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Desassossegos.

11.01.19

    Tornaram-se amigas à primeira vista. Tinham em comum uma alegria despreocupada e o riso fácil, e a empatia foi imediata. A espanhola era dez anos mais velha, mas não se notava, era magra, elegante e jovial, aquele tipo de mulher afortunada a quem até o trapo mais deslavado fica bem.

    Naquele dia, combinaram encontrar-se no café habitual. Quando chegou, a amiga já lá estava. Pediu um chocolate quente, espesso, e um mil-folhas, que, agora já sabia, não se dizia assim, em espanhol. A primeira vez, precisou de esperar que a amiga controlasse o ataque de riso, até ser capaz de lho explicar. Depois, tinham rebentado as duas em novas gargalhadas, até as mulheres de hidjab, da mesa ao lado, serem obrigadas a tapar ainda mais a cara, para esconderem e sufocarem as suas. Mas nunca mais se enganara.

    Desceram a rua até à medina, para as compras do dia. Saudaram o porteiro do hotel, onde a espanhola vivera mais de seis meses, logo após a chegada.

    Não havia, como agora, grandes supermercados e centros comercias cosmopolitas e arejados, pelo que, as compras, faziam-nas no mercado tradicional.

    Mergulharam nas entranhas fervilhantes de cores e sons que, como sempre, animavam as manhãs da velha medina. Comparam alhos, fruta, azeitonas e ovos e encaminharam-se para a parte do mercado do peixe. Pelo caminho, encontraram-se com as habituais crianças, minúsculas, pés desnudados, sujos, enfiados nos miseráveis e disformes chinelos, apesar das baixas temperaturas de Inverno. Como sempre, os miúdos ofereceram ajuda para transportar os sacos de compras a troco de algumas moedas. Como sempre, recusaram – como poderiam aceitar, os sacos maiores que os meninos que pertenciam à escola e aos pátios dos recreios, não ali. Em vez disso, como tantas vezes, comparam-lhes pão, grande, redondo e espalmado, a cheirar a fresco e a forno a lenha. Passava o aguador, e ofereceram-lhes, também, sumo de laranja fresca. Os miúdos já as conheciam.

    Começavam a aproximar-se do mercado de peixe quando se aperceberam da quebra na rotina habitual. Havia pouca gente e as bancas estavam praticamente vazias. Não viram o Mustafa, que amanhava o pescado como ninguém, o prazer e a alegria do ofício vertidos num saber ardiloso que emprestava ao produto final um sabor único e imaculado.

    Nenhuma da duas falava árabe, mas faziam-se entender entre o espanhol e o francês. Uma jovem mulher, com o traje característico das gentes das cadeias montanhosas do Arife, estava sentada num degrau de escada e, na sua frente, uma paleta de cores vibrantes, rabanetes, aipo, laranjas, molhos de salsa fresca. Nem sempre, as verduras, as frutas e os legumes tinham aquela vivacidade. Aqueles, pareciam ter-se deixado encantar pelo arrojado vigor da vendedeira. Mas, não havia peixe, naquele dia. A mulher explicou que tinha havido tormenta, os pescadores não puderam sair e, por isso, as bancas estavam vazias. Mustafa também não tinha vindo, pelo mesmo motivo, nada de cuidado.

    Estavam quase a voltar para trás, quando deram pela súbita agitação. Várias pessoas começaram a correr para junto das bancas, num corrupio, em atropelos, uma cacofonia de sons estridentes entendíveis por todos, menos por elas. Na entrada oposta àquela a que se encontravam, ainda, surgiu um homem alto, transportando um enorme saco preto. Mesmo sem entender quase nada, perceberam que o homem trazia, no saco, algo que interessava a muitos dos que acudiam ao seu encalço. O homem gritava, via-se que chamava os outros a quem, provavelmente, já anunciara, na azáfama, o motivo de reboliço. Foi só quando ele se aproximou de uma das bancas vazias e despejou o conteúdo do saco que, as duas puderam, enfim, desvendar a macabra encomenda. Dezenas de dentaduras jaziam, tão esgotadas como os seus defuntos, na pedra onde, não muitas horas antes, os linguados e as lagostas estrebuchavam em represálias inconsequentes às mãos dos homens do mar. Olharam uma para a outra, sem conseguir articular palavra. Mas, mesmo no silêncio, entenderam-se, num alívio tão fugaz, quanto malogrado: pelo menos, não era na banca do Mustafa…

    Mais tarde, acabariam por rir do absurdo, resgatando a história das suas lembranças, pasmando com a dimensão da pobreza, invocando-a, muitas vezes, pela necessidade que ambas tinham de assegurar-se de que não havia sido, apenas, um breve delírio.

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