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Bem ou mal, tudo o que aqui está escrito é da autoria de naomedeemouvidos, salvo citações e/ou transcrições devidamente assinaladas, embora, alguns textos "EntreLetras" se baseiem em lendas ou histórias conhecidas.
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Levantou-se já passava das duas da tarde. A noite fora longa e produtiva. Começara, finalmente, a dominar a arte com elegância e, sobretudo, com uma eficiência implacável. Na realidade, não havia muito mérito no seu sucesso. É verdade que já lho tinham assegurado – começara, aliás, por aí – mas, ainda assim, a facilidade com que as pessoas se deixavam manipular por absolutos desconhecidos continuava a surpreendê-lo. Um bom drama era infalível na recolha de simpatias estranhas aos círculos habituais de amigos; a boa figura fazia o resto, quando a situação assim o reclamava. Era melhor do que passear cãezinhos nos parques da cidade, onde tinha que dar a cara muito antes de conseguir qualquer coisa que valesse realmente a pena. Ao contrário do que aparentava a sua personalidade, não se importava de correr alguns riscos, mas, se pudesse minimizá-los, melhor.
Tomou um duche rápido. Precisava de entregar o projecto antes das 20 h e faltava fazer ainda alguns acertos. Deixara que as recentes distracções lhe tivessem tomado mais tempo do que mandava a prudência, mas não podia permitir-se muitos deslizes, a nível profissional. Afinal, gostava bastante do que fazia; o resto era um passatempo para o qual se tinha deixado arrastar, mas que não pretendia estender mais do que o necessário e sob nenhum aspecto.
Gostava de manter o escritório na penumbra, mesmo durante o trabalho, pelo que, a única luz naquela divisão vinha dos dois enormes écrans que mantinha permanentemente ligados e de um pequeno, mas vistoso, candeeiro de secretária, que emava uma luz ténue e amarelada. Vivia entre o requinte de um luxo delicado e gracioso, não ostensivamente burlesco ou arrogante; o suficiente para se fazer notar entre os seus pares e esperar alguma deferência por parte de quem tinha serviços para lhe prestar. Ainda assim, muitíssimo distante das historietas de penúria e privação que espalhava na internet, nas páginas e páginas que davam vida a existências alternativas e deprimentes, lançando o isco que melhor servia cada um dos diferentes propósitos daquela espécie de experiência semi-virtual em que se envolvera havia alguns meses. Primeiro, pela curiosidade, depois pela expectativa excitante e pelo gozo; porque podia.
Para quem observasse de fora, era absolutamente ininteligível. Um homem atraente, distinto, com bom gosto, exibindo um elevado padrão de vida e perfeitamente capaz de suportar algumas extravagâncias comuns entre os do seu meio. Não precisaria de uma vida paralela, escondida nas malhas da darknet. Não tinha nada que ver com aquele grupo de fanáticos falhados que culpavam as mulheres por todas as suas desgraças, nomeadamente, pelo seu patético e auto-infligido celibato. Na realidade, nem sabia bem o que o movia. Começou por ser uma brincadeira; até onde poderia ir? O que estavam, as pessoas, dispostas a partilhar? Rapidamente descobriu que muito; demasiado. Expunham-se como nunca imaginara possível. Falavam de coisas banais, como a família, o trabalho ou os amigos, mas também partilhavam os seus medos e os seus desejos mais profundos e de que, provavelmente, jamais falariam com alguém próximo. Há sentimentos, conflitos, ressentimentos, paixões, mais fáceis de verbalizar a coberto do falso conforto que o anonimato da internet oferece. Era disso que ele se aproveitava. Sabia sempre o que dizer, ou escrever, para moldar o discurso, vergá-lo à sua vontade. A aparente facilidade com que o conseguia empolgava-o. Tanta gente desesperada e outro tanto com uma vontade imensa de praticar o bem. Eram todas marionetas num jogo perigoso, mesmo para os que estavam conscientes do seu papel e da sua participação nele.
Sentou-se em frente da secretaria meticulosamente organizada e corrigiu ligeiramente a posição impecável do pisa-papéis. Com uma ligeira irritação, pensou que teria de voltar a advertir a nova empregada.
Quando terminou o trabalho, ligou-se a uma das páginas que fora criando ao longo das últimas semanas. Escolheu uma personagem e preparou-se para ir à caça.
Idade - Tem dias.
Estado Civil - Muito bem casada.
Cor preferida - Cor de burro quando foge.
O meu maior feito - O meu filho.
O que sou - Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa.
Irmãos - Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo.
Importante na vida - Saber vivê-la, junto dos amigos e da família.
Imprescindível na bagagem de férias - Livros.
Saúde - Um bem precioso.
Dinheiro - Para tratar com respeito.
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