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Das Profundezas da Terra.

por naomedeemouvidos, em 01.02.19

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  O monte ergue-se imponente e estéril, distante dos dias em que, enfurecido, cuspiu as escaldantes cinzas negras que cobriram a cidade, imprudente, quando a escuridão emergiu das profundezas da terra e se abateu sobre a população assustada, alheia à demoníaca natureza da montanha, inconsciente do humor das suas entranhas e da sua fúria iminente. Milhares de anos adormecido, em contido tumulto, espiando a vida num corrupio elegante e caprichoso, mais abaixo, onde a cidade cresce e fervilha, alheia ao infortúnio que se agiganta. Paira no ar um leve cheiro a enxofre, subtil ainda, não basta para provocar espanto ou temor. Nem mesmo a nuvem inquieta, sobranceira à encosta, medonha e esgalhada, impelida pelo ar em torvelinho, levanta a mínima suspeita. Como outrora, o monstro jaz adormecido, em deleite, paciente, à espreita, à espera do momento em que, de novo se há-de erguer e semear o caos. Como então, sabe que a calma é dissimulada. Aparente, apenas, porque ávida, pronta a cobrar, inclemente, leves sopros de vida descuidados, todos, um-a-um, com o seu viscoso hálito preto, tranquilo e silencioso, escoado num manto intermitente de morte. E, tal como antes, há um sossego putrefacto, um murmúrio áspero, vibrante e audaz, soprando nojo e ruína, como uma besta encurralada.

 

    Deixou o carro no sopé do morro. Vai subindo devagar a íngreme encosta, invocando fantasmas passados, de gesso resgatados, almas cegas e desprevenidas, reunidas em demorados enlaces, abafados, sem tempo para inúteis e prolongadas lamúrias. As lágrimas esgotam-se num assombro, definham nada mais assomar-se à memória, ela própria esvaindo-se ligeira e desdenhada. E é melhor assim, enxotar prontamente o horror, sucumbir à mordaça seca e certeira do pó, em vez do abismo crepitante e voraz do fogo do inferno. Sobem lamentos e penas. A terra treme e desfalece, engolindo caminhos e casas. Os pátios soltam gemidos, assustando os bichos que correm, insanos, fugindo das rochas que começam a chover do céu. Rugem os bichos, rugem as rochas, silvam poeiras em remoinhos. Dois amantes estacam, imponentes, fundem-se num derradeiro abraço, sem espaço, sem tempo nem vontade para lá da paz sôfrega, apaziguadora, ainda assim. Acalmam os medos, indiferentes, já, às largas chamas que brilham no céu, como tochas, iluminando os caminhos estreitos e cavernosos como as câmaras esconsas e aninhadas sob o peso de ambos. Ainda é dia, mas o Sol há muito se desfez em negros estilhaços e a Lua, antes uma leve sombra esbatida, sumiu-se, renegada, em atormentados lamentos.     

 

    A nuvem negra adensa-se e vocifera como uma matrona. Mais abaixo, a cratera nua e seca parece torcer-se num escárnio. O odor a enxofre é, agora, mais intenso e enoja-a violentamente. A montanha agita-se, em fúria. Uma chuva miúda e pastosa cola-se-lhe à pele e parece queimar. Quando o céu se esvai numa imensa negritude, a terra rasga-se, em malograda volúpia, e a incontida besta desperta, finalmente, enorme, assombrosa, derramando, em jorros, a sua implacável cólera.

publicado às 08:00



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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