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naomedeemouvidos

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Sou mulher, pelo que, metade(?) do mundo não me compreende. Tenho opinião sobre tudo e mais alguma coisa, pelo que, na maioria das vezes estou errada. E escrevo de acordo com a antiga ortografia, pelo que, não me dêem ouvidos..

Isto não é sobre o artigo 13º.

      Tenho um filho de 11 anos, logo, “conheço” o Wuant. Pelo menos, o fenómeno.

    Perguntei-lhe, ao meu filho, claro, se estava a par do apocalipse anunciado pelo youtuber, como se diz. Ele respondeu que sim e “explicou-me” que não seria só o canal do Wuant a acabar, mas toda a internet; “por causa do artigo 13”. Fiquei aparvalhada. O miúdo “sabia” o que era o artigo 13 e eu andava a leste.

    “E não te preocupa que a internet acabe?”. Encolheu os ombros, e eu não soube se resignado, se astuto, daquela astúcia de que, às vezes, só os miúdos são capazes. Em parte, acho que tenho alguma culpa neste dar de ombros. O meu filho tem, em mim, o exemplo vivo e ilustrado, eventualmente não imitável, de que é possível ser-se absolutamente, constrangedoramente, inapto para as coisas do virtual e, no entanto, viver uma existência muito próxima do actual normal. Talvez, excepto, quando o meu telemóvel ou o meu computador têm acessos momentâneos de mau-humor autónomo, alheios às minhas vontades e necessidades, e eu tenho de o chamar aos gritos, ou quase, para que acuda às minhas aflições. Seja como for, vou resistindo e sobrevivendo.

    Mas, isto não é, de facto, sobre o artigo 13º. Até porque, o tal Wuant não deve ser parvo e o seu canal não é só para meninos. Ou, não era, até agora. O pânico ensaiado (que, li algures, levou crianças às lágrimas…) parece que fez disparar o número de visualizações do tal canal (o Herman, se me lesse, perdoava-me), merecendo, inclusive, uma resposta por parte da represente da Comissão Europeia em Portugal. E o rapaz deve estar orgulhoso da façanha. Não só toda a gente ficou a saber o que é o artigo 13º, o que é bom, como, mesmo quem não tem filhos menores, passou a saber quem é o Wuant, o que, para este, deve ser formidável.

    E, sim, isto vai levar-me aonde eu quero chegar. À questão de como alguns, tantos!, se deixaram sequestrar por esses proclamados e aclamados influenciadores, fazendo depender da sua bênção parte substancial das suas existências, da roupa que devem vestir aos livros que devem ler, dos lugares que devem frequentar, às opiniões que não podem ter. Não me refiro a sugestões, troca de ideias, partilha de experiências ou de diferentes pontos de vista, como é evidente, para quem queira perceber.

    Para mim, as pessoas são quase como os livros. Não consigo ler um livro virtualmente, na insipidez de um écran. Preciso de lhe tocar, de o cheirar, de ouvir o barulho das folhas que murmuram sob os meus dedos e que comigo choram, riem, desconfiam, se desiludem ou, simplesmente, sucumbem à mestria do artista. Com as pessoas, necessito da mesma convivência. Com as devidas correcções, que não gosto de abraçar, muito menos cheirar, toda a gente que conheço, não vão tomar-me por maluca. Mas não entendo a dimensão que assumem algumas relações à distância, sem que os intervenientes se tenham, alguma vez, visto, sentido, abraçado, discordado olhos-nos-olhos, perfeitamente entendido da mesma forma.

    Acho, no entanto, que facilmente podemos criar empatias virtuais. Cheguei aqui completamente desprevenida, cheia de certezas várias e fui apanhada por algumas afinidades inesperadas, dando comigo a perceber que se pode, afinal, ter uma ideia do tipo de pessoa que se esconde por detrás das letras a que dá forma e, por conseguinte, vida. Só não entendo a facilidade com que tanta gente se deixa arrastar para uma realidade que não é sua, procurando na net o conforto e o sentido que poderia encontrar à sua volta, se, simplesmente, quisesse despender o esforço necessário. Sem pressas, sem likes, sem ilusões cheias de nada.

“Nada na vida deve ser temido; apenas compreendido.” Marie Curie.

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Eu Sou Assim

IDADE_Tem dias. ESTADO CIVIL_Muito bem casada. COR PREFERIDA_Cor de burro quando foge. O MEU MAIOR FEITO_O meu filho. O QUE SOU_Devo-o aos meus pais, que me ensinaram o que realmente importa. IRMÃOS_ Uma, que vale por muitas, e um sobrinho lindo. IMPORTANTE NA VIDA_ Saber vivê-la, junto dos amigos e da família. IMPRESCINDÍVEL NA BAGAGEM de FÉRIAS_Livros. SAÚDE_Um bem precioso. DINHEIRO_Para tratar com respeito.

É só o que eu acho...

"A idade não traz só rugas e cabelos brancos." E, como digo ao meu filho, "Nem sempre, nem nunca."