto ao inesperado assombro. Chorou em consentido silêncio, sem saber por quanto tempo. Tão-pouco soube se tinham passado apenas algumas horas ou, ao invés, ter-se-iam sucedido os dias, imperturbados, alheios à sua fatídica circunstância. Soube, apenas, que estava incumbido de levar a cabo a ominosa missão, para a qual se exigia a firmeza da sua virtude, a pureza do seu credo, a grandeza da sua fé.

    Levantou-se, resoluto, não recordando como caíra, adivinhando-se desfalecido em transe e em tormento.

   Tanto não tardou no regresso. Estugando o passo e a vontade, depressa retomou o caminho de casa, sem mais delongas.

    De volta à recolhida austeridade dos aposentos, tomou a pena com urgência e iniciou a anunciada lista, desfiando as cento e doze vidas, cento e doze prenunciadas vindas, Ex castro Tiberis, Inimicus expulsus, Ex magnitudine montis, Abbas suburanus,.. Ia prestando atenção aos velados sussurros que agitavam a luz bruxuleante das velas, para que nenhuma identidade se desvanecesse, nenhuma se confundisse, até que, finalmente, os sussurros cessaram, sedebit Petrus Romanus, já as velas eram cera morta, derramada em martírio sobre a mesa e sobre o soalho gasto, enquanto o lume da lareira definhava  em apaziguados estalidos, carpindo as mágoas do piedoso arcebispo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:31

A profecia.

por naomedeemouvidos, em 13.12.18

    O céu gemia anunciando a tormenta, vociferando em tons de cinza e azul desmaiado e sarapintado por pequenas manchas brancas, fugidias, sem génio nem atrevimento para moldar nuvens formosas. Um pesaroso e pálido arco-íris definhava em agonia a escassos metros da insigne cúpula, sufocado pelo mau-agoiro conjecturado há séculos. Agora, por vontade maior do que a da mão que segurara a pena pressagiadora do infortúnio, o mundo inteiro, ignorante e desprevenido, estava prestes a ser chamado às últimas páginas da História, obrigado a assistir, sem vontade, nem privilégios, ao início da capitulação.

 

    As televisões do mundo inteiro mostravam o homem sentado no trono escarlate, proferindo o discurso em língua morta. Com ar cansado, curvado ao peso dos anos e dos escabrosos vícios da corrompida côrte, vai desfiando um rol de certezas que não está seguro de possuir, mas é indiferente. O homem omite, evidentemente, as razões de relevo, sem chegar a mentir no seu propósito, e a multidão já não ouve. Estacou, perplexa, no princípio anunciado da mensagem, traduzida em várias línguas e nem por isso mais entendível.

    Cá fora, na elegante e imaculada praça, aqueles que estão mais próximos do homem velho e cansado que se despede do mundo abrem a boca de espanto. Uns choram, outros calam, uns e outros em choque, impreparados para o que aí vem, adivinhando, ainda assim, a desgraça. Nem todos são crentes. E, no entanto, todos sentem um mal-estar profundo, em dissonância com a santidade do espaço, sem saber ao certo o que espreita, o que se esconde, o que se avizinha. À medida que o tempo passa, outros tantos acorrem à praça fustigada pela chuva e obscurecida pelo cair da noite, todos em busca, senão da verdade desejada, de um sentido maior para a notícia que se estilhaça em alvoroço.

    Passam poucas horas desde o anúncio, quando o céu se ilumina dramaticamente para descarregar, rugindo, toda a sua fúria sobre a cúpula da Basílica. Um violento relâmpago atinge o cume sagrado do templo. Ainda a mole de gente recupera, em assombro, da chocante visão bíblica, quando um segundo relâmpago fulmina o mesmo ponto elevado, mais que improvável, impossível, no mesmo local exacto, para desassossego dos que assistem em incontido espanto. Os mais fervorosos não têm dúvidas; a resignação desencadeou a ira de Deus. Tantos séculos depois, a profecia foi despertada. Acordado o monstro, o princípio do fim põe-se em marcha.

(continua, se me apetecer...)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:32

Inocente Perfídia.

por naomedeemouvidos, em 29.11.18

     

    A aia entrou nos aposentos e fez uma ligeira vénia.

