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Alguns dias, e algumas mortes.

por naomedeemouvidos, em 19.07.19

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Caminho sozinha e distraída pelas ruas estreitas do mercado. Terminei as poucas compras que não programei e tenho um tempo sem pressa, inútil, que posso desperdiçar a senti-lo correr, devagar, como eu. Não há muita gente, e o sol aquece sem sufocar, desenhando sombras traquinas que se esquivam à minha passagem para logo assomarem, adiante, em negro baço, sobre os umbrais das portas de madeira soberbamente esculpidas que se abrem para lojas de maravilhas amontoadas, de tesouros multicolores, como as cavernas de salteadores dos meus contos de criança. Um homem que nunca vi saúda-me e pergunta-me pelo meu marido. Sabe o seu nome e onde trabalha, e deseja-me um bom dia, que retribuo com um sorriso forçado, num espanto resignado. Passo pela velha sem idade, de chapéu de palha com tranças pretas de lã e a longa saia vermelha de finas riscas brancas, sentada no fundo da escada com a trouxa aberta, espalhada no chão, cheia de verduras mais frescas do que ela, os rabanetes em carne viva, os alhos duros e roxos, a salsa, os coentros verdes da esperança que se lhe escapa a cada dia. Sorri-me, desdentada. Acabo por comprar mais qualquer coisa. Há sempre mais qualquer coisa. Hei-de cruzar-me com algum menino descalço que se voluntariará para me transportar a pouca carga que carrego, a troco de uma compensação miserável; pelo menos, a mãe - ou uma irmã pouco maior que ele - terá com que preparar algo a que possam chamar uma refeição.

Uma algazarra miúda, a princípio, aproxima-se, arrastando um emaranhado de gente que brota, aos tropeções, de outras ruelas ainda mais estreitas. Reconheço os gritos estridentes, à laia de cântico tribal e agudo que afunila em sintonia com a multidão alvoroçada antevendo a desgraça. Encolho-me para deixar passar sem que me arrastem na sua pressa apocalíptica. Os gritos soam mais e mais alto, um frenesim atarantado, e atento ao fundo da viela, para onde todos correm numa aflição que me agonia. Num assombro, esperado por outros, um grupo de homens envergando túnicas brancas, imaculadas, irrompe por entre a mole de gente, sustendo uma liteira enfezada que mais parece levitar como um tapete voador sobre as suas cabeças. Num andor macabro, um corpo jaz como uma múmia, envolto num lençol alvo como uma nuvem de algodão-doce. A multidão atabalhoada, numa ordem que só a eles diz respeito, abraça a padiola fúnebre mais os seus gatos-pingados e parte sem nunca parar, em debandada, com o coro de gritos em música de fundo.

Preciso de um momento para me encontrar. Confundo o número de ruelas à direita e à esquerda, e ainda não me oriento bem na malha labiríntica da medina. Subitamente, os sacos pesam-me em penitência e sinto as unhas cravadas na palma da mão. Um menino puxa-me os sacos e pergunta se preciso de ajuda. Por uma vez, deixo que, antes de ir-se, me acompanhe até ao arco de pedra, à entrada, onde o sol me apazigua.

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publicado às 15:36


10 comentários

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De Rui Pereira a 19.07.2019 às 16:57

As notas do texto contrastam com a tranquilidade da bela imagem...
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De naomedeemouvidos a 19.07.2019 às 17:15

Gosto das fotografias com pouca gente. Sou bastante paciente.
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De Fleuma a 19.07.2019 às 18:50

Fascina-me a capacidade que a Morte, essa senhora, tem, de irromper nos nossos sentidos e transformar os nossos passos.

Esta emoção é incontáveis vezes mais primordial do que a alegria de viver.

E é em pedaços escuros como estas palavras que consigo confirmar isso.


saúde,
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De naomedeemouvidos a 19.07.2019 às 19:52

É uma arrogância furiosa que, por vezes, me arrebata irremediavelmente. Não consigo pensá-la sem ser em tumulto.

Um bom fim de semana.

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De P. P. a 19.07.2019 às 21:50

Momentos dolorosos, mesmo sem que conheçamos quem partiu.
Pedaços de nós...
Belíssimo texto e palavras para um só manto negro. Aquele que se estende a todos os humanos.
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De naomedeemouvidos a 19.07.2019 às 22:11

Obrigada, P.P. :)
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De Sarin a 23.07.2019 às 08:16

As tuas memórias mereciam um outro blogue... não que este não as mereça e as não emoldure muito bem!

Mas poder lê-las como se num livro, sem capítulos intercalados, seria um prazer adicional.
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De naomedeemouvidos a 23.07.2019 às 09:20

:)))

Conheço uma menina...se calhar ainda me atrevo...
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De Sarin a 23.07.2019 às 09:30

A essa menina também tento convencer a criar um outro também de memórias... ser Tia criou em mim um espírito de procriação bloguística! :D

E falo muito seriamente. Há histórias que merecem blogue próprio.
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De naomedeemouvidos a 23.07.2019 às 09:32

Estou a ver que sim :))))

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

Idade - Tem dias.

Estado Civil - Muito bem casada.

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