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Ainda o planeta.

por naomedeemouvidos, em 03.09.19

Ultimamente, tenho lido inúmeros relatos pessoais sobre mudanças de comportamento que pretendem contribuir para minimizar as profundas alterações climáticas que a actvidade humana promove neste nosso planeta, único, de momento, capaz de acolher a vida tal como a conhecemos, à distância que nos é mais ou menos permitido entender.  

Do que vou lendo, ressaltam três principais posições que tendemos a adoptar, não estando, evidentemente, todas sujeitas ao mesmo nível de autonomia, de vontade, nem sequer de entendimento.

Há os mais radicais, capazes de alterar drasticamente o seu modo de vida, recusando contribuir de forma consciente para a degradação acentuada do nosso habitat. Fogem como podem e inventam a todas as formas de atentar contra a generosidade imensa que o Universo colocou à nossa disposição. Creio que seja a decisão mais difícil de tomar; eles garantem que nem por isso. Não exige apenas esforço, carácter, sacrifício: é quase um acto de fé, num processo que envolve um despreendimento abnegado que, ora se inveja, ora se despreza, e que causa estranheza mesmo entre os mais atentos. E, ainda assim, nem todos lutarão com as mesmas armas, pois, todos acabamos um pouco reféns das nossas vivências, do nosso pequeno mundo, do espaço que temos para ocupar.  

Há aqueles que procuram uma solução de compromisso, do possível, entre o único modo de vida conhecido, ou, pelo menos, desde cedo e sempre experimentado, e a certeza de que o planeta e os seus recursos não são inesgotáveis. É nesse equilíbrio que tentamos reduzir, reutilizar e reciclar, com a certeza de que não mudamos tudo, não podemos tudo, mas obrigamo-nos a fazer o que está ao nosso alcance, dia-a-dia, evitando modas, para não estragar num único acto o que se empreendeu com pensada  e pesada responsabilidade.

Depois, há a estratégia mais fácil de todas. Acreditar, ou fingir, que não são os nossos usos e costumes de países industrializados – ou em vias de – os principais responsáveis pelas mudanças, nomeadamente, no que diz respeito ao acentuar do chamado efeito de estufa, sem o qual a vida na Terra seria impossível, mas, cujo agravar tem os efeitos que muitos negam, seja por comodismo útil, seja por (auto)imposta ignorância. Descredibilizar o efeito da acção humana sobre o planeta que habitamos todos tem a vantagem de facilitar a convivência, e conveniência, sem remorsos, com todas as vantagens de que gozamos, no mundo dito civilizado, das quais a utilização do plástico tem, talvez, a sua expressão mais dramática: quantos utensílios de uso comum, indispensáveis nos nossos dias, completamente isentos de culpa, que é como quem diz, totalmente livres de plástico, seremos capazes de nomear; de quantos podemos abdicar; quais são as alternativas, e são elas francamente melhores e mais sustentáveis?

Das dúvidas legítimas, à ridicularização de qualquer acção de alerta, de qualquer tentativa de chamar a atenção e tentar fazer a diferença, vai um outro mundo em agonia de distância. A nova vítima dos negacionistas por opção é – como não? – a miúda sueca, que ousou levantar o rabo do sofá. Porque tem amigos ricos, porque tem síndrome de Asperger, porque quer é faltar às aulas, porque está a ser instrumentalizada. E, claro, por cá, o nome também serve a piadola grosseira, os trocadilhos jocosos, ao nível dos admiradores da retórica de chefes de estados com tiques de arruaceiro primário. Dá pena. Mas não por ela.

 

Também há os que acreditam que não vale a pena. De que vale o meu gesto, se, ali ao lado, tudo fica na mesma? Excepto que, se quisermos mesmo fazer alguma diferença, por pequena que seja, não precisaremos que alguém por nós dê o primeiro passo. E, claro, ponderamos os prós e os contras à escala das nossas preocupações mundanas, esquecendo, muitas vezes (quase sempre?) os que habitam a Terra que, sendo de todos, a todos não serve com a mesma prontidão.

 

publicado às 19:00


5 comentários

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De cheia a 03.09.2019 às 22:51

Os jovens estão muito sensibilizados para fazerem o que puderem pelo seu futuro. Tiro o chapéu à rapariga, que fez deste assunto a sua luta.
Tento reduzir a pegada ecológica, porque quero fazer a minha parte.
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De naomedeemouvidos a 04.09.2019 às 09:44

Se não podemos corrigir tudo, podemos tentar agir com alguma consciência, procurar um equilíbrio.
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De Sarin a 04.09.2019 às 01:25

Excelente postal, equilibrado e lúcido - como, aliás, seria de esperar.

Apenas uma provocação: tens lido sobre os gestos individuais. E sobre políticas, sejam as subjacentes a tais gestos seja a exigência de tais políticas?
Porque todos os gestos individuais que tendam à diminuição da pegada são positivos para o Planeta - mas têm de o ser também para a sustentabilidade dos homens que o habitam. E porque os gestos individuais chocam nas políticas internacionais - que melhor exemplo do que os tão nossos galheteiros, país que somos de bom azeite e bom turismo empurrado para o pacotinho por chefias de pacotilha e interesses de matilha?

O argumento aspergeriano ou o argumento retorno ou o argumento barco da incoerência são argumentos caríssimos à falta de argumento. Embora sirvam de contraponto ao frenesim de endeusamento que se apoderou de alguns, o que apenas prova que, embora os meios-termos de nada valham, é ainda entre os extremos que se encontra o equilíbrio.

:*
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De naomedeemouvidos a 04.09.2019 às 09:55

O galheteiro é um belo exemplo da moda, neste caso, em sentido inverso, mas, continua a provar a incoerência de muitas políticas. Falta-nos, muitas vezes, olhar o tal panorama geral. Se fizermos isto, o que alteraremos naquilo? Grita-se muito, sem pensar nas consequências. E é nesse tal equilíbrio que devemos estar focados, acho eu, porque, realmente, é difícil alterar drasticamente a nossa forma de vida, não esquecendo que essas mudanças radicais se podem impor sem pedir licença.

"when haters go after your looks and differences ... you know you’re winning", menina Greta Thunberg, goste-se ou não se goste.
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De naomedeemouvidos a 04.09.2019 às 09:56

Beijos e um bom dia:)

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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