    – Mylady, a carruagem está pronta. O senhor vosso pai aguarda-vos.

    Levantou ligeira e discretamente a cabeça para admirar a noiva. Estava linda. A mulher mais bela que alguma vez se havia visto nas cortes da época. Sem dúvida, a mulher mais bela que ela alguma vez conhecera.

 

    Olhou-se ao espelho, uma última vez, demoradamente.

   Vestia um traje riquíssimo, sinal da abastada condição social a que, por direito, pertencia. O vestido, branco como a neve, era bordado com delicados fios de ouro que alastravam pela mais fina seda, desenhando ricas e impetuosas pregas até à orla do decote quadrado, para aí pousarem, acariciando o colo macio e leitoso, prenúncio de desgraça, já, de tantos nobres. Uma faixa de brocado dourado envolvia-lhe a cintura estreita, como o abraço delicado de um amante. No cabelo, sedoso e doirado como uma luminosa manhã de primavera, repartido por duas magníficas tranças, repousava um fino diadema cravejado das mais graciosas, raras e sumptuosas pedras preciosas. O brilho das jóias iluminava a face da noiva tonando-a ainda mais angelical.

    Estava linda, sim. Era quase afortunada.

  Vestira-se ricamente e a rigor para se unir a um homem que não conhecia, cumprindo uma promessa de seu pai. Um acordo político com vista a unir duas partes poderosas do reino, em que o único papel que lhe cabia era o que aquele majestoso espelho lhe devolvia. De momento.

  Esforçou-se por pensar com clareza e com apurado optimismo. Afinal, não era apenas uma mulher admiravelmente bela. Era astuta e, sobretudo, poderosa. Beleza, inteligência e poder. Sim. Talvez também ela tivesse algo a ganhar com a união, ainda que forçada. Por um instante, os seus olhos pareceram encher-se de lágrimas, mas foi apenas um momento fugaz. Por enquanto, só ela se sabia capaz. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:57

Gesù.

por naomedeemouvidos, em 23.11.18

    Como das outras vezes que o visitara, a invulgar serenidade do lugar permitia que se perdesse tranquilamente na contemplação pura da arte. Imaginava que não podia ser apenas obra de hábeis artífices terrenos; havia, naqueles frescos, naquelas imponentes estátuas de mármore, nos gessos, na perfeita harmonia das cores e das formas, algo de divino, de sobrenatural.

    Inexplicavelmente proscrita dos tradicionais circuitos turísticos, tropeçava-se nela, por acaso. Num passeio ocasional e descontraído, sem se perceber que, depois de a conhecer, jamais seria possível esquecê-la. A simplicidade enganadora da fachada principal não despertava grandes paixões aos transeuntes. Como uma amante ardilosa, permanecia quieta e muda no exterior, enganadoramente tímida e angelical. Era, apenas, quando os mais atrevidos e incautos se deixavam seduzir – num apelo oculto e silencioso – pela sua singeleza, que se expunha, então, em toda a sua volúpia, aprisionando-os para sempre e irremediavelmente numa teia inebriante de avassaladora beleza.

    Passou o umbral da porta e saudou as magníficas capelas, à esquerda e à direita, com os seus maravilhosos altares. Contemplou, pela enésima vez, o caminho de opulente arquitectura e elegante graça que conduzia ao altar-mor. Avivava-se-lhe a memória como se nunca tivesse partido e, ao mesmo tempo, sentia renovada a novidade do espanto que sentiu quando lá entrara pela primeira vez.

    Foi caminhando pela exuberante nave. Viu os dois anjos ajoelhados, os santos mártires, a derrota dos rebeldes e as almas do Purgatório. Viu os anjos do Céu receberem São Francisco Xavier; o massacre dos inocentes, a adoração dos magos, a derrota da heresia que, já antes, como agora, a deixava embrutecida de amoroso pasmo.

