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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Demónios reais.

    Chegara ao país há menos de meio ano, recém-casada, e era a segunda vez que passava um mês inteiro sozinha. Não se sentia muito confortável. Não tanto pela solidão imposta, gostava do seu tempo e do seu espaço e já tinha feito muitas amizades, mas pela preocupação. Aquelas viagens de trabalho revestiam-se de algum risco e de medidas de segurança apertadas e quase hollywoodescas. As reuniões decorriam ao ar livre, de pé, supostamente no limiar da fronteira entre os dois países que os militares de ambos os lados guardavam e garantiam ser exactamente ali – embora não houvesse qualquer outro indicador dessa linha – enquanto empunhavam metralhadoras, provavelmente mais intimidatórias do que eficientes. O ambiente era sempre bastante tenso para os responsáveis europeus, muitos deles também recém-chegados a uma realidade completamente inesperada e quase irreal.

    Procurou as chaves do carro. Chegava hoje, finalmente, e preferia ir buscá-lo à estação em vez de ficar em casa à espera, embora não gostasse muito de sair à noite sozinha.

    Os primeiros dias tinham sido um choque. Durante semanas, só saía de casa de calças de ganga disformes e camisolões dois tamanhos acima. Era assustador perceber que a conheciam, que a seguiam ocasionalmente e que quando apanhava um táxi para casa nem precisava de dizer onde morava. Já a tinham prevenido. Os estrangeiros, mesmo os cooperantes, nunca passavam despercebidos e eram regularmente controlados. Apesar disso, o país era bastante seguro e aberto, comparativamente com outros países árabes e muçulmanos. Acabou por se habituar, voltou a maquilhar-se e a usar as suas roupas – embora, as mais discretas – e começou a conduzir. Mas, à noite, evitava andar sozinha. Sentira-se um pouco intimidada, umas semanas antes. Inscrevera-se num curso de inglês, para passar um pouco o tempo, e, durante uma aula de conversação, um aluno árabe confrontara-a com o facto de ser estrangeira, ocidental, e não estar, por isso, muito habilitada a discutir sobre o papel da mulher nas sociedades muçulmanas. O tom, a postura e o facto de ter tido o à-vontade de se levantar da cadeira para lhe dirigir a palavra, deixaram-na um pouco alerta para a fragilidade de uma suposta abertura e tolerância a outras culturas. Apesar do assombro que a assolou na altura, continuaram ambos a frequentar o curso sem outros incidentes, mas, passou a ser mais prudente.

   Chamou o elevador e desceu à garagem. Preparou-se para suster a respiração durante o maior período de tempo que lhe fosse possível. Aproximava-se o final do Ramadão e os vizinhos dos quarto e sexto andares tinham trocado os mercedes (mais exactamente, os lugares de garagem…) pelos cordeiros que haveriam de sacrificar daí a dias, para assinalar o fim do jejum. Há três dias que os pobres animais jaziam, encolhidos, no chão frio da cave, numa espécie de transe semiconsciente do juízo final que os aguardava, onde a glória dedicada ao profeta exigia o sangrento sacrifício das suas vidas engordadas para o ritual.

 

    Percebeu que algo mais, e mais grave, tinha acontecido assim que o viu chegar. Vinha angustiado e curvado como se transportasse às costas todos os pecados do mundo. A cara, já séria e fechada por norma (nunca o vira ou ouvira rir à gargalhada; não era esse tipo de homem), mostrava-se ainda mais cerrada e parecia ter passado um ano, e não um mês, desde que saíra.

    Abraçaram-se em silêncio. Às vezes, não fazem falta palavras para que duas pessoas se entendam. O tempo e o conforto dos próximos dias, haveriam de trazer o distanciamento e a calma necessários para relatar o horror do que tinham presenciado, ele e os colegas. Como uma expiação, por terem feito a denúncia, como lhes competia e como mandava o protocolo entre a empresa e as autoridades locais, longe de imaginarem que a distância a que estavam dos seus países de origem – e que sabiam ir para além da geografia – pudesse roubar-lhes a alma.

    Nessa noite, sentiu-o reviver o drama, mas, só mais tarde, haveria de perceber que, no seu sono agitado, ouvia ainda os gritos de dor e desespero do jovem incauto, grotesca e violentamente punido pela polícia, por um roubo imbecil e imprudente e que, por sua conta e apesar do protocolo, jamais voltaria a ser denunciado. Infelizmente, naquele dia, já não pudera voltar atrás.

“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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Eu Sou Assim

IDADE_Tem dias. ESTADO CIVIL_Muito bem casada. COR PREFERIDA_Cor de burro quando foge. O MEU MAIOR FEITO_O meu filho. O QUE SOU_Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa. IRMÃOS_ Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo. IMPORTANTE NA VIDA_ Saber vivê-la, junto dos amigos e da família. IMPRESCINDÍVEL NA BAGAGEM de FÉRIAS_Livros. SAÚDE_Um bem precioso. DINHEIRO_Para tratar com respeito.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."