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Monte Encantado

por naomedeemouvidos, em 25.07.18

Àquela hora, a atmosfera húmida esculpia as primeiras formas com a habilidade de um maestro regendo uma orquestra viva de cores que envolviam a ilha imortalizada nas inúmeras fotografias que já tinha admirado, muito antes de lá chegar.

A fraca luz solar animava as sombras fantasmagóricas que lambiam demoradamente as paredes da abadia. A maré tinha subido. Furtiva, insidiosa e matreira, cercara o monte, silenciosamente, acariciando-o como uma amante apaixonada e ardilosa e ele, imponente e quedo, sucumbira, uma vez mais, deixando-se arrebatar, resignado.

À sua frente, o rochedo erguia-se imponente e imperturbável, como uma barca sagrada, evocando o demónio que, séculos antes, assumira a forma de um dragão do mar para espalhar o terror e semear a desgraça entre as gentes pobres da região.

Na quietude da sua contemplação profunda, podia ouvir o ondular da Besta; as águas silvando impiedosamente, embalando o monstro na sua pérfida demanda de reinar sobre o seu castelo e tiranizar os seus vassalos, por toda a eternidade.

Fechou os olhos. As preces das velhas subiram de tom. Nas suas vestes andrajosas, vertiam lamúrias, maltrapilhas como elas, que, à força de lágrimas, espalhavam como uma praga por terras agora normandas.

Um clarão dourado e quente perturbou, brevemente, o seu êxtase. O Arcanjo Miguel emergiu das sombras desmaiadas, armado da sua espada redentora, chamado pela urgência aflita das rezas e subjugou o Mal, ordenando-lhe que retornasse às entranhas do mar e de lá não mais voltasse.

Os que assistiram à batalha imaginavam-se, de novo, confundidos pelo Diabo, enredados em mais uma das suas fétidas artimanhas. Demoraram a ceder ao pedido do Arcanjo de, naquele exacto monte, erguer um oratório em sua homenagem.

Sentiu, então, a pressão do dedo do Arcanjo contra a sua testa e abriu os olhos para contemplar a relíquia exposta na Basílica de Saint-Gervais d’Avranches. Afinal, verdade ou mentira, a viagem iniciara-se, apenas, e o encanto do lugar era, com toda a certeza, bem real…

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