    Uma orquestra de reflexos e sombras vertidas pelas escassas entradas de luz animava um fantástico maestro que, com destreza divina, alinhava as cores dos frescos com as formas dos mármores, enchendo de vida as pinturas e as estátuas, numa muda e, ao mesmo tempo, vibrante coreografia. A perfeição espantosa das linhas pintadas tudo parecia tornar vivo; os anjos desciam dos tectos cortejando as imponentes figuras abaixo e, estas, depressa se suavizavam, sucumbindo com deleite ao despudorado namoro, uns e outros alheios aos actores secundários que, arrebatados e em silêncio, disfrutavam do prazer sublime da contemplação. A leve penumbra do espaço ajudava ao êxtase celestial, confundindo mais os espectadores, fundindo os traços pintados com os mármores esculpidos, não se sabendo já onde começavam uns e acabavam outros, uma coexistência perfeita e encantadora.

    Na última capela, à direita, a Madona segurava o menino, por cima do altar. Mas eram, sobretudos, os tectos, pintados com excelsa mestria e arte, que para sempre cativavam os imprudentes intrusos. Contemplá-los era ficar sem fôlego, voltar atrás no tempo, fazer parte das histórias eternizadas nas bíblias em que, ironicamente, não cria. As figuras mexiam-se, embalavam-se e embalavam, o tremeluzir das velas como sussurros soprados ao acaso numa  sinfonia encantada, os gessos pintados em delicadas carícias que confundiam os sentidos em êxtase sequestrados. A perícia da técnica criando deformações ilusórias, simetrias inexistentes e, ainda assim, reais e vertiginosas. Era impossível conter tanta maravilha sem explodir de emoção, contida em cada esboço, em cada detalhe, em cada ardil de inocência eterna e impiedosamente usurpada.

    Passou horas em enlevada admiração, esmagada pela magnânima beleza da igreja desconhecida da mole usual de turistas. Precisava de sair e apanhar ar.

    Lá fora, deixou-se engolir pela multidão em frenesim, esforçando-se por voltar a uma normalidade agitada, mas, urgente e necessária para recuperar a razão de uma existência mundana.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:48

Anjos e Demónios.

por naomedeemouvidos, em 19.11.18

    Levantou-se já passava das duas da tarde. A noite fora longa e produtiva. Começara, finalmente, a dominar a arte com elegância e, sobretudo, com uma eficiência implacável. Na realidade, não havia muito mérito no seu sucesso. É verdade que já lho tinham assegurado – começara, aliás, por aí – mas, ainda assim, a facilidade com que as pessoas se deixavam manipular por absolutos desconhecidos continuava a surpreendê-lo. Um bom drama era infalível na recolha de simpatias estranhas aos círculos habituais de amigos; a boa figura fazia o resto, quando a situação assim o reclamava. Era melhor do que passear cãezinhos nos parques da cidade, onde tinha que dar a cara muito antes de conseguir qualquer coisa que valesse realmente a pena. Ao contrário do que aparentava a sua personalidade, não se importava de correr alguns riscos, mas, se pudesse minimizá-los, melhor.

    Tomou um duche rápido. Precisava de entregar o projecto antes das 20 h e faltava fazer ainda alguns acertos. Deixara que as recentes distracções lhe tivessem tomado mais tempo do que mandava a prudência, mas não podia permitir-se muitos deslizes, a nível profissional. Afinal, gostava bastante do que fazia; o resto era um passatempo para o qual se tinha deixado arrastar, mas que não pretendia estender mais do que o necessário e sob nenhum aspecto.

    Gostava de manter o escritório na penumbra, mesmo durante o trabalho, pelo que, a única luz naquela divisão vinha dos dois enormes écrans que mantinha permanentemente ligados e de um pequeno, mas vistoso, candeeiro de secretária, que emava uma luz ténue e amarelada. Vivia entre o requinte de um luxo delicado e gracioso, não ostensivamente burlesco ou arrogante; o suficiente para se fazer notar entre os seus pares e esperar alguma deferência por parte de quem tinha serviços para lhe prestar. Ainda assim, muitíssimo distante das historietas de penúria e privação que espalhava na internet, nas páginas e páginas que davam vida a existências alternativas e deprimentes, lançando o isco que melhor servia cada um dos diferentes propósitos daquela espécie de experiência semi-virtual em que se envolvera havia alguns meses. Primeiro, pela curiosidade, depois pela expectativa excitante e pelo gozo; porque podia.

