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Inocente Perfídia.

por naomedeemouvidos, em 29.11.18

     

    A aia entrou nos aposentos e fez uma ligeira vénia.

    – Mylady, a carruagem está pronta. O senhor vosso pai aguarda-vos.

    Levantou ligeira e discretamente a cabeça para admirar a noiva. Estava linda. A mulher mais bela que alguma vez se havia visto nas cortes da época. Sem dúvida, a mulher mais bela que ela alguma vez conhecera.

 

    Olhou-se ao espelho, uma última vez, demoradamente.

   Vestia um traje riquíssimo, sinal da abastada condição social a que, por direito, pertencia. O vestido, branco como a neve, era bordado com delicados fios de ouro que alastravam pela mais fina seda, desenhando ricas e impetuosas pregas até à orla do decote quadrado, para aí pousarem, acariciando o colo macio e leitoso, prenúncio de desgraça, já, de tantos nobres. Uma faixa de brocado dourado envolvia-lhe a cintura estreita, como o abraço delicado de um amante. No cabelo, sedoso e doirado como uma luminosa manhã de primavera, repartido por duas magníficas tranças, repousava um fino diadema cravejado das mais graciosas, raras e sumptuosas pedras preciosas. O brilho das jóias iluminava a face da noiva tonando-a ainda mais angelical.

    Estava linda, sim. Era quase afortunada.

  Vestira-se ricamente e a rigor para se unir a um homem que não conhecia, cumprindo uma promessa de seu pai. Um acordo político com vista a unir duas partes poderosas do reino, em que o único papel que lhe cabia era o que aquele majestoso espelho lhe devolvia. De momento.

  Esforçou-se por pensar com clareza e com apurado optimismo. Afinal, não era apenas uma mulher admiravelmente bela. Era astuta e, sobretudo, poderosa. Beleza, inteligência e poder. Sim. Talvez também ela tivesse algo a ganhar com a união, ainda que forçada. Por um instante, os seus olhos pareceram encher-se de lágrimas, mas foi apenas um momento fugaz. Por enquanto, só ela se sabia capaz. 

publicado às 09:57

Gesù.

por naomedeemouvidos, em 23.11.18

    Como das outras vezes que o visitara, a invulgar serenidade do lugar permitia que se perdesse tranquilamente na contemplação pura da arte. Imaginava que não podia ser apenas obra de hábeis artífices terrenos; havia, naqueles frescos, naquelas imponentes estátuas de mármore, nos gessos, na perfeita harmonia das cores e das formas, algo de divino, de sobrenatural.

    Inexplicavelmente proscrita dos tradicionais circuitos turísticos, tropeçava-se nela, por acaso. Num passeio ocasional e descontraído, sem se perceber que, depois de a conhecer, jamais seria possível esquecê-la. A simplicidade enganadora da fachada principal não despertava grandes paixões aos transeuntes. Como uma amante ardilosa, permanecia quieta e muda no exterior, enganadoramente tímida e angelical. Era, apenas, quando os mais atrevidos e incautos se deixavam seduzir – num apelo oculto e silencioso – pela sua singeleza, que se expunha, então, em toda a sua volúpia, aprisionando-os para sempre e irremediavelmente numa teia inebriante de avassaladora beleza.

    Passou o umbral da porta e saudou as magníficas capelas, à esquerda e à direita, com os seus maravilhosos altares. Contemplou, pela enésima vez, o caminho de opulente arquitectura e elegante graça que conduzia ao altar-mor. Avivava-se-lhe a memória como se nunca tivesse partido e, ao mesmo tempo, sentia renovada a novidade do espanto que sentiu quando lá entrara pela primeira vez.

    Foi caminhando pela exuberante nave. Viu os dois anjos ajoelhados, os santos mártires, a derrota dos rebeldes e as almas do Purgatório. Viu os anjos do Céu receberem São Francisco Xavier; o massacre dos inocentes, a adoração dos magos, a derrota da heresia que, já antes, como agora, a deixava embrutecida de amoroso pasmo.

    Uma orquestra de reflexos e sombras vertidas pelas escassas entradas de luz animava um fantástico maestro que, com destreza divina, alinhava as cores dos frescos com as formas dos mármores, enchendo de vida as pinturas e as estátuas, numa muda e, ao mesmo tempo, vibrante coreografia. A perfeição espantosa das linhas pintadas tudo parecia tornar vivo; os anjos desciam dos tectos cortejando as imponentes figuras abaixo e, estas, depressa se suavizavam, sucumbindo com deleite ao despudorado namoro, uns e outros alheios aos actores secundários que, arrebatados e em silêncio, disfrutavam do prazer sublime da contemplação. A leve penumbra do espaço ajudava ao êxtase celestial, confundindo mais os espectadores, fundindo os traços pintados com os mármores esculpidos, não se sabendo já onde começavam uns e acabavam outros, uma coexistência perfeita e encantadora.

