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Expiação

por naomedeemouvidos, em 01.05.20

Vejo o sol beijar o manto de água quieto e liso como uma folha delicada.

Não chega a ser um beijo. Antes, um sopro, quente e suave, meigo como um mordisco que desassossega, agora, o dorso dourado do mar e o faz vibrar em reflexos vivos.

É tão fácil esgotar-me naquela linha infinita do horizonte, perfeita, que corre atrás das nuvens bordadas a seda macia e alva. E há um assombro de pecado em pensar-te. Na sombra da névoa que endurece, lá fora, que exalta os meus sentidos para além da razão.

 

Ao longe, o mar continua a sobressaltar-se, a pulsos dourados, com a doçura inquieta da despedida.

publicado às 00:21

Insurreição

por naomedeemouvidos, em 20.12.19

As montanhas escarpadas de granito impõem uma sensação de abismo iminente. Constantemente. A cor rosa pálido da pedra aquecida pelo sol anima um teatro de vultos endiabrados, que se escapam e reaparecem ao sabor das curvas estreitas. De um lado, a insolência das rochas que se deitam sem aviso sobre o caminho. Do outro, o precipício despido, selvagem, provocando os meus sentidos atentos aos caprichos da estrada.

Entre duas paredes de pedra erguidas pelo punho implacável do tempo, abre-se uma janela para o mar azul turquesa, intenso, ao fundo, intranquilo sob o manto de nuvens branco cinza, escassas ainda, porém, alvoroçadas pelo vento imprevisto que faz gemer a rocha lascada num coro de penas; numa expiação. A estrada passa por aí, exactamente a meio, entre falésias sinuosas e afiadas, surpreendentemente rosáceas, criando a ilusão de se prolongar na água, até o quadro se desvanecer, apenas para emergir, mais perfeito ainda, na curva seguinte.

 

Há algum tempo que tenho um carro colado à traseira do meu. Percebo que o condutor conhece bem a estrada, ao contrário de mim, recém-chegada, forasteira e ao volante de um carro alugado. Tem pressa, mas é difícil ultrapassar, a menos que eu lhe dê passagem. As curvas e contracurvas apertadas sucedem-se numa espiral alucinante, o jogo de luz e sombras impõe maior prudência, e as rochas que brotam, sem cuidado nem decoro, das paredes altas dos penhascos imponentes inibem tentações mal calculadas.

 

O trilho maciço, esguelhado, o tom corado da pedra afogada na luz travessa do sol, o abismo cru, indomável, e a ladainha seca da montanha à mercê do vento que a toca à sua vontade, mantêm-me viva, totalmente alerta; refém da deslumbrante paisagem da ilha, também. Ao sabor da rota, as cores sofrem transmutações irreais, adensadas em matizes fortes, o azul, o verde, o dourado, em abraços impossíveis e padrões compactos que “entram por mim dentro”, e aí permanecem; não permito que passem para “o outro lado da minha alma”, com medo do que possa perder.

 

Acabo por deixá-lo passar num troço mais generoso do caminho. Ao condutor apressado. Posso deixar-me guiar pela sua destreza e evidente cumplicidade com as impertinências do percurso. É, sem dúvida, um local. A estrada obedece-lhe. E eu a ele, também.

Dizem que é uma estrada para se percorrer de mota. Mas nunca aprendi a conduzi-las com a competência e habilidade que merecem.

publicado às 11:29

Estranhezas

por naomedeemouvidos, em 12.12.19

 

Choveu. Há um cheiro intenso a terra fértil e a musgo verde. Coada pelos ramos altos e quase despidos das árvores, a luz morna da manhã estica-se, apressada, sobre o chão húmido, exaltando as cores de Outono em pulsos desordenados, como o bater de um coração antecipando a tempestade.