    Para quem observasse de fora, era absolutamente ininteligível. Um homem atraente, distinto, com bom gosto, exibindo um elevado padrão de vida e perfeitamente capaz de suportar algumas extravagâncias comuns entre os do seu meio. Não precisaria de uma vida paralela, escondida nas malhas da darknet. Não tinha nada que ver com aquele grupo de fanáticos falhados que culpavam as mulheres por todas as suas desgraças, nomeadamente, pelo seu patético e auto-infligido celibato. Na realidade, nem sabia bem o que o movia. Começou por ser uma brincadeira; até onde poderia ir? O que estavam, as pessoas, dispostas a partilhar? Rapidamente descobriu que muito; demasiado. Expunham-se como nunca imaginara possível. Falavam de coisas banais, como a família, o trabalho ou os amigos, mas também partilhavam os seus medos e os seus desejos mais profundos e de que, provavelmente, jamais falariam com alguém próximo. Há sentimentos, conflitos, ressentimentos, paixões, mais fáceis de verbalizar a coberto do falso conforto que o anonimato da internet oferece. Era disso que ele se aproveitava. Sabia sempre o que dizer, ou escrever, para moldar o discurso, vergá-lo à sua vontade. A aparente facilidade com que o conseguia empolgava-o. Tanta gente desesperada e outro tanto com uma vontade imensa de praticar o bem. Eram todas marionetas num jogo perigoso, mesmo para os que estavam conscientes do seu papel e da sua participação nele.

    Sentou-se em frente da secretaria meticulosamente organizada e corrigiu ligeiramente a posição impecável do pisa-papéis. Com uma ligeira irritação, pensou que teria de voltar a advertir a nova empregada.

      

    Quando terminou o trabalho, ligou-se a uma das páginas que fora criando ao longo das últimas semanas. Escolheu uma personagem e preparou-se para ir à caça.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 09:02

Demónios reais.

por naomedeemouvidos, em 14.11.18

    Chegara ao país há menos de meio ano, recém-casada, e era a segunda vez que passava um mês inteiro sozinha. Não se sentia muito confortável. Não tanto pela solidão imposta, gostava do seu tempo e do seu espaço e já tinha feito muitas amizades, mas pela preocupação. Aquelas viagens de trabalho revestiam-se de algum risco e de medidas de segurança apertadas e quase hollywoodescas. As reuniões decorriam ao ar livre, de pé, supostamente no limiar da fronteira entre os dois países que os militares de ambos os lados guardavam e garantiam ser exactamente ali – embora não houvesse qualquer outro indicador dessa linha – enquanto empunhavam metralhadoras, provavelmente mais intimidatórias do que eficientes. O ambiente era sempre bastante tenso para os responsáveis europeus, muitos deles também recém-chegados a uma realidade completamente inesperada e quase irreal.

    Procurou as chaves do carro. Chegava hoje, finalmente, e preferia ir buscá-lo à estação em vez de ficar em casa à espera, embora não gostasse muito de sair à noite sozinha.

    Os primeiros dias tinham sido um choque. Durante semanas, só saía de casa de calças de ganga disformes e camisolões dois tamanhos acima. Era assustador perceber que a conheciam, que a seguiam ocasionalmente e que quando apanhava um táxi para casa nem precisava de dizer onde morava. Já a tinham prevenido. Os estrangeiros, mesmo os cooperantes, nunca passavam despercebidos e eram regularmente controlados. Apesar disso, o país era bastante seguro e aberto, comparativamente com outros países árabes e muçulmanos. Acabou por se habituar, voltou a maquilhar-se e a usar as suas roupas – embora, as mais discretas – e começou a conduzir. Mas, à noite, evitava andar sozinha. Sentira-se um pouco intimidada, umas semanas antes. Inscrevera-se num curso de inglês, para passar um pouco o tempo, e, durante uma aula de conversação, um aluno árabe confrontara-a com o facto de ser estrangeira, ocidental, e não estar, por isso, muito habilitada a discutir sobre o papel da mulher nas sociedades muçulmanas. O tom, a postura e o facto de ter tido o à-vontade de se levantar da cadeira para lhe dirigir a palavra, deixaram-na um pouco alerta para a fragilidade de uma suposta abertura e tolerância a outras culturas. Apesar do assombro que a assolou na altura, continuaram ambos a frequentar o curso sem outros incidentes, mas, passou a ser mais prudente.

