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      Nos meus tempos de adolescente, quando comecei a sair à noite, os meus pais davam-me conselhos, como faz a maioria dos pais. Nunca eram proibições porque quem percebe qualquer coisa de miúdos e adolescentes sabe que não vale a pena proibir o que quer que seja. Mesmo os mais sensatos, inteligentes, ponderados, introvertidos e “santos” têm, em algum momento, um deslize só porque sim, porque nunca fazer um disparate também é estúpido e, além disso, cansa.

     Nessas saídas nocturnas, também não me era imposta uma hora para chegar a casa. Mas não me era permitido sair todos os fins-de-semana e, enquanto não tive carta de condução, quem me ia buscar a casa tinha que estacionar o carro e subir, temos pena. E, quem me ia buscar, também era responsável por me trazer, mas, eu sabia que se alguma coisa corresse menos bem, ou muito mal, podia ligar ao meu pai para me ir buscar, fosse onde fosse e a que horas fosse. Mesmo que fosse uma amiga, e não eu, a precisar de ajuda, podia contar com o meu pai e com a minha mãe. Foi sempre assim e acho que só nos últimos anos, já na idade adulta e sendo também mãe tenho plena consciência desta sabedoria dos meus pais, já há tantos anos, primeiro comigo e, depois, com a minha irmã.

     Entre os conselhos que, nomeadamente, o meu pai me dava estavam o “nunca largues o teu copo”, “nunca aceites bebidas de ninguém”, “prefiro que não fumes, mas, se fumares, eu compro-te os cigarros”, “não vás à casa de banho sozinha” e outras coisas aparentemente tão básicas e, no entanto, tão avisadas e actuais. Nunca, no entanto, me disse o meu pai não vistas essa mini-saia, não uses salto alto, não pintes os lábios de vermelho. E também nunca me disse se fores sedutora com um homem, se aceitares ficar sozinha com ele e te rires coquetemente dos seus disparates, prepara-te, minha filha, porque estás mesmo a pedi-las e se, por acaso, ele te violar, azar, não o tivesses provocado. Mas, lá está, isto era o meu pai que é e sempre foi um homem inteligente, sério e digno, qualidades que parecem cada vez mais raras nos dias de hoje.

     Entre os comentários que mais me enojam na desculpabilização de um abusador sexual estão, exactamente, aqueles que estabelecem uma tosca, arbitrária e asquerosa relação de causa-efeito entre o que a vítima veste, diz ou faz e o consequente (?) abuso ou mesmo violação. O circo do momento é defesa incondicional e acéfala de Cristiano Ronaldo, o mítico e inatingível CR7, o atleta de outro planeta, o melhor embaixador do Portugal da moda e a quem, supõe-se pelos comentários de alguns imberbes, as mulheres deviam pagar pelo usufruto da sua magnânima presença e, não, queixar-se de supostas violações. E, é verdade, Cristiano Ronaldo é um atleta fora de série, nada disso está em causa.

     Eu não sei – e, parece-me que, ninguém a não ser os próprios – se Cristiano Ronaldo violou ou não Kathryn Mayorga. Mas tenho o mínimo de inteligência para suspeitar, pelo que li no extenso artigo da revista alemã Der Spiegel, que, se a “história é estranha” ou “está mal contada” é mais pelo lado de Ronaldo. A Der Spiegel é uma revista séria e afirma estar na posse de documentos válidos e comprometedores para o atleta, entre outras coisas, que só não sabe quem não quer saber, porque estar informado e tirar conclusões pela sua própria cabeça está fora de moda. É melhor consultar o facebuque e ler caixas de comentários nos jornais que ainda o permitem. É mais fácil, relativamente barato e dá milhões…de likes.

     Por outro lado, sabemos que, infelizmente, a justiça não é, de facto, igual para todos; quanto mais não seja, porque só alguns tem capacidade financeira para pagar os honorários quase obscenos dos advogados mais expeditos e ardilosos. Por isso, não é provável que uma mulher desconhecida, com um passado que não é propriamente o de uma freira casta, abnegada e isenta de calores pecaminosos, se atrevesse a acusar um semi-Deus do desporto, adorado e idolatrado, só à procura de fama e de dinheiro. Vamos lá fazer um esforço por não insultar a inteligência de quem tem mais do que dois neurónios e os usa, pasme-se!, para reflectir e duvidar.

    E, quando é uma mulher a tecer comentários machistas e a atacar outra mulher, sem conhecimento de causa, num crime hediondo como é o da violação, só me ocorre desejar (apesar de não ser muito católica) que Madeleine K. Albright esteja certa e que o Inferno tenha, realmente, um lugar especial para as mulheres que não ajudam outras mulheres.

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