    Na última capela, à direita, a Madona segurava o menino, por cima do altar. Mas eram, sobretudos, os tectos, pintados com excelsa mestria e arte, que para sempre cativavam os imprudentes intrusos. Contemplá-los era ficar sem fôlego, voltar atrás no tempo, fazer parte das histórias eternizadas nas bíblias em que, ironicamente, não cria. As figuras mexiam-se, embalavam-se e embalavam, o tremeluzir das velas como sussurros soprados ao acaso numa  sinfonia encantada, os gessos pintados em delicadas carícias que confundiam os sentidos em êxtase sequestrados. A perícia da técnica criando deformações ilusórias, simetrias inexistentes e, ainda assim, reais e vertiginosas. Era impossível conter tanta maravilha sem explodir de emoção, contida em cada esboço, em cada detalhe, em cada ardil de inocência eterna e impiedosamente usurpada.

    Passou horas em enlevada admiração, esmagada pela magnânima beleza da igreja desconhecida da mole usual de turistas. Precisava de sair e apanhar ar.

    Lá fora, deixou-se engolir pela multidão em frenesim, esforçando-se por voltar a uma normalidade agitada, mas, urgente e necessária para recuperar a razão de uma existência mundana.

publicado às 18:48

Anjos e Demónios.

por naomedeemouvidos, em 19.11.18

    Levantou-se já passava das duas da tarde. A noite fora longa e produtiva. Começara, finalmente, a dominar a arte com elegância e, sobretudo, com uma eficiência implacável. Na realidade, não havia muito mérito no seu sucesso. É verdade que já lho tinham assegurado – começara, aliás, por aí – mas, ainda assim, a facilidade com que as pessoas se deixavam manipular por absolutos desconhecidos continuava a surpreendê-lo. Um bom drama era infalível na recolha de simpatias estranhas aos círculos habituais de amigos; a boa figura fazia o resto, quando a situação assim o reclamava. Era melhor do que passear cãezinhos nos parques da cidade, onde tinha que dar a cara muito antes de conseguir qualquer coisa que valesse realmente a pena. Ao contrário do que aparentava a sua personalidade, não se importava de correr alguns riscos, mas, se pudesse minimizá-los, melhor.

    Tomou um duche rápido. Precisava de entregar o projecto antes das 20 h e faltava fazer ainda alguns acertos. Deixara que as recentes distracções lhe tivessem tomado mais tempo do que mandava a prudência, mas não podia permitir-se muitos deslizes, a nível profissional. Afinal, gostava bastante do que fazia; o resto era um passatempo para o qual se tinha deixado arrastar, mas que não pretendia estender mais do que o necessário e sob nenhum aspecto.

    Gostava de manter o escritório na penumbra, mesmo durante o trabalho, pelo que, a única luz naquela divisão vinha dos dois enormes écrans que mantinha permanentemente ligados e de um pequeno, mas vistoso, candeeiro de secretária, que emava uma luz ténue e amarelada. Vivia entre o requinte de um luxo delicado e gracioso, não ostensivamente burlesco ou arrogante; o suficiente para se fazer notar entre os seus pares e esperar alguma deferência por parte de quem tinha serviços para lhe prestar. Ainda assim, muitíssimo distante das historietas de penúria e privação que espalhava na internet, nas páginas e páginas que davam vida a existências alternativas e deprimentes, lançando o isco que melhor servia cada um dos diferentes propósitos daquela espécie de experiência semi-virtual em que se envolvera havia alguns meses. Primeiro, pela curiosidade, depois pela expectativa excitante e pelo gozo; porque podia.

    Para quem observasse de fora, era absolutamente ininteligível. Um homem atraente, distinto, com bom gosto, exibindo um elevado padrão de vida e perfeitamente capaz de suportar algumas extravagâncias comuns entre os do seu meio. Não precisaria de uma vida paralela, escondida nas malhas da darknet. Não tinha nada que ver com aquele grupo de fanáticos falhados que culpavam as mulheres por todas as suas desgraças, nomeadamente, pelo seu patético e auto-infligido celibato. Na realidade, nem sabia bem o que o movia. Começou por ser uma brincadeira; até onde poderia ir? O que estavam, as pessoas, dispostas a partilhar? Rapidamente descobriu que muito; demasiado. Expunham-se como nunca imaginara possível. Falavam de coisas banais, como a família, o trabalho ou os amigos, mas também partilhavam os seus medos e os seus desejos mais profundos e de que, provavelmente, jamais falariam com alguém próximo. Há sentimentos, conflitos, ressentimentos, paixões, mais fáceis de verbalizar a coberto do falso conforto que o anonimato da internet oferece. Era disso que ele se aproveitava. Sabia sempre o que dizer, ou escrever, para moldar o discurso, vergá-lo à sua vontade. A aparente facilidade com que o conseguia empolgava-o. Tanta gente desesperada e outro tanto com uma vontade imensa de praticar o bem. Eram todas marionetas num jogo perigoso, mesmo para os que estavam conscientes do seu papel e da sua participação nele.

