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Inquietações.

por naomedeemouvidos, em 03.06.19

A morte nunca chegou a ser um tabu. Não houve tempo. Desde muito cedo, sobressalta-o uma curiosidade imensa de descobrir o que fica, afinal, para lá da vida; para lá da morte. Insiste em dizer "quando eu ainda não era vivo", em vez de "antes de eu ter nascido", como se nessa ardilosa divergência pudessem caber inúmeras existências diferentes, únicas, insubstituíveis.

No início, a insistência incomodava-me. Ensaiei - tantas vezes! - sossegá-lo com artimanhas miúdas, fastidiosas, como se fosse possível aquietar, com a ligeireza de um devaneio inconsequente, a sagacidade voraz de uma criança arguta e desassombrada. “Não fales para trás, fala para a frente!”, exigia, impaciente, quando percebia o logro. E o para a frente levava-nos sempre mais longe do que eu poderia esperar.

Pacientemente, apaziguada, fui aprendendo a não deixar que os meus medos, a minha insipiência, lhe ensobrassem os caminhos.

Há poucos - pouquíssimos - dias, a dúvida subiu de tom. Afinal, qual é o propósito disto? Sendo isto, aquilo a que chamamos vida. Desde a existência ou não de uma alma, ao que - existindo realmente - lhe sucede quando o corpo cede e sucumbe, finalmente. Inquieto-me. Não sei se quero falar sobre isso. Não sei se sei. Por vezes, ainda me enfureço. Não por ele; não com ele, exactamente. Comigo, por não conhecer tudo, por me faltarem respostas tão evidentes, tão urgentes.

Talvez a vida encerre um mistério maior ainda do que a morte. Há gente que morre sem nunca ter vivido. E há quem permaneça eternamente vivo, muito para além da morte. Talvez haja, nisto, algum propósito.

publicado às 22:22


6 comentários

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De Sarin a 04.06.2019 às 13:00

Revisito-me no pó que sou, no pó que serei. Espuma. Espirro.

Talvez o propósito seja passar o interesse pela busca, a ânsia de resposta... não seremos todos gazelas e salamandras e esporos?
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De naomedeemouvidos a 04.06.2019 às 15:18

Somos todos, pelo menos, "poeira das estrelas", como dizia outro senhor. E, em nada se criando, como em nada se perdendo, é possível que na transmutação dos elementos nos possamos recriar e, eventualmente, reencontrar, mesmo sem a memória dos átomos... :)
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De Fleuma a 04.06.2019 às 19:18

" Talvez a vida encerre um mistério maior ainda do que a morte. Há gente que morre sem nunca ter vivido. E há quem permaneça eternamente vivo, muito para além da morte. Talvez haja, nisto, algum propósito."


E talvez estas palavras encerrem uma visão muito mais aterradora do inferno que criamos, morrer sem viver, chegar ao fim e concluir isso mesmo: nada! Desperdício.

Creio que a permanência eterna para além da morte não serve de consolo.


Saúde,
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De naomedeemouvidos a 04.06.2019 às 21:47

O único inferno que há a temer. Talvez o único em que acredito.

Obrigada.

Uma boa noite para si.
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De Viver Por MIm a 14.06.2019 às 12:20

Foi tão facil me rever nessas inquietações... Ha um tempo que a inquietação aqui tambem subiu de tom..
será que estou a viver tudo que posso?
Morrer é apenas parar de pensar?
Qual o objetivo de cá estarmos?

Aproveitar essta viagem que so lhe conhecemos o inicio mas nunca o final é aterrador e ao mesmo tempo deslubrante.
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De naomedeemouvidos a 14.06.2019 às 12:28

Se nos abstrairmos do aterrador, sobra o deslumbrante :) Acho que se vivermos em função disso, valerá a pena.

Obrigada por passar por cá.

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“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos...

Eu Sou Assim

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