Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Em carne viva.

por naomedeemouvidos, em 16.10.19

A luta pela independência da Catalunha já fez correr muita tinta, e não vai ficar por aqui.

Não se pode ficar indiferente à sentença proferida pelo Supremo Tribunal Espanhol que condenou a penas de prisão políticos catalães, na sequência do processo iniciado pela convocação e realização do fatídico referendo em Outubro de 2017. O referendo foi considerado ilegal, decorreu de forma caótica, num clima de crispação e afronta irracional e com consequências dramáticas e ainda não acabadas de contabilizar. Na altura, Carles Puigdemon estendeu a armadilha a um impreparado Mariano Rajoy, “atirando” velhos e crianças para a frente de batalha, com plena consciência de que, se algo corresse inesperadamente mal, seria bom para atiçar os ânimos ainda mais. No meio da confusão, com muitas dúvidas em relação à fiabilidade dos resultados, o sim à independência ganhou com 90% dos votos, num contraste aflitivo com as manifestações que se seguiram: naquela altura, a Catalunha parecia bastante dividida na vontade de ser independente, em Maio deste ano, 48,6% dos catalães rejeitava a independência da Catalunha frente a "Espanha", e, logo a seguir ao referendo de 2017, foram várias as empresas e bancos que ameaçaram mudar e mudaram as suas sedes para outros locais. Num processo continuamente atabalhoado, Puigdemon prometeu declarar a independência catalã, adiou-a, declarou-a para suspendê-la imediatamente a seguir e, quando se viu encurralado nos seus intentos, fugiu. No culminar deste processo, judicialmente falando, há políticos presos a quem muitos preferem chamar presos políticos, rasgando as vestes em protesto contra a ignomínia.

É sempre difícil encontrar consensos depois de se extremarem posições. Fala-se na necessidade de resolver politicamente o problema, mas, ninguém parece saber muito bem como, porque não é fácil. Os independentistas catalães mais radicais não querem ser confundidos com “espanhóis”. Sentem-se-lhes algo superiores, em vários aspectos, nomeadamente, na língua, na cultura, no trato. Daí que, a questão para aqueles não se prende com ter mais autonomia face à Espanha que desprezam; trata-se de se livrarem dessas amarras que entendem como uma invasão, literalmente. Por muito chocante que seja a condenação dos nove políticos catalães que foram sujeitos a julgamento, qual era a alternativa? Não é apenas na Catalunha que existem vontades independentistas, como conciliar, portanto, as leis de um estado democrático com a violação dessa mesma legalidade democrática?

À vontade de independência catalã, contrapõe-se o “nacionalismo espanholista”, que recusa, dizem, a hipótese de um Estado plural; federal, como o alemão, que é visto por muitos como uma solução para o longo conflito Barcelona-Madrid.  Numa Catalunha bastante dividida entre o sim e o não, é possível que o federalismo seja suficiente para afastar o desejo de independência?

 

É desolador ver como, ultimamente, as manifestações pela democracia facilmente resvalam para a violência mais selvagem. O direito de contestar e ser ouvido subvertido a um campo de batalha campal, onde sobra a destruição pura e bruta, a intimidação, o terror. Barcelona está transformada num cenário de guerra, como já esteve Paris, como já esteve Hong Kong, e ainda não acabou.

 

Precisamente, há alguns dias, o programa “Toda a Verdade” mostrava os bastidores das manifestações pró-democracia em Hong Kong. Abordava-se, também, a forma como os protestos pacíficos deram lugar a actos mais violentos, como a invasão do edifício do Conselho Legislativo e a sua vandalização como consequência do falhanço das acções pacíficas, até aí. Os manifestantes reforçavam a necessidade de vandalizar os símbolos da autoridade política como a única alternativa para se fazerem escutar, ao mesmo tempo, que fixavam cartazes a pedir para não vandalizar os livros da biblioteca, ou, as antiguidades e se apelava ao pagamento das bebidas que se consumissem nos espaços ocupados, porque não eram ladrões. Nada disto diminui, no entanto, o choque com que se olha para aquelas imagens, como não diminui o perigo de mergulhar na barbárie dos ataques violentíssimos de parte-a-parte. Depois de começar, de estar lá, no terreno, de fazer parte, é difícil não seguir o rebanho.

 

Não tenho qualquer simpatia por manifestações violentas de vontades; ainda que democráticas. Acho que nos afastam sempre da urbanidade sana de que precisamos para nos mantermos à tona, não à toa, da enxurrada de escombros que resulta do confronto entre duas partes que, mesmo quando se pretendem cordatas e razoáveis, deixam de ser capazes de se ouvir. A dada altura, deixa, igualmente, de ser necessário procurar entender quem tem razão. Urgente é encontrar uma base de entendimento e, imperiosamente, uma solução, antes que seja tarde demais.

publicado às 10:42


8 comentários

Imagem de perfil

De Sarin a 16.10.2019 às 17:09

A Catalunha já passou a fase do entendimento político há 6 anos.
Começaram por pedir a revisão do Estatuto da Autonomia. Foi aprovado em todos os parlamentos, Rajoy - na altura oposição - entendeu-o inconstitucional, e o STC deu-lhe razão. Perante tal, apenas havia uma alternativa - voltar a referendar a Constituição, uma vez que não foi apenas na Catalunha que tal aconteceu e, nitidamente, o Estatuto da Autonomia foi posto em causa. Rajoy, agora no poder, recusou. Recusou toda e qualquer negociação que pudesse alterar o que fosse na constituição referendada no rescaldo da mudança de regime.
E chegaram aqui.

Talvez haja interesses obscuros por trás de alguns independentistas, talvez as contas estejam manipuladas, talvez... Mas foram muitos os que se manifestaram pela mudança, um referendo justo teria sido o ideal - talvez os independentistas tivessem sido menos e a República Catalã morresse ali, desta vez não às mãos do regime.
Imagem de perfil

De naomedeemouvidos a 16.10.2019 às 21:19

Rajoy foi um imbecil, escrevi-o na altura do referendo, anda por aqui algures. Puigdemont, tenho-o na conta de um cobardes, também anda por aí. Poucos são os que estão bem neste conflito e, a verdade, é temo que acabe da pior forma.
Imagem de perfil

De naomedeemouvidos a 16.10.2019 às 21:21

“Cobarde”. Mas, o plural também não está completamente desfasado da realidade.

Comentar post



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

Layout

Gaffe


naomedeemouvidos@gmail.com


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.