    Sentou-se em frente da secretaria meticulosamente organizada e corrigiu ligeiramente a posição impecável do pisa-papéis. Com uma ligeira irritação, pensou que teria de voltar a advertir a nova empregada.

      

    Quando terminou o trabalho, ligou-se a uma das páginas que fora criando ao longo das últimas semanas. Escolheu uma personagem e preparou-se para ir à caça.

publicado às 09:02

Demónios reais.

por naomedeemouvidos, em 14.11.18

    Chegara ao país há menos de meio ano, recém-casada, e era a segunda vez que passava um mês inteiro sozinha. Não se sentia muito confortável. Não tanto pela solidão imposta, gostava do seu tempo e do seu espaço e já tinha feito muitas amizades, mas pela preocupação. Aquelas viagens de trabalho revestiam-se de algum risco e de medidas de segurança apertadas e quase hollywoodescas. As reuniões decorriam ao ar livre, de pé, supostamente no limiar da fronteira entre os dois países que os militares de ambos os lados guardavam e garantiam ser exactamente ali – embora não houvesse qualquer outro indicador dessa linha – enquanto empunhavam metralhadoras, provavelmente mais intimidatórias do que eficientes. O ambiente era sempre bastante tenso para os responsáveis europeus, muitos deles também recém-chegados a uma realidade completamente inesperada e quase irreal.

    Procurou as chaves do carro. Chegava hoje, finalmente, e preferia ir buscá-lo à estação em vez de ficar em casa à espera, embora não gostasse muito de sair à noite sozinha.

    Os primeiros dias tinham sido um choque. Durante semanas, só saía de casa de calças de ganga disformes e camisolões dois tamanhos acima. Era assustador perceber que a conheciam, que a seguiam ocasionalmente e que quando apanhava um táxi para casa nem precisava de dizer onde morava. Já a tinham prevenido. Os estrangeiros, mesmo os cooperantes, nunca passavam despercebidos e eram regularmente controlados. Apesar disso, o país era bastante seguro e aberto, comparativamente com outros países árabes e muçulmanos. Acabou por se habituar, voltou a maquilhar-se e a usar as suas roupas – embora, as mais discretas – e começou a conduzir. Mas, à noite, evitava andar sozinha. Sentira-se um pouco intimidada, umas semanas antes. Inscrevera-se num curso de inglês, para passar um pouco o tempo, e, durante uma aula de conversação, um aluno árabe confrontara-a com o facto de ser estrangeira, ocidental, e não estar, por isso, muito habilitada a discutir sobre o papel da mulher nas sociedades muçulmanas. O tom, a postura e o facto de ter tido o à-vontade de se levantar da cadeira para lhe dirigir a palavra, deixaram-na um pouco alerta para a fragilidade de uma suposta abertura e tolerância a outras culturas. Apesar do assombro que a assolou na altura, continuaram ambos a frequentar o curso sem outros incidentes, mas, passou a ser mais prudente.

   Chamou o elevador e desceu à garagem. Preparou-se para suster a respiração durante o maior período de tempo que lhe fosse possível. Aproximava-se o final do Ramadão e os vizinhos dos quarto e sexto andares tinham trocado os mercedes (mais exactamente, os lugares de garagem…) pelos cordeiros que haveriam de sacrificar daí a dias, para assinalar o fim do jejum. Há três dias que os pobres animais jaziam, encolhidos, no chão frio da cave, numa espécie de transe semiconsciente do juízo final que os aguardava, onde a glória dedicada ao profeta exigia o sangrento sacrifício das suas vidas engordadas para o ritual.

 

    Percebeu que algo mais, e mais grave, tinha acontecido assim que o viu chegar. Vinha angustiado e curvado como se transportasse às costas todos os pecados do mundo. A cara, já séria e fechada por norma (nunca o vira ou ouvira rir à gargalhada; não era esse tipo de homem), mostrava-se ainda mais cerrada e parecia ter passado um ano, e não um mês, desde que saíra.

    Abraçaram-se em silêncio. Às vezes, não fazem falta palavras para que duas pessoas se entendam. O tempo e o conforto dos próximos dias, haveriam de trazer o distanciamento e a calma necessários para relatar o horror do que tinham presenciado, ele e os colegas. Como uma expiação, por terem feito a denúncia, como lhes competia e como mandava o protocolo entre a empresa e as autoridades locais, longe de imaginarem que a distância a que estavam dos seus países de origem – e que sabiam ir para além da geografia – pudesse roubar-lhes a alma.

