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A tragédia das armas de Tancos.

por naomedeemouvidos, em 22.07.19

Já não tem graça. Nunca teve, na verdade, mas o riso brota, muitas vezes, como purga do absurdo. Como se, rindo, fosse possível espantar o inenarrável episódio da mais caricata e inacreditável incompetência de uma suposta elite que se converteu num molho de bobos patetas e patéticos. E o espectáculo tem dado para todos os gostos, do roubo que se calhar não o foi, das armas que se calhar já não o eram tanto, do ver que se não descortina, do esconderijo na casa da avó, do carrinho de mão às cassetes que se trocavam vazias para cumprir protocolo, da ressurreição ensaiada das armas à suspeitada bênção de Azeredo Lopes, da qual há muito se desconfia. Provavelmente, não acaba aqui.

Estamos, portanto, no mais recente capítulo da mirabolante telenovela do assalto a Tancos, em que o Ministério Público afirma ter indícios de que o ex-ministro da Defesa Nacional estava a par de grande parte do guião. Nomeadamente, Azeredo Lopes é suspeito de ter conhecimento, desde o início, da trágica farsa montada para encenar uma recuperação das armas roubadas e, assim, como nunca o poderia ser, tentar restaurar alguma da dignidade perdida das nossas Forças Armadas. O que é bastante diferente, a propósito, de afirmar que Azeredo Lopes sabia do encobrimento, apesar de quase todas as primeiras notícias sobre o assunto o afirmarem exactamente assim, nos seus títulos. Mas isso dá, e tem dado, para outros textos. Assim como a tourada habitual em torno da violação do segredo de justiça, de que ninguém quer verdadeiramente saber, a não ser para seu próprio refúgio, quando convém. A leviandade é tanta e tamanha que já dou por mim a desconfiar da presumível inocência só pelo nome dos ilustres advogados de defesa e da invocação do sacro-e-pouco-santo segredo de justiça; o que, não só é terrível, como perigoso.

Marcelo Rebelo de Sousa, por várias vezes, afirmou que o Ministério Público deve investigar Tancos de alto a baixo, doa a quem doer. E há quem defenda que, se doer a Azeredo Lopes, forçosamente, há-de doer a António Costa e ao próprio Presidente da República, numa inevitável cadeia de infâmia, ela própria do mais baixo ao mais alto escárnio da hierarquia que rege um Estado de Direito Democrático.

 

A ser verdade a suspeita que esmaga o ex-ministro da Defesa, partindo do princípio de que a verdade chegará, inequívoca, algum dia, pergunto-me até onde pode chegar a falta de responsabilidade da gente que nos governa. Já não falo de Sentido de Estado, que é coisa que já desapareceu do dicionário da língua e da saúde democráticas portuguesas. Nem da seriedade que já só assiste aos tolos.

publicado às 13:30


6 comentários

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De Maria a 22.07.2019 às 14:34

Tenho esperança, as vezes, que um dia seja tudo esclarecido, outras vezes acho que nunca saberemos a verdade. Deve ser tão podre e a abranger tanta gente que o país tera que recorrer a eleições por falta de governantes.
Haja fė.

Uma boa semana
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De naomedeemouvidos a 22.07.2019 às 14:48

É podre, seguramente. Falta saber até onde, ou se há coragem para lá chegar. Quando todos desconfiam de todos, a alternativa pode ser demasiado arriscada.

Uma boa semana também para ti.
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De Marta Elle a 22.07.2019 às 15:46

Não sei é como é que eles tiveram a ingenuidade de pensar que conseguiam abafar o assunto.
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De naomedeemouvidos a 22.07.2019 às 16:11

Não percebe. É absurdo...
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De cheia a 22.07.2019 às 22:05

A guerra entre as duas judiciárias, em que uma deve estar a mais, uma vez que os tribunais militares já acabaram há uns bons anos, o querem tapar o sol com a peneira, para limparem a face, deu nesta trágica comédia.
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De naomedeemouvidos a 22.07.2019 às 22:42

Já não se aguenta. É de uma irresponsabilidade inqualificável.

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