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Em qualquer profissão, os medíocres, por muito pouco que ganhem, ganham sempre demasiado. Entre os professores, a regra também se aplica. Há professores excelentes, há professores assim-assim e há professores francamente medíocres.

Já trabalhei como professora, sempre em escolas públicas, e já convivi com todas as espécies, mais ou menos raras, dos melhores aos piores. Deixei de leccionar em escolas e passei a dedicar-me, exclusivamente, ao apoio particular de alunos do ensino secundário e universitário, onde continuo a partilhar as experiências dos meus explicandos no que toca a bons e maus profissionais do ensino (e dando muitos benefícios de dúvida, porque sabemos que “quem conta um conto, acrescenta um ponto”...). Já trabalhei com alunos em que, a primeira coisa que tinha que fazer, quando chegavam à explicação, era corrigir, não todos, mas muitos dos exercícios que a “professora” tinha resolvido na aula. Eu nunca cometi um erro, no meu trabalho? Claro que sim! Pontualmente, assumido frontalmente e frontalmente corrigido e sempre enquadrado, nunca por pura ignorância ou manifesta incompetência técnica: se não estou segura, prefiro confirmar antes de dizer um enorme disparate. Não é isso que se espera de um profissional, qualquer que seja a sua área? Por que motivo deve ser diferente, entre os docentes? Por que motivo se permite que um mau professor continue a ensinar? E, já agora, a ensinar exactamente o quê, nesse caso?

Deixemos a competência técnica e passemos à competência pedagógica, seja lá o que isso for. Também há professores que, pura e simplesmente, não conseguem “passar” o seu saber aos seus alunos. São manifestamente incapazes de captar a atenção de uma turma, de envolver os alunos no processo de aprendizagem e, portanto, também são incapazes de “ensinar”. Lembro-me, dramaticamente, de uma professora de psicologia que eu tive no meu ensino secundário. Na primeira e única vez que lhe pedi para me esclarecer uma dúvida, a senhora limitou-se a ler, letra a letra, o que estava escrito no manual. Fui um pouco rude (ou, se calhar, não) e respondi-lhe que “ler”, eu sabia há, pelo menos, 10 ou 11 anos. Mas, também recordarei eternamente e com um enorme respeito, a professora de matemática, com a sua bata branca e o seu ponteiro (isso, mesmo, o seu ponteiro), que apenas começou a sorrir-nos no segundo ano em que foi nossa professora e que, na sua sala de aula, domesticava a matemática com rigor, engenho e elegância. Devo-lhe, com toda a certeza, uma fatia generosa do meu enorme fascínio por aquela ciência e pelo prazer de a ensinar, a par da química e da física.

Já não há batas brancas e ponteiro e, creio que, ainda bem. Mas, que ninguém se engane. Os miúdos sabem perfeitamente distinguir um bom professor de um mau professor. Mais ainda, sabem respeitar um bom professor e, não, não é aquele/a bacano/a, grande amigalhaço, que vai com a malta ao café e os trata como compinchas. A maior proximidade que existe, e bem, entre professores e alunos, actualmente, nunca deve ser refém da falta de autoridade que o professor deve, obrigatória e disciplinarmente, exercer dentro da sua sala de aula.

Um dos exemplos pessoais mais marcantes, no que toca a disciplina e respeito, vivi-o na primeira pessoa e no primeiríssimo ano em que leccionei. Dava aulas de física a uma turma de mecânica com 28 rapazes e duas raparigas (sim, havia turmas com 30 e mais alunos e julgo que ainda haverá, em alguns casos). Havia um grupo de sete rapazes que se sentavam na última fila e passavam a aula a cochichar, apesar de todas as minhas advertências e tentativas de os “pôr na ordem”. Eu dia, fartei-me e disse-lhes: “Vocês aí, os sete! As faltas são para se dar, portanto, se acham que não estão aqui a fazer nada, saiam da sala!” Um deles levantou-se e respondeu-me: eu não saio! Os outros, encorajados, começaram também a dizer que não saíam, do estilo, se ele não sai, eu também não! E eu, do alto dos meus 20 e poucos anos, sem experiência nenhuma daquilo, pensei: eu mandei-os sair e, dê por onde der, eles têm de sair! Assim, animada mais de orgulho e amor próprio do que propriamente de convicção, desci do meu estrado (sim, as salas também ainda tinham estrado), dirigi-me ao fundo da sala, tentando controlar o nervosismo que sentia (e se não saíssem mesmo, como é que eu resolveria o imbróglio?), olhei-os a todos o mais firmemente que consegui e, num esforço para que a voz não tremesse tanto como eu sentia, repeti e ordem de saída, porque “eu mandei” e “aqui dentro, quem nada sou eu!” Os alunos saíram, imediatamente, e aprendemos todos uma lição (embora eu tenha decidido, nesse momento, que, pelo sim, pelo não, nunca mais mandaria 7 alunos para a rua ao mesmo tempo…). É verdade que os tempos são outros e os miúdos são mais ariscos. Ou não? O respeito tem idade e tempo ou somos nós que preferimos pensar que sim, porque impô-lo com bom senso e firmeza dá mais trabalho do que “deixar andar”?

De modo que, seria bom, mais do que bom, seria imprescindível para a própria dignidade da carreira docente que se separasse o trigo do joio e se mandasse para a rua, literalmente, os maus professores, independentemente do “tempo de serviço”, dos “créditos”, dos “números de graduação” e por aí afora.

Ora, os sindicatos não deixam e os maus professores também não querem, claro. Ao contrário de outras profissões, os funcionários públicos em geral e os professores em particular não têm que prestar muitas contas. “Avaliações” e “despedimentos por justa causa” provocam indignações virulentas, como se fosse possível, longe da asa do Estado, todos os trabalhadores de uma empresa, literalmente e sem excepção, poderem ascender ao topo da sua carreira sem prestar provas de competência. Mário Nogueira e os seus comparsas têm como único objectivo defender rendimentos e não defender a educação. E “o Homem não é nada além daquilo que a educação faz dele”, Immanuel Kant.

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