    Nessa noite, sentiu-o reviver o drama, mas, só mais tarde, haveria de perceber que, no seu sono agitado, ouvia ainda os gritos de dor e desespero do jovem incauto, grotesca e violentamente punido pela polícia, por um roubo imbecil e imprudente e que, por sua conta e apesar do protocolo, jamais voltaria a ser denunciado. Infelizmente, naquele dia, já não pudera voltar atrás.

publicado às 10:57

O Murmúrio da Água

por naomedeemouvidos, em 29.07.18

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   O caminho de terra amarelecida serpenteava por entre o tapete verde manchado de folhas secas e estaladiças que, ao pisar, libertavam um intenso cheiro a Outono. As árvores semi-nuas ofereciam, languidamente, os seus ramos à brisa soalheira da tarde que com eles dançava num vibrante e alegre corrupio.

   Caminhava devagar. Acenando aos pássaros e aos esquilos, detendo-se um momento mais nas derradeiras folhas, briosas do seu ar, que teimavam em manter-se agarradas aos caules, viçosas, vermelhas, ostensivamente belas, enchendo o ar de contrastantes perfumes, numa luxuriante orgia de odores intensos. Enquanto as admirava, surgiu-lhe ao caminho um pequeno riacho encimado por uma elegante ponte de madeira, em arco. Surpreendeu-se; nunca, até aí, o vira. Correu para a água clara e cristalina que escorria tranquila sob a romântica ponte e depressa tratou de mergulhar os pés pequenos e delicados naquele manto fresco, brilhante e vivo. Brincou com os seixos, lisos, de diferentes cores, formas e tamanhos, alheia ao passar das horas e às variações das sombras, ora espreitando, ora fugindo, em constante mudança.

   O tempo foi escoando, derramando-se esquivo e sorrateiro até a envolver devagar e suavemente, como uma fina teia de aranha. Alarmada, deu-se conta do inusitado silêncio que pairava no ar. Não se ouviam os pássaros, nem os esquilos. Os arbustos não se agitavam, como antes, e os pavões, que já tinha visto passar arrastando as suas majestosas mantilhas azuis e verdes, pareciam ter existido apenas na sua lembrança.  Como um quadro mal pendurado, subitamente desajustado ao redor, a paisagem alterara-se, transfigurara-se, como uma tela pintada e toscamente sobreposta na mancha verde da floresta. Um arrepio agoirento fê-la levantar, em sobressalto.

   Ergueu os olhos para as copas despidas das árvores. Uma neblina densa ameaçava irromper em fúria por entre os troncos quietos e mudos. Não queria que o fim de tarde, sempre tão adiantado nesta época, a apanhasse ainda no coração daquele bosque encantado. Que imprevidente fora! Teria muito que explicar, quando chegasse a casa!

   Sentiu outro arrepio e uma aragem fria afagou-lhe o rosto, de forma insidiosa e sombria. Antes que pudesse voltar-se, em desassossego, uma escuridão profunda engoliu tudo ao derredor. O chão afundou-se como um mar agitado de tempestade e sentiu-se desfalecer como a chama periclitante de uma vela à mercê de um sopro breve e sinistro, os cachos de cabelo doirado impecavelmente dispersos na água fria da corrente, como nenúfares.

 

 ..

 

   Acordou banhado em suor, esgotado. Ainda a ouvia chorar. Os pesadelos eram, agora, menos frequentes, mas ainda o atormentavam. A imagem do corpo a flutuar no riacho, como uma boneca de trapos, materializava-se, frequentemente, nas suas memórias, desde o dia em que a encontrara.

   Levantou-se e tomou o pequeno-almoço, antes de se perder entre as flores do jardim e as verduras da horta. Havia que preparar as encomendas, pois logo começaria a chegar a freguesia. Deixara de ir à vila para poder dedicar mais tempo à edificação, abnegada, do seu santuário, mas os seus produtos eram frescos e a oferta não era muita, entre os habitantes, pelo que, as pessoas subiam até à ilha, para se abastecerem. Na realidade, muitas vinham impelidas por uma curiosidade mórbida, mas a azáfama fazia-lhe bem. Distraía-o dos sonhos maus e das alucinações constantes dos últimos meses.

   Por vezes, os sussurros tornavam-se insuportáveis e cuidar da terra ajudava-o a manter alguma serenidade. Isso e cuidar do tétrico relicário. Sabia que eram muitos os que o consideravam louco, mas não o incomodavam e ele também não. Desde que o deixassem sozinho com as suas lembranças e as suas bonecas.