   Chamou o elevador e desceu à garagem. Preparou-se para suster a respiração durante o maior período de tempo que lhe fosse possível. Aproximava-se o final do Ramadão e os vizinhos dos quarto e sexto andares tinham trocado os mercedes (mais exactamente, os lugares de garagem…) pelos cordeiros que haveriam de sacrificar daí a dias, para assinalar o fim do jejum. Há três dias que os pobres animais jaziam, encolhidos, no chão frio da cave, numa espécie de transe semiconsciente do juízo final que os aguardava, onde a glória dedicada ao profeta exigia o sangrento sacrifício das suas vidas engordadas para o ritual.

 

    Percebeu que algo mais, e mais grave, tinha acontecido assim que o viu chegar. Vinha angustiado e curvado como se transportasse às costas todos os pecados do mundo. A cara, já séria e fechada por norma (nunca o vira ou ouvira rir à gargalhada; não era esse tipo de homem), mostrava-se ainda mais cerrada e parecia ter passado um ano, e não um mês, desde que saíra.

    Abraçaram-se em silêncio. Às vezes, não fazem falta palavras para que duas pessoas se entendam. O tempo e o conforto dos próximos dias, haveriam de trazer o distanciamento e a calma necessários para relatar o horror do que tinham presenciado, ele e os colegas. Como uma expiação, por terem feito a denúncia, como lhes competia e como mandava o protocolo entre a empresa e as autoridades locais, longe de imaginarem que a distância a que estavam dos seus países de origem – e que sabiam ir para além da geografia – pudesse roubar-lhes a alma.

    Nessa noite, sentiu-o reviver o drama, mas, só mais tarde, haveria de perceber que, no seu sono agitado, ouvia ainda os gritos de dor e desespero do jovem incauto, grotesca e violentamente punido pela polícia, por um roubo imbecil e imprudente e que, por sua conta e apesar do protocolo, jamais voltaria a ser denunciado. Infelizmente, naquele dia, já não pudera voltar atrás.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:57

O Murmúrio da Água

por naomedeemouvidos, em 29.07.18

.

 

   O caminho de terra amarelecida serpenteava por entre o tapete verde manchado de folhas secas e estaladiças que, ao pisar, libertavam um intenso cheiro a Outono. As árvores semi-nuas ofereciam, languidamente, os seus ramos à brisa soalheira da tarde que com eles dançava num vibrante e alegre corrupio.

   Caminhava devagar. Acenando aos pássaros e aos esquilos, detendo-se um momento mais nas derradeiras folhas, briosas do seu ar, que teimavam em manter-se agarradas aos caules, viçosas, vermelhas, ostensivamente belas, enchendo o ar de contrastantes perfumes, numa luxuriante orgia de odores intensos. Enquanto as admirava, surgiu-lhe ao caminho um pequeno riacho encimado por uma elegante ponte de madeira, em arco. Surpreendeu-se; nunca, até aí, o vira. Correu para a água clara e cristalina que escorria tranquila sob a romântica ponte e depressa tratou de mergulhar os pés pequenos e delicados naquele manto fresco, brilhante e vivo. Brincou com os seixos, lisos, de diferentes cores, formas e tamanhos, alheia ao passar das horas e às variações das sombras, ora espreitando, ora fugindo, em constante mudança.

   O tempo foi escoando, derramando-se esquivo e sorrateiro até a envolver devagar e suavemente, como uma fina teia de aranha. Alarmada, deu-se conta do inusitado silêncio que pairava no ar. Não se ouviam os pássaros, nem os esquilos. Os arbustos não se agitavam, como antes, e os pavões, que já tinha visto passar arrastando as suas majestosas mantilhas azuis e verdes, pareciam ter existido apenas na sua lembrança.  Como um quadro mal pendurado, subitamente desajustado ao redor, a paisagem alterara-se, transfigurara-se, como uma tela pintada e toscamente sobreposta na mancha verde da floresta. Um arrepio agoirento fê-la levantar, em sobressalto.

