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Cavaleiros na Noite

por naomedeemouvidos, em 14.07.17

 

Mantinham-se em silêncio evitando dar forma a um prenúncio de medo que ameaçava apoderar-se deles. Se calhar, a emoção da experiência de fazer uma pequena incursão na medina, à noite, ainda que acompanhados por um guia, não tinha sido assim tão boa ideia. E que guia! Montado numa pequena motoreta, aparentemente tudo menos segura, colara-se ao automóvel assim que entraram na cidade e nunca mais os largara. Acompanhara-os até à porta do hotel e pensaram que aí os deixaria com um simples “obrigado”, mas o rapaz estava determinado a tirar algum proveito daquela pequena viagem e daqueles quatro turistas. A prática, aliás, era comum e familiar a qualquer um ocupantes da viatura: quando um carro de matrícula estrangeira entrava numa qualquer das principais cidades turísticas quase instantaneamente, como se brotassem das pedras, motociclo e motociclista materializam-se dando início à perseguição amigável mas implacável. Ainda assim, ficaram perplexos quando, umas boas duas horas depois, desceram com o intuito de conhecer a cidade e viram que o rapaz os esperava com um sorriso de orelha a orelha. Foi nessa altura, mas não antes da característica saudação, que lhes perguntou:

- As-Salaam-Alaikum! Querem fazer uma visita à Medina?

- Wa-Alaikum-Salaam! Agora? É noite e está tudo fechado!

- À noite, a medina tem outro encanto…

 

Agora, calcorreando as ruas (se assim poderiam chamar-se) estreitas da tão labiríntica quanto arrebatadora medina, percorría-os um electrizante misto de excitação, ansiedade e fascínio. O quadro que se lhes apresentava toldava-lhes os sentidos, embriagava-os, era um cenário avassalador! As ruelas desertas enfeitavam-se com as suas portadas de madeiras; algumas imponentes, outras humildes, todas e cada uma delas ocultando os seus encantadores e místicos segredos. Que magníficas histórias teriam agora para contar, sem os seus tapetes coloridos, sem a orgia de odores das excêntricas especiarias, sem o vai-e-vem dos homens precocemente envelhecidos que, de dia, hão-de mergulhar até à cintura nos tanques cheios de cal fumegante e tinta no frenesim da cor e do cheiro dilacerante do curtume?

As infinitas ruas sem os seus burros de carga, da carga que é preciso transportar todos os dias e os automóveis não servem, não cabem e ainda bem que não cabem, pois despojariam de todo o encanto e sedução este misterioso oásis impenetrável e secreto, onde o tempo deixa de contar.

Algumas das ruas engoliam-nos na sua imensa escuridão; noutras, um ténue luar teimava em recortar-lhes a silhueta apontada no chão, enquanto o bater ritmado dos seus corações se confundia com o bater ritmado dos seus passos nas desconcertantemente harmoniosas pedras do caminho. 

Perderam-se de amores pelas fontes adornadas de azulejos de que apenas adivinhavam, àquela hora, o contraste das cores e, no entanto, tal era suficiente para lhes arrebatar a alma. E quando a fachada da principal madrassa se levantou diante deles, ouviram o murmúrio das pedras, o murmúrio das preces e, subitamente, foi como se todo o ar que lhes enchia o peito corresse ao encontro daquele sussurro e os sufocasse no êxtase da contemplação.

O esforço de se manterem alerta, de absorver a singularidade daquela noite, de agarrar a magia daquele momento, tornou-se físico e os quatro corações, não batiam, explodiam a compasso, afinados, alinhados numa sinfonia quase metálica. Os sons cresceram, incorporaram-se, ganharam forma e vida e ameaçaram levar-lhes o resto de lucidez a que ainda se agarravam. E foi então que os viram. Ao cimo da rua emparedada por duas grandiosas portas de madeira que a luz ocre de um pequeno e improvisado candeeiro lambia timidamente, surgiram como fantasmas em todo o seu esplendor. O majestoso cavaleiro cujo imponente turbante azul esculpia a esquadro o belo rosto moreno no seu porte sumptuoso. E o animal soberbo, árabe, negro como a noite que os enfeitiçara. O pêlo do cavalo era uma tela surpreendentemente brilhante de seda fina através da qual se via pulsar o sangue, pulsava a alma na ousadia da cavalgada. Cavalo e Cavaleiro eram um só, unidos na elegância esmagadora de um instante tão curto quanto um sopro. Tão inesperadamente como haviam chegado, partiram deixando-os por momentos na inevitabilidade da dúvida. Teria sido real?

 

- À noite, a medina tem outro encanto… Abdullah!

publicado às 23:14


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