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   Bem sei que está na moda a eterna e benevolente (às vezes, arrogante) tolerância por todas as formas do que quer que seja, desde a de expressão à da liberdade de debitar cretinices várias, umas inofensivas, outras, nem por isso. De tolerância em tolerância, de opinião em opinião, de liberdade em liberdade, confundindo direitos com embustes e minorias com sofisticados impostores, vamo-nos encarregando de destruir uma civilização que construímos e que a generalidade de nós estima. Infelizmente, para manter essa civilização, há que respeitar um conjunto de regras. Uma delas implica usar a cabeça para pensar com base em factos; para, por exemplo, poder distinguir entre ciência e crendice saloia, mesmo que a última possa ser muito mais apetecível. Observamos, colocamos uma questão, formulamos uma hipótese, fazemos uma previsão baseada na hipótese, testamos a previsão e usamos os resultados para tirar conclusões. Assim avança o conhecimento baseado no método científico. É infalível? Não. Mas é inteligente. Um pouco maçador, por vezes, sem o glamour e o ímpeto apaixonado e apaixonante dos achismos do momento e magnificência avassaladora da vida nas redes sociais. Mas permitiu-nos feitos extraordinários. Não fosse a ciência aliada à tecnologia, muitos dos indignados e defensores acérrimos de todas as formas de opinião não teriam como ocupar as suas maravilhosas (e intermináveis!) horas livres.

   Ora, vem isto a propósito de quê? Bom, de há uns anos a esta parte, a propósito de quase tudo e mais alguma coisa, desde os muito chiques movimentos anti-vacinas à exaltação portuguesa da cultura cigana determinando que uma rapariga de 15 anos não estará abrangida pela escolaridade obrigatória porque, entre outras coisas, “possui as competências escolares básicas, por necessárias, ao desenvolvimento da sua actividade profissional” e à “integração social no seu meio de pertença”. Fantástico. Mas, no momento, vinha a propósito da discussão sobre se uma Universidade prestigiada, como a do Porto, onde, por sinal, me licenciei em Química, deveria ou não dar palco a um conjunto de “pessoas cientificamente muito válidas” que negam que o problema do aquecimento global esteja directamente relacionado com a actividade humana. “É um facto que não existem alterações climáticas provocadas pelo homem”, defende o meteorologista britânico Piers Corbyn. É? Por seu lado, Nils-Axel Mörner não tem dúvidas ao afirmar que o aumento dos níveis da água do mar não tem nada a ver com o degelo dos glaciares, mas com outros factores, como “a velocidade a que a Terra gira”; e, quando confrontado com dados que contrariam a sua versão, responde que (em 2003) “o registo de altimetria de satélite foi misteriosamente alterado de forma a sugerir um aumento abrupto do nível do mal de 2,3 milímetros por ano… Isto é um escândalo”, embora não haja qualquer prova deste “escândalo” conspirativo. É verdade que muitas destas pessoas têm formação académica; são geógrafos, engenheiros, professores universitários. Mas também já ouvi gente com formação em Química, que é a minha área, falar na memória da água para defender os benefícios da homeopatia, por isso…

   Mas, deve ou não deve a Universidade do Porto, ou outra qualquer Universidade de referência, promover conferências como esta? Eu penso que não. Não que eu seja a favor de calar vozes discordantes, como acusam muitos dos nossos mais ilustres intelectuais, mas porque, como dizia, há uns tempos, Barak Obama, numa conferência, “se eu disser que isto é um púlpito e vocês disserem que é um elefante, começamos a discutir por onde?” Pois.

     Afirmar que uma maçã é uma pêra ou que uma azinheira não é uma árvore, que o branco é preto ou que o preto é branco, não é opinião, não é liberdade de expressão, é o absurdo da imbecilidade e não serve como ponto de partida a uma discussão séria.

   Criticar as políticas de Israel é uma opinião que pode e deve ser discutida, negar o holocausto é estúpido. Manifestar preocupação com possíveis efeitos secundários de vacinas pode e deve ser discutido, negar o enorme avanço em termos de saúde que os planos de vacinação representam é, no mínimo, grosseira ignorância. Discutir até onde a actividade humana afecta o efeito de estufa é uma opinião que pode e deve ser discutida, negar que essa actividade contribua para o aquecimento global é idiota e lamento que a “minha” Universidade tenha dado espaço à promoção dessa idiotice.

   Ao promover, acriticamente, todas as formas de expressão, começámos a confundir o que não pode ser confundido e a comparar o que não é comparável, dando lugar a um histerismo em massa, amplamente difundido pelas redes sociais onde tudo se propaga a um ritmo vertiginoso. E, se são admiráveis a facilidade e a rapidez com que podemos consultar um livro de referência, um artigo competente, uma imagem icónica, um estudo sério, uma notícia cor-de-rosa, um mexerico de famosos ou as últimas tendências de moda, é assustador a lavagem cerebral a que nos permitimos por recusarmos dizer basta com medo de sermos acusados de intolerância.

   Há uma forma boa, ou útil, de censura? Não sei. Talvez a discussão devesse começar por aí.

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