   Ergueu os olhos para as copas despidas das árvores. Uma neblina densa ameaçava irromper em fúria por entre os troncos quietos e mudos. Não queria que o fim de tarde, sempre tão adiantado nesta época, a apanhasse ainda no coração daquele bosque encantado. Que imprevidente fora! Teria muito que explicar, quando chegasse a casa!

   Sentiu outro arrepio e uma aragem fria afagou-lhe o rosto, de forma insidiosa e sombria. Antes que pudesse voltar-se, em desassossego, uma escuridão profunda engoliu tudo ao derredor. O chão afundou-se como um mar agitado de tempestade e sentiu-se desfalecer como a chama periclitante de uma vela à mercê de um sopro breve e sinistro, os cachos de cabelo doirado impecavelmente dispersos na água fria da corrente, como nenúfares.

 

 ..

 

   Acordou banhado em suor, esgotado. Ainda a ouvia chorar. Os pesadelos eram, agora, menos frequentes, mas ainda o atormentavam. A imagem do corpo a flutuar no riacho, como uma boneca de trapos, materializava-se, frequentemente, nas suas memórias, desde o dia em que a encontrara.

   Levantou-se e tomou o pequeno-almoço, antes de se perder entre as flores do jardim e as verduras da horta. Havia que preparar as encomendas, pois logo começaria a chegar a freguesia. Deixara de ir à vila para poder dedicar mais tempo à edificação, abnegada, do seu santuário, mas os seus produtos eram frescos e a oferta não era muita, entre os habitantes, pelo que, as pessoas subiam até à ilha, para se abastecerem. Na realidade, muitas vinham impelidas por uma curiosidade mórbida, mas a azáfama fazia-lhe bem. Distraía-o dos sonhos maus e das alucinações constantes dos últimos meses.

   Por vezes, os sussurros tornavam-se insuportáveis e cuidar da terra ajudava-o a manter alguma serenidade. Isso e cuidar do tétrico relicário. Sabia que eram muitos os que o consideravam louco, mas não o incomodavam e ele também não. Desde que o deixassem sozinho com as suas lembranças e as suas bonecas.

   Nos dias mais curtos, notava-a mais inquieta. Os lamentos cresciam e um burburinho de vozes enfurecidas, em uníssono, ameaçavam enlouquecê-lo. As noites tornavam-se demasiado longas, os passos urgentes e desordeiros, ameaçadores. Tapava os ouvidos e entoava as suas preces, baixinho, mas, sabia que precisava de lhe acalmar o espírito, por isso, as recolhia e as usava como ornamentos que outros viam como macabros, mas não ele. Muitas vezes, mais recentemente, costurava-as ele, enchia-as de trapos velhos e dava-lhes forma, embalado pela recordação dos seus cabelos loiros e do corpo franzino de menina.

   O culto tornara-se parte reclamada da sua rotina e surtia efeito. Acalmava-o a ele, mas, sobretudo, apaziguava-a a ela. Não sabia bem quando iniciara, como iniciara, a inusitada jornada. Depois de começar a ouvi-las, seguramente. As vozes. E os passos miúdos e ansiosos, quando deambulava pelo bosque, sozinha, atordoada, pisando as folhas secas e murmurejando as canções de embalar que aprendera da mãe. Pressentir a voz da mãe sempre tivera o poder de a acalentar, como se nenhum mal pudesse medrar desde que fosse capaz de continuar a ouvi-la.

   Nesse dia, acabara de costurar outra linda boneca de trapos. Contemplou-a longamente, admirando a arte que fora aperfeiçoando ao longo do tempo. Era maravilhosa! Encantá-la-ia! Mais do que a última, menos do que a próxima. Assim se ia dando conta do aprimorar da sua obra, a cada etapa, pelo silêncio reparador que se seguia. As longas noites permaneceriam tranquilas durante algumas semanas, cessariam os passos e os murmúrios aflitos e incansáveis. E, desejosamente, deixaria, por algum tempo, de escutar a corrente apressada e caprichosa, implacável como uma tormenta.

