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A princípio, eram coisas menores. Uma pequena tarefa, sem importância, que ficava a meio, o escritório numa desarrumação pouco habitual para uma mente metódica, um colarinho desalinhado para um homem que sempre cultivara uma imagem impecável, um desconcertante desvio na estrada num caminho que se conheceu e se percorreu toda a vida.

As irritações passaram de pontuais a permanentes, os conflitos intensificaram-se. Já não era apenas uma maçã oxidada, em agonia, esquecida na beira do prato; uma luz que permanecia acesa, viva, fora de horas, um cordão de sapato desapertado em contraste com o elegante chinelo de quarto, prontos, ambos, a passar a porta; agora, era um carro capotado na estrada, um milagre de vidas salvas e o silêncio ensurdecedor, perturbado, para dar lugar ao choro da criança, denunciador, como um murro no estômago, a suspeita violentamente escancarada.

Da inquietante presunção ao diagnóstico, foi pouco mais que um gemido. Um gemido que, com o passar dos dias, ganhou forma, agigantou-se, varreu todos os sonhos com a violência de uma onda furiosa e inclemente. Ainda assim, a esperança irrompia como um acto de rebeldia. Talvez os tratamentos funcionassem, talvez um medicamento chegasse a tempo, talvez houvesse um milagre. Mas o monstro voraz, o pior e mais agressivo, de todos o mais implacável, depressa se encarregou de dissipar as dúvidas e enterrar todas as ilusões. Operar, impossível. Da descoordenação à mobilidade assistida e dependente, do aprumo ao descontrolo, da contemplação à escuridão mais sombria, uma debandada estridente de sentidos a anunciar o mais temível e degradante dos fins. Apenas aquela lágrima, teimosa, como um derradeiro grito de resistência, um clarão fugaz de clarividência em horrendo contraste com aquele amontoado de pele e osso, outrora transbordante de vida e alegria.

Vendo bem, a esta distância, a morte não se fez esperar muito. E, mesmo assim, foi demasiado. Porque se fez suplicada, a ferro e fogo, num sofrimento diário, constante e atroz. Apesar de todo o carinho, cuidado e amor. Todo o dia. Todos os dias.

A vida é para ser vivida, gritam muitos. Não posso estar mais de acordo. E o que é uma “vida” a “ser vivida”, exactamente?

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"Nada na vida deve ser temido, apenas compreendido." Marie Curie

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Eu Sou Assim

IDADE_Tem dias. ESTADO CIVIL_Muito bem casada. COR PREFERIDA_Cor de burro quando foge. O MEU MAIOR FEITO_O meu filho. O QUE SOU_Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa. IRMÃOS_ Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo. IMPORTANTE NA VIDA_ Saber vivê-la, junto dos amigos e da família. IMPRESCINDÍVEL NA BAGAGEM de FÉRIAS_Livros. SAÚDE_Um bem precioso. DINHEIRO_Para tratar com respeito.

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"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."