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A menina botão de rosa

por naomedeemouvidos, em 11.07.18

– Mamã, contas-me uma história?

– Claro, meu amor. Foi há muito, muito tempo…

 

“Havia, numa floresta, uma enorme casa onde vivia um casal de ricos mercadores. Marido e mulher eram muito amigos e, além disso, muito trabalhadores pelo que possuíam uma enorme fortuna. Mas também eram humildes e honestos e tinham conquistado o respeito dos seus amigos e de todos os habitantes das aldeias em redor.

No entanto, uma nuvem de tristeza teimava em manchar tal quadro de felicidade. O casal de mercadores não tinha filhos. Todas as noites, quando se recolhiam ao calor do seu quarto, confortável e ricamente decorado, era ouvir as suas lamentações. Se ao menos tivessem um filho… trocariam, até, toda a sua imensa fortuna se com isso pudessem experimentar a enorme alegria de terem uma criança a quem amar e que os amasse como pais. Nada lhes traria maior felicidade.

Na floresta, e pelos reinos vizinhos, todos conheciam a dor do casal de mercadores. Não havia quem não se condoesse da sua pouca sorte. Tão ricos, tão companheiros um do outro, tão amigos dos seus amigos, enfim, tudo para terem uma vida perfeita e aquela vontade tremenda de terem um filho que teimava em não chegar.

Um dia, passou pela floresta um mendigo faminto e maltrapilho que, ao ver a magnífica casa do casal de mercadores, resolveu tentar a sua sorte e bater à porta. Talvez fossem gente de bem e lhe dessem um caldo quentinho e uma côdea de pão. Bateu à porta e esperou, o coração apertado não fossem aqueles ricos senhores escorraça-lo à vassourada. Mas claro que isso não aconteceu, pois, como já sabemos, o homem e a mulher que ali viviam eram duas pessoas excelentes. Perceberam imediatamente que aquele mendigo mais não era do que um bom homem a quem a vida tinha pregado uma feia partida, pelo que o acolheram. Serviram-lhe um faustoso jantar, vestiram-no e calçaram-no com tudo o que tinham de melhor e convidaram-no a passar ali a noite, ao que o homem acedeu de bom grado. Decidiu-se, então, que partiria apenas pela manhã, depois de um sono reparador e de um belo pequeno-almoço.

Durante o serão, no aconchego do majestoso salão aquecido por uma grande e bela lareira, ficou o mendigo a conhecer a triste sina daquele amável e rico casal de mercadores. Lembrou-se, então, o pobre homem, de uma lenda que tinha ouvido há muitos anos atrás, ainda era ele uma criança que brincava com outras crianças e vivia com os seus pais.

– Que lenda era, mamã?

– Vou contar-te, meu querido.

 

“Contou, então, o mendigo àquele casal de mercadores que há muito, muito tempo atrás tinha ouvido falar de um jardim encantado onde só nasciam rosas; rosas de todas as cores, das mais belas e perfumadas que alguma vez se haviam visto. No tal jardim, havia um único botão de rosa que nunca desabrochava e em cujo interior vivia uma linda menina. Reza a lenda que a menina ficara órfã e tinha sido encantada pela sua fada-madrinha, que ali a colocara para a proteger de outras amarguras da vida, até lhe encontrar uns pais amorosos que se fizessem cargo da sua educação.

            A mulher do mercador sentiu o seu coração saltar do peito, tal o estado de excitação em que ficou. Se conseguissem encontrar aquele jardim encantado, poderiam resgatar a menina e cuidá-la como de uma filha! Quis logo saber onde ficava o jardim. Porém, esse parecia ser o grande problema. Ninguém sabia onde ficava o jardim. Já muitos outros casais desesperados o tinham tentado encontrar e todos haviam desistido da sua busca, sem nunca encontrar tal jardim ou tal menina. Havia, até, quem dissesse que toda aquela história não passava disso mesmo: uma história sem qualquer ponta de verdade.

            Mas o casal de mercadores não quis ouvir mais nada. Venderiam tudo o que não fosse essencial, trocariam a sua bela casa por outra mais humilde, juntariam todo o seu dinheiro, escolheriam a melhor e mais robusta carroça e os seus melhores cavalos, e partiriam o mais rápido possível em busca dessa tão desejada menina.

            Na manhã seguinte, partiu o mendigo e, passados poucos dias, partiu o casal de mercadores na sua fantástica cruzada.

            Muitos anos foram passando. O casal de mercadores tinha gasto todo o seu dinheiro na busca da menina encantada. Tinham vendido a carroça, os cavalos, as melhores roupas, os melhores sapatos, as jóias. Já não tinham o que comer e há muito que se alimentavam de bagas e pequenas folhas. Começavam a sentir o peso do desespero e a pensar que, se calhar, tudo tinha sido, de facto uma grande história daquele mendigo e não existia jardim, coisa nenhuma! A mulher chorava copiosamente, não pelo dinheiro perdido, mas porque perdia, mais uma vez, essa tão querida esperança de ser mãe.

            Sentindo-se exaustos e já sem saber muito bem que rumo tomar- pois parecia que já tinham dado a volta ao mundo dez vezes- marido e mulher abraçaram-se, tremendo de frio, mais parecendo eles, agora, mendigos, as roupas esfrangalhadas, os pés descalços e magoados e rezaram para, pelo menos, terem forças para voltar à humilde casinha que tinham deixado para trás.

Acomodavam-se como podiam no chão frio e húmido de um pequeno jardim que parecia tê-los apanhado no caminho, quando começaram a sentir um leve perfume adocicado a flores. Rosas? Seriam rosas? Sentiram-se exultar de alegria! Eram rosas! Não era o cheiro de uma flor qualquer! Cheirava a rosas! Levantaram-se apalermados e viram, estupefactos, como rosas de todas as cores se abriam mesmo à sua volta, libertando um intenso e maravilhoso odor que os confundia ainda mais. De súbdito, fixaram ambos o olhar num ponto mais distante. Viram uma luz brilhante e um vulto que se materializava um pouco acima do que parecia ser um botão de rosa.

 

– Era a menina, mamã?

– Era, sim, meu amor, e, por cima, a fada-madrinha zelando por ela.

– E o que aconteceu depois, mamã?

– Vou contar-te, meu querido.

 

“Quando o casal de mercadores se aproximou do único botão de rosa que não desabrochara, encontraram a fada. Esta disse-lhes ter esperado por eles, e só por eles todos aqueles anos. Sabia que apenas alguém tão desprovido de riquezas materiais, alguém que não se importasse de abdicar de todos os bens supérfluos, para encontrar algo tão precioso como uma criança, só alguém assim, disse-lhes a fada, poderia ter o direito a educar aquela menina como se fosse sua filha.

Quando a fada terminou de falar, tocou ao de leve no botão de rosa que, imediatamente se abriu, mostrando uma bela menina de faces rosadas e pele tão macia e branca que se confundia, ela própria, com as rosas do jardim. A mulher do mercador tomou-a nos seus braços, chorando de felicidade. Preparava-se para agradecer à fada, mas esta já tinha desaparecido e o casal de mercadores, mais a sua tão desejada filhinha, encontrava-se, agora, como por artes mágicas, na sua floresta junto à humilde casinha que tinham deixado para trás.

À medida que os anos foram passando, a menina foi crescendo feliz junto dos seus queridos pais, que, entretanto, fruto do seu trabalho e do seu bom coração, haviam recuperado grande parte da sua anterior fortuna.

– Foi uma bela história! Devemos fazer os possíveis por alcançar os nossos desejos, mamã?

– Sempre, meu querido, desde que esses desejos sejam nobres e possam enriquecer a nossa vida e a vida daqueles a quem amamos.

– Boa noite, mamã.

– Bons sonhos, meu amor.

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