   Sim, estava linda! Sabia, exactamente, onde colocá-la, mas, haveria tempo amanhã. Por ora, precisava de descansar e dispor prazerosamente do raro sossego da noite.

 

...

 

   A lua enchia o céu limpo, imenso, derramando a sua luz prateada como um manto de seda macia que escorria, indolente, pela paisagem adormecida.

   Viu-se a entrar na floresta, descalço e obediente, pois há muito que lhe pertencia. Percebia a urgência do seu apelo. Ele também estava muito cansado. Não tinha tanta pressa, mas rendera-se à agonia dela e consumira-se. Chegara a hora e sentia-se em paz.

   A corrente estava calma, desmaiada entre os seixos polidos como um amante saciado. Os pássaros chilreavam em notas aliviadas e harmoniosas, sem o habitual prenúncio de morte, que ironia! Talvez pudesse ficar; cuidando dos esquilos, voando com os colibris e admirando os pavões com as suas magníficas caudas garridas de penas aveludadas. Mas, não. Ela reclamava-o e ele pertencia-lhe desde o instante em que a descobrira, repousando nas águas frias do riacho, como uma eterna e adorável bela adormecida.

   Um calor doce e tranquilizador envolveu-o com deleite. Abandonou-se à volúpia da morte e permitiu-se repousar, por fim.

 

(Inspirado na lenda da ilha das bonecas, México)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:01

Monte Encantado

por naomedeemouvidos, em 25.07.18

Àquela hora, a atmosfera húmida esculpia as primeiras formas com a habilidade de um maestro regendo uma orquestra viva de cores que envolviam a ilha imortalizada nas inúmeras fotografias que já tinha admirado, muito antes de lá chegar.

A fraca luz solar animava as sombras fantasmagóricas que lambiam demoradamente as paredes da abadia. A maré tinha subido. Furtiva, insidiosa e matreira, cercara o monte, silenciosamente, acariciando-o como uma amante apaixonada e ardilosa e ele, imponente e quedo, sucumbira, uma vez mais, deixando-se arrebatar, resignado.

À sua frente, o rochedo erguia-se imponente e imperturbável, como uma barca sagrada, evocando o demónio que, séculos antes, assumira a forma de um dragão do mar para espalhar o terror e semear a desgraça entre as gentes pobres da região.

Na quietude da sua contemplação profunda, podia ouvir o ondular da Besta; as águas silvando impiedosamente, embalando o monstro na sua pérfida demanda de reinar sobre o seu castelo e tiranizar os seus vassalos, por toda a eternidade.

Fechou os olhos. As preces das velhas subiram de tom. Nas suas vestes andrajosas, vertiam lamúrias, maltrapilhas como elas, que, à força de lágrimas, espalhavam como uma praga por terras agora normandas.

Um clarão dourado e quente perturbou, brevemente, o seu êxtase. O Arcanjo Miguel emergiu das sombras desmaiadas, armado da sua espada redentora, chamado pela urgência aflita das rezas e subjugou o Mal, ordenando-lhe que retornasse às entranhas do mar e de lá não mais voltasse.

Os que assistiram à batalha imaginavam-se, de novo, confundidos pelo Diabo, enredados em mais uma das suas fétidas artimanhas. Demoraram a ceder ao pedido do Arcanjo de, naquele exacto monte, erguer um oratório em sua homenagem.

Sentiu, então, a pressão do dedo do Arcanjo contra a sua testa e abriu os olhos para contemplar a relíquia exposta na Basílica de Saint-Gervais d’Avranches. Afinal, verdade ou mentira, a viagem iniciara-se, apenas, e o encanto do lugar era, com toda a certeza, bem real…

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:12



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

Cor preferida - Cor de burro quando foge.

O meu maior feito - O meu filho.

O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.

Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.

Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.

Imprescindível na bagagem de férias - Livros.

Saúde - Um bem precioso.

Dinheiro - Para tratar com respeito.


Layout

Gaffe


Arquivo



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.