No tronco da árvore maior, não muito acima do solo, há uma cavidade aberta, semi-oculta, inundada a diferentes tempos pela luz que lá chega ao sabor do andamento das nuvens carregadas ainda. Mesmo aí, à entrada, uma pequena aranha de ventre ovalado e negro encontrou algum abrigo enquanto tece a sua teia de seda, ardilosa, uma artesã paciente e escrupulosa numa azáfama encantada, movendo as patas muito finas, um maestro guiando uma orquestra a movimentos precisos, subindo e descendo, soltando melodias silenciosas magistralmente materializadas numa renda delicada e enganadoramente frágil, um leito fatal aguardando a primeira presa.

Suspenso na parte já esculpida da teia, há um fio fino de gotinhas cristalinas de água harmoniosamente alinhadas como as contas de um colar.

Tenho tempo. Fico a vê-la montar o seu ardil. Paciente como ela.

 

publicado às 21:37

Inquietude.

por naomedeemouvidos, em 03.12.19

Talvez não tenha sido um acaso, lembrar-me do homem do café. Aquele que dava vida aos restos negros, aguados, que ficavam no fundo, no fim daquele primeiro momento de prazer. Findo aquele instante, breve para quem olhava sem ver nada, deitava a chávena sobre o pires, inclinando-a com a delicadeza firme e apaixonada que guia a mão dos artistas. Com um pincel fino, muito fino, despia com amorosa minúcia o acidental excesso tombado no corpo branco da pequena chávena de louça e desenhava, num caderno de argolas, o que os seus olhos admiravelmente anteviam naqueles restos de café espesso, inerte e frio ainda há pouco, vivo agora, torrencial, enchendo de desejos encarnados as páginas brancas e lisas do bloco.

 

Ele sabia que eu o observava. Em silêncio inquieto. Pasmada diante daquela imensidão de mundo que cabia e, porém, vazava do caderno de argolas.

 

Embalada por recordações antigas, descobri-me a rever fotografias de outros tempos. Das que revelava, ainda, antecipando essa mesma ansiedade inquieta do desconhecido. Consumida de vontades inadiáveis, sim, mas sem a insipiência precisa do rigor digital de agora.

Organizava-as em álbuns. As fotografias. Inventários de capa dura e páginas decoradas com bolsinhas de plástico sobranceiras às linhas rectas onde vertia, deslumbrada, o meu encantamento pelos dias passados.

Voltei a passar as mãos pelas folhas. Senti o cheiro das memórias. Deixei-me tomar pelos encantos que imortalizei a cada época, a cada página, em frases simples, tão simples, de uma ingenuidade tão completa e eloquente que quase me desconheço. Ou talvez não. Talvez me reencontre, apenas, entre essas recordações. “Pareces una niña, es que te encanta todo!”.

E encantava-me. Encanta-me, ainda, não sendo já tão menina. As rugas dos rostos que se cruzam comigo, e os sulcos da terra que me sustenta e me embala. Sem pressa. O sussurro das vozes carregadas pela brisa ansiosa e meiga, a que ofereço a face, rendida, para que me mime e me acalente. As montanhas soberbas, escarpadas, arrogantes como a vida que se vive sem amarras, ao sabor dessa gente que descobrimos sem querer e sem pedir; e sem pedir nem querer nos preenche os sentidos com a mesma avidez sem aviso que recordo quando rio. Quando choro. Vou procurando o equilíbrio no tempo que roubo para mim, resgatada entre os instantes em que me ouço. Como ouço as preces dos pássaros. E a sofreguidão do vento, rouco, que me agarra e me confunde, que me sopra ao ouvido segredos que não ouso descobrir.

Li e reli, vezes sem conta, perdendo-me, encontrando-me, absorvendo cada palavra como o ar que me falta por momentos.

 

Recordei rostos queridos, passados, que a Morte apressada nos seus insondáveis caprichos resolveu levar sem aviso nem demora. E dou por mim a pensar, tonta, que o homem do café talvez desenhasse para mim. Às vezes. Perturbando o meu sossego, sem que o pudesse imaginar.

publicado às 19:40

Um dia como outro qualquer.

por naomedeemouvidos, em 30.10.19
É um dia como outro qualquer. Chove. O que não acontece todos os dias, é certo, mas não é extraordinário nesta época do ano. Gotas de chuva volumosas e cristalinas, perfeitas na sua forma, escorrem lentamente pelo vidro liso e frio, em atropelos desalinhados quando se cruzam os trilhos em que se desvelam. 

Não está frio, mas há gente afogada em gabardinas, e lenços, e guarda-chuvas vorazes, gravemente abespinhadas com a humidade do ar, com a desfaçatez do tempo, como se daí, e daí só, resultasse o mofo sombrio em que embebedam as suas vidas perfeitas e aprumadas, tão perfeitas e aprumadas quanto vazias, sem margem para imprevistos quezilentos da natureza, de natureza alguma.

Do outro lado do vidro, o mar vai e vem, desassombrado, alheio a enfados mundados, murmurando ladainhas acordadas e meigas, mornas, que crescem e morrem sob a batuta branca e espumosa das ondas que se esvaziam em paz na areia dourada da praia, numa ávida luxúria entretanto saciada.   

É um dia como outro qualquer. Entre as gotas da chuva suspendo memórias, e risos, e lágrimas, e tempos perfeitos e imperfeitos, como notas numa pauta, como acordes de música, sem medo de errar e cheia de dúvidas, sem mancha de remorsos e cheia de medos, numa harmonia mais-que-perfeita, alheia às amarras dessa felicidade absoluta com que pretendem corromper-me, tolher-me o desassossego de viver em constante sobressalto. Como se viver plenamente se pudesse de outro modo.

publicado às 11:30

Outubros.

(com alguns dias de atraso...)

por naomedeemouvidos, em 30.10.19

A casa começa a aquecer-se em Outubro. Com lenha trazida do coração das fazendas que ainda resistem ao amanho laborioso da terra, à mercê das mãos quase despidas, à força dos braços velhos, teimosos, que escapam do tempo e se entregam à vontade dos dias que sobram.

É imprescindível que se comece em Outubro. A casa é grande, talhada de pedra, de suor, de risos e lágrimas, assente em memórias dos despojos de outros tempos, de outras vidas, em tábuas e aços de caminhos-de-ferro perdidos, desconhecidos da gente nova e miúda, não fossem as histórias aquecidas à lareira, em molduras de mármores maciços de igrejas velhas, escassas no divino e devido culto. Começa-se em Outubro, porque, até no Verão, o fresco do santuário pode ser inquieto e rude sem o aconchego de um xaile sobre as costas vergadas.

Em dias de maior labuta, há que dar lume também ao forno de lenha da serventia, lá fora, onde o vento rodopia embalado pelas folhas secas, em frufrus suaves como num vestido de gala. Cozem-se broas de milho recheadas de farrapos de bacalhau demolhado ou tiras finas de presunto pouco seco, consoante a ordem e a dimensão do pecado.

O forno range e estala reclamando a massa generosa, benzida numa cruz para remissão de males em que já ninguém acredita, mas ninguém quer renegar. Quando as entranhas devolverem o pão quente e estaladiço, o milho amarelo e guloso cozido entre silvos caprichosos e aromas hereges, será tempo de saciar a alma até ao Outubro seguinte.

publicado às 09:14

Turistas.

por naomedeemouvidos, em 10.10.19

O barco desliza tranquilo sobre o leito de água manso e morno de final de tarde. O Sol desmaia no horizonte, afagando o dorso púrpura do mar estreito, soprando reflexos metálicos, de ouro e prata, que devolvem um brilho leitoso, a contraluz, salpicado de borbotos salgados e crus onde as gaivotas mergulham em voos planados, à espreita, à espera, enquanto o céu se incendeia esgalhado em fúrias policromáticas, uma imensa tela impressionista, viva, volátil, que se tece e se desmancha como as malhas finas de um croché rico e inacabado. Ao fundo, nuvens coradas a vermelho-laranja, densas, insurretas como a lava dilacerante acabada cuspir do ventre caprichoso da terra, irrompem em estampidos mudos, preenchendo o céu na linha submissa do ocaso.

 

Para trás, ficou o esfrangalhado tumulto da outra parte da cidade. A que desagua, miserável, no outro continente, longe da ousadia cosmopolita e moderadamente europeia. E, enquanto regresso ao caos mais organizado e desesperadamente consentido, guardo a memória da beira-mar desordenada, prenhe de cadeiras de plástico, outrora branco, onde se amontoam vidas cheias e simples, num marasmo vulgar de fim-de-tarde. Há famílias inteiras que se passeiam em burburinhos compassados, enchendo o passeio e os bancos improvisados, os mais pequenos comendo gelados e algodão doce azul, os graúdos escorropichando, incautos, cascas de mexilhão recheadas de arroz pastoso servidas em doses manhosas que circulam de mesa em mesa, descontadas que são e foram as que serviram para saciar a fome ou, apenas, uma curiosidade afoita e descuidada.

 

As gaivotas prosseguem na sua escolta elegante e inusitada. Há uma mulher sozinha, decentemente tapada, como ditam os costumes locais. Entretém-se a ler um livro cujas margens vai adornando de rabiscos confusos, e faço um esforço descarado para tentar perceber se, o livro, também o dita os costumes, ou, pelo contrário, é um acto de rebeldia mais consciente e pleno do que a melena de cabelo preto que teima em escapar-se-lhe do aprumo decoroso do véu.

 

O barco acaba de recolher os passageiros da última paragem. Na minha frente, sentam-se um casal absurdamente jovem com uma bebé de colo e uma velha muito velha que não consegue desviar os olhos de mim, nada mais acomodar-se. Não percebo o que diz, mas, percebo que faz a viagem sozinha, provavelmente, de regresso a casa. Reparo que fala com casal, mas, tenho a certeza de que lhe são estranhos.

Há já algum tempo que se levantou uma aragem fria, e vejo como aconselha a mãe a tapar a cabeça da criança. Há hábitos maiores em si mesmos. Continua a olhar para mim, e começa a inquietar-me. Não percebo o que diz, e essa manifesta incapacidade irrita-me, incomoda-me. Segreda qualquer coisa à rapariga, sem despegar-me a vista de cima e percebo, abruptamente, a palavra turista, no meio da salgalhada àspera em que se distraem. Quando, subitamente, se decide a interpelar-me já sei o que me vai perguntar ainda antes de a ouvir, pela segunda vez. Aceno um sim desajeitado e, agora, tenho absoluta certeza de que a ouço dizer à rapariga: viu, eu disse; turistas!

publicado às 11:53

Alguns dias, e algumas mortes.

por naomedeemouvidos, em 19.07.19

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Caminho sozinha e distraída pelas ruas estreitas do mercado. Terminei as poucas compras que não programei e tenho um tempo sem pressa, inútil, que posso desperdiçar a senti-lo correr, devagar, como eu. Não há muita gente, e o sol aquece sem sufocar, desenhando sombras traquinas que se esquivam à minha passagem para logo assomarem, adiante, em negro baço, sobre os umbrais das portas de madeira soberbamente esculpidas que se abrem para lojas de maravilhas amontoadas, de tesouros multicolores, como as cavernas de salteadores dos meus contos de criança. Um homem que nunca vi saúda-me e pergunta-me pelo meu marido. Sabe o seu nome e onde trabalha, e deseja-me um bom dia, que retribuo com um sorriso forçado, num espanto resignado. Passo pela velha sem idade, de chapéu de palha com tranças pretas de lã e a longa saia vermelha de finas riscas brancas, sentada no fundo da escada com a trouxa aberta, espalhada no chão, cheia de verduras mais frescas do que ela, os rabanetes em carne viva, os alhos duros e roxos, a salsa, os coentros verdes da esperança que se lhe escapa a cada dia. Sorri-me, desdentada. Acabo por comprar mais qualquer coisa. Há sempre mais qualquer coisa. Hei-de cruzar-me com algum menino descalço que se voluntariará para me transportar a pouca carga que carrego, a troco de uma compensação miserável; pelo menos, a mãe - ou uma irmã pouco maior que ele - terá com que preparar algo a que possam chamar uma refeição.

Uma algazarra miúda, a princípio, aproxima-se, arrastando um emaranhado de gente que brota, aos tropeções, de outras ruelas ainda mais estreitas. Reconheço os gritos estridentes, à laia de cântico tribal e agudo que afunila em sintonia com a multidão alvoroçada antevendo a desgraça. Encolho-me para deixar passar sem que me arrastem na sua pressa apocalíptica. Os gritos soam mais e mais alto, um frenesim atarantado, e atento ao fundo da viela, para onde todos correm numa aflição que me agonia. Num assombro, esperado por outros, um grupo de homens envergando túnicas brancas, imaculadas, irrompe por entre a mole de gente, sustendo uma liteira enfezada que mais parece levitar como um tapete voador sobre as suas cabeças. Num andor macabro, um corpo jaz como uma múmia, envolto num lençol alvo como uma nuvem de algodão-doce. A multidão atabalhoada, numa ordem que só a eles diz respeito, abraça a padiola fúnebre mais os seus gatos-pingados e parte sem nunca parar, em debandada, com o coro de gritos em música de fundo.

Preciso de um momento para me encontrar. Confundo o número de ruelas à direita e à esquerda, e ainda não me oriento bem na malha labiríntica da medina. Subitamente, os sacos pesam-me em penitência e sinto as unhas cravadas na palma da mão. Um menino puxa-me os sacos e pergunta se preciso de ajuda. Por uma vez, deixo que, antes de ir-se, me acompanhe até ao arco de pedra, à entrada, onde o sol me apazigua.

publicado às 15:36

Ouvir a Terra.

por naomedeemouvidos, em 10.07.19

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Ainda há sítios assim. Encantados. Onde se pode ouvir a água a correr, inquieta, o restolhar das folhas, o coaxar das rãs, descarado, em perfeita harmonia com o murmúrio solto e cristalino das pequenas cascatas que encantam o parque. Num dia perfeito, a Terra não dá pela nossa presença, esquece-nos por momentos. E, então, podemos cobiçá-la, com pudor, em enlevado assombro, sufocando o espanto, num esfoço de preservar o que ainda lhe resta de sagrado.

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publicado às 23:15

Casario.

por naomedeemouvidos, em 16.06.19

Não é nada como a outra ilha vistosa e chique que todos os guias de viagem recomendam, apesar de as duas não estarem assim tão afastadas; geograficamente falando, claro. Na realidade, são três as que enfeitam o conhecido Golfo. Mas, desta, diz-se que é um segredo bem guardado. E colorido. Colorido e quente, como a soberba palete de um apaixonado artista, onde a miscelânea atrevida de cores começa a ganhar forma, de mansinho, à medida que os barcos se aproximam do pequeno cais. Já, antes, tinha sido bastante complicado encontrar o porto de onde partem muitos desses barcos, que aguardam, sobretudo, os habitantes locais, por entre a estafa animada da azáfama rotineira. Os turistas, esses costumam rumar a outros destinos mais populares, à ilha exuberante e caprichosa, delicada mas não tanto sob o sol de Agosto, prenhe de viajantes ansiosos, sequiosos, irrequietos na busca estéril e apressada de souvenirs.

Esta, não. Esta é lenta como uma memória antiga, forjada na alma do poeta e da sua amada de tranças negras como a areia vulcânica da praia graciosa, onde o sol se põe mais cedo tingindo de verde esmeralda as águas calmas e cristalinas.

As vielas estreitas erguem-se, magníficas, assomando à varanda primorosa, arrojada, de respiração suspensa sobre o belo casario, tão belo como o da minha infância, namoriscando o mar imenso que, ora vem, ora vai, embalando suavemente as pequenas embarcações, agora mesmo, ociosas e benevolentes.

Por ali se perderam, por ali se encontraram, primeiro, o carteiro e outro poeta, depois, o jogador de raros talentos, impostor e endiabrado, uns e outros seduzidos pela beleza calma e ensolarada da ilha da jovem Graziella, a filha do pescador por quem se encantou, perdidamente, um também jovem escritor francês.

 

Vale a pena conhecê-la.

 

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publicado às 17:42


“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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