   Nos dias mais curtos, notava-a mais inquieta. Os lamentos cresciam e um burburinho de vozes enfurecidas, em uníssono, ameaçavam enlouquecê-lo. As noites tornavam-se demasiado longas, os passos urgentes e desordeiros, ameaçadores. Tapava os ouvidos e entoava as suas preces, baixinho, mas, sabia que precisava de lhe acalmar o espírito, por isso, as recolhia e as usava como ornamentos que outros viam como macabros, mas não ele. Muitas vezes, mais recentemente, costurava-as ele, enchia-as de trapos velhos e dava-lhes forma, embalado pela recordação dos seus cabelos loiros e do corpo franzino de menina.

   O culto tornara-se parte reclamada da sua rotina e surtia efeito. Acalmava-o a ele, mas, sobretudo, apaziguava-a a ela. Não sabia bem quando iniciara, como iniciara, a inusitada jornada. Depois de começar a ouvi-las, seguramente. As vozes. E os passos miúdos e ansiosos, quando deambulava pelo bosque, sozinha, atordoada, pisando as folhas secas e murmurejando as canções de embalar que aprendera da mãe. Pressentir a voz da mãe sempre tivera o poder de a acalentar, como se nenhum mal pudesse medrar desde que fosse capaz de continuar a ouvi-la.

   Nesse dia, acabara de costurar outra linda boneca de trapos. Contemplou-a longamente, admirando a arte que fora aperfeiçoando ao longo do tempo. Era maravilhosa! Encantá-la-ia! Mais do que a última, menos do que a próxima. Assim se ia dando conta do aprimorar da sua obra, a cada etapa, pelo silêncio reparador que se seguia. As longas noites permaneceriam tranquilas durante algumas semanas, cessariam os passos e os murmúrios aflitos e incansáveis. E, desejosamente, deixaria, por algum tempo, de escutar a corrente apressada e caprichosa, implacável como uma tormenta.

   Sim, estava linda! Sabia, exactamente, onde colocá-la, mas, haveria tempo amanhã. Por ora, precisava de descansar e dispor prazerosamente do raro sossego da noite.

 

...

 

   A lua enchia o céu limpo, imenso, derramando a sua luz prateada como um manto de seda macia que escorria, indolente, pela paisagem adormecida.

   Viu-se a entrar na floresta, descalço e obediente, pois há muito que lhe pertencia. Percebia a urgência do seu apelo. Ele também estava muito cansado. Não tinha tanta pressa, mas rendera-se à agonia dela e consumira-se. Chegara a hora e sentia-se em paz.

   A corrente estava calma, desmaiada entre os seixos polidos como um amante saciado. Os pássaros chilreavam em notas aliviadas e harmoniosas, sem o habitual prenúncio de morte, que ironia! Talvez pudesse ficar; cuidando dos esquilos, voando com os colibris e admirando os pavões com as suas magníficas caudas garridas de penas aveludadas. Mas, não. Ela reclamava-o e ele pertencia-lhe desde o instante em que a descobrira, repousando nas águas frias do riacho, como uma eterna e adorável bela adormecida.

   Um calor doce e tranquilizador envolveu-o com deleite. Abandonou-se à volúpia da morte e permitiu-se repousar, por fim.

 

(Inspirado na lenda da ilha das bonecas, México)

 

publicado às 13:01

Monte Encantado

por naomedeemouvidos, em 25.07.18

Àquela hora, a atmosfera húmida esculpia as primeiras formas com a habilidade de um maestro regendo uma orquestra viva de cores que envolviam a ilha imortalizada nas inúmeras fotografias que já tinha admirado, muito antes de lá chegar.

A fraca luz solar animava as sombras fantasmagóricas que lambiam demoradamente as paredes da abadia. A maré tinha subido. Furtiva, insidiosa e matreira, cercara o monte, silenciosamente, acariciando-o como uma amante apaixonada e ardilosa e ele, imponente e quedo, sucumbira, uma vez mais, deixando-se arrebatar, resignado.

À sua frente, o rochedo erguia-se imponente e imperturbável, como uma barca sagrada, evocando o demónio que, séculos antes, assumira a forma de um dragão do mar para espalhar o terror e semear a desgraça entre as gentes pobres da região.

Na quietude da sua contemplação profunda, podia ouvir o ondular da Besta; as águas silvando impiedosamente, embalando o monstro na sua pérfida demanda de reinar sobre o seu castelo e tiranizar os seus vassalos, por toda a eternidade.

Fechou os olhos. As preces das velhas subiram de tom. Nas suas vestes andrajosas, vertiam lamúrias, maltrapilhas como elas, que, à força de lágrimas, espalhavam como uma praga por terras agora normandas.

Um clarão dourado e quente perturbou, brevemente, o seu êxtase. O Arcanjo Miguel emergiu das sombras desmaiadas, armado da sua espada redentora, chamado pela urgência aflita das rezas e subjugou o Mal, ordenando-lhe que retornasse às entranhas do mar e de lá não mais voltasse.

