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Hoje. Que foi ontem.

por naomedeemouvidos, em 26.04.20

Este texto devia ter sido publicado ontem. Publico-o hoje, como se hoje ainda fosse ontem e sem que o lapso seja particularmente grave neste tempo que se vive suspenso e confinado, para lá do ballet persistente e quase mudo dos ponteiros do relógio. Hoje, que seria ontem em tempos normais, os meus pais estariam a caminho de São Miguel. Completaram 50 anos de casamento em Novembro passado, viajam pouco, e pensámos que uma escapadela de cinco dias para visitar uma das ilhas mais bonitas do arquipélago dos Açores, seria um presente amoroso, em vários sentidos. Como têm tempo – não tinham? –, marcou-se a viagem para a que supúnhamos ser a data ideal por muitos motivos. Supomos sempre demasiadas coisas.

 

Daqui a uns anos, quando me perguntarem onde estava no dia 25 de Abril de 2020 – mais uma vez, supondo que ainda cá estarei e que mo perguntam – hei-de responder que não cantei o Gândola Vila Morena à janela, apesar de, a par com o Hino Nacional, ser uma das músicas que não consigo ouvir sem alvoroço. Sem que o meu eu se amotine contra a ordem que, normalmente, lhe imponho.

Não percebi nada da polémica sobre as comemorações do dia. Creio que porque não quis. Há discussões tão miseráveis que não justificam a atenção que se lhes empresta. Comemorou-se. Como se impunha que se comemorasse. Independentemente da Páscoa de João Almeida e das vozes do Ventura, por falar em céu. E para não falar de outros argumentos, menos imbecis e muito mais arrojados, no fundo e na forma.

Faz hoje, que seria ontem em tempos normais, um ano estava no Palácio de São Bento, numa visita não planeada, longe de imaginar, como todos, como sempre, o mundo daí a um ano. Pois, aqui estamos.

 

Ligo a televisão e vejo o Presidente da República a distribuir comida aos sem-abrigo. Ao lado do Ministro da Defesa e do Presidente da Câmara de Lisboa. Mas é o Presidente, como sempre, que todos querem cotovelear, como se faz agora, ainda não sei como se diz. Talvez a gente goste mais de Marcelo por ser Marcelo e menos por ser Presidente da República; mas gostam, genuinamente, de o sentir por perto, mesmo que esse perto seja aquele que se esfuma ao virar de costas.

 

Ainda me martirizava por não ter cantado o Grândola Vila Morena à janela, quando o écran se encheu com a imagem do homem vestido a rigor – um velho desses velhos que nos dizem terem de ficar em casa a bem da protecção de todos –, de bandeira em punho, imensa, armada dos mesmos cravos de que se fez Abril, percorrendo a Avenida, sozinho, mostrando, a quem quisesse ver, porque é importante a memória. Porque são importantes os velhos. Porque me enjoa ouvir dizer que devemos mantê-los fechados em casa.

25 abril.PNGLUSA/JOSÉ SENA GOULÃO

E fui ouvir o discurso do Presidente da República.

Hoje, ontem, foi um belo 25 de Abril.

publicado às 10:37



“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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