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A propósito de Alhos e Bugalhos.

por naomedeemouvidos, em 08.07.19

Por motivos que não interessam nada, estive sem ler ou ouvir notícias quase 48 horas. Sei que, para muita gente, é uma preocupação estranha; mas eu gosto de ler notícias, mais, até, do que as ouvir. Manias. Ontem, já ao fim da tarde, ao abrir o Público online, deparei-me com um texto de Manuel Carvalho intitulado “A propósito do texto de Maria de Fátima Bonifácio”, e pareceu-me logo coisa séria, que é como quem diz, cheirou-me a esturro. De modo que, fui ler a Maria de Fátima, antes de continuar a ler o Manuel Carvalho.

Não sei qual dos dois textos me espanta mais. Não é a primeira vez que leio um artigo de opinião daquela historiadora e, nem sempre comungando das suas palavras, não a tinha por capaz de escrever um texto de teor tão racista, cheio de clichés rasteiros e, mais absurdo ainda, aí plasmar um pobre, deplorável, exemplo pessoal para ratificar o seu douto veredicto.

Mas, não vou falar do texto de Bonifácio. Até porque estou convencida de que muitos dos indignados de serviço e do costume resmungam entre amigos o que ela teve, pelo menos, a coragem (vamos chamar assim) de escrever. Digo, apenas, que lamento que, para debater um tema bastante sério e muito menos consensual acerca da existência ou não de “quotas étnico-raciais”, nos vários sectores que constituem o tal “espaço público” nas suas diferentes vertentes, a reputada historiadora Maria de Fátima Bonifácio, não tenha conseguido ir muito além do "não fazer parte de uma entidade civilizacional e cultural milenária que dá pelo nome de Cristandade". Podia, e devia, ter-se ficado pela, a existir, possível corrupção de outros critérios tão sérios como o tema que se propunha discutir. Por exemplo, podem, as quotas, por princípio, criar situações aberrantes, em que a obrigação de diversificar e integrar a qualquer custo venha a sobrepor-se ao mérito? A abertura do acesso ao ensino superior a todos os alunos “independentemente da sua nota final” no 12.º ano (contra o que se insurge Fátima Bonifácio) vai, efectivamente, criar condições para uma maior integração das minorias, ou, pelo contrário – como Bonifácio sugere – vai apenas promover uma diminuição da exigência e um aumento do facilitismo, nas universidades portuguesas? E, todas estas apreensões -legítimas, com toda a certeza! - resultariam exclusivamente de abrir portas aos “analfabetos”? Tudo isto e muito mais pode e deve ser discutido seriamente, com melhores argumentos, sem desabafos miseravelmente sarcásticos.

 

Já o texto de Manuel Carvalho tem bastante mais que se lhe diga. Principalmente, nestes tempos, em que o bom jornalismo agoniza à mercê dos charmosos influenciadores que habitam as redes sociais, num esforço diário, permanente, de gestão entre o não ficar para trás e o não vender o corpo e a alma à mole de censores virtuais famintos de causas e cousas com que se entreter. Os romanos tinham os gladiadores a esventrarem-se nas arenas dos imponentes coliseus, nós temos a turba de justiceiros de moral de barro lamacento a chafurdar nos sites do mundo virtual.

Mas, o texto, senhores, o texto de Manuel Carvalho.

A vantagem de não sermos opinadores, influenciadores, informadores, ou outros predicados da soberba importância que, por vezes, nos atribuímos reside no abençoado poder de pensarmos pela nossa cabeça. Podemos estar totalmente enganados, mas falamos por nós, caímos por nós, levantamo-nos por nós. Sem isso, não creio que nos reste muito. Por isso, ler o texto de Manuel Carvalho é, no mínimo, deprimente. Se já sabiam que o texto em causa “está nos limites do ódio” e, entre outras coisas, “usa linguagem insultuosa para diferentes minorias”, o Público e, no tal limite que fica sempre bem, o seu director decidiram, ainda assim publicá-lo porquê? Não sei se percebi a explicação. O que é que correu mal, afinal? Mudaram de opinião em relação à gravidade do que lá se dizia? Não tiveram a coragem necessária para recusar a publicação do artigo? Ou, simplesmente, cederam à indignação generalizada e, cobardemente, vêm, agora, fingir-se arrependidos de ter mal avaliado as reacções viscerais que tal artigo, inevitavelmente, produziria?

Não sei como se concilia a garantia de que “o PÚBLICO é um espaço plural de opinião onde com muita frequência se publicam textos que estão longe dos valores que defendemos”, com “um cometer um erro de avaliação e análise”, um dia e muita incontida cólera depois. A não ser que dito erro tenha sido cometido na avaliação e análise das reacções que se soltaram a seguir. Seria um pouco assutador, no mínimo.

 

Não é a primeira vez que o director de um jornal sente a obrigação de vir explicar-se quanto à autorização de publicar um texto polémico. Não há muito tempo, José Manuel Fernandes já tinha necessariamente esclarecido a publicação de um texto que versava sobre contos de fadas e bons casamentos. Não será a última. E, quando Manuel Carvalho fala das consequências que tem de merecer para o futuro a opção de publicar o artigo de opinião da Fátima Bonifácio, temo que essas consequências acabem de vez com o tal espaço de opinião plural...