Os que assistiram à batalha imaginavam-se, de novo, confundidos pelo Diabo, enredados em mais uma das suas fétidas artimanhas. Demoraram a ceder ao pedido do Arcanjo de, naquele exacto monte, erguer um oratório em sua homenagem.

Sentiu, então, a pressão do dedo do Arcanjo contra a sua testa e abriu os olhos para contemplar a relíquia exposta na Basílica de Saint-Gervais d’Avranches. Afinal, verdade ou mentira, a viagem iniciara-se, apenas, e o encanto do lugar era, com toda a certeza, bem real…

publicado às 14:12

Somos prisioneiros e temos medo.

por naomedeemouvidos, em 15.09.17

As carrinhas dos carabinieri alinhavam com os impressionantes blindados militares. As metralhadoras suspensas dos ombros apontavam para o chão, mas os homens agarravam-nas firmemente em posição pronta a levantar e disparar. O aparato militar, muito maior que o policial, era brutal. Nas ruas, nas estações de metro, à porta de qualquer edifício governamental ou de interesse turístico, o que, naquela metrópole, significava, literalmente, em cada canto e recanto. Apenas aquela espécie de pompom que compunha o gorro vermelho dos militares fardados a rigor conferia alguma suavidade à hostilidade do cenário. Um adereço quase infantil num conjunto adverso, agressivo, oponente. Omnipresente.

A sensação de estarem em guerra atingiu-os mais violentamente do que nunca. Uma guerra silenciosa, na maioria das vezes. Uma guerra que, para eles, ainda aparecia apenas nos écrans de televisão ou nas páginas dos jornais. Uma guerra que ainda não os estropiara fisicamente nem lhes roubara nenhum ser querido; mas uma guerra de civilizações, um choque que já não cabia nas páginas do livro do Samuel, antes, irrompera pelas ruas e tomara-as de assalto. Tomara-os a todos de assalto.

O cenário deu forma à prisão das palavras para onde eles, os ocidentais, se foram deixando arrastar ao longo de anos. Esse politicamente correcto que os amputou da identidade e da riqueza da diferença, que os espoliou da paixão de discordar porque não! e concordar porque sim! e os obrigou a um permanente e insípido talvez, a bem de uma paz pálida, oca e chocha, esventrada de cores e de credos.

Que tontos se sentiram! A realidade ria-se deles, escarnecia, às gargalhadas. E, ali mesmo, sem compaixão nem piedade, roubou-lhes a ilusão da liberdade que julgavam ter e impôs-lhes o medo que gritavam não possuir.

publicado às 12:55

Cidade Viva

por naomedeemouvidos, em 19.07.17

A cidade, maravilhosa, repleta de vida e de História fascinara-os desde o primeiro instante, contrastando violentamente com a rudeza das gentes. O simples acto de validar um bilhete de eléctrico revelara-se uma tarefa algo complicada e, afinal, caricata, de tão rudimentar. E, a verdade, é que em Portugal, mesmo sem falar inglês ou outro qualquer idioma estranho ao seu, qualquer habitante local trataria de ajudar um turista em apuros. Mas não ali. Ali, pelo menos para eles e naquele verão em particular, os habitantes não primavam pela cordialidade; pelo contrário, eram rudes até na forma de vestir.

Estavam um pouco desencantados. Nunca antes haviam experimentado aquela hostilidade que os fazia sentir verdadeiramente “estrangeiros” e, sobretudo, “mal-vindos”.

Desceram apressadamente do eléctrico, entre risos um pouco nervosos, tentando afugentar um princípio de mau humor que os assaltara momentaneamente.

Passear pelas ruas antigas era esmagador! A Praça da Cidade Velha, com o seu relógio medieval e o seu irreal desfile dos doze apóstolos. Subir à Torre do Relógio e abraçar a História enegrecida como a icónica torre gótica onde a pólvora fora, em tempos, armazenada, valendo-lhe o nome de Torre da Pólvora. O encanto da cidade contrastando violentamente com a rudeza das gentes.

Apesar do calor, uma neblina espessa, ainda alta, e cinzenta começava a cobrir a cidade. Como um manto, descia sobre as magníficas estátuas da ponte Carlos, que ganhavam vida voltando-se lentamente para eles enquanto caminhavam, deslumbrados, pelo empedrado duro e alinhado. À luz fantasmagórica do fim de tarde, o próprio Cristo cruxificado parecia expiar uma vez mais os pecados dos Homens, no auge da paixão que lhe tingia a face de vermelho vivo. As outras estátuas, miravam-nos com a complacência empedernida dos séculos de adoração. Trinta esculturas vivas que a força do rio ameaçava roubar para si, chicoteando, louco de ciúmes, os arcos de arenito enterrados no Vltava. E elas, resignadas, ora adoradas, ora adorando, confundiam-se com os transeuntes, curvavam-se à sua passagem numa coreografia encantada e lenta que os inebriava.

Apressaram o passo a caminho do cemitério judeu. Apesar de a noite ainda tardar um pouco, a névoa ameaçava engoli-los vorazmente e, na verdade, preferiam não visitar os mortos a coberto da escuridão que se avizinhava.

Os túmulos amontoavam-se, desalinhados, acotovelando-se desordenamente por entre a vegetação, também ela caótica. Os raios de sol teimavam, ainda, em espreitar pelas densas nuvens, como crianças travessas, ora criando fantásticas sombras em cada recanto, ora pintando de tons maravilhosos as folhas caídas no chão.

Um esquilo atrevido atravessou-se-lhes no caminho, vindo não se sabe de onde, provocando-lhes um sobressalto.

O silêncio imperava à medida que caminhavam por entre as lápides. Impunha-se, tirânico, alarmando-os a cada restolhar das folhas, a cada trinar dos pássaros. Como se “A Metamorfose”, de Kafka, pudesse elevar-se do seu próprio túmulo, tomar forma e aprisioná-los entre as suas páginas. E, arrebatados pelo silêncio dos mortos, sentiam-se, eles próprios, personagens numa história encantada…

publicado às 22:10

Cavaleiros na Noite

por naomedeemouvidos, em 14.07.17

 

Mantinham-se em silêncio evitando dar forma a um prenúncio de medo que ameaçava apoderar-se deles. Se calhar, a emoção da experiência de fazer uma pequena incursão na medina, à noite, ainda que acompanhados por um guia, não tinha sido assim tão boa ideia. E que guia! Montado numa pequena motoreta, aparentemente tudo menos segura, colara-se ao automóvel assim que entraram na cidade e nunca mais os largara. Acompanhara-os até à porta do hotel e pensaram que aí os deixaria com um simples “obrigado”, mas o rapaz estava determinado a tirar algum proveito daquela pequena viagem e daqueles quatro turistas. A prática, aliás, era comum e familiar a qualquer um ocupantes da viatura: quando um carro de matrícula estrangeira entrava numa qualquer das principais cidades turísticas quase instantaneamente, como se brotassem das pedras, motociclo e motociclista materializam-se dando início à perseguição amigável mas implacável. Ainda assim, ficaram perplexos quando, umas boas duas horas depois, desceram com o intuito de conhecer a cidade e viram que o rapaz os esperava com um sorriso de orelha a orelha. Foi nessa altura, mas não antes da característica saudação, que lhes perguntou:

- As-Salaam-Alaikum! Querem fazer uma visita à Medina?

- Wa-Alaikum-Salaam! Agora? É noite e está tudo fechado!

- À noite, a medina tem outro encanto…

 

Agora, calcorreando as ruas (se assim poderiam chamar-se) estreitas da tão labiríntica quanto arrebatadora medina, percorría-os um electrizante misto de excitação, ansiedade e fascínio. O quadro que se lhes apresentava toldava-lhes os sentidos, embriagava-os, era um cenário avassalador! As ruelas desertas enfeitavam-se com as suas portadas de madeiras; algumas imponentes, outras humildes, todas e cada uma delas ocultando os seus encantadores e místicos segredos. Que magníficas histórias teriam agora para contar, sem os seus tapetes coloridos, sem a orgia de odores das excêntricas especiarias, sem o vai-e-vem dos homens precocemente envelhecidos que, de dia, hão-de mergulhar até à cintura nos tanques cheios de cal fumegante e tinta no frenesim da cor e do cheiro dilacerante do curtume?

As infinitas ruas sem os seus burros de carga, da carga que é preciso transportar todos os dias e os automóveis não servem, não cabem e ainda bem que não cabem, pois despojariam de todo o encanto e sedução este misterioso oásis impenetrável e secreto, onde o tempo deixa de contar.

Algumas das ruas engoliam-nos na sua imensa escuridão; noutras, um ténue luar teimava em recortar-lhes a silhueta apontada no chão, enquanto o bater ritmado dos seus corações se confundia com o bater ritmado dos seus passos nas desconcertantemente harmoniosas pedras do caminho. 

Perderam-se de amores pelas fontes adornadas de azulejos de que apenas adivinhavam, àquela hora, o contraste das cores e, no entanto, tal era suficiente para lhes arrebatar a alma. E quando a fachada da principal madrassa se levantou diante deles, ouviram o murmúrio das pedras, o murmúrio das preces e, subitamente, foi como se todo o ar que lhes enchia o peito corresse ao encontro daquele sussurro e os sufocasse no êxtase da contemplação.

O esforço de se manterem alerta, de absorver a singularidade daquela noite, de agarrar a magia daquele momento, tornou-se físico e os quatro corações, não batiam, explodiam a compasso, afinados, alinhados numa sinfonia quase metálica. Os sons cresceram, incorporaram-se, ganharam forma e vida e ameaçaram levar-lhes o resto de lucidez a que ainda se agarravam. E foi então que os viram. Ao cimo da rua emparedada por duas grandiosas portas de madeira que a luz ocre de um pequeno e improvisado candeeiro lambia timidamente, surgiram como fantasmas em todo o seu esplendor. O majestoso cavaleiro cujo imponente turbante azul esculpia a esquadro o belo rosto moreno no seu porte sumptuoso. E o animal soberbo, árabe, negro como a noite que os enfeitiçara. O pêlo do cavalo era uma tela surpreendentemente brilhante de seda fina através da qual se via pulsar o sangue, pulsava a alma na ousadia da cavalgada. Cavalo e Cavaleiro eram um só, unidos na elegância esmagadora de um instante tão curto quanto um sopro. Tão inesperadamente como haviam chegado, partiram deixando-os por momentos na inevitabilidade da dúvida. Teria sido real?

 

- À noite, a medina tem outro encanto… Abdullah!

publicado às 23:14

Amphitheatrum Flavium

por naomedeemouvidos, em 14.07.17

Enquanto subia as escadas sentia as gotas se suor correrem por entre os seus seios. Agarrava o guia electrónico como se este tivesse pernas e, animado de vida própria, lhe pudesse escapar à primeira distracção. O esforço despropositado fizera-a cravar as unhas nas palmas das mãos, o que agora lhe proporcionava um desagrável ardor intermitente a lembrar-lhe a idiotice do acto. Não conseguia explicar o nervosismo que sentia ao caminhar por entre aquelas paredes, apesar de consciente de que sempre sentira um fascinío algo mórbido por aquela época da história. Na sua mente, num acesso de infantilidade romântica, mulheres de vestes andrajosas transformavam-se em elegantes deusas de pele leitosa que os mantos abraçavam numa carícia amorosa. E homens bexiguentos, atarrecados, gordos e fedorentos como porcos depressa se transfiguravam em arrojados gladiadores em busca de glória, suportando estoicamente o peso das suas esplêndidas armaduras.

Continuou a caminhada. Candeeiros, de vidro e negro, vertiam sobre as escadas de pedra uma luz amarelada que tornava o ambiente um pouco fantasmagórico, apesar do corropio de gente que àquela hora se afadigava na mesma rotina.

  A subida despejou-a, subitamente, no patamar imediatamente acima da arena. As pernas tremiam-lhe, traíram-na, sentiu-se rodopiar numa longa vertigem e uma violenta náusea atingiu-a em cheio no estômago obrigando-a a curvar-se abruptamente. Invadia-a uma estranha sensação, a boca picava-lhe como se prenha de espinhos afiados e sentia um cheiro nauseabundo que parecia despontar do seu próprio hálito. Sem pudor e sem aviso, o imponente e intemporal colosso parecia cuspir sobre ela toda a barbárie que fora obrigado a aclamar ao longo dos séculos. Podia jurar que o ouvia gemer em agonia.

A custo, endireitou-se. O calor insuportável, era verdade, toldava-lhe a vista e agoniava-a um pouco, mas não conseguia libertar-se de um presságio avassalador. Observou a multidão ávida de sangue e circo encher o anfiteatro obedecendo à sua condição: o “podium” dos opulentos e privilegiados nobres, onde não faltava a tribuna imperial; os “maeniana”, primeiro, da classe média abastada, acomodada nos seus assentos de mármore branco, depois, dos soldados, dos casados e outras classes; e os mais miseráveis dos pobres e as mulheres, renegados, atirados para o "maenianum summum in ligneis", longe da gloriosa arena. A arena! Imponente, estendia-se languidamente e ardilosa como uma meretriz. Era o palco de todo o horror que a assolava, a personificação do mal que se abatera sobre os seus ombros despojando-a da razão. A “harenam” tingida de vermelho, manchada de sangue, suor e insânia, maior a dos homens do que a das feras.

Sobressaltou-a um ruído metálico quando o elevador rudimentar iniciou a subida e os dois magníficos animais emergiram do subsolo. Os rugidos enrouquecidos aumentaram de tom quando a jaula se abriu e as bestas se libertaram, possantes, em toda a grandeza e esplendor da sua fúria ameaçadora. Ficou suspensa da elegância dos arqueiros habilmente treinados para suster os ímpetos selvagens das feras e preservar a vaidade dos nobres e foi então, só então, que sentiu o chão fugir-lhe na vertigem que a acossava desde cedo. Fechou os olhos, deixou que as lágrimas quentes a lavassem do terror que a tomara de assalto até se deixar acariciar novamente pelo inclemente sol de Agosto.

publicado às 22:58


“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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