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publicado às 13:59


15 comentários

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De Sarin a 08.07.2019 às 15:25

Caramba, que tinhas de ressuscitar um artigo que jazia morto e arrefecia... falo da Bento Rodrigues, sem nome próprio para não ofender sensibilidades.


Sobre a MFB, li o artigo. E no meio do estertor agonizante de quem se sente superior por ter branca a pele e os pergaminhos abençoados, encontrei-lhe três argumentos que alguns falarão baixinho mas que eu grito, há muito: a auto-segregação e o racismo nisto implícito e explícito, embora não o entenda por grupos étnicos mas por grupos de indivíduos, e a iniquidade das quotas vs mérito no ensino. A forma hedionda como os aborda merece o meu desprezo, mas não posso, de todo, dizer que são falsos problemas.

Não li a resposta do director do Público - não me merece qualquer respeito algo que seja menos e seja mais do que "os comentadores não estão sujeitos a regras editoriais. as opiniões que divulgam são da sua inteira responsabilidade e em nada representam ou podem ser conotadas com o jornal que as veicula". Porque se têm regras editoriais não o deveriam ter publicado e muito menos mantido no ar; não tendo, não há por que se desculpar o jornal e se o fez apenas deu mais um passo na restrição da liberdade de expressão... bem disse eu que o The New York Times era o princípio!
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 16:56

Eu não ressuscitei nada, que não tenho poderes para tal nem acredito na vida para além da morte. Só lá deixei o linkezinho para memória futura, que há coisas que, contando, ninguém acredita :))

O "comunicado" do director do Público é ridículo, no mínimo e, no máximo, não me apetece. Não estou para aí virada.

Os problemas não são nada falsos. Daí o meu espanto. Com tanta coisa séria a discutir no que toca a "quotas", igualdades, garantias e mais outro tanto de coisas, não havia necessidade...

Primeiro tomamos os cartoonistas, depois... :(
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De Sarin a 08.07.2019 às 17:14

Mas sabes que já li alguns (felizmente nenhum dos que respeito :)) a usarem a condenação do artigo para negarem a existência dos problemas, consagrando as quotas, por exemplo, como uma benção e, por isso, indiscutíveis... o postal do jpt n'O Flávio (e também no DO) caçou um desses autores, por acaso autora.

Exactamente, Niemoller e Brecht e etc... :(
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 17:49

Pois, eu discordo. Acho que os problemas, de facto, existem. Na verdade, o que mais me choca no artigo da MFB nem é o racismo subjacente, por muito mau que isto possa soar. É precisamente "discutir" esses tais problemas ao mesmo nível, quase, que a tal outra senhora - cujo nome não se pronuncia - do texto que tu dizes que eu ressuscitei. Eu, que não faço mal a uma mosca, embora tenha aprendido primeiros socorros :))))
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De Sarin a 08.07.2019 às 18:07

Na verdade, não me chocou porque, nitidamente, MFB não conseguiria sair de tal registo - é-lhe o racismo profundamente ideológico, pela forma quase inconsciente como se manifesta.

Mas talvez que, sem esta polémica, alguns problemas tivessem discussão adiada - embora nada garanta que não venham a ter...


Deixo-te uma ligação alternativa
https://ocoletivo.blogs.sapo.pt/o-elefante-na-sala-27777

E a de que falei antes
https://flavio5706.wordpress.com/2019/07/08/o-etno-racialismo/

Olha, fica também a restante ligação para teres a colectânea do que disseram e eu disse - poupei assim um postal :)
https://quintaemenda.blogs.sapo.pt/impressionante-1072423
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 18:11

Pois, eu tinha-a em maior conta :(

Obrigada!
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De Sarin a 08.07.2019 às 18:23

Obrigada eu! Entre comentários aos vossos postais, consegui matar desmembrar e enterrar um artigo putrefacto sobre o qual não me apetecia escrever mas cujo cheiro me incomodava :)))
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 18:26

Olha que dito assim não parece simpático...:)))
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De Sarin a 08.07.2019 às 18:38

Para o artigo? Espero mesmo que não pareça!

Para vocês, que me permitiram tal, toda a simpatia e agradecimento :))
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 19:50

Tudo nesta história é deprimente.
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De Sarin a 08.07.2019 às 22:17

Publiquei agora postal sobre o assunto. Desde antes das 20h a remoê-lo :/
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De Sarin a 09.07.2019 às 16:17

É, não é?

Então toma lá mais um lego. Ou prego. Ou casco. Ou asco, sei lá.

https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/
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De cheia a 08.07.2019 às 21:36

Para onde caminha a imprensa!À falta de censura, a auto-censura. Melhor que as cotas, uma discriminação positiva, no acompanhamento,ao longo dos doze anos de ensino obrigatório, porque todos sabemos que as desigualdades sociais têm muito peso, no resultado final.
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De naomedeemouvidos a 08.07.2019 às 21:59

E essa era a discussão que importava, e importa, fazer. Parecemos sempre saber distrair-nos com o